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sábado, 16 de julho de 2011

O CAÇADOR DE TATU

                    Tatu-Canastra, o maior de todos.
      Um dia desses, quando eu viajava de Candeias para a cidade de Formiga, durante à noite, passou pela frente do meu carro um tatu e eu tive que quase parar para não o atropelar. Era um tatu-galinha, daqueles pequenos, cuja carne sempre foi muito admirada pelos caçadores. Diante do fato, veio à tona de minha memória a imagem de uma caçada de tatu da qual eu participei há muitos anos:

Antonio Tatu, como era bem conhecido, viera da comunidade dos Vieiras, Município de Candeias, para residir na cidade. Caçava tatu por encomenda e servia aos seus fregueses, admiradores da carne do bicho.
Antonio contava, mais ou menos, uns quarenta anos. Era um elemento magricelo, alto, pouca barba e um bigode espesso. Olhos azuis. Testa longa e cabelos castanhos bem claros, quase louros, descendo à nuca. Seus trajes, para não considerá-los descorados, eu os diria da cor do chão.

Tinha duas profissões pelas quais era muito procurado. Uma delas era executada durante o dia, quando furava fossas e cisternas. E a outra era a caçada de tatu que ele fazia à noite. Trabalho que lhe valeu o apelido de Tatu. Porquanto, muita gente pensava que o seu apelido era devido ao fato de ser furador de buracos de fossas e cisternas.
E foi numa caçada dessas que Antonio levou consigo alguns convidados entre eles o meu pai, então, curioso para ver como era caçado o pobre silvestre. E nesta comitiva, eu já me fiz incluso de “contrapeso”, pois, como dizia minha mãe, eu era o rabo do meu pai. E foi uma experiência muito ruim para os meus olhos de menino. Assistir aquilo me deixou muito abismado.

Um grupo de quatro pessoas perseguia o animal através dos cães. Quando um cachorro dava o sinal de que teria localizado o bicho, este corria e se escondia no buraco, sendo esta a sua defesa natural. Assim, o cão ficava a latir ali até a chegada dos caçadores que vinham em disparada, mato afora, a fim de pegar a caça numa verdadeira extravagância física. Ora tropeçando em tocos, ora levando cerca de arame no peito devido ao escuro.

Diante desse flagelo sobre si, o animal aplica a sua defesa abrindo a sua carapaça e se prendendo nas paredes do buraco. Daí, o caçador, usando a arma própria, ou seja, um arpão tipo de uma seta de ferro, afixada na ponta de um cabo de vassoura, o introduz no ânus do pobre animal deixando-o imobilizado. Quando não se consegue puxar o bicho pelo rabo, faz-se uma cava ao redor do buraco até tê-lo em mãos.


Sinceramente, ao presenciar esse tipo de caçada, eu me senti sensibilizado e deduzi que os caçadores são frios e trazem consigo uma índole maldosa. No caso da caçada de tatu, dá para sentir que a fazem com certo requinte de maldade. É uma morte torturante! E eu não gostei de ver aquilo.

Felizmente, com as leis que protege a matança desses animais, isso vai se tornando coisa do passado, apesar de que deve,  ainda,  existir, por aí, muitos caçadores de tatu e, obviamente, de outros animais. Afinal, o Brasil é o país da clandestinidade e da impunidade diante do descumprimento das leis.

Mas, mudando o assunto de pau para cavaco sem deixar o caçador de tatu de lado, eu, escarafunchando a minha memória, consigo me lembrar de um caso hilariante acontecido com o Antonio Tatu, tão logo tenha vindo dos Vieiras, quando se estabeleceu na cidade com a sua família. Ele tinha um filho meio louro e que estava sempre em sua companhia. Era o seu ajudante furando o chão e nas caçadas de tatu. A meninada o chamava de Tatuzinho. Onde um punha o pé, o outro punha o nariz. Os dois, portanto, tinham uma curiosidade em comum: tão logo vieram da roça, queriam conhecer o cinema. Para quem até então vivera na zona rural, pouco conhecia as coisas da cidade. Ouvindo contar as histórias da cidade, o cinema era realmente uma coisa extremamente curiosa para eles.

Antes de existir o atual cinema de Candeias (hoje inoperante), inaugurado no mês de maio de 1955, já de propriedade do Monsenhor Castro, havia o cinema do Onofre. Um cinema bem menor, no mesmo lugar onde se encontra hoje as instalações do Cine Círculo Operário São José.

Foi chegado o grande dia. Antonio Tatu e Tatuzinho iriam ao cinema. E o filme seria com o maior ator de cinema de faroeste da época, Roy Rogers, com o seu cavalo branco, o famoso Trigger.

Num determinado momento, Antonio Tatu dá um grito dentro do cinema por ter visto alguém de tocaia: “Nossa Senhora! Acode!”.

O mais engraçado aconteceria no outro dia, quando Antonio Tatu e Tatuzinho tentavam contar aos amigos o que teriam achado do filme:

“---Um cavalo bunito dimais! Mas, o cavalêro não sabia nem falá. Era um bobão. Parece que aquele povo do cinema fala igual índio ou a língua deles é incravada até na goela: Um chegou perto do outro e falou assim: Roça run Ual... Roça cau, cau. Aí,cão ratiu. Daí, deu um murro no outro e saiu dano tiro pra tudo quanto é lado. Cubo rau. bummmmmmmmmmm. Tinha hora que o povo até ria deles de tão bobo que eles era”.

Nunca mais ouvi falar de Antonio Tatu e nem do seu filho, Tatuzinho. E assim, o mamífero noctívago pode apreciar a lua com tranqüilidade sem o risco de levar uma fisgada no traseiro pelo arpão do jeca o que, a meu ver, é a morte mais triste do mundo.  Instrumento de caçar o tatú.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

2 comentários:

Celle disse...

Antonio Tatú e Tatuzinho, hoje, desaparecidos para sorte e alívio dos animaizinhos que viravam farofa fa fa...
Ainda bem que as caçadas acabaram explicitamente, para alívio dos indefesos animais. Clandestinamente, ficam mais dificeis......
celle

Anônimo disse...

Pior disso tudo, é que fazia isto com naturalidade. Sou interiorano e já participei destas torturas. Mas o ser humano é assim mesmo, hoje já não é tão cumum estas barbaridades com animais, por temer a aplicação da léi. alvo hoje são mulheres,crianças, idosos e pessoas desprotegidas. As leis aplidadas são totalmente diferenciadas.O animal domestico (ser humano)vale menos do que os silvestre.Não critico a proteção aos animais, e sim: A aplicação da léi difereenciada.