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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A CARTEIRA PERDIDA.

Eu tinha dezesseis anos de idade quando fui ser cobrador em uma jardineira velha de propriedade do Zé do Anjo a qual fazia a linha Candeias a Oliveira, via São Francisco de Paula. Candeias não tinha, nesse tempo, uma estação rodoviária. Apenas um ponto de ônibus à porta do bar do Raimundo do Antero e sua mulher Luzia do Vico Teixeira. O Bar e Restaurante Rodoviário, era estabelecido numa velha casa edificada onde, atualmente, se encontra um lote vago nas proximidades do Foto Freire, na Avenida 17 de Dezembro.

O veículo transportava poucos passageiros. Partia às seis horas da manhã e retornava às quatro da tarde. Ao término do trajeto, era minha tarefa dar uma limpeza no carro e prepará-lo para o dia seguinte.

Certo dia, quando executava esse trabalho, me deparara com uma carteira de dinheiro abaixo de uma poltrona. Ao abri-la e verificar o seu conteúdo, vi uma cédula de identidade em nome de José Messias da Silva além da importância avultada de uns quinhentos reais comparando-se ao dinheiro de hoje. Para se ter uma ideia, eu ganhava por mês à importância de meio salário mínimo, fazendo um paralelo, também, com a moeda corrente atual.

Eu que nunca sentira a emoção de achar uma carteira e sabendo que um encontro dessa natureza era então, tido como um fato de sorte para quem acha e de azar para quem perde, fiquei trêmulo e, consequentemente, preocupado. Mas, não com o que acabara de encontrar e sim com a aflição que deveria estar sentindo a pessoa que a tivesse perdido. Imediatamente, levei o objeto ao patrão que, após conferi-lo e anotar o conteúdo, disse-me: "guarde-o durante trinta dias, se não aparecer o dono, fique com ela para você." Aquela resposta mexeu com todas as minhas entranhas. Contudo, é claro que o patrão sabia que alguém a procuraria e, com certeza, aproveitou para apalpar a minha honestidade.

Naquela noite, eu não dormi. Pensava na hipótese de não aparecer o dono do dinheiro durante os trinta dias, após os quais, eu dele tomaria posse. Isso representava mais de dois meses de trabalho. Eu poderia comprar muitas roupas e alimentar a minha vaidade de adolescente. Comer do bom e do melhor na rodoviária de Oliveira em que vendiam diversas guloseimas, principalmente, um tipo de casadinho delicioso que era um biscoito da minha maior preferência. E esse prazer só me era dado uma vez por mês no dia do pagamento para atender a ânsia alimentar dos meus dezesseis anos.

Os mais variados pensamentos começaram a atrofiar os meus neurônios e, no outro dia, ao partir em viagem, já fui pensando quem seria o dono desta carteira que ia bem acomodada no bolso da minha blusa. E os pensamentos continuavam e eu já não sabia o que pensar se pensava bem ou se pensava mal. A minha consciência, talvez, fosse me condenar no caso daquele dinheiro ser convertido a meu favor. Seria um lucro em detrimento do azar de outrem. Eu, no auge dos meus dezesseis anos, passava por uma das maiores emoções de um menino pobre.

E assim foi até que a velha jardineira chegou à pequena cidade de São Francisco de Paula. E logo ao descer do pequeno ônibus, defrontei-me com um cidadão magro, vergado e meio giboso, meio careca, olhos fundos e rosto meio barbado; contando mais ou menos uns sessenta anos com um tipo de tosse nervosa que me fez pensar tratar-se de um incômodo pela perda da carteira:

---Por acaso, o senhor achou uma carteira dentro da jardineira? Perguntou-me

---Sim! Aqui está...

Entreguei-lhe o objeto como que sentindo um alívio. Contudo, aquele homem que sequer se apresentou e que, após conferir o conteúdo, virou as costas sem ao menos agradecer-me com um simples obrigado. Aquilo me deixou desapontado porque eu quisera que a minha honestidade fosse ressalvada. Não haveria a necessidade de me gratificar, entretanto, pelo menos, me agradecer. Afinal, a jardineira no itinerário Oliveira / São Francisco de Paula andava lotada e poderia ter sido a carteira, encontrada por outra pessoa. O meu encontro com aquele objeto valioso não teria sido testemunhado. Acho que pelo menos um agradecimento eu merecia.

Dias depois, quando viajava um conhecido passageiro, dono de uma pequena farmácia daquele lugar, disse-me que o perdedor da carteira teria dito a populares que na negativa de encontrar a sua carteira, por meu intermédio, procuraria a polícia para me denunciar. Isso bateu em meus ouvidos como uma violenta tapa de mão aberta.

Em outro fato, muitos anos depois, quando eu aguardava um ônibus em um quiosque, às margens da BR 262, no município de Moema/MG, avistei atrás do quiosque um monte de merda e, ao seu lado, uma empanturrada carteira de dinheiro. Morrendo de nojo, aproximei-me e apanhei o objeto com diversos cheques, várias cédulas de dinheiro, um talão de cheques do Banco Mercantil do Brasil, documento de identidade e cartões de crédito do Banco do Brasil. Ao chegar a minha casa, apressei-me em descobrir o endereço do perdedor, através das agências bancárias de Belo Horizonte. E, para isso, gastei com telefonemas interurbanos, com frete postal e mais o tempo que perdi. E o cidadão que atendia pelo nome de Tolentino de Almeida Ferreira sequer teve a coragem de me telefonar para dizer: Obrigado Armando...

Na segunda feira passada último dia do ano de 2012, estando na cidade de Lagoa da Prata, eu me preparava para ir ao Banco Itaú sacar algum dinheiro para me abastecer na noite de 31 de dezembro junto de minha família, no sentido de buscar receber uma suposta influência misteriosa que emanaria dos astros e das coisas que tentam explicar aos nossos corações um tipo de energia, às vezes, inexplicáveis nessas datas de mudanças.

Ao passar em frente à casa lotérica, consultei a carteira e vi que ainda tinha uma quantia em dinheiro para participar do sorteio da mega da virada, sobrando-me poucos reais disponíveis. Com o advento do cartão de crédito/débito tornou-se desnecessário portar grandes importâncias em dinheiro na carteira. Por ali, me encontrei com alguns amigos, assentei-me na praça, entrei e sai do carro e ao chegar à referida agência bancária, dei pela falta de minha carteira contendo documentos, cartões de crédito e folha de cheque em branco.

E como a situação requer uma ocorrência policial, fui questionado onde eu teria perdido o objeto, o que seria muito fácil se eu soubesse. Tomei as providências junto ao Banco, no sentido de sustar quaisquer pagamentos indevidos.

Quem já perdeu algum dia, uma bolsa de documentos, naturalmente, saberá o que senti diante do ocorrido.

Hoje, dia 02 de janeiro de 2013, um ano dentro de dois dias, esta carteira chega as minhas mãos, através do Banco, enviada por um anônimo sem os poucos reais e com um bilhete:

“Toma a sua carteira seu filho da puta. Vê se da próxima vez perca algum dinheiro seu pobretão duma figa.”

A vida é uma escola que, por muitas vezes, nos ensina lições dolorosas.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos                        

2 comentários:

Celle disse...

A VIDA É ASSIM MESMO!
MAS VAMOS NOS NIVELAR POR CIMA E NÃO POR BAIXO COMO TEM ACONTECIDO COM NOSSAS AUTORIDADES. NÃO PODEMOS DESISTIR DE DEIXAR UM MUNDO MELHOR PARA NOSSOS FILHOS!
CELLE

Marta Luiz de Almeida Almeida disse...

pois é Armando..se voce nao tivesse devolvido as carteiras que achou, a sua jamais seria , mas paciencia.. nem todo mundo é honesto ,outro dia minha filha perdeu a carteira num onibus(aqui em Sao Paulo ) e o motorista muito gentilmente a devolveu.Ainda existe gente honesta. Abraços.