Total de visualizações de página

sábado, 12 de janeiro de 2013

O REI DE UM OLHO SÓ.

Foto apenas para ilustração do texto.
Vadinho da Sota era um grande amigo meu. Gordo, estatura mediana, nariz e boca delicados, queixo redondo engastado entre a boca e as papadas balangantes. Estava sempre mascando um dente do lado esquerdo da boca. Tinha uma barba rala, o cabelo liso e olhos miúdos. Aliás, com um rosto tão modulado em banha não poderiam os seus traços serem exagerados, pois deixaria de ser o Vadinho para ser o Vadão. Seu corpo não tinha curvas e parecia ter sido moldado em um colchão amarrado. Era em tudo exagerado.

O seu porte lhe deu a ventura de ser, por muitos anos, o Rei Momo do carnaval candeense. E assim ele bebia e comia à vontade, sem pagar um tostão. Lembro-me de vê-lo balançando aquela enorme pança no meio do salão no carnaval, tanto à noite como nas matinês. Era jovem e resistente. O seu porte grassento não atrapalhava o seu desempenho como Rei Momo nos quatro dias de carnaval. Contudo, o seu apetite voraz acabava com a reserva das bebidas Martine e Cinzano, duas marcas de vermute muito conhecidas como bebida de mulher pelo baixo teor alcoólico. Todavia, o Vadinho tomava diversas copadas daqueles tragos que eram somente aperitivos. Quase meava o estoque de empadas da Tereza do Candinho, aliás, deliciosas empadas feitas de galo. Quando me lembro delas, minha boca enche d’água. Eram vendidas nas noites de baile no clube.

João de Souza Filho tinha um cargo quase que vitalício como presidente do Clube Recreativo Candeense. Todo ano, pensava em arrumar outro Rei Momo dado ao alto custo do Vadinho. Contudo, ele era insuperável para animar uma festa. Aí, acabava ficando com ele mesmo. Comia e bebia demais e o rei do carnaval, como norma, não pagava nada. Tratava-se de um verdadeiro glutão. Entretanto, o fato é que não havia outro igual. Depois que enchia a pança de vermute e empadas, aí é que ficava mais animado. E se acabassem os comes e bebes, reclamava bravo: “Poxa, mas, que pobreza, gente!”.

Jamais a cidade teve um Rei Momo tão animado tal qual o Vadinho da Sota.

Mentiroso assim eu nunca vi igual! Todavia, eu gostava de ouvir as suas mentiras. Eram mentiras inofensivas. Certa vez, ele me disse que teria beijado, maliciosamente, uma professora. Mas, nunca me disse quem foi essa professora colocando, dessa maneira, todas as docentes em suspeição. Beijar uma professora, naquele tempo, não era tomar mel, era comer a própria abelha.

Como a maioria das pessoas gordas, Vadinho da Sota era um cara camarada, bom de prosa e humilde. Fez de tudo na vida. Foi sapateiro, servente de pedreiro, pedreiro meia-colher, cavouqueiro de pedreira e outras profissões, porém, nem assim emagrecia. Parecia que engordava até mesmo tomando água.

Casou-se mais tarde com uma moça da cidade de Formiga. Não teve pressa para isso, pois lhe faltavam condições. Daí em diante, formou a sua família.

Depois de muita peleja na vida, foi trabalhar com o seu irmão dentista, Dr. Osmar Soares Alves, cuja história está registrada neste blog: Candeias Casos e acasos - A boca e a Vagina.

Desde então, parece que as coisas melhoraram para o Vadinho. Tomou noções de odontologia e saiu trabalhando pelas roças de outros municípios porque no município de Candeias era perseguido.

Como dentista magarefe conseguiu fazer o seu pezinho de meia. Terminou os seus dias morando na Rua Nicodemos Salviano, esquina com o Cemitério São Francisco.

Assim era o meu amigo Vadinho.

Certo dia, me convidou para ir com ele visitar o seu gabinete de trabalho nas proximidades da estação ferroviária dos Paneleiros, uma comunidade que fica abaixo de Bugios, já no município de Formiga, onde ele atendia em dois dias da semana. Assim, fomos juntos. Naquele tempo, em que havia trem de passageiro, tomamos o noturno, ao amanhecer do dia, levamos o rango e anzóis para pescar em uma lagoa nas proximidades.

Finalmente, chegamos ao fim da linha. Era uma casinha, tipo tapera, com três cômodos nas proximidades da estação do trem. Ganhara aquilo emprestado de um fazendeiro e ele mesmo foi quem deu uma barreada para melhorar o ambiente. Da sala ele fez a salinha de espera; do quarto, o gabinete e a cozinha foi uma cozinha mesmo. E para dormir, tomava pousada oferecida pelo agente da estação, um rapaz solteiro e que tinha em seu apartamento, anexo à estação, um quarto vago.

Eu que tenho sérios traumas e medo de dentistas, tão logo bati os olhos na clínica do meu amigo, me senti asfixiado e me bateu uma vontade danada de voltar, imediatamente, para a minha casa. O ambiente era o retrato do desespero. A sala de espera consistia, unicamente, em um banco grosseiro. O gabinete tinha uma cadeira de dentista daquelas mais antigas do mundo (poderia ter sido usada pelo mártir da inconfidência). Os petrechos ficavam em um tabuleiro de assar biscoitos sobre uma mesinha tosca. Lembro-me do seu boticão que parecia um verdadeiro alicate de ferrar cavalos. Os vidros, talvez com algum tipo de medicamento ou material de dentista, estavam em uma caixa de madeira pregada na parede e, em um canto, uma bacia pequena com um jarro esmaltado cheio d’água para abluções.

Eu não podia falar nada, contudo, podia pensar o que bem quisesse. E pensei. Como aquela gente tinha coragem de assentar em uma cadeira daquelas e deixar o Vadinho mexer em suas bocas? Como aquela gente não temia ficar sem a língua, sem os dentes ou ficar sangrando até à morte? E por um risco daqueles, ainda pagavam! Ele que já havia trabalhado em pedreiras, mexendo ali com dentes, obturações, etc. Era, com toda a certeza, uma total incompatibilidade artesanal. Os clientes que apareceram, naquele dia, foram atendidos e saíam todos cuspindo sangue como se tivessem tomado um murro na boca e levavam, ainda na mão, um comprimido de Cibazol. Era um medicamento que baixava a pressão e que, inclusive, teve proibida a sua comercialização. Vadinho o indicava e o fornecia junto ao tratamento por ser, naquela época, o mais barato.

Levavam-lhe presentes. Vadinho só pensava em comida e sempre dava na cangalha para o burro entender, ou seja, sabia o que era fácil nas fazendas e dizia gostar muito disso, daquilo (aliás, ele não utilizava o verbo gostar) Ele dizia adoro isso. Adorava comer. Portanto, estava sempre ganhando algo de sua clientela. Alguns o chamavam de doutor e ele ficava todo inchado e, assim, me dizia:

---Veja, Armando!? Na terra de cego, quem tem um olho é rei. Aqui, eu sou até doutor...

Pousamos no quarto de hóspede do agente da estação e pela manhã, tão logo tomamos o café, fomos para o gabinete. Aquilo para mim não passava de um fundo de martírio. Ali, já o esperava uma senhora gorda, da sua confraria, e que se queixava de uma tremenda dor de dentes e demonstrava isso devido ao grande inchaço do seu rosto. Vadinho, para ficar mais bonitinho, mais chique, colocou um avental branco, lembrando um autêntico pai de santo, começou a examinar a boca da infeliz.

---Olha, Dona Maria! O seu caso é extração, não tem outro jeito.

---E o que é tração, Sô Vadinho?

---Teremos que arrancar o seu dente.

---Pode rancá.

---Mas, a anestesia não pega com o rosto tão inchado, Dona Maria!

---Intão, comé qui eu faço?

---Acredito que vai doer muito...

---Mais do que já tá?

---Um pouco mais.

---Num tem portança, não, a dor tá dimais...

E o Vadinho pegando o boticão, deu-lhe uma desinfetada com álcool frio e já foi enfiando aquilo na boca da mulher que, de repente, soltou um grito e logo começou a vomitar. Queira Deus, não estivesse fazendo outras coisas que nem consegui ver.

E o meu amigo Rei de um olho só, desesperado e todo labreado, olha para mim e pergunta:

---O que é que eu faço, Armando?!

E eu, muito mais apavorado, respondo:

__Eeu sei lá, Vadinho???!!!

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.









Nenhum comentário: