Total de visualizações de página

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O RONCO DO DEFUNTO

                                       
   Eu fui criado dentro de um conceito religioso próximo do rigoroso. Se não participasse da missa aos domingos, não poderia sair de casa. Se não fosse ao catecismo ministrado pela Maria Brasileira, neta do Padre Américo, não poderia ir à matinê do cinema.

Com um ano de idade, minha avó materna, Olinda Gomide, me colocou na irmandade de Santo Antonio. Eu guardo com muito carinho uma grande medalha de alumínio, com dizeres em latim, presa numa fita marrom. Na hora do meu aperto, seja ele qual for, sempre recorro ao meu Santo Antonio que, pelos muitos anos de convivência, já pude tomar a liberdade de chamá-lo de Toinzinho. Ele é o meu irmão mais velho numa alusão que faço à forma que minha avó sempre falava: “Você, meu filho, é irmão de Santo Antonio desde que tinha um ano de idade...” Portanto, quando ainda criança, assumi um compromisso com Santo Antônio: Todas as primeiras terças feiras do mês, distribuir alguns pães para os pobres. Faço isso há sessenta anos desde quando eu era, ainda, bem criança.

Mas, não foi por aí que, em mim, estabeleceu-se o conceito religioso. Foi uma ação convertida em obras que me fez sentir mais próximo de Deus.
O meu outro irmão é São Vicente de Paula. Meu avô, João José de Castro (Delminda), me colocou na irmandade, a chamada Conferência, quando eu tinha oito anos. Aos domingos, havia a reunião dos irmãos de São Vicente, na Igreja do Senhor Bom Jesus. E eu era o encarregado de correr a sacola entre os irmãos. Meu avô sempre me dava uma moedinha para que eu, também, participasse daquela coleta.

Durante anos, participo das atividades da Conferência, como confrade. O meu compromisso com São Vicente de Paula nunca foi embaraçado. Mesmo ao mudar de cidade, sempre me procurei estar presente.

Eu acho que ter uma religião é ter uma fé bem administrada. E a fé só é bem praticada diante do sentimento da caridade. A fé sem obras é morta disse São Tiago, em 2-14,22. Infelizmente, não é de hoje que as religiões se escondem por detrás da caridade para fazer o seu pé de meia. As religiões organizadas estão, a cada dia, explorando mais as pessoas de boa fé. Já não se fazem mais samaritanos como antigamente (Lucas 10,25 a 37). Daqueles que não fogem do caminho. Levitas e sacerdotes continuam a passar de largo para o outro lado da estrada caso encontrem algum necessitado de caridade pela frente. A maioria das pessoas faz caridade sem ser caridoso. Dão com uma mão, mas, não escondem a outra. Muitos prometem a Deus alguma coisa esperando a recompensa. Outros já querem dinheiro em troca de blábláblá. Ao invés de dar, tomam. Como é o caso desses evangélicos que dão dez por cento de sua renda em troca de um pouco de alimento para a sua alma. Mas, sequer se lembram de dar um simples sorriso para um próximo necessitado.

Antes dessas aposentadorias, atualmente existentes, a pobreza ardia. A Vila Vicentina de Candeias vivia de parcos recursos. Suas instalações eram precárias. A miséria levedava ali, naquele canto da cidade. A situação dos idosos era lastimável. Nos dias atuais, essa instituição dá um tratamento digno ao necessitado, mas antigamente, a coisa era feia. O cristão trabalhava a vida inteira e quando não tinha mais forças para tal e nem algum parente para acolhê-lo, era entregue para a Vila Vicentina onde terminava os seus dias na mais completa miséria. Não porque a Vila fosse omissa, absolutamente, mas pela falta de recursos. A procura era maior do que a oferta. E é por isso que, até hoje, existe certo preconceito sobre levar alguém para a Vila apesar das melhoras vividas hoje, naquela casa.

A Sociedade não tinha ajuda governamental. E podia contar, apenas, com a ajuda da comunidade. A maioria das pessoas que ajudava era pobre também. Comumente, as pessoas faziam promessa de dar algo para os pobres. O que, a bem da verdade, não era uma caridade, era um negócio feito com a sua própria fé. Os fazendeiros forneciam alguma coisa, quase sempre um pouco de feijão com arroz. Isso, naturalmente, porque se viam comprometidos, moralmente, com a instituição pelos pobres, ex-empregados, ali entregue.

Parte da população dava uma ínfima contribuição, pouco representativa, para completar o sustento daquela casa na qual faltava uma alimentação substanciosa, médicos, remédios etc. Muitos ali morriam à míngua.

Foi nesse tempo em que eu convivi com um dos candeenses mais caridosos da nossa cidade: Alvino Ferreira.

A Rua Coronel João Afonso terminava onde está localizada a Igreja do Rosário. Dali para baixo era a estrada cercada de mato e à beira da estrada, antes de chegar até a ponte do Bairro Rio Branco, existiam diversas moitas de bambu. Um pouco antes da ponte, à direita de quem vai, tinha um pequeno barraco. Ali morava um cidadão idoso, chamado Sebastião. Muito maltratado pela vida. Ele mesmo fazia a sua comida. Lavava a sua roupa. Fazia os seus chás. Os confrades que o visitavam pouco podiam fazer a não ser levar algo para a sua subsistência. A casa não tinha água encanada, longe disso. A água tinha que ser apanhada no córrego, junto à ponte, onde se ajuntavam muitas lavadeiras de roupas. Estas, comumente, iam até a casa do pobre mendigo, levavam água e limpavam. Enfim, aquele homem solitário teria sido um trabalhador, teria ficado viúvo, seus filhos foram embora para outras terras em busca de maiores recursos. E, naquele tempo, as pessoas iam e não sabiam quando voltavam e, muitas vezes, nunca mais voltavam e nem davam notícias.
Certo dia, uma lavadeira de roupas, chamada Alzira, ao adentrar a tapera para auxiliar o pobre velho, o encontrou morto. Com certeza, teria sofrido um infarto fulminante ou um derrame qualquer.

A Vila Vicentina fora acionada e, imediatamente, alguns membros avisados. Alvino Ferreira, então o responsável pela instituição, convocou-me, pela primeira vez, para auxiliá-lo a dar banho no morto. Não havia, nesse tempo, funerárias em Candeias e os mortos eram preparados em casa para serem enterrados.

Lembro-me como se fosse hoje. Alvino colocou um avental de vaqueta, doado pelo seleiro Joaquim Lopes, segurou o morto de pé sobre uma bacia enquanto eu, um pouco ressabiado, com uma bucha, fui esfregando o cadáver com sabão preto. Depois seria enxaguado com um regador.

Nessa mexida, o morto deu um roncado e eu levei o maior susto do mundo, e, nessa hora, “perninha pra que te quero!” Joguei o regador para um lado e sai correndo com medo. Eu era, ainda, um adolescente e não tinha a minha coragem amadurecida. Posteriormente, não tive mais medo após ter sido orientado pelo Alvino. O morto teve o seu cabelo cortado e barbeado para que fosse enterrado com dignidade. Alvino fazia isso com prazer, com alegria e nunca recebeu nada em troca desse trabalho.

À tona de minha memória, vem a miséria levada a efeito naquela pobre casa com que aquele pobre homem foi extinto, após longos anos de vida. Sem esposa, sem filhos e sem ninguém. Aí eu penso: a vida não vale nada se não confiarmos em Deus. Aquele infeliz não tinha nada para deixar, mas, poderia estar levando consigo muita coisa desta vida. Ou poderia estar, diante da desproporcionalidade social em que vivera, liquidando uma dívida feita sabe Deus onde, como dizem os espíritas!

A vida é de uma desigualdade patente e a morte é um mistério insondável. Ambas andam juntas, porém, em silêncio. As religiões usam delas fazendo incutir nas pessoas uma abstração religiosa. Parece que as religiões pensam que têm privilégio sobre o incognoscível. Religião nenhuma é sinônimo de caridade. A caridade, a meu ver, está dentro do coração de cada um de nós. E esta é a verdadeira religião porque é o fator principal para a Obra da Criação.




Armando Melo de Castro

Candeias – Minas Gerais

CRÔNICAS RELACIONADAS

O defunto abandonado.

Nenhum comentário: