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sexta-feira, 23 de maio de 2008

O LOUCO DA ALDEIA

Foto para ilustrar o texto.
Numa revirada nas profundezas da minha memória, lembro-me de quando jovem, fiz parte de um grupo teatral existente aqui em Candeias.O grupo era institucionalizado, pois teria sido criado o “Grêmio Teatral Monsenhor Castro”.

Faziam parte da diretoria os amigos: Antonio Macedo, Gabriel Carlos, João de Souza Filho e outros. A trupe era composta pelos dirigentes do grêmio e por artistas escolhidos por eles. Ao candidato observava-se o princípio básico para se tornar um componente do elenco; ou seja, preencher necessários requisitos para a apresentação de um bom espetáculo.

No meu tempo, além dos diretores do grupo, alguns dos participantes das diversas peças encenadas foram: Willian Ferreira, Luizinho Bonaccorsi, Cristóvão Teixeira, Titoco, José Delminda (meu pai) Maria Amélia (minha irmã) Lia Langsdoff, Darlene Alves, Ivanilda Vilella, Zé Mori, Claudete Freire, Maria Helena do Piruca, Wantuil de Castro e muitos outros além de maquiadores, contra-regras, sonoplastas, pontos etc.

Entre as diversas peças que encenamos estavam, “A Escrava Isaura, O Louco da Aldeia, Os transviados, Mater Dolorosa, A Rosa do Adro, etc.”. --- O diretor artístico era o Gabriel Carlos, que se vangloriava de ver o seu nome nos boletins como diretor.

No elenco de – O Louco na Aldeia – houve a participação do meu amigo Wanderley Alvarenga, o Ley Careta. Era ele um fabricante de cutelos e eu era o seu filho Aníbal, especialista na fabricação de punhais e teria sido aquele que fabricou um punhal por encomenda do Visconde da Ribeira Branca (João de Souza Filho). A esse pormenor deu-se a inquirição que desvendou um crime nesse grande dramalhão.

Mas manipulando os holofotes das minhas lembranças, vejo o palco do Cine Circulo Operário São José, onde os ensaios aconteciam as segundas, quartas e sextas feiras, quando havia uma peça para ser encenada. Da platéia os atores aguardavam para entrar em cena enquanto liam e reliam os seus papéis com o fito de decorá-los.

O meu amigo Ley Careta, que participava de apenas uma cena no primeiro ato, tinha uma memória notável. Ele foi capaz de decorar os papeis de todos os atores, apenas pelo fato de estar presente aos ensaios. Lembro-me que o protagonista desta peça era o Willian Ferreira, e o Ley conseguiu decorar o papel do Willian antes dele. Contudo, confidenciara-me que se por acaso o Willian viesse a ter algum impedimento, ele estaria preparado para substituí-lo. Queria um papel melhor ou maior. E como tinha facilidade em decorar, não teve problemas. Mas, seus agouros não funcionaram e ele foi mesmo o cuteleiro num papel sem destaque porque diziam que a sua imagem não era boa para teatro. 

Chegado o dia da estréia foi aquela festa. A renda era sempre convertida em favor das obras da Igreja Matriz e da Sociedade de São Vicente de Paula. Tínhamos total apoio do Monsenhor Joaquim de Castro, dono do cinema.

Dias antes, o Ley ficara conhecendo uma moça por nome Maria do Carmo, da cidade de Campo Belo. Ela estaria visitando Candeias, oportunidade em que o meu amigo paquerador entrou em ação, como sempre com a mesma postura; com as suas balinhas de hortelã para apurar o hálito; seus galanteios; seus passos sobre ovos e suas estrofes de métrica mal dotada como, por exemplo, esta que ele inspirou naquele momento de euforia: 

“Vinda de Campo Belo, Vou receber a Carminha. Eu um fabricante de cutelo, poderei fazê-la só minha”.

O Ley queria, porque queria mostrar para a moça a sua arte dramática... o seu talento de ator... o seu porte no proscênio diante de uma cena curta, onde levaria o filho ao vizinho para despedir-se às vésperas de ir para Portugal. Lembro-me com clareza da antevéspera. Eu o acompanhei até ao centro telefônico a fim de dar um telefonema à sua pretendida. O telefonema seria para a casa de um vizinho, que intermediaria a ligação.

Naquele tempo telefone em Candeias era a coisa mais complicada. Uma ligação era bastante demorada e a comunicação era muito ruim. A pessoa da cabine deixava vazar o som que espalhava pela rua e todo mundo tomava conhecimento do assunto tratado pelo telefonador. E para a casa de um vizinho necessário seriam duas ligações. Finalmente o Ley conseguiu falar com a moça. 

Confirmara o convite já lhe feito dias antes e naturalmente, em repetição, um rápido comentário a respeito do espetáculo: Disse-lhe que estaria ansioso em recebê-la como visita para assistir o grande espetáculo da peça intitulada: “O Louco da Aldeia” na qual ele seria um dos atores. Resumiu o seu papel dizendo que havia um punhal fabricado em sua cutelaria, cujo instrumento seria a arma do crime no suspense da peça. ---- Falava com todo entusiasmo como fosse ele o protagonista de uma novela da Rede Globo de Televisão. Tal entusiasmo deixou a telefonista em serviço ali, num estado de hilaridade.-----

Os atores tinham direito a dois ingressos. O Ley deu um para a sua mãe e o outro seria entregue à sua “esperada” quando essa chegasse. Ser-lhe-ia oferecida, também, a hospedagem em sua residência. O espetáculo estava marcado para as vinte horas. As sete a moça não havia chegado. Ele queria lhe entregar o ingresso. Recepciona-la como um dom-Juan, mas isso não lhe foi possível. As sete e trinta horas todos os atores deveriam estar apostos. E lá estava o meu amigo Ley, com o seu terninho branco, caprichosamente lavado pela Maria do Dondico; sapatos tão engraxados que brilhavam mais do que as luzes da ribalta e a gravatinha colorida cheia de pontos brancos e confeccionada especialmente para o evento. No entanto, levara um bolo; um bolão!

Ainda inconformado, mandou que alguém entregasse o outro ingresso à sua família. Mas não perdeu a esperança e ficou olhando pela fresta da cortina se a sua requestada teria vindo. Mas não a viu. Terminado o espetáculo, todos foram saindo felizes pelo sucesso. E o Ley ao adentrar-se no Bar do Sebastião Cassiano, posteriormente do Lulu, ao lado do cinema, deparou-se ali com a sua esperada  amada. Só que ela estava acompanhada de um jovem o qual lhe foi apresentado:

“Wanderley este é o meu namorado Murilo; Murilo este é o meu amigo Wanderley....”.
E o príncipe da moça logo diz: Eu sou o vizinho para onde você telefonou convidando a Carminha para o espetáculo. Não poderia deixar de vir ver... Gostei. Principalmente do seu papel... muito importante... Disse isso com certo desdém. O meu amigo Ley ali massacrado, judiado, humilhado, derrotado, irritado, diz: OBRIGADO! Muito obrigado!

Perdão meu amigo Ley se estou sempre falando de você. Acontece que a gente nunca esquece um bom amigo. Receba o meu abraço onde quer que você esteja.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos






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