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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RUA CORONEL JOÃO AFONSO

Rua Coronel João Afonso atualmente (2010)

Recebi, com emoção, da minha amiga, Clara Borges, uma fotografia da rua onde nasci retratando, exatamente, a época do meu nascimento e da minha infância há sessenta e cinco anos atrás. Ali nasci e ali cresci até o limiar da minha adolescência.

A Rua Coronel João Afonso, antigamente, era chamada rua da ponte por causa da ponte que traspassa o Ribeirão dos Cassianos junto ao Bairro Rio Branco.
Naquele tempo, não havia trânsito por ali. Os veículos, ainda escassos, trafegavam pela Rua João Caetano de Faria, antiga José Maria Alkimim.

Em tempos de chuva, a rua virava um verdadeiro lamaçal. Os postes de madeira eram equipados com luminárias de luz fraca. Na época da seca, com a diminuição das águas, aquilo mais parecia um tomate maduro.
Cada casa tinha um banco à porta. À tarde, as pessoas reuniam-se porta a porta para conversar assuntos dos mais variados.

Entre os moradores da rua, existiam amizades e inimizades de vizinhos. Nem sempre, era respeitada a máxima de que “o vizinho é o parente mais próximo”. As rixas se davam por motivos diversos, tais como o mau cheiro do chiqueiro do outro; o galinheiro produzindo piolhos de galinha; o pé de manga quebrando telhas; galinhas soltas invadindo hortas e estragando canteiros de verduras; cachorros latindo fora de hora; briga de crianças; marido safado provocando ciúme; empréstimos de alimentos, aos pouquinhos, que nem sempre eram pagos. Aliás, numa vizinhança pobre, sempre tem alguém pedindo, sob empréstimo, uma coada de café, umas folhas de cebola, um dente de alho, uma canequinha de açúcar, um comprimido para dor de cabeça, etc. Essa cultura da sociedade proletária é um comportamento corriqueiro.

Não existiam leis. E se existiam, não eram cumpridas e nem cobradas pelo poder público. Se o fiscal da Prefeitura ousasse multar alguém por causa do seu chiqueiro de porcos ou por causa do seu galinheiro piolhento, a família toda mudava de partido. Era o velho tempo da UDN e do PSD. Para quem tinha o nariz sensível não adiantava torcê-lo. O recurso era brigar apenas para desabafar, terminar em inimizade e continuar recebendo os piolhos das galinhas e a fedentina dos porcos. Caso contrário, teria que respeitar o lema: “Os incomodados que se mudem”.
A rua tinha água encanada somente até as imediações da antiga venda do Chico Freire. Ou seja, apenas um terço dos moradores da rua possuíam água encanada. Dali para baixo, algumas torneiras públicas foram colocadas num esteio fincado, no meio da rua, as quais soltavam um tênue fio de água, pouco tratada.
A primeira dessas torneiras era bem defronte a minha casa e eu ficava por ali apreciando, ouvindo as fofocas e registrando as ocorrências. A aglomeração era maior nesta bica porque, sendo a primeira, ela tinha uma vazão maior e as demais, que ficavam abaixo, pouca água sobrava para elas. Além disso, esses pontos não atendiam somente os moradores da Rua Coronel João Afonso. Pessoas de ruas adjacentes, também, usavam a água dessas fontes.
As mulheres faziam fila para encher as suas latas enquanto algumas lavavam roupa, no meio da rua. Aquilo era a sinonímia da pobreza. Era o retrato da ralé quando as mulheres mais afoitas brigavam e, por vezes, até se agarravam enquanto alguém tentava furar a fila das latas.
Havia uma senhora de nome Melada Barros que estava sempre destoada com as demais por não respeitar a fila. Ali não se chutava o balde. Chutava-se a lata e a dona da lata. E assim o pau comia.
Meu tio, João Delminda, nosso vizinho de parede-meia, tinha, ali, uma sapataria e era inclinado pelas mulheres. Mantinha-se, sempre, de olho vivo procurando uma posição para observar o mau jeito das pernas de alguma lavadeira, agachada e distraída, ao lado da bacia de roupas mostrando as partes pudendas.
As pessoas que já leram o livro de Aluisio Azevedo, “O Cortiço”, poderão fazer uma idéia do que tenha sido a Rua Coronel João Afonso, antigamente.
Certa vez, quando aquele sítio de intrigas se movimentava, habitualmente, houve um relance extraordinário. Foi como se uma bomba caísse no meio do mulherio. Aparece a poucos metros dali um homem nu, completamente nu. Tratava-se de um mendigo, portador de doenças mentais, sem bagagem e trazendo consigo, apenas, um cabo de enxada. Foi um deus-nos-acuda. Mulheres saindo correndo, umas entrando nas casas, até de inimigas; outras preocupadas com as roupas quarando num quarador de gramas da rua.
O homem nu começa a procurar, entre as roupas avistadas, alguma peça que lhe servisse quando as donas dessas começaram a lhe atirar pedras tentando espantar o demente.
Uma das pedras acertou o infeliz que, após ser envolvido num cobertor, foi acudido pelo Sr. Erasto de Barros, morador da rua, que falava mais que as mulheres quando perdiam o sabão.
Após o entrave e durante alguns dias, nada mais interessante para mim foi ouvir os comentários sobre os dotes masculinos do homem nu que, mesmo diante de grande confusão, foram apreciados por algumas daquelas tagarelas. Uma delas chegou até a ironizar: “Que mundo mal repartido, meu Deus”!

Assim, era a Rua Coronel João Afonso no meu tempo de criança.

Rua Coronel João Afonso na década de 40

Certa vez, eu vi, no pára-choque de um caminhão, o rifão: “Recordar o passado é sofrer duas vezes”.
Neste sentido, entendo que se tratava de um alguém muito sofrido cujo pensamento contrasta com o meu. Penso eu que o passado deve ser revivido, pois, é dele que nasce a força que impulsiona o nosso presente gerando o nosso futuro. Deve ser revivido mesmo que tenha sido um passado infeliz, isso porque a alegria e a tristeza andam sempre juntas. E é difícil esquecer um sentimento que entra pelo cérebro e se acomoda no coração.

Quando me recordo da Rua Coronel João Afonso, eu volto a ser uma criança feliz. Vejo-me brincando com os brinquedos feitos pelas mãos do meu pai; brincando juntamente com os meus amigos de infância; brincando sem as amarguras da vida adulta; sem pensar o que me poderia advir no futuro. Sem sequer imaginar sobre os trancos e barrancos inerentes à vida humana. Sem a mínima preocupação com o amanhã. Envolvido, apenas, na lealdade infantil quando não se conhece a mentira e nem a falsidade. Quando a maldade humana é ainda desconhecida.
Eu chorava apenas com os olhos e nunca com o coração. Não conhecia a mágoa e nem os ressentimentos. Meu coração não tinha cicatrizes e batia mais forte. Eu ainda não vira um contemporâneo morrer; eu não sabia o que é perder um ente querido deixando um vazio dentro da gente, impreenchível. E, por isso, eu não entendia a morte. Eu ainda não conhecia o tempo... O tempo que dá e toma; que trás e leva...

Como a felicidade foi camarada comigo naquele tempo em que morei na Rua Coronel João Afonso! Eu não tinha problemas de nenhuma natureza. Eu não sabia reconhecer os problemas dos meus pais e sequer das outras pessoas. A minha vida era um mar de rosas. Era como uma estrada larga, sem buracos no inicio de uma viagem bem prometida e que, aos poucos, iria se estreitando e mostrando os seus precipícios.
O franguinho com macarronada, aos domingos, tinha mais sabor; as laranjas do quintal eram mais doces; os canarinhos cantavam mais alegres e não existiam pardais piolhentos. Não havia televisão e nem rádio para mostrar e nem dar notícias ruins. O som do bandolim do meu pai era a festa da casa e tudo que eu aprendia era através dos meus pais que o fazia com muito amor.

Como eu tenho saudade da minha infância! A Rua Coronel João Afonso era todo o meu mundo. Dela eu tenho as melhores lembranças guardadas no meu coração e sintonizadas com a minha memória. Nela vivi até o despontar da minha adolescência, quando me fiz despedir de um tempo em que o céu era muito mais azul; o sol era muito mais claro; e as nuvens eram brancas, tão somente brancas para mim.
Eu era tão feliz! Pena que eu não sabia disso!

Armando Melo de Castro
blogdoarmando@yahoo.com.br
Candeias- Minas Gerais

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