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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O MEU PRIMO CRENTE.



Eu tenho um primo que recebeu o nome de Vicente na pia batismal da antiga Igreja Matriz de Candeias. Vicente, como eu, nasceu na Rua Coronel João Afonso, praticamente sob o mesmo teto, pois, nossos pais moravam numa casa de parede-meia e os quartos em que nascemos tinham localização contígua.

Tínhamos quase a mesma idade. Eu, apenas um ano mais velho, fazia dele o meu maior amigo. Brincávamos no mesmo terreiro. Chupávamos frutas do mesmo pé, dependurados no mesmo galho. E por vezes, tomávamos varadas de marmelo, nas pernas, no mesmo momento; cada um de seu pai, por estarmos agarrados de unha e dente por causa de algum capricho disputado.

O tempo, esse aspecto sempre em vigília e incumbido de alterar o destino das pessoas, separou-nos na adolescência. E durante anos, poucas foram às vezes que nos vimos. Mas, o destino, que nem sempre obedece ao que o tempo determina, nos fez reencontrarmos na mesma cidade, trinta anos depois, ou seja, na cidade de Lagoa da Prata: Eu, gerente de uma agência bancária, e ele, como operador de máquinas da Usina de Açúcar.

Vicente, agora, não era o mesmo. Tornou-se bem diferente daquele Vicente de outrora. Aquele não aceitava acompanhar-me ao catecismo porque não gostava de igrejas; que só levava vantagem nas nossas brigas; que fumava escondido. Que me contava das reações do seu corpo adolescente e sorria, maldosamente, enquanto eu, com cara de bobo, nada entendia. 

Depois de muitos anos fui encontrar um Vicente diferente. Um Vicente crente falando do céu como se fosse um hotel de luxo para onde os privilegiados de Deus ficarão hospedados, após a morte. 

Vicente, agora, está sempre dizendo que encontrou Jesus, como se Jesus estivesse perdido dele. Vicente um conhecedor dos capítulos e versículos da Bíblia mais do que as linhas de suas próprias mãos. 


O comentário que faço a respeito do primo crente é, todavia, isento de critica maldosa. Muito pelo contrário, eu tenho muito respeito por ele, pela forma de ser e pelo fato de que a nossa amizade vem desde a infância, em Candeias.

O primo é “cabeça de área” da Igreja, Assembleia de Deus. Se lhe fornecer o número do capítulo e ou versículo da Bíblia Sagrada, ele será capaz de dar o texto de cor e salteado. --- Os seus problemas são debitados integralmente a Deus e a Jesus Cristo. Se um filho for acometido de um faniquito qualquer ou coisa mais séria, o primo não se aperta: “O Senhor não me faltará” É crente com todas as letras. Não perde nem para o “Davi Miranda”. Anorexia, para ele, é o milagre do programa Fome-zero. Reza sempre para o Lula fazer um bom governo e com certeza estará pedindo, agora, também, para a Dilma Rousseff.

Vicente estudou pouco e, no entanto, é o tesoureiro da igreja e, em caráter emergente, sobe ao púlpito e faz uma sermoa. É o famoso irmão Vicente! Estimado por toda a confraria. E é  “peixinho” dos pastores.

Às vezes, quando me proponho a visitá-lo, comumente o encontro reunido com algum irmão de fé. Em sua casa, quase sempre está ele, no maior papo, com o seu irmão em Cristo, o irmão Tonho, famoso pela sua teimosia.
Irmão Tonho daqui, irmão Vicente dali e, assim, comem o papo, no mesmo prato. O irmão Tonho, também, tem a Bíblia na pontinha da língua.
Eu acho muito bonito, aquela irmandade, aquele respeito, aquela devoção, aquela fé incontestável que deixa aqueles corações tão candidizados.

Os dois irmãos em Cristo são muito amigos, mas, certa vez, tiveram uma altercação ferrenha:

No ano passado, eu cheguei à sua residência quando lá estavam os dois se preparando para uma pescadinha, próximo à cidade. O Vicente com um chapéu de palha em listrinhas vermelhas e azuis, tipo festa junina; e o irmão Tonho com um casquete, modelo militar, e uma calça amarela, bastante usada, parecendo um capataz de coronel aposentado usando resto de farda faltando-lhe, apenas, as estrelas. As camisetas eram iguais, com os dizeres: “O Senhor é o meu pastor”.



Cumbuca de iscas, matula, varas na mão e pé na estrada. Aliás, bicicletas na estrada, e lá se foram.

Uma hora depois, estavam os dois, à beira do rio, pescando e cavaqueando, animadamente e naturalmente, sobre os livros sagrados. Posso, sem dúvida, imaginar que estivessem discutindo a genealogia de Jesus Cristo e quem sabe? De forma supositiva, estariam tentando descobrir quem teria sido a bisavó de Abraão... Talvez estivessem comentando, também, onde estivera Jesus Cristo dos 12 aos 30 anos de idade... Pode ser, também, que naquele papo santo procurassem decifrar o que Jesus discutiu com os doutores quando ele tinha os 12 anos. Talvez isso não estivesse bem claro para o primo Vicente e seu amigo Tonho. Ah! Uma outra coisa que eu acho, também, deve ter sido discutido enquanto pescavam foi quem teria assinado a carta aos Hebreus. Afinal, nada prova que foi o Apóstolo Paulo...


De repente, um sobressalto! O inesperado acontece: Uma grande cobra, enrolada, bem pertinho do Irmão Tonho.



Ao ver a peçonhenta venenosa fitando-lhes os olhos, Irmão Tonho quase morreu de susto. Foi um deus-nos-acuda. Com um pedaço de pau conseguiram matar o bicho e o jogaram no rio. Daí começou o debate ofídico:

--Cê viu que baita de jararacuçu, irmão Vicente?



--Aquilo nunca foi jararacuçu, irmão Tonho...



--Como não foi, irmão Vicente!?Jararacuçu e dos grandes...



--Ce num viu o chocalho, na ponta do rabo dela? Era Cascavel, irmão Tonho...


--Que mané cascavel, irmão Vicente! Ocê parece que não entende de cobra 


(Rindo) ---Entender de cobra não é o meu fraco não, Irmão Tonho...



--Eu nasci na roça e conheço tudo quanto é cobra...



--Ôa.Ôa! Ôa, irmãoTonho! Oia, eu cumêdo docê. Negócio de cobra, tô fora...



--Ô irmão Vicente, ôcê ta me adisrespeitano! Eu sô home sério e de respeito...



--Que isso, irmão Tonho...!? Eu to é brincano!



--Mas, isso é brincadêra maldosa, irmão Vicente! Um crente num brinca disso!

Ali, acabou a pescaria e a amizade também. Por mais que os amigos tentassem não conseguiram fazer com que os dois reatassem a amizade. Até que um dia chegou para a igreja deles um novo pastor. Rapaz dinâmico, bem falante, convincente e que ficou sabendo da historia. Fez a eles um convite para uma reunião de reconciliação, no que foi atendido prontamente pelos dois. Após o abraço de fim da contenda, e terem recebido uma bênção especial do pastor, o irmão Tonho brada alto e em bom som:

---Agora tá tudo bem entre nós dois, irmão Vicente, mas que aquela cobra era jararacuçu, isso eu tenho certeza!...


Diante disso o irmão Vicente responde:


--Sabe de uma coisa, irmão Tonho, cê tem toda razão. Aquilo lá era jararacuçu, mesmo. Eu tive pensando... Acho que eu estava enganado...

---Não... Não... Irmão Vicente... Assim tamem não! Pode que seja, mesmo, uma cascavel...

Fanatismo religioso temperado com teimosia nem Jesus Cristo aguenta.

Candeias MG Casose Acasos
Armando Melo de Castro


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