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quinta-feira, 10 de maio de 2012

A LINGUIÇA DO DIONÍSIO


              
A vida é assim: hoje saboreamos em um banquete de gala e amanhã, aquilo se transforma em excremento nojento para o próprio dono do organismo que ingeriu. As pessoas que não cuidam do próprio corpo são sempre repudiadas pelos outros. Portanto, a higiene é um hábito, estritamente, necessário não só para a saúde física, como também para a saúde social.

Para as pessoas que têm nojo excessivo diante de muita lambança, arrumaram uma doença chamada, T.O.C. - Transtorno Obsessivo Compulsivo. Essas pessoas sofrem muito diante da falta de higiene, além de outras manias. Entretanto, apesar de serem consideradas maníacas, às vezes, apenas repudiam a falta de higiene. É verdade que a doença leva ao certo exagero, todavia, diante da porcaria em que vivemos não os considero tão extremados assim.

Acontece que, infelizmente, se alguém sente nojo exagerado das coisas, a vida se torna, também, muito mais difícil para quem vive em comunidade. Afinal, por mais higiênico que seja o homem, ele é produto do meio e o meio, muitas vezes, não ajuda! A começar pela forma que a natureza nos criou, com uma imundície dentro de nós. Não comparando com a filosofia de Jesus Cristo, mas em outro ponto de vista, nós somos, realmente, como sepulcros caiados por fora e cheios de imundícies e ossos por dentro. (Mateus 23.27)

Na pequena Rua Belmiro Costa, entre a Praça Antônio Furtado e Rua Coronel João Afonso Lamounier, em Candeias, onde se encontra hoje, uma sorveteria, havia um açougue cuja loja era de aluguel. De vez em quando, trocava-se de dono. Em certa ocasião, foi alugada ao Sr. Dionísio Passatempo. Dionísio era um homem alegre, brincalhão, corpo mediano, risonho, parecido com o cowboy americano Alan Ladd. Era, como se dizem, muito boa praça. Tinha ele uns burros de carga com os quais viajava pelas roças comprando ovos, leitões, carneiros, cabritos, creme de leite e outros produtos das roças que eram levados para fora de Candeias.

Apesar dessa sua atividade, Dionísio resolveu abrir um açougue onde poderia expandir a mais os seus negócios vendendo parte dos seus produtos vindo das roças. O açougue do Dionísio começou com um movimento muito bom pelas novidades. Como naquele tempo não havia refrigeradores ou congeladores nos açougues, a carne verde somente era encontrada nos fins de semana, oportunidade quando ele estava presente com a sua alegria. Durante a semana o seu filho, ficava de plantão, vendia a carne salgada que teria sobrado da semana anterior.

Por lá, encontrava-se carne de carneiro, de cabrito, de leitão, porco, boi e galinhas caipira que ficavam num cercado no quintal do açougue. Nesse tempo não existiam os frangos de granja. Aos sábados, ele colocava uma churrasqueira no quintal do açougue e, com um garrafão de pinga, a turma do gole aparecia para comer um suculento espetinho e bebericar um trago. Espetinho de carne de carneiro fez muito sucesso enquanto existiu. Porém, a festa durou pouco.

No intuito de ter um açougue completo, Dionísio arrumou uma mulher para fazer linguiça. Acontece que essas linguiças eram feitas artesanalmente. Não havia, naquele tempo, máquinas elétricas de moer carne e nem para encher linguiça. Era tudo manual. O que sobrava tinha que salgar e colocar na salmoura que se encontrava em um anexo do açougue.

A linguiça do Dionísio começou a fazer sucesso. Era muito bem temperada e não tinha muito toucinho. Mas, quem a fazia não tinha o mínimo de asseio. Era uma senhora idosa conhecida por Dona Zulmira, e que ficava assentada num banco, em uma pequena coberta, no quintal do açougue. Trazia no colo uma bacia de latão na qual ia enchendo as tripas manualmente e, ao seu lado, cheia da carne moída temperada, uma gamela bem grande. 

Para movimentar o cenário, as moscas verdes faziam as suas acrobacias e zumbiam como quê os aviões da Esquadrilha da Fumaça, querendo entrar até nas tripas. Ela estava sempre usando uma tampa de caçarola como abano, mas, nada adiantava. De vez em quando, enfiava o dedo no nariz, coçava o sovaco peludo e, chegou a ser vista, também, entrando numa latrina de fosso, próxima dali, que não tinha lavatório e nem papel higiênico e ao voltar continuava com o serviço.

Dona Marica Barros, prima do Sr. Erasto de Barros, a vizinha do lado do açougue, cujos quintais se encontravam e eram separados por um muro baixo, era uma pessoa muito asseada e bastante famosa pela sua rigidez com a limpeza. Não comia coisa de qualquer mão, e pensando bem hoje entendo que ela tinha o tal de T.O.C. porque sempre estava falando da sua grande relação de coisas que lhe causava nojo.

Certo dia, Dona Marica, resolve subir em uma cadeira e ficar olhando Dona Zulmira praticar todos os atos de porcaria e, sobretudo, mais um para arrematar a bomba que estouraria sobre o açougue do Dionísio. Dona Marica dizia ter visto quando Dona Zulmira deu aquela coçada caprichada no fiofó e continuar fazendo as linguiças.

Não precisou mais nada. O apelido de Dona Marica na rua era Repórter Esso, o noticiário da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que espalhava uma notícia, talvez, com mais rapidez do que, hoje, a Rede Globo de Televisão.

 Os comentários de Dona Marica eram os mais sucintos e variados. Basta apenas imaginar... Uma frase de Dona Marica que ficou bem guardada nas gavetas da minha memória:

“Aquela mulher é a mulher mais porca do mundo, do mesmo jeito que ela enfia a carne na tripa ela enfia o dedo lá, isso pode dar câncer”.

Dessa maneira, o açougue do Dionísio foi para o beleléu! E eu gostava tanto daquelas linguiças... Como eram gostosas!


Armando Melo de Castro
Candeias MG - Casos e Acasos










































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