Total de visualizações de página

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PERCALÇOS DA VIDA



 No mês passado o povo de Candeias assistiu a um lúgubre cortejo de dor atravessar a cidade rumo ao Cemitério São Francisco. Era o sepultamento do jovem Geraldo Magela Teixeira, filho do grande amigo de minha família, Sr. Luiz Gonzaga Teixeira, o conhecido, Luizinho Teixeira; um dos cidadãos mais ilustres da sociedade candeense na atualidade; não só pela sua participação social na vida de Candeias, mas pela sua vida exemplar como bom filho, bom chefe de família e bom amigo. Jamais alguém terá ouvido sob os céus de Deus, algo que pudesse denegrir a intocável dignidade do senhor Luizinho Teixeira.

Magela, ainda jovem, contando apenas cinqüenta e sete anos de existência, partiu, quase que de repente, vítima de uma pneumonia dupla, para atender aos desígnios de Deus; deixando, entre os seus familiares e inúmeros amigos, um vazio que jamais será preenchido... Presença malograda e ausência surda próprias para dilacerar o coração paterno...Diante daquele cenário de profunda tristeza eu me senti inteiramente sensibilizado pela dor de um pai. Isso porque apenas aqueles que já estiveram diante de tal martírio podem fazer uma avaliação da dor pela perda de um filho.

Eu sei que é inútil todo consolo que se leve a um coração de pai ou mãe que perde um filho. Naturalmente os filhos enterram os pais... E os pais, ao contrário, estão incumbidos da vida dos filhos. É uma dor sem nome que leva o ser humano ao inteiro desânimo, para o qual só o tempo, esse criador de monstros, pode aliviar... Apenas aliviar sim, porque não há remédio que cure esse tormento e nem tempo que possa apagar de dentro de nós a certeza de que dia após dia, terá que conviver com uma ausência tão cruciante.

Minha filha Regina aos trinta anos de idade, cheia de vida, formada em direito, e com louvor, tinha isso como o seu maior desejo... Conseguiu o seu emprego no Fórum de Divinópolis... Teve o seu namorado querido... Vivia no seu apartamento próprio e tinha uma situação financeira consolidada. Possuía tudo para ser feliz e fazer um pai muito feliz... Tomada por uma depressão impiedosa perdeu a vida pelas próprias mãos, após um ano de enfermidade, sem nenhum motivo aparente, deixando-me numa tempestade emocional.

Sinto-me, com a sua morte, como que cair num poço sem fundo... Como estar no deserto dos meus dias... Como estar jogado numa lata de lixo do tamanho do mundo... Como estar vivendo diante de uma trombada entre a vida e a morte. Passo a não pertencer a este mundo e crio o meu próprio mundo, um mundo mental de desenganos, de maldade, de injustiças, de decepções e da ausência de Deus...

Procuro ser julgado pelo tribunal da minha consciência e sou absolvido... Afinal! Que mal eu teria feito a Deus para passar por tão severas penas? É a revolta que se acomoda dentro do meu coração e diante de tamanho infortúnio questiono Deus: “Onde estou meu Pai? Que mundo imundo é este no qual Tu me jogaste? Que mal eu Te fiz para ter que sofrer na minha carne uma dor tão profunda?

Enquanto eu procuro florir o lugar em que me colocaste, Tu me cobres de amargura e desânimo? Sendo Tu o Criador de todas as coisas, o Onipotente, o Onisciente, o Onipresente, de repente permite que minha filha, - a qual me deste cheia de vida e saúde, cheia de inteligência e bondade, cheia de alegria e caridade, - se transforme numa tocha de fogo e morra de forma tão cruel e humilhante? Será isso obra do diabo meu Pai?

Mas que Deus És Tu meu Pai que Te permites um opositor adepto do mal? O que poderás dizer de mim que se criando um cachorro atirasse fogo nele? Ou se cortasse a asa de um passarinho? Como seu filho será que me deixarias impune? E as pessoas não iriam considerar-me um traste da humanidade? Tu, meu Pai, não terás Te esquecido desse Teu mundo imundo enquanto dormes tranquilamente vigiado pelos anjos no canto mais aconchegante dos céus?
Por que meu Senhor de todas as coisas tantas sentenças?... Por que tantos castigos, para quem nem sabe se crime cometeu? Por que sofre aqui no Teu mundo as crianças inocentes? Eu custo a entender que um sofrimento desses seja obra Tua, meu Deus? Não! Não pode ser!...Se fosse tudo isso obra Tua, o Teu filho deveria se chamar satanás ou aquele rei maldito, que mandou degolar criançinhas inocentes. Se isso for obra Tua meu pai, o teu filho não é o filho do carpinteiro que protegia as criançinhas desamparadas!... Estará o teu mundo entregue ao diabo?...

Olha meu Senhor de todas as coisas: Eu, e outros pecadores podemos até merecer castigo por vivermos desafiando as Tuas leis e o Teu mundo... Esse mundo materializado, aonde a força do ódio vem ficando dia-a-dia mais forte... Onde a impunidade para os indignos se escasseia... O castigo da velhice, para quem vive muito -- só sabe crescer... Esse mundo onde o mal toma o lugar do bem... Mas e essas crianças atiradas pelas janelas pelos próprios pais; espancadas e assassinadas covardemente? O que fazem de mal essas pobres crianças meu Senhor Deus”!?...

Quero portanto dizer ao meu amigo Luizinho Teixeira e à sua esposa Dona Leda, que o Magelinha não morreu, ele continuará vivo nas suas lembranças, como vive nas minhas a minha filha Regina... Benza Deus!
E nessa agressão desencadeada pela emoção eu me perco entre os meus recalques... Entre as minhas revoltas... Levo um susto!... Felizmente, dou Graças, dou conta de voltar a mim. Encontro-me de novo e consigo me lembrar que Deus é a única forma de explicação da existência e razão. Ainda existe a esperança de que um dia o mundo será melhor... Existem ainda, as mãos para afagar e a voz para consolar... É de se entender que na construção da obra de Deus o mal existe para mostrar o bem....

Chego a conclusão de que pior, muito pior, estão aqueles como eu, procurando decifrar os desígnios de Deus... Questionando-O e esquecendo de que Ele pode estar bem dentro de mim... Perdoe-me meu Pai Celestial, uma vez mais Te peço perdão! Foi um pesadelo... Foi um descuido... Tomarei mais cuidado com as minhas fraquezas e posso entender que a felicidade está onde fui colocado, dependendo apenas que eu observe com fidelidade o aprendizado sobre os Teus desígnios.

Armando Melo de Castro
Candeias- MG - Casos e Acasos

Nenhum comentário: