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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O HISTORIADOR DA RALÉ


      Recebi de uma leitora da cidade de Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio de Janeiro, um e-mail contendo uma crítica de um texto editado, neste blog, sob o título “Desnudando a Vida”.


Longe de mim qualquer intenção de refutar as opiniões que possam advir dos leitores que me honram neste blog. É de todo patente que qualquer exposição de idéias encontrará prós e contras. Portanto, eu recebo de bom grado qualquer crítica seja ela contrária ou favorável ao meu pensamento. Isso, com certeza, é a recompensa para quem pensa algo e tem a coragem de colocá-lo sob debate.
Respeito qualquer juízo de valor que venha a ser feito sobre os meus escritos que jamais me levaram a pensar em ser membro de uma acadeima.

Trata-se, a minha interpelante, da senhora Ana Zélia Rodrigues que me enviou um e-mail expondo o seu pensamento sobre a minha pessoa, haja vista não concordar com as minhas idéias emitidas no texto, acima citado, quando eu expresso o meu pensamento sobre o celibato e a forma pela qual o Padre Fábio de Melo se manifestou diante do casamento. Em sua mensagem, dona Ana Zélia falou pouco de si. Limitou-se a dizer seu nome, que possui 49 anos, que é professora e, em bons e claros termos, disse, ainda, se tratar de uma pessoa de situação financeira privilegiada.

Disse que ficou indignada quando leu o texto deste blog injustamente dirigido ao Padre Fábio e que um herege, como eu, deveria lavar a boca para falar dos padres e do catolicismo. Disse-me, também, que teria lido quase todas as minhas histórias e que elas revelam ser eu uma pessoa de meio obscuro e que lhe pareço, ainda, ter uma longa convivência com a ralé. Ressalva a minha afinidade com esse meio e que esse é o motivo de eu ter me tornado em um historiador dessa camada social. Firmou ser Católica, Apostólica, Romana e que não consegue se omitir quando alguém ousa desdenhar a sua religião. Borbulhou outras pragas dizendo que uma pessoa que não respeita padres não respeita a Deus e se trata de uma pessoa indigna. Que tem pena de uma pessoa sem religião E, finalizou, determinando que eu tivesse a dignidade de respondê-la através deste blog, exigência esta que não entendi muito bem. Entretanto, mesmo sem entender, vou atendê-la, neste momento:

Prezada Dona Ana Zélia Rodrigues:

Eu não poderia deixar de atender o seu pedido uma vez que ele é tão importante para a senhora, quanto para mim. Confesso que estou lhe abrindo uma exceção considerando que esse comportamento, sob a minha óptica, não se trata de uma atitude elegante, principalmente, relativa a pessoas com as quais não conheço e não convivo pessoalmente. Como eu não conheço todos os meus leitores, faço aqui o meu pedido de desculpas antes de atendê-la e se o faço é porque a minha dignidade está a seu jugo.

Por um momento, no início, cheguei a pensar que a senhora estivesse brincando comigo. Afinal, em Minas Gerais , temos um ditado dito como certo que atesta que “Quem desdenha quer comprar”. Entretanto, foi apenas por um momento. Logo, eu percebi que estava falando tão sério quanto eu. Pena que falou muito pouco de si, apenas o seu nome, a sua profissão, a sua idade e, obviamente, o credo com o qual comunga. Ressalvou que é uma mulher rica, etc. Pois bem! Na verdade, eu gostaria de conhecê-la melhor para que, assim, pudéssemos discutir o assunto de uma forma mais abrangente. Isso porque sem conhecê-la o debate fica sem proporções. A maneira com que se referiu a minha pessoa foi como uma sentença oriunda do tribunal da sua consciência. Todavia, a senhora pode estar enganada. Aliás, eu acho que está enganada. Mas, eu também tenho uma consciência que comporta um juízo e que, neste momento, me absolve, senão vejamos:

A senhora diz que sou um herege. Pois bem, quem me conhece sabe que eu não sou um herege. Isso porque a heresia não é uma filosofia infiltrada nas baixas camadas sociais. As pessoas às quais a senhora me inclui são, na sua maioria, levadas pela conversa daqueles cuja fé e religião é pura e, exclusivamente, o dinheiro. Essa ralé é explorada por diversos pastores e incontáveis padres que vivem no rádio, na televisão, enfim, espalhados por toda a mídia sensacionalista como em seus altares pedindo dinheiro para uma evangelização, onde é vendido, a alto custo, o nome de Jesus Cristo. A heresia, na essência do termo, foi sepultada junto à inquisição e aqueles que insistem em mantê-la estão vestidos de padres e pastores que usam as religiões para achacar os pobres que são, de maneira abjeta, denominados pelos ricos de ralé. A ralé, muitas das vezes, envolve algo mais do que a pobreza. No meu caso, eu não sou um herege. Apenas não concordo com certas coisas que, a meu ver, não são bíblicas e que correspondem à verdadeira extorsão dentro das igrejas. Creio que isso não chega a ser heresia.

A senhora diz que sou um historiador da ralé. Sim. Se se imagina que a ralé é sinônimo de ser pobre, eu vivo e convivo com ela. Ralé é um conceito social tendencioso e que está ausente no coração das pessoas, verdadeiramente, religiosas. Aquele que realmente ama o Filho do Carpinteiro não faz discriminação dentro de uma sociedade hipócrita. Jesus foi assediado pelos pobres que a senhora denomina de ralé. Contudo, Ele tratou toda essa gente com extrema dignidade. Ele, que nasceu pobre, veio, igualmente, para os ricos que o perseguiam desde o seu nascimento.

Também sou contra o Celibato. Acho que é um direito de qualquer ser humano acordar e discordar de algo. Devemos ter as nossas opiniões, as nossas idéias. Eu sou contra o celibato porque o celibato esconde crimes sexuais, esconde pecadores e afronta a Igreja de Cristo. Eu sou contra o celibato porque ele bate de frente com os princípios da própria Igreja que vive condenando os métodos contraceptivos e usa de uma forma muito mais agressiva ao princípio humano. A responsabilidade de uma família é tão difícil que privar um homem de constituí-la é conceder-lhe um grande prêmio ou isentá-lo de um ônus importante. Ter filhos é viver carregado de obrigações, cercado de responsabilidades e sofrendo de cuidados. Não os ter é viver dentro de si, livre de preocupações, todo sossegado, a cabeça descansada e descomprometido com o sofrimento próprio do ser humano. A política interna no catolicismo sobre o celibato é demagoga. Ela visa outros interesses além da evangelização. Pessoas sem nenhuma vocação sacerdotal ocupam espaço na Igreja Católica para se esconder da sua homossexualidade incubada. A cada dia que passa os problemas de pedofilia aumentam e essa história de padre não se casar para ficar à disposição da evangelização é pura balela.

A senhora diz que eu sou uma pessoa sem religião. Não. Não me considero sem religião. Sou cristão e qualquer igreja cristã me serve desde que não seja administrada por mercenários. Eu apenas não sigo as diretrizes de padres e pastores que não merecem a minha confiança. Todavia, acredito na existência e na exigência de bons religiosos que cumprem com louvor os ensinamentos de Jesus Cristo.

Eu sou batizado, crismado e consagrado na Igreja Católica. Sou adepto incontestável de Jesus Cristo e grande admirador da Obra da Criação. Venero um Deus que é Onipotente, Onisciente, Onipresente, Justo e Bom. Talvez, por uma ironia, deste contato, sou adepto fervoroso, há 67 anos, de Santo Antônio de Pádua desde quando integrei essa irmandade com apenas um ano de idade.

Observei pela sua mensagem que se faz tratar-se de uma pessoa rica, materialista, seguidora de uma religião não por convicção, mas, por vaidade. Contudo, sem retratar a filosofia maior do mestre dessa Igreja, Jesus Cristo. Pode ser que a senhora traga apenso ao seu pescoço um crucifixo, entretanto, poderia estar trazendo, ao invés da cruz, um pequeno revolver ou uma forca em sua corrente de ouro. Infelizmente, suponho que a cruz não lhe seja o símbolo maior da cristandade e quanto ao seu coração, me parece estar vazio.

Dirijo-lhe algumas perguntas para finalizar minha resposta. Contudo, não precisa respondê-las a mim. Poderá fazê-lo a sua consciência e esta, com certeza, fará o devido comentário se tenho ou não religião.

A senhora já deu banho, em uma pessoa idosa, abandonada pela família, esquecida em um quartinho de fundo de quintal, envolvida nas suas fezes causando extremo nojo em seus próprios filhos?

Eu já fiz isso Dona Ana Zélia e lhe confesso que não foi fácil. É preciso ter muito amor ao próximo. É necessário ter uma religião, não de padres e nem de pastores, mas, uma religião na qual o Cristo esteja no coração.

A senhora pegou um leproso acidentado e o colocou dentro de seu carro e para vê-lo atendido em um hospital foi preciso brigar, ameaçar e quase apanhar? E ainda ter que pagar do próprio bolso pelo tratamento precário que deram ao infeliz acidentado.

Eu já fiz e o faria de novo porque acredito que na Obra da Criação de Deus todos nós somos um prestador de serviço e se coube a mim esta tarefa, eu não fiz nada mais do que a minha obrigação.

A senhora já deu banho em algum defunto?

Eu já. Como membro da Sociedade de São Vicente de Paula, eu fiz isso por diversas vezes.

A senhora já salvou alguma vida?

Eu já. Existem três pessoas que se lembram de mim em todos os natais por lhes ter salvado a vida, quando acidentados, se esvaindo em sangue, enquanto todo mundo passava e não parava. Eu socorri e, posteriormente, tive que lavar o meu carro com água de sal para tirar o forte cheiro de sangue. Eram pessoas desconhecidas e distantes do meu meio. Lembro-me que ainda tive que prestar contas à justiça por esse feito.

A senhora já perdeu algum parente acidentalmente?

Eu já. Perdi a minha primeira esposa, aos 37 anos de idade, em um violento acidente de carro, quando eu dirigia corretamente. Perdi, também, uma filha, de maneira trágica, ainda muito jovem, quando se suicidou vítima de uma depressão profunda e cruel. Foi, assim, diante de todo esse sofrimento que aprendi que Deus não estava nas igrejas e sim dentro de mim.

A senhora, por acaso, sabe que em todas as primeiras terças feiras do mês, os irmãos de Santo Antônio, o seu padroeiro, distribuem pães em seu nome?

Eu faço isso e jamais me esquecerei. Faço desde que comecei a trabalhar quando ainda tinha poucos anos de idade.

Eu teria mais o que falar, dona Ana Zélia. Todavia, acredito que quando se dá com uma mão, deve se esconder a outra. Assim disse o Mestre.

Obrigado, Dona Ana Zélia Rodrigues. Valeu muito. Continue lendo as minhas historinhas. A ralé tem coisas interessantes. Umas tristes; outras bobas; algumas alegres. Porém, são histórias humanas e verdadeiras. Ah! Não se esqueça jamais que Jesus disse:

“Nem todo aquele que me diz “Senhor! Senhor!”, entrará no Reino do Céu”.
Mateus 7.21


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos







4 comentários:

Unknown disse...

Brilhante o seu comentário Armando, fica a impressão de que essa senhora, Ana Zélia, é sobretudo orgulhosa quando se refere dessa forma a pessoas que não conhece e isso não é de forma alguma cristão. Graças a Deus vim ao mundo nessa "ralé" onde aprendi que a humildade é a marca do verdadeiro cristão. Ela poderia ter perfeitamente apresentado seus argumentos contra seu artigo, isso é livre; mas perde a razão quando ofende.

CARLOS HENRIQUE MARQUES disse...

"TOMOU PAPUDA?"

Márcio Lamounier dos Reis disse...

Antônio, muito boa a sua resposta, independente da crítica de D. Ana Zélia, mostrando que não é necessário ser seguidor de uma determinada igreja para praticar o bem. Eu também vejo que a grande igreja de Deus esta dentro de cada um. Entendo que D. Ana foi merecedora de suas respostas públicas, já que assim foi seu desejo, e por sinal muito bem esclaredoras. No entanto gostaria de parabenizá-lo não por essa contra-crítica, mas por sua dedicação em nos relembrar das histórias e pessoas maravilhosas de nossa querida Candeias, muitas delas fazedoras parte da "ralé". São suas crõnicas e histórias que nos fortalece e deixa cada vez mais orgulhosos de sermos candeenses. Continue assim, independente das críticas sendo elas positivas ou não, afinal como você mesmo disse: É de todo patente que qualquer exposição de idéias encontrará prós e contras. Obrigado.

Giuliano disse...

"Preconceito é hipocrisia: é um desejo de ser ou fazer igual; é a fulga mais comum daquele que não tem coragem de ser ele mesmo o que o leva a sufocar seus medos e frustrações no preconceito para com o outro."