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quinta-feira, 1 de março de 2012

A PERUCA DO CAPADOR DE PORCOS.


                                               
Em Candeias, antigamente, no tempo em que não existia a lei que proíbe criar porco na cidade, diversas casas mantinham um chiqueiro de porcos em seus quintais. Alguns faziam chiqueiros bem feitos: cimentados com cocho de cimento e coberta para o animal. O lugar era lavado diariamente e, mesmo assim, ainda exalava o cheiro bastante desagradável. 

Mas havia aqueles que não tinham tanto cuidado. Faziam chiqueiros toscos, com casqueiro de madeira, ou seja, aquelas tábuas serradas em primeiro lugar e que vêm acompanhadas da casca da árvore sem cimentação, onde o animal fuçava provocando lama, com um cocho rústico de madeira ou, às vezes, em uma improvisação de pneu de caminhão. 

Isso era terrível! Essa lambança proporcionava uma criação de moscas e um odor fétido de tirar o apetite de qualquer glutão. Eram muitas reclamações, todavia, como não existiam leis ou, se existiam não se faziam cumprir, o vizinho que não gostasse desse tipo de coisa sofria. Muitos vizinhos se tornavam inimigos por causa disso.

Havia um hábito de ajuntar lavagem para o fulano e, quando esse matava o porco, ganhava um pedaço do bicho. Caso o pedaço não fosse bom, o fornecedor de lavagem ficava tiririca da vida.

Outra forma de alimentar os porcos era com soro da fábrica de manteiga do Bonaccorsi, acrescentado de farelo de arroz comprado junto às máquinas que beneficiavam esse grão. Como, nesse tempo, Candeias era autossuficiente na produção de arroz, as máquinas que limpavam esse grão trabalhavam dia e noite. O porco das pessoas mais pobres quase não via milho. Acontecia muito de a gente ouvir porco chorando de fome. Coisa que os jovens de hoje nem sabem disso. E quem nunca viu, não queria ver é um choro triste.

Muitos engordavam um capado em sociedade. Isso aí costumava dar briga na hora de partir o bicho. Aquele que o sediava se via no direito de algo a mais e costumava  “passar a perna” no sócio.

O porco precisa ser castrado quando ainda novo porque, ao engordar, a sua carne e, principalmente, a sua gordura ficam com um odor muito desagradável e um sabor bem prejudicado. A castração, em grande escala, é feita através da aplicação de hormônios que impede as funções das glândulas reprodutivas. Já em um porquinho aqui e em outro acolá é feita a castração escrotal. O método consiste em extirpar os testículos do animal que guincha desesperado, chamando atenção de todo mundo. A primeira vez que eu vi isso, eu fiquei tão horrorizado que senti que o corte era em mim.

Eu vi isso quando ainda menino, no quintal da casa de meu tio, João Delminda. Era um leitãozinho pequeno, da raça “Carunchinho” e para fazer aquela maldade foi chamado o Zé Capador. Diziam ser ele o mais famoso “capadô de porco das Candeia”

Se o leitão era roncolho, ninguém arriscava outro castrador porque operar um porco, com apenas um testículo, é muito difícil e Zé Capador era, realmente, o melhor. Nunca, até então, um animal teria morrido depois de sua castração.

Baixinho, cara redonda e orelhas de abano. Parecia um coelho. Tinha um mascado com a dentadura que dava a impressão de que estava procurando uma semente de goiaba no buraco do dente. Se se recebia um elogio, ria e se ria, dava pra ver a vermelhidão da sua úvula palatina em contraste com o céu da sua dentadura.

 Entretanto, o que mais chamava a atenção no seu porte, era o cabelo. Tinha uma calva que se estendia quase até a nuca. O maior atrativo para os pensamentos íntimos de quem o via, era a sua cabeleira. Esta agasalhava a careca de forma precária, contudo, deixando sobrar uma franja em um ridículo contraste com os cabelos naturais e grisalhos que rodeavam a cabeça. Era uma cabeleira caseira, talvez, feita por ele mesmo ou, então, aproveitada de algum boneco de manequim jogado fora. Suas roupas, apesar de simples, eram impecáveis. 

Em síntese, era um homem, extremamente, vaidoso. Chegava trazendo a sua faca que ele dizia ser especial e própria para o que chamava de “capamento”, um vidro de desinfetante, uma agulha e linha. Primeiro, contava uma historinha de sua vida de capador e, depois, se postava como o Dr. Zerbini em uma sala de cirurgia e, ainda, se esnobava:

--- Nunca matei um roncôio no “capamento”!

Certo dia, Zé Capador descia a Rua Coronel João Afonso e, ao passar debaixo de um pé de beijo que existia à porta da casa de Dona Marica da Melada, não viu um galho pendente no qual a sua cabeleira ficou agarrada. Isso aconteceu às vistas de Dona Marica e algumas amigas suas que estavam próximas conversando. Todavia, ele continuou andando como se não tivesse acontecido nada. Eu, como sempre, vigilante assisti a ocorrência e gritei atrás dele:

O cabelo do sinhor ficou agarrado! E Zé Capador, com aquele olhar de ódio, contestando o óbvio, disse:

---Que isso minino?! Cê ficô doido!? Aquilo lá nunca foi  meu não!

É, mas acontece que, no outro domingo, eu fui à missa e o vi com uma cabeleira bem diferente e ela tinha os fios de cabelos meio loiros. Afinal, no caso dele, acredito que qualquer cabelo servia.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

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