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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O CACHORRÃO CAGÃO!

O MAIS ANTIGO AÇOUGUE DE  CANDEIAS
Nos  tempos das vacas magras, em Candeias, existiam diversos açougues. Nenhum deles tinha um nome comercial. Eram conhecidos pelo nome do dono. Açougue do Zé Chorão que ficava ao lado de sua loja, na Rua Expedicionário Jorge. Açougue do Estevão, perto dali, em outra esquina, ao lado de sua mercearia, no mesmo lugar onde fica, hoje, a mercearia do Divino. Açougue do Emilio Gianasi, também ao lado de sua loja, na qual se encontra, atualmente, o seu filho Carlinhos, na Avenida 17 de dezembro. Açougue do Zé Canarinho, na Praça da Bandeira, onde, nos dias de hoje, está a papelaria de seu filho, do mesmo nome. Açougue do Vicente Resende, no lugar da barbearia com a esquina da Rua André Pulhês. Açougue do Nilo do Juquita, na Rua Belmiro Costa, onde, atualmente, funciona a Sorveteria Girassol. Açougue do Geraldo do Orcilino, na Rua Professor Portugal, em frente ao Restaurante do Vicentinho e, finalmente, Açougue do Antônio do Orcilino, na mesma rua, próximo à loja do Vicente Vilela. Este o único que sobreviveu até hoje, por muito mais de meio século, agora, nas mãos do seu filho, Jesus do açougue. Finalmente, ganhou um nome: Açougue São Judas Tadeu.

Eu acho engraçado é que passo por lá e revivo um quadro interessante. O Antônio, quando não havia freguês para atender, forrava o piso, deitava  ficava ali todo tranquilão e o Jesus pode ser encontrado do mesmo jeito numa original herança paterna.


Eram estabelecimentos elementares. A montagem resumia em um suporte no qual se dependurava os ganchos, uma banca, um balcão de alvenaria ou madeira, uma balança, um toco e uma machada. Não havia embalagens. Usava-se um pedaço de folha de bananeira para envolver o pedaço de carne ou o agulhava com um nó de barbante. Poucos tinham as suas paredes azulejadas e como, naquele tempo, não havia eletricidade para funcionar uma geladeira ou um balcão frigorífico, todos os açougues tinham uma salmoura onde a carne bovina fresca que sobrasse era salgada para conservá-la. Portanto, a chamada carne seca era farta em Candeias e era comercializada mais barata. A carne de porco raramente sobrava. Os porcos antigos tinham pouca carne e muito toucinho, diferentes dos porcos atuais. O grande consumo da população era o toucinho por causa da banha para cozinhar. Às vezes, formavam-se filas às portas dos açougues para comprar carne ou toucinho no dia de matar o suíno. Os açougueiros combinavam, portanto, em matá-los em dias alternados. Era vaca para um e porco para o outro. Parece-me que, naquele tempo, o povo comia mais carne, o preço não era tão alto como nos dias de hoje. Carne, atualmente, virou produto de luxo. Algumas partes dos animais, como as vísceras, eram de graça para as pessoas desvalidas que, também, sempre ganhavam um pedacinho de carne do dono de açougue.



Ainda não existia, naquele tempo, o óleo de cozinha. A chegada desse produto, em Candeias, veio fracassar a comercialização de suínos cuja tendência era crescer. Alguns açougues só trabalhavam com o abate de porcos. Além disso, a produção desses animais proporcionava grande parte da renda dos fazendeiros e sitiantes do município que viram secar essa fonte. O óleo de cozinha chegou com tudo no país. Parecia uma verdadeira guerra contra a banha de porco. O rádio, as revistas e os jornais estampavam o produto como se ele livrasse as pessoas de todas as doenças. Como se fosse acabar com todos os males do coração. Criou-se um mito sobre a banha de porco para vender o óleo. O colesterol que era um mal quase desconhecido veio à tona como o mal do século. O porco foi se tornando o culpado de todos os males. Com isso, as pessoas foram diminuindo e outros foram deixando de usar a banha e passaram a restringir a carne de porco



Esse mito, nos dias atuais, está mais aliviado porque as pessoas observaram tratar-se de uma idéia, parcialmente, falsa. O próprio tempo pode mostrar. Hoje, os nutricionistas defendem o consumo da carne de porco disponível no mercado. Alegam que esta não faz mal à saúde e que são recheadas de vitaminas e minerais. Atestam que a quantidade de colesterol não está diretamente relacionada à quantidade de gordura e que o nível de colesterol contido na carne de porco é igual às outras carnes seja bovina ou de frango. Além disso, sabe-se que os porcos de hoje não têm tanta gordura como os de antigamente.



A carne suína é a carne mais consumida no mundo, enquanto a carne bovina vem sofrendo sérias restrições. Quanto ao aumento de colesterol, entendo que isso, realmente, não tem nada a ver com a carne suína. Eu, por exemplo, sou um ávido consumidor de carne de porco e o meu colesterol é normal, abaixo do mínimo exigido. Vai muito de cada organismo.

Mas, mudando o assunto do norte para o sul, lembro-me de, certa vez, quando cheguei no açougue do Nilo do Juquita que ficava próximo de minha casa, no momento em que ele se encontrava muito nervoso. Um ladrão teria pulado o muro e lhe roubado parte da carne que se encontrava na salmoura, existente no quintal do açougue. Enquanto desossava um porco ia falando e, quanto mais falava, mais nervoso ficava:


---Se eu pego um cabôco desse, eu corto o saco dele no talo!

Alguns fregueses que já se encontravam presentes esperavam ele descarnar o porco. Tinha muito disso, o freguês ia cedo para pegar o pedaço preferido. Entretanto, Nilo estava tão nervoso que a gente mal entendia o que ele falava:
--- Eu tabaiano e um disgraçado me robano! Dá vontade de matá!


Maria das Dores era uma idosa que andava sempre acompanhada de seu filho José que era portador de problemas mentais. Magrelo, alto, chapéu de palha e um terno de brim encardido cujo paletó era curto e apertado e completava a vestimenta as calças pega-frango. Devia ter uns quarenta anos, mais ou menos. Ela, baixa e gordinha. Rosto cheio e os cabelos brancos enrodilhados no tipo coque. Tinha o andar e as muxibas balançantes pelo descompasso das pernas sinuosas como marcas da idade avançada. Voz fanhosa. Uma boca sem dentes. Teria experimentado a dentadura de uma irmã falecida, todavia, não deu certo. Preferiu a boca murcha. Dizia sempre:

---Pobre faz com o dente pa cumê com a gingiva!


Aonde ela chegava, logo armava o barraco. Foi chegando, postou-se no meio do pequeno açougue e começou:

---Quanto é o quilo de suã?
---Suã é cinco conto o quilo.
---O quê? Cinco conto um quilo de suã!? E o toicinho? É quanto?
---Toicinho é dois.
---O quê? Dois conto um quilo de toicinho! E o cambito?
---Cambito num tem mais não.
---Mais eu “quiria” cambito, sô! E o lombo? Quanto tá o quilo?
---Lombo já tá tudo “incumendado”. O “restorante” compra tudo!
---Mas eu “quiria” era lombo. E a costelinha, quanto tá o quilo?
---Costela é sete.
---Sete conto um quilo de costela? “Ocê” ficou doido! E a papada?
---Papada é “treis” conto.
---Isso é um roubo. Seus preço ninguém dá conta. Isso é um roubo!


Nessas alturas do campeonato, Nilo já estava a ponto de enfiar a faca na velha e quase cego de raiva grita:



---Barato aqui é só a bosta do porco! Vem um disgraçado me roba e vem uma vaca e me chama de ladrão?! Some daqui!

---Ah! É assim, né!? Pois “intão” eu quero que ocê vá tomá no butão cachorro. É assim que trata um freguês?! Cachorro sem dono!
E foi saindo blasfemando pela rua. O filho dela, até então, calado, aproximou-se do Nilo, espichou o pescoço, olhou firme para ele, arregalou os olhos como se fosse devorá-lo e com voz determinada disse:
---Obedece à mãe viu, cachorro! Cachorrão cagão!
Enquanto ele saía, o Nilo não parava de rir e com ele toda a freguesia.


Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos


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Um comentário:

Anônimo disse...

Muito obrigado por restaurar os valores simples da vida. Abraços.