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quinta-feira, 8 de março de 2012

UM DIA DE CÃO

Foto apenas para ilustração
Quando se trata de emagrecer ou fazer dieta, o cérebro do cristão vira uma tempestade. Não existe coisa mais chata do que fazer regime alimentar e ficar à espera do emagrecimento. Toda vez que penso nisso, chega a ser quase que um martírio. A cabeça do ser humano é muito complicada. Quando eu contava com os meus dezoito anos, tinha uma grande vontade de ser gordo. Comia, comia e, quanto mais comia, mais magro ficava. Quando eu comecei a me entender com a minha magreza, entrei na onda de ser gordo. Agora, não posso ter preguiça de andar, preciso passar fome e, ainda, ser alvo de comentários aborrecíveis.

Na fábula, o lobo e o cão, Esopo conta:

---Amigo cão -- pergunta o lobo faminto e magro – que te fazes pra viver tão gordo?

---É a vida boa que eu levo, --- respondeu-lhe o cachorro. ---Eu sou o guardião da casa do meu senhor. Ele dá-me os ossos que sobram da sua mesa e os seus criados vigiam-me com cuidado para que eu possa dormir de dia e ficar acordado à noite.

---E que sinal é esse no teu pescoço, amigo cão?

---Isto é a marca da minha coleira. Eu fico preso na corrente para ser olhado com mais cuidado.

E o lobo, magro e faminto saiu dizendo que preferia ser magro e livre, a ser gordo e preso.

Estou fazendo dieta. O excesso de peso me incomoda. Ficar sem beber uma cerveja, um refrigerante, é um grande sacrifício. Deixar de comer a vontade o meu feijão com arroz, o meu bife mal passado, o meu churrasco dois pelos, é como que um castigo. Ficar andando sem destino! Eu não sei como existem pessoas que dizem gostar de fazer caminhada! Isso para mim é um tremendo... Bem, afinal eu tenho que me submeter a tudo isso. Enfim, é uma questão de razão. Eu devo fazer esse sacrifício.

Primeiro dia de caminhada. Ao passar em uma das ruas do meu mapa que fora cuidadosamente traçado, passo defronte à casa de um amigo meu assentado em um banco à sua porta. Como há tempos eu não o via, não me foi possível evitar uma parada. O Pedro mais parecia um Buda gigante, todo esparramado. Suponho que oitenta por cento do seu corpo foi tomado pela barriga que parecia um fole de ferraria. As pernas abertas. Camisa de fora das calças. Ponta da língua fora da boca e respiração ofegante. Contudo, sorridente como sempre.

---Olá Pedro, como vai?

---Bão e gordo!

---Você está gordinho mesmo!

---Gordinho não. Eu tô gordão! --- E riu gostoso.

---Você, então, gosta de ser gordo?

---Num é que eu gosto. É qui eu fico muito preso e preso come muito.

---Você já tentou fazer dieta?

---Num dô conta não. Nem penso nisso. Cumê é bão dimais, Armando!

---E você come muito? ---Perguntei.

---Uma latinha dessas de doce eu abro ela e logo, logo, meia vai imbora. Ovo é meia dúzia frito cum farinha. Pão de queijo uns cinco cum carne. Cedo é meio bolo. Carne eu gosto é bem mantegosa. Gosto de cumê até iscorrê mantega no canto da boca. Uma custela de boi assada e um pedaço de toicinho de barriga, ah, num tem coisa mió não. Frango tá teno qui sê dois. Um vai quais só pra mim. Agora, o que me ingorda é o arrôis. Esse é qui é danado. Eu como quais uma caçarola de arrôis duma veis. É o qui tá me engordano. Mais eu num dô conta de dexá de cumê não. Quero morrê de barriga cheia...

---E você não sente nada?

---Sinto umas parpitação. Eu até tô quereno ir no médico mais é que a gente chega lá e ele inventa tanto remédio que eu até vô dexano.

---Você não tem medo?

---Medo de quê? De cumê? (Riu satisfeito) Eu num tenho medo nem de morrê qui dirá de cumê? Um dia eu iscutei, num sei quem falá, qui a baleia só bebe água e come peixe e é gordona. Ah! Tamém quando eu morrê de todo jeito eu vou virá ossada memo. Tá bão! O maió disajeito é quando vô no banheiro. Aí a patroa tem que me ajudá!

---Ajudar? Como assim?

---Eu num dô conta de limpá não...

---Quer dizer que...

---É ela que me limpa!

---Ela que limpa você!?

E eu depois disso, saí assustado, andando feito um louco e naquela ânsia de emagrecer fui pensando sem parar. Pensava em aprender a passar fome, em ficar um ano sem comer. EU PRECISO!!! Preciso me acudir, enquanto há tempo. Perto do Pedro, eu estou magro! Afinal, eu quero é ser livre como um lobo e não quero ficar preso às minhas banhas, como preso fica o cão na corrente.

À frente, encontro-me com uma antiga vizinha sorridente e diz:

---Olá, Sr. Armando! Andando para se emagrecer? Isso é bobagem. Gente velha cansa as pernas e a barriga continua. Meu pai nunca andou, nunca fez nada. Viveu 96 anos. Vou falar para o senhor: andar para emagrecer é querer ir para o céu sem morrer. Eu tenho um primo que é carteiro. Ele anda o dia inteiro e está gordo feito um balão.

---Bem, só que eu faço dieta, também, Dona Lia!

---Poupando a boca, Sr. Armando? Não faça isso não! Cuidado com a anemia. O senhor gordo está bonito. Larga disso!

E nessa confusão mental, vem em mim a vontade de falar um nome bem feio, daqueles bem cabeludos, tipo pedra 90. Um palavrão que esvazia a gente por dentro de uma só vez. Porém, acabou ficando apenas na vontade. Só em pensar, eu devo ter perdido mais de mil calorias.

Gordo! Gordo! Saber que um dia eu fui magro e pensei que ser gordo era bom. O tempo é que era bom. Eu pensava e não sabia o que pensava.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.


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