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segunda-feira, 31 de maio de 2010

CORPUS CHRISTI


      A festa de Corpus Christi comemorada no mês de junho, em Candeias, desperta em mim de forma memorável, o verdor dos meus anos. Buscando as alegrias, é claro que com elas viriam muitas dificuldades que a vida oferece, eram outros tempos!

Dizer que naquela época a vida era melhor que nos dias atuais seria incoerência com a ordem natural das coisas. Mas, o primor da infância, me confunde e às vezes fico pensando se sou eu que estou mudado ou o mundo... Se o povo era mais inocente ou mais singelo... Se mais sábio ou ignorante... Se mais honesto ou mais consciente... Enfim, fico indeciso. E diante da indecisão, sinto-me como o “Burro de Buridan”: com sede e com fome, perto de um balde de farelo e outro com água, acabou morrendo de tanto pensar se bebia ou se comia primeiro.

O tempo era das vacas magras. Pouca carne e pouco frango; pouco dinheiro, pouco trabalho. A pobreza era mais abundante. O viver era um tanto limitado em todos os sentidos. Poucas mudas de roupas, das quais, uma era designada especialmente para a igreja, cujo uso era exclusivo e restrito. Ir à missa aos domingos pela manhã e a bênção do Santíssimo à noite era um dever dogmático, bem como participar de todos os eventos da igreja; sempre empanados na mesma “roupinha de ver Deus.” E a gente não se envergonhava como hoje muita gente se envergonha de ser pobre. A vida talvez fosse mais difícil, mas a idade nos fazia feliz. E foi numa missa de Corpus Christi que ficou cravado nas paredes da minha memória um fato acontecido dentro da antiga matriz:

A matriz antiga era menor e me parece que havia mais gente do que nos dias atuais. O povo candeense tinha muito compromisso, não tanto com Deus, mas com a igreja ou com o pároco e, além disso, havia somente a Igreja Católica; não haviam outras instituições religiosas estabelecidas aqui como nos dias atuais. Ademais, durante a Era Monsenhor Castro, se pintasse por aqui algum protestante, era escaramuçado, enxotado e apedrejado, como aconteceu certa vez. Eu como católico, vi isso com profundo rejeito. Não fosse o finado Joaquim "Caroca", que entrou na defesa desse, também, filho de Deus, o resultado poderia ter sido desastroso.

A velha matriz estava sempre lotada durante as três missas dominicais: seis oito e dez horas. Ainda, naquele tempo, a missa era celebrada em latim e como ninguém entendia nada de latim, quem não estivesse rezando o terço, ficava voando mais que as andorinhas da igreja. Aliás, era recomendado o terço na hora da missa para evitar essa dispersão. O pároco era o então, Padre Joaquim que posteriormente se tornou no Monsenhor Joaquim de Castro; sempre muito exigente com os fiéis, tanto que, os bancos foram divididos em duas partes: metade para os homens e metade para as mulheres. Nos bancos da frente assentavam-se os homens e na parte detrás ficavam as mulheres. A mesma ordem nas procissões, enterros etc.

Mas o fato que eu presenciei aconteceu na missa das dez, horário muito disputado pelos fieis: Havia na cidade duas pessoas totalmente diferentes: Erasto de Barros e Jovelino pedreiro.

O Sr. Erasto de Barros, era o porteiro do Grupo Escolar Padre Américo e morador da Rua Coronel João Afonso. Cidadão simplório e apesar de pertencer a uma família de porte distinto, parecia não ter seguido, à risca, os padrões familiares. Não fazia, para a época, um juízo antecipado de suas palavras... Pensava em voz alta e comumente a gente o via falando sozinho e gesticulando com as mãos. Às vezes, me parecia uma pessoa desnorteada. Mas mesmo sendo assim, era muito respeitado o Sr. Erasto de Barros.

Certa vez, eu o vi falando sozinho e em voz alta, andando pela rua afora, fazendo referência ao seu filho Ademir: “A hora que eu achar o Demí hoje, eu vou fazer ele peidar borralho”.
Gostava de uma política partidária e durante uma eleição para prefeito, cujo candidato era o Zé do Anjo, do qual ele era adversário, O William Barbeiro, para vê-lo nervoso disse: “Sô Erasto, o Zé do Anjo vai ganhar a eleição tranqüilo”. Ele respondeu imediatamente irritado: “Quem vai ganha é seu rabo e o rabo dele”.
Era tão apavorado que quando viajava, da janela do ônibus, se despedia das pessoas dizendo: “Boa viagem, vai com Deus”.
O Sr. Erasto não era frequentemente visto na igreja. Se, acaso fosse todos os domingos à missa, deveria, com certeza, diversificar os seus horários. Portanto ele não era sempre visto pelos fiéis de um mesmo horário da solenidade.

Jovelino era um negro muito querido; tocador de trombone da banda musical. Pedreiro de construções rasteiras e morador ali pelas bandas do bairro da Lage. Era gago, muito gago... Sua tartamudez deixava os seus interlocutores ansiosos. Engasgava-se com as próprias palavras até quando pensava. Freqüentador assíduo da igreja. Em todas as celebrações, lá estava ele rezando o terço com o seu rosário de biurá. As pessoas evitavam assentar perto do Jovelino dado a sua gagueira quando rezava o terço: “SssannntatatataMamamamamariririria” mânãmamã de DEEEUS“... Papapapai-nonononosso-quequeque-estaes-nooocc.” 

Era assim, mas não fazia isso em voz baixa não. Dava aquele estalinho na ponta da língua acompanhado de um chio na garganta que parecia que ia assoviar. Estivesse quem estivesse por perto, ele ignorava que estava sendo incomodante.

Nessa altura dos acontecimentos, igreja cheia, já aguardando o início da missa, chega o Sr.Erasto: Olha para um lado, olha para o outro, até que viu um lugarzinho perto do Jovelino. Era um grande achado, um lugar vago naquele momento. –Ajoelha-se, faz o sinal da cruz; uma pequena prece e assenta-se, até ai tranqüilo, quando se dá inicio ao seu martírio.

Homem nervoso; impaciente; língua solta... soltíssima, naturalmente deveria ter imaginado que quando a missa começasse o Jovelino mudaria de postura. Muitos por ali já imaginavam o que poderia acontecer.

O celebrante chega ao altar e começa a missa: “Introibo ad Altare Dei” (Entramos no altar de Deus).

E o Jovelino “debulhando” o rosário. Agora sim! A situação teria ficado pior. Com o ruído da celebração Jovelino abriu um pouco mais o seu volume e num dado momento, o Sr. Erasto vendo que a sua missa seria impraticável, levanta-se, dá uma olhada raivosa para o Jovelino e diz: VAI REZAR NO MEIO DO INFERNO! Sai nervoso e antes de chegar à porta exclama:

Puta que pariu!

Prezado senhor Erasto:
Onde quer que esteja receba o meu abraço, a minha admiração pelo pai, pelo marido e pelo amigo que foi aqui entre nós. E, ainda, muito obrigado pelos saborosos caquis do seu pomar, com os quais aprendi a gostar, tanto, dessa fruta.

Que Deus o tenha mais tranqüilo, mais calmo e menos preocupado com a sua família, sua esposa Maria, e seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro...


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e acasos

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