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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

LÁGRIMAS DE SANGUE



Escarafunchando os guardados do meu cérebro encontro-me no ano de 1957 quando minha família esteve morando por uma curta temporada na Rua José Furtado, onde bem próximo da nossa morada havia um casebre, tipo meia-água. Ali morava mãe e filha cujo relacionamento era de constante alegria, apesar da pobreza em que viviam.

Dona Etelvina, a mãe, era uma pessoa alta, magra, branca, voz forte, cabelos sempre coberto por um lenço branco. Tinha um buço saliente e dentes escuros. Olhos meio arregalados, boca grande e sorridente. Apesar de ter uma filha adulta era do tipo balzaquiana, pois teria sido muito jovem quando concebeu a filha.

Dalva, a filha, tinha o corpo da mãe, contudo era mulata, pois, seu pai era negro. Dezesseis anos, cabelos crespos e curtos, dentes claros, nariz achatado. Alegre e sorridente. Quem passasse defronte à sua casa poderia ouvi-la cantar as músicas de Cascatinha e Inhana e em especial a guarânia “Meu primeiro amor”. Dalva tinha um pretendente que teria ido para Goiás trabalhar na zona rural, e lhe prometera pedi-la em casamento na sua próxima volta à Candeias.

Mãe e filha onde estivessem estavam sempre juntas. Era a unha e a carne. Sustentavam-se da cata, pelos matos, de capim membeca, próprio para encher coxins. Produto que vendiam ao senhor Candóla Vilela, fabricante, caseiro, de colchões recheados a capim, usados na época, e para os seleiros na fabricação de arreios. Era uma vida dura. Eu as via sempre com aqueles enormes feixes de capim sobre a cabeça. Subiam à rua conversando, rindo, uma com a outra. Eu não sei onde arranjavam tanta alegria dentro de uma vida tão difícil.

Era noite e não havia luz na rua. Nós os vizinhos, assustados, ouvimos os gritos desesperados de Dona Etelvina. Muitos acudiram aos seus gritos. Morria, naquele momento, a sua única filha, a Dalva, ainda na flor da idade vitima de um mal que assolava o mundo inteiro, a gripe asiática cuja epidemia teve inicio na China e em poucos meses se espalhou para o mundo. Candeias, como uma célula do mundo não ficou isenta desse mal que lhe tirou alguns filhos, deixando a cidade agitada tal qual se encontrava todo o planeta. Talvez, quem sabe, a responsável maior pela morte de Dalva teria sido a sua pobreza, a pobreza do Estado que não atendia as necessidades básicas de sua população carente.

Lembro-me como se fosse hoje, daquele quadro de dor. Num pequeno quarto do casebre, Dona Etelvina abraçava, aos gritos, o corpo sem vida de sua filha, ainda, tão jovem.

Eu que trazia comigo aquela imagem feliz daquelas duas criaturas via, agora, um quadro lúgubre de dor, da mais funesta infelicidade. E confesso que chorei também. Chorei num tempo em que as lágrimas ainda não vertiam dos meus olhos. E fiquei pensando, como será daqui para frente à vida de Dona Etelvina. 

Eu ainda não havia conhecido aquele tipo de dor sem nome. Aquela coisa que corrói, mata e estraçalha um coração. Uma dor que nos tira o sentido da vida e que só o tempo pode ajudar, mas nem sempre como foi o caso de Dona Etelvina. Ela nunca mais sorriu. Nunca mais teve brilho nos olhos. Nunca mais se importou com nada até ao fim dos seus dias. Ela não tinha estrutura para perder a única razão de vida. A única alegria que sustentava o seu sorriso... Elas se completavam. 

Para Dalva, tudo de bom era a sua mãe. E para Dona Etelvina, Dalva era a sua deusa. Eram muito pobres da vida material, mas extremamente ricas de amor no coração. 

Hoje, depois de ter, também, perdido uma filha, eu posso sentir ainda mais, o sofrimento com que passou Dona Etelvina.

Antes do enterro, Dona Etelvina fez um apelo. Gostaria de ver tirado uma foto de sua filha, pois esta não teria nenhuma lembrança desse tipo. E assim, foi chamado o então “retratista” Vicente de Melo, que acrescentava essa profissão aos afazeres de sua loja com uma máquina lambe-lambe.

O namorado de Dalva chegou três dias depois do sepultamento. A volta tão prometida de alegrias tornou-se no encontro com a dor e a profunda tristeza.

O pai de Dalva nunca esteve presente na vida da filha. Era ele o Sargento Arantes, natural da cidade de Três Corações e que prestou serviços em Candeias, na ocasião quando teria feito Dona Etelvina, ainda jovem, sua concubina temporária, deixando-a posteriormente com a filha e sem recursos. Dona Etelvina, que desde então passou a viver unicamente em prol da filha.

Diziam, tempos depois, que o Sargento Arantes, era irmão da mãe de Edson Arantes do Nascimento, portanto, tio do Pelé.

Nunca mais vi Dona Etelvina sorrir. Sempre a via passar sozinha trazendo na cabeça aquele enorme feixe de capim, com os olhos fundos e tristes e a boca sempre fechada, como retratos da sua tristeza. Às vezes, era vista no cemitério São Francisco à beira da cova já afundada da filha, rezando e colocando uma flor regada às lagrimas de uma “Matter Dolorosa”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

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