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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O MULHERENGO.


Foto apenas para ilustração do texto.
Toninho da Zuza era um viajante da cidade de Divinópolis que corria toda a região. Andava em um “Jeep” velho daqueles antigos, cheio de coisas miúdas: perfumes, agulhas, sabonetes, maquilagem e mais uma porção de coisas. Vendia para as lojas, vendia para quem quisesse. Jamais dizia para um freguês que não tinha uma mercadoria. Se alguém lhe perguntasse se ele tinha cabeça de bacalhau, ele diria na hora: “Eu não tenho, mas, eu arrumo para você.” Se o freguês quisesse um navio, ele dizia: “Eu não tenho, mas, eu arrumo para você. Certa vez, lá em Bambuí, o dono de uma loja para deixá-lo encabulado, lhe perguntou se ele sabia onde se vendia rã enlatada e ele no ato respondeu: “Eu não sei, mas, eu arrumo para você.” Se, por acaso, ouvisse alguém falar que estava procurando alguma coisa para comprar ele entrava na conversa na hora: Eu não tenho, mas, eu arrumo para você. Era sempre assim.

Toninho da Zuza era de bom corpo, magro, tinha bigode fino, cabelo duro, morenão, pescoço curto, bons dentes que exaltavam uma boca grande e beiçuda, além de um nariz próprio para cheirar um bom pedaço do mundo. Estava sempre cobrindo a meia-calva com um boné tipo italiano.

Era metido a conquistador, aliás, metido não.  Era, realmente, um grande conquistador porque sabia lidar com as mulheres, principalmente, com as prostitutas. Especialista na gigolotagem, não tomava dinheiro delas, contudo, ficava uma semana comendo e bebendo do bom e do melhor as suas custas. A mulherada safada o amava porque ele era um produto do meio.  Sempre quando chegava, dava um sabonete, ou um batom, para cada uma. Parecia ser muito asseado. Dormia em meio a elas e dizia que amava a todas. Além disso, elas sentiam nele um suporte, pois, era um consultor disponível para elas a qualquer momento, quando estava em Candeias. Assim, como em Candeias deveria ser o seu comportamento, também, em outras cidades. Era um bom vendedor e gostava de falar ao pé da letra. Tinha um carisma impressionante e não havia quem não gostasse dele. Dava-se muito bem com as prostitutas porque, segundo ele, nasceu naquele meio pelas bandas de Divinópolis. Dizia, abertamente, que a sua mãe fora uma prostituta de cabaré o que o fazia ainda mais querido pelas profissionais do sexo.

Em Candeias, Pedro Pitanga o detestava.  Dizia que ele era um gigolô barato e que explorava as mulheres. Pedro falava isso como se ele, também, não fosse um explorador de mulheres, coisa normal para todo dono de prostíbulo. Contudo a antipatia de Pedro era  devido o Toninho ser muito querido pelas mulheres que ele escravizava no seu conventilho, as quais Toninho sempre defendia.


 Certa vez lhe perguntaram: Afinal, quem é Zuza? E ele disse que Zuza era sua mãe. E acrescentou: minha mãe se chamava Maria, mas Zuza 69 era o seu nome de guerra. Esse 69 referia-se ao fato de ter sido ela a primeira mulher a lançar um jeito diferente de fazer amor no meio do mulheril de Divinópolis. (Durma-se com um barulho desses). E se alguém lhe perguntava pelo pai, ele respondia: “Sou híbrido.”

Um dia, uma dessas mulheres no alto de sua ignorância lhe ofereceu hospedagem para caso quisesse ele trazer o seu pai: Sô Híbrido. Foi quando ele disse: Eu nunca tive pai. Não é sô híbrido, é eu sou híbrido. Isso quer dizer que eu não sei quem foi meu pai. Eu nasci de uma noitada da mamãe.

Depois dessa resposta, após um minuto de silêncio, Dita do Amaro, uma meretriz decaída que vivia quase sempre sobre o efeito do álcool,  faz uma pergunta:

---Óia aqui, Tuninho! Ocê num qué me insiná a fazê esse trem chamado 69, não?

E ele, calmamente, medindo as palavras, disse:

---Olha, Dita! Eu posso lhe dar uma orientação, contudo, acredito que você não vai encontrar alguém disposto a fazer essa transa. Você com esse hálito fétido de bebida alcoólica, com o corpo transpirando odores indesejáveis, você, querida, quase não se banha... Acho que voce não tem perfil para prestar esse serviço. O seu desempenho profissional não dá para 69. Suponho que você deve se ater em outros atos menos exigentes.


Foi quando Dita respondeu:

---Ô Tuninho, fala direito sô, eu num intindi nada que ocê falô! Que trem cumpricado esse tal de 69, uai. Que coisa mais isquisita!

Quem ler isso pensa que é mentira, mas na vida tem de tudo... O que para muitos é uma coisa normal, para outros é o fim do mundo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos






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