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domingo, 14 de junho de 2009

UM CACHO DE BANANA MARMELO


A banana é realmente uma fruta injustiçada. Sabe-se que se trata de uma fruta deliciosa e bastante apreciada por crianças, jovens e velhos. Mas, nem por isso deixa de ser difamada. No sentido figurado a palavra banana representa uma pessoa frágil, mole, sem iniciativa, pobre e desconsolada. É tratada, também, como comida de macaco além de prestar como índice paralelo do preço de produto barato. Ontem mesmo ouvi alguém dizer que o feijão está pela hora da morte, enquanto o arroz, em comparação está a preço de banana.

Entre os diversos tipos de banana temos a maçã, a prata, nanica, roxa, ouro, marmelo e da terra, esta a única espécie nativa do Brasil e rara na nossa região.

Hoje eu pude ver um cacho de banana marmelo; ao vê-lo veio à tona do meu lago de lembranças, uma história que se encontrava lá no fundo da gaveta do meu cérebro, um fato de quando eu era, ainda, um garoto e presenciei uma desavença entre duas famílias por causa de um cacho de banana marmelo.

Eu tinha, nesse tempo, uns dez anos mais ou menos e morava na casa onde nasci, na Rua Coronel João Afonso e me encontrava num salão de barbeiro, próximo de minha casa, a fim de cortar o cabelo. O barbeiro era o Zé, filho da Dona Joana Gorda, cujo salão ficava junto da residência de sua mãe.

Dona Joana Gorda era viúva e teria vindo da zona rural, acomodando-se com seus quatro filhos, Maximiano, Zé Barbeiro, Maria e Tereza, numa pequena casa edificada pouco abaixo da minha, uns três lotes, mais ou menos, e divisava com o Henrique Sotero, morador de uma velha casa onde hoje está estabelecida a loja do Paulinho Vilela. Henrique era um velho mandalete do Monsenhor Joaquim de Castro. Um tipo extravagante que ficava soltando suas estrondosas ventosidades à porta de sua casa, com o fito de acanhar as pessoas e algazarrando a meninada. Era considerado o maior peidorreiro da cidade. 

A família de Joana gorda era barulhenta, falava alto, gostava de cantar e por cima era briguenta, principalmente a filha mais nova, a Tereza; esta era de amargar e comprava briga a dinheiro para vender fiado.

O tapume que separava as duas propriedades se fazia por uma cerca de bambu. Henrique plantara um pé de banana marmelo nas proximidades desta cerca, o que proporcionou a sua expansão para que viesse nascer um broto sobre a divisa, que cresceu e deu um lindo cacho.

As duas famílias eram até, então, muito amigas. A Marica do Henrique estava sempre à beira da cerca papeando com a Tereza, a valentona. Assim que a banana estava já no ponto de ser cortada deu-se inicio a uma guerra entre as duas famílias.

A Maria Caraolha, que tinha um olho arregaçado por um monjolo, e quando falava dava-se a impressão de estar olhando para o chão, teria dito que o cacho de banana lhes pertencia; porque estava pendido para dentro do seu quintal. Isso teria acontecido após um pé-de-vento, bem antes de estar granado. Além disso, o pé de banana estava entrando uns dois ou três dedos a mais para o seu lado.

Sentindo-se ludibriada pela ideia, a esposa do Henrique o chamou e deu-se se inicio ao ataque. Eu que estava na cadeira do barbeiro Zé, cuja barbearia ficava na sala da casa, vi quando ele saiu para acudir a briga e entrou nela também, deixando-me feito, “meu Deus o que é isso?” Saí dali e fui apreciar a "cachorrada" por causa daquele cacho de banana. Dava-se a impressão que eram uns mortos de fome. E se dissesse que a contenda era por causa de banana, poderia se pensar que se tratava da disputa por um bananal.

A encrenca estava desproporcional porque tanto o Henrique quanto a sua mulher falavam baixo e os outros pareciam que estavam num campo de futebol. Falavam num só tempo, Joana, José, Maria Caraolha, e Tereza... Quando vem chegando o filho mais velho, o Maximiano, mais ponderado e respeitado pelo resto da família disse:

-----“Carma gente, ocêis fica tudo calado, porque quem vai resorvê isso ai é o Zé Ferreira, o Juiz de paz. Eu vô lá busca ele agorinha mesmo. E saiu”-----

Deu-se fim na discussão. As mulheres se recuaram e o meu cabelo continuou a ser cortado. Mas eu não me arredei dali. Fiquei aguardando a presença do Juiz de Paz que morava logo acima na Rua Francisco Bernardino.

Daí a pouco chega o Maximiano com o Sr. José Ferreira, e o campo de batalha, de um lado e de outro se trava de novo quando o Juiz diz: “Gente, isso está muito fácil de resolver. Vamos cortar o cacho parti-lo ao meio e cada um fica com a sua metade.”

Grita a Tereza, a mais encrencada: “Mais de jeito ninhum nóis vai aceitá soizé. Nóis dá metade do cacho pra eles? Nunca SôiZé. O senhor tem que vê que o que é do burro o capim num come! O pé da banana ta quase tudo dentro da nossa horta...”

E a irmandade fez coro com ela, menos o Maximiano. Ouve-se o protesto da mulher do Henrique: “Nois morre mais ocêis tamem não come as nossas banana cambada de isfamiados...Seus boca de fome...!”

O Lírio, o cachorro, o cachorro do Henrique, começa a latir. Um latido estridente fazendo com que a prole da Joana Gorda, também, abrisse o volume até o fim, no que leva o Henrique a gritar: “deita Lírio!” E sua mulher Marica se opõe com bravura: “deixa o Lírio latir Rique! É cachorro contra cachorro”

Diante da anarquia o Juiz de Paz decidiu que as bananas ficariam para os passarinhos, pois não achara alternativa para resolver a questão, mesmo porque, a ignorância era tanta que já se falavam em matar e poderia sair até morte, com certeza pensou o juiz...

Sempre quando vejo banana marmelo eu me lembro dessa discórdia. Tornaram-se inimigos e nunca mais conversaram. Tanto de um lado quanto do outro estiveram apreciando os sanhaços paparem as bananas que a Maria Caraolha já havia prometido, a si mesmo, remexer com farinha, açúcar e canela, para tirar o jejum; tal qual teria visto uma turma de ciganos fazer, certa vez, ali por perto.

Maria Caraolha filha mais velha da Joana Gorda, era a mulher mais esfomeada que já conheci,vivia falando em comida e em comer. Tudo que ouvia falar com referencia a comida dizia logo: “minha boca ta enchendo d´água;” Só faltava procurar saber o que tinha de iguaria na mesa da santa ceia. E nem assim era gorda como a sua mãe. Ela não tinha lombrigas... Era ela a própria... Uma rainha ascarídea...

Que me desculpe à plebe, mas não tem nada mais engraçado do que ver uma briga dessas entre vizinhos. É uma violência verbal... É uma valentia anormal. Falam em bater nuns aos outros, como se fala em bater numa porta... Falam em matar como se mata uma barata... Mas cada um do seu lado, cercados por uma cerca frágil, que pode ser de bambu; não ousam ultrapassar as fronteiras e a bravura fica seguro só no papo. 
Se nesse dia alguém me perguntasse o que eu queria ser quando crescesse, eu diria com toda a certeza: “quero ser juiz de paz”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

Um comentário:

eTormann disse...

Falou da banana e não deixou uma sugestão de receita... da próxima vez que contares uma história, pelo menos tenha a delicadeza de oferecer uma receita de Banana-Marmelo! :P