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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O DEFUNTO ABANDONADO




O que há de mais interessante é que dentre todas as referencias feitas às estações ferroviárias da região, a de Candeias teria sido acrescida de um realce bem pessoal, por parte do Sr. Edson Teixeira, residente na cidade de Caraguatatuba-SP - e que, naturalmente, teria feito contato com o autor do site. O Sr. Edson Teixeira, é candeense, filho do Edinho do Dorfinho da Doca (Família Chagas) e da Rosa, do Vico Teixeira e Sra. Laura Barreto. Há cerca de três anos, mais ou menos, esteve estabelecido com um restaurante, em Candeias, na Avenida 17 de dezembro, em frente a sua tia Luzia. Leva o nome do seu pai, Edson Teixeira Chagas, já falecido e muito lembrado pelos candeenses mais antigos. A iniciativa do nosso conterrâneo, de registrar a sua mensagem no mencionado site da Internet, falando das suas saudades do tempo de criança em Candeias, é, realmente, de um gesto meritório e digno de aclamação dos candeenses saudosistas.
Experimento junto do Sr. Edson, essas lembranças que vivem bem guardadas nos cofres da minha memória. E diante dessa saudade, relembro, também, a velha estação ferroviária de Candeias, há muitos anos, quando eu ainda era criança... Tempo em que Candeias representava todo o meu mundo e minha imaginação me conservava ali, pensando que seria como uma fruta que cai-de-madura, sobre as sombras e raízes do seu pé. Todavia, o destino mudou a minha rota, mas eu trouxe comigo as lembranças para hoje sentir uma saudade feliz. ------- Saudade! um sentimento estranho para mim quando ainda criança...
Vejo-me, portanto, entrando pela primeira vez na estação ferroviária de Candeias। O meu coração batendo forte, de tal forma, que se não fosse eu um menino, talvez, esse teria saído pela boca... Aquela aglomeração... Pessoas falando alto... Outros contando histórias... E alguém dizendo: o trem está atrasado... E eu desesperado perguntando ao meu pai: por que o trem está atrasado? --- Meu pai respondendo que aquilo era normal... Começa a fermentar no meu cérebro todas as historias de trens que eu já teria ouvido। Enquanto meu pai conversava com um amigo a minha imaginação estava a todo vapor. Ouvira dizer que dentro dos trens havia restaurante com cozinha e tudo; camas para dormir e até uma privada... Ouvira dizer, também, que o combustível da máquina era água e fogo... E essa se locomovia com vapor. Aquelas idéias me deixavam atordoado... Pelo fato de morar do outro lado da cidade, eu nunca teria visto um trem de perto. Estava acostumado a ouvir o apito muito familiar das marias-fumaça que trafegavam dia e noite levando e buscando gente e mercadorias...
E meu cérebro continuava fermentando: Daí a pouco eu iria conhecer esse trem... Ia ver uma cozinha se locomover... Um restaurante... Um quarto de dormir... Uma privada... E como seria essa privada dentro do trem!? Quanto mais o trem demorava, mais o meu cérebro fermentava.
Finalmente chega aquele monstro negro jogando fumaça e vapor por todos os lados। Os passageiros até então acalmados agora se agitam... Entram, falam, despedem-se. Ouve-se o soar de um sino. Trata-se do sinal para a partida do trem. Eu não ouvira ainda, um sino bater fora da igreja... Acho aquilo interessante... Ouve-se um apito. Aquele apito familiar da maria-fumaça já conhecido à distância, agora ali perto de mim. O trem vai saindo vagarosamente me levando cheio de uma felicidade indescritível... Vejo pessoas estranhas; vou olhando para todos os lados; procuro com os olhos cheios de curiosidade a cozinha... ------- E as camas? Onde estariam as camas? E a privada? Onde seria essa privada!?

Perguntei ao meu pai: Onde estão? E meu pai sorrindo responde: Aqui só tem a privada. As outras coisas só no trem da noite e que se chama noturno. Este trem é do dia e é chamado de misto. Com essa resposta a minha felicidade tomou um empurro... Mas não me abati. A curiosidade, agora, se concentrava no desejo de conhecer a tal privada... Desejei, para isso, a vontade de fazer xixi. Poder fazer xixi!... Cocô dentro do trem?! Como seria isso?!
De repente alguém próximo disse: vou até à latrina. E eu no auge da minha curiosidade pergunto ao pai: o que é latrina? Fico sabendo tratar-se da privada. Sinto inveja daquele rapazinho que se dirige até a uma portinha num canto do vagão e entra. A minha curiosidade foi tanta que meu pai se propôs levar-me a conhecer aquele gabinete.
Nesse dia eu fui conhecer a cidade de Formiga, numa visita que meu pai fez a um compadre seu. E eu torcendo para que a viagem de volta pudesse vir a ser de noite... Mas não foi. Portanto, não foi dessa vez que pude ver algo além da privada. Acredito ter sido um dos dias mais felizes de minha vida... Pois não bastaram as emoções de conhecer o trem, viria, também, a emoção de conhecer uma cidade grande, bem maior do que Candeias.
A partir daí o meu convívio com os trens se tornou rotineiro। A estação de Candeias era bastante movimentada. Quase nada entrava na cidade ou saia a não ser via trem de ferro. O meio de transporte rodoviário era então, muito atrasado. Os ônibus se limitavam em pequenas jardineiras e era um transporte caro. E os caminhões em número muito reduzido. Comumente ouvia-se dizer: viajar de trem é bom... É confortável... Parece que o povo daquele tempo não tinha muita pressa para chegar ao destino... Era um povo mais calmo e não se irritava com os atrasos constantes dos trens. Não criticavam com veemência, as deficiências da ferrovia... E as viagens, mesmo de negócios, eram transformadas em passeios... ---- Estarei certo ou fortuitamente enganado? Ou quem sabe a ingenuidade de criança ainda perdura em mim?
Junto à estação localizava-se a máquina de limpar café e um grande armazém de depósito. Muitos trabalhadores circulavam por lá trabalhando o café। Uma sirena de som estridente levava a todos os cantos da cidade a marca dos horários de trabalho. Um motor a óleo bastante barulhento quebrava o silêncio do largo da estação. Havia, sempre, vagões estacionados no pátio da estação carregando ou descarregando. Agentes, conferentes, guarda-chaves, pra lá e pra cá, trajados com o fardamento da ferrovia, davam vida naquele ambiente hoje morto. De frente, estava a máquina de limpar arroz, bastante movimentada, beneficiando o arroz produzido no município. Manipulando esta máquina estava o amigo João do Sô Nico, músico sempre ativo, da Banda de Música.
A chegada do trem de passageiros dá um clima de festa। A estação era ponto turístico onde até casais de namorados iam ver o trem chegar e sair. Os carroceiros apostos, entre eles, Juca Cordeiro, Arlindo Barrilinho, Serafim e outros, se movimentavam para pegar as mercadorias que chegavam. Os carregadores de malas abordavam os passageiros e principalmente os caixeiros-viajantes, cujas gorjetas eram polpudas. Logo após, a Rua Coronel Marques, ou melhor, a Rua da Estação, aliás, a primeira Rua de Candeias a receber calçamento; parecia uma maratona... Pessoas que desciam e depois subiam para ganhar o centro da cidade. Subindo o morro ia o Joaquim Estafeta com aquele baita saco cheio de cartas sendo levado para a agencia do correio. Os telegramas eram recebidos e transmitidos através da Estação Ferroviária. O correio não tinha telegrafo nessa época.
Posteriormente as marias-fumaça foram substituídas pelas grandes locomotivas movidas a óleo diesel; e os comboios agora maiores ficaram restritos em seus horários. Pois apenas uma locomotiva levava a carga de três marias-fumaça...
Há um tempo passado, eu estive lá remoendo esses quadros de minha infância। Vendo aquele local deserto, sem uma pessoa, ali, naquele momento, senti uma saudade danada daquele dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia. E ao me retirar daquele local avistei a única fonte remanescente do ruído de outrora. Afrontando o tempo, apenas um pouco arredada do seu antigo lugar, está à máquina de beneficiar arroz. Um pouco mais preguiçosa, mas ainda tendo ao seu derredor a figura do amigo, João do Sô Nico*, que, talvez, como eu, guardando dentro de si os quadros veneráveis daquela estação e os apitos da Maria-fumaça, subindo e descendo... Buscando e levando a vida da cidade. Seria inútil tentar arrancar de mim essas lembranças doloridas. Elas entraram pelo cérebro, desceram ao coração e lá se acomodaram.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.

Um comentário:

Anônimo disse...

que historia macabra,e de arrepiar,mas gostei porque são historias reais!!!!!!