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quinta-feira, 13 de maio de 2010

IGREJA-MATRIZ DE CANDEIAS


Antiga matriz, estilo gótico.
Recebi, do meu condiscípulo e dileto amigo de infância, Sebastião Alves de Resende, residente atualmente na cidade de Alfenas, a sugestão de fazer um texto, neste blog, sobre a nossa antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora das Candeias pela qual ele, Sebastião, foi sacristão ainda na era das missas rezadas em latim.

Eu gostaria de tirar algo alegre do bico da minha pena para falar sobre a antiga Igreja Matriz, mas, infelizmente, meu amigo Sebastião, o que tenho a dizer, na expressão da minha verdade, é algo triste, é uma triste constatação.

Lamentavelmente, Candeias jamais contou com a intervenção popular e, muito menos, com a força política para impedir as destruições de nossos templos históricos.

A construção de novos templos deve ser meta para qualquer autoridade eclesiástica, todavia, a preservação de um templo histórico é mais do que um dever, é respeitar algo cujo conteúdo registra a história de um povo.

O Padre Dionísio Chagas, pároco de Candeias na década de 20, destrói, em 1922, o antigo templo de estilo barroco para dar lugar ao seu projeto de uma nova matriz de estilo gótico Era centenária a igreja demolida pelo Padre Dionísio.

E eu pergunto: teria sido necessária a destruição de uma relíquia cujo patrimônio era um legado dos nossos antepassados?

Não! Estou certo que não. A meu ver, o velho templo poderia ter sido preservado e o novo poderia ter sido construído em outra parte da cidade. Aliás, espaço era o que mais havia em nossa cidade. Não existiam praças no imenso largo central. No entanto, o templo foi destruído e não apareceu ninguém para impedir este fato.

Seria necessária uma profunda dose de amor a um patrimônio sagrado para que fosse evitado tamanho desastre. Contudo, para tanto, não houve isso.

E eu pergunto: teria sido necessária a destruição de uma relíquia cujo patrimônio era um legado dos nossos antepassados?

E como estava na moda dos irresponsáveis a destruição do barroco para dar lugar ao gótico e, também, como não surgiu alguém que ousasse bater de frente com os representantes da Igreja Católica a fim
de evitar um desmando desses, o fato absurdo ocorreu e o pior: viria a se repetir, anos depois, em condições ainda mais melancólicas.

Conforme já me expressei, não vou isentar o desfeito do Padre Dionísio Chagas, todavia, é inegável que a Matriz construída por ele, em estilo gótico, constituiu-se em um templo, absolutamente, maravilhoso. Está bem guardado nos corações daqueles que contam com mais de meio século de vida. Foram sete anos para ver o projeto concluído sendo inaugurado no ano de 1929.

Entretanto, por ironia do destino, logo após a construção da nova igreja de estilo gótico, o Padre Dionísio fora transferido para outra paróquia, vindo a substituí-lo o Padre Rui Pinheiro. Todavia, o novo vigário ficou em Candeias por um curto tempo. Padre Joaquim de Castro (posteriormente, Monsenhor Castro) foi quem substituiu o Padre Rui por ocasião de sua transferência para outra cidade.

Filho da terra, o Padre Joaquim muito contribuiu com a nossa sociedade como representante eclesiástico. Portador de atributos que já foram, inclusive, registrados neste blog. Foi um sacerdote com forte liderança social, sendo rico e filho da elite candeense. Tudo isso o fez tornar mais temido do que, necessariamente, respeitado. Era um homem disciplinado e disciplinador. Nas sessões do cinema, que era de sua propriedade, não aceitava manifestações dos jovens que durante uma comédia viessem a rir, quebrando, assim, o silêncio existente. No mesmo instante, mandava acender as luzes e fazia ali um duro sermão. Na igreja, homens e mulheres acomodavam-se separadamente. Nas quermesses, no adro da igreja, sua presença era intimidativa para boa parte dos presentes. Inegáveis foram as virtudes do Monsenhor Joaquim de Castro. Com certeza, ele era uma pessoa extremamente dada ao subjetivismo com abstração ao princípio empírico.
No meio da década de 50, por determinação do Monsenhor Castro, foi demolida a Igreja do Rosário, localizada onde se encontra, nos dias de hoje, o Terminal Rodoviário, na Praça Achiles Landgsdorff. Demolida quando carecia e deveria, na minha concepção, ter sido apenas reformada.
Aquela igreja centenária servia de sede para a Festa do Rosário. No entanto, esta demolição acabou por privar a comunidade negra da sede de sua festa, levando-lhes a construir uma pequena capela afastada da cidade e que, por si, recebeu o nome de Alto da Igrejinha Nota-se, por este exemplo, que o Monsenhor Castro não tinha compromisso com o passado.

No limiar do ano de 1960, a Matriz do Padre Dionísio, que ainda era tratada de nova por muitos, teve seu destino traçado por um projeto do Monsenhor Castro. Tratava-se do “Aumento e Reforma da Matriz”.

Esse projeto causou novo desastre ao patrimônio sagrado da cidade considerando que, na realidade, não ocorreu muito bem uma reforma, tendo em vista que foram aproveitadas apenas partes das paredes laterais do templo que se encontrava, ainda, em excelente estado de conservação. Ademais, se tratava de uma construção de primeira linha da qual não carecia de reforma. Bastaria, no máximo, uma pintura.

Se, realmente, fosse feita uma reforma deveria, sobretudo, seguir o estilo gótico tanto na reforma como no aumento da área e não um desmanche para dar lugar a um estilo clássico. Além disso, a Matriz existente atendia, perfeitamente, a demanda. Seria necessária a construção de outras igrejas mais simples, em outros pontos da cidade.

As poucas pessoas que ousaram opinar contra a iniciativa de destruir um templo para dar lugar a outro foram, energicamente, combatidas por ele. Um exemplo disso é o Padre José Albanez, ilustre sacerdote candeense que ocupou os mais altos cargos na Diocese de Oliveira e na Arquidiocese de São Paulo.

O projeto do Monsenhor Castro era muito ousado para a época, dada a sua dimensão. Candeias, nessa época, tinha uma economia muito fraca. Faltavam escolas, faltava trabalho, faltava assistência à saúde e o social era ínfimo. O poder público não atendia quase em nada a necessidade e os anseios da população e as verbas advindas dos governos estadual e federal eram raras.
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Para se ter uma ideia, a Prefeitura não possuía sequer um carro. Havia sim uma raspadeira velha e um velho caminhão. Os prefeitos usavam os seus próprios veículos para as suas viagens a serviço do município.

O Ginásio da CENEG (Campanha Nacional de Educandários Gratuitos) esteve para ser fechado por mais de uma vez e, só não foi, porque o Prefeito, Nestor Lamounier, chegou a despender do seu próprio salário em favor do ginásio para não vê-lo fechado.

Foram campanhas e mais campanhas em prol da Igreja e, com isso, essas campanhas foram se fragilizando dadas as insistências do pároco. Houve, nessa época, uma campanha para a construção de
um hospital, através do Sr. Pedro Vieira de Azevedo cujo ideal foi frustrado porque ninguém superava a persistência do Monsenhor Joaquim de Castro no sentido de angariar recursos. Eram rifas, leilões de quermesses, leilões de gado, etc. O que quer dizer que outras necessidades do município ficaram em segundo plano durante aquele tempo.

 As obras foram sendo executadas e as celebrações permaneceram ali enquanto as pás e picaretas não chegavam. Aos poucos, foi sumindo de nossos olhos aquela maravilha que contava apenas trinta e um anos e que não teria merecido sequer uma reforma. Foram desaparecendo os santos, os lampadários, os bancos, etc.

Gravados em meu cérebro está o tanger dos sinos anunciando a Hora do Ângelus, convocando os fieis e anunciando os mortos. Sinos doados pelo Coronel João Afonso Lamounier e outros fazendeiros da nossa comunidade eram, agora, atirados da torre ao solo sem nenhum cuidado. Essas valiosas campanas abençoadas foram, de uma hora para outra, silenciadas. Foram simplesmente vendidas para o ferro-velho. Esse martírio durou dezoito anos.

A ânsia de ver a sua igreja terminada talvez o tenha levado mais cedo para o túmulo. Sua morte envolveu a obra em grande complicação porque os seus substitutos não exerciam o mesmo poder de liderança e não eram os donos do projeto.

O templo, em estilo clássico, apresentava diversas repartições levando os fiéis católicos a pensar que o Monsenhor Castro quisera construir uma catedral, pois corria à “boca pequena” a sua ânsia em ser bispo e de transferir a sede da diocese para Candeias desejo que, se fora verdade, não teria sido nada mais do que um sonho, uma utopia.

Seria preciso destruir um capítulo tão importante da nossa história para a construção de outro? Creio que não. Tranquilamente, Monsenhor Joaquim de Castro poderia ter construído a sua igreja idealizada em um outro ponto da cidade. Entretanto...

Quantos, como eu, tiveram seus pais casados ali naquela casa de Deus!

Quantos, como eu, receberam a água benta na sua pia batismal!

Quantos, como eu, fizeram ali a sua primeira comunhão!

Quantos, como eu, assistiram a sua primeira missa e tantas mais!

Quantos, como eu, receberam a bênção do Santíssimo Sacramento!

Quantos, como eu, receberam ali a hóstia santa.

E quantos viram a construção e a destruição em um só tempo.

Lembro-me do coro musical comandado pela maestrina Santinha Salviano. Ele era lindo! As meninas de vestes e boinas brancas exaltavam o seu uniforme. E quando a prece impunha o silêncio humano, elas entoavam um hino de amor deixando os corações sem pecados perante Deus.

Lembro-me dos sacristãos, do Sansão pintor, do Antônio do Arlindo, Barrilinho. O Sebastião Alves, com o seu terninho de brim passado, cuidadosamente, por sua mãe, Dona Leopoldina. O Vicentinho Salviano me convidando para lhe acompanhar até à torre a fim de badalar o sino.

Lembro-me das irmãs, Cecília e Regina, zeladoras da igreja, que eram incumbidas de produzir as hóstias.

Lembro-me dos dobrados que tocavam no alto falante, antes da Missa das Dez. Essas músicas e a celebração eram transmitidas para as casas através de um transmissor de rádio, instalado na igreja, administrado pelo amigo, Sebastião Salviano.

Lembro-me da Missa das Oito que era destinada às crianças orientadas por suas respectivas professoras do Grupo Escolar Padre Américo.
                                                             
Lembro-me da Bênção do Santíssimo Sacramento, depois do terço e da ladainha. Um dos coroinhas, que se encostava a uma pilastra junto do altar, agitava o turíbulo cheio de brasas para o incenso queimado, o que nos fazia voltar para casa com aquele cheiro sem pecado...

Lembro-me do Altar-Mor! Ah, como era bonito! Exaltava a imagem de Nossa Senhora das Candeias. Havia, ainda, um altar em cada lateral, em um dos quais, no Natal, montava-se o presépio retratando o nascimento de Cristo e, em outro, ficava depositada a imagem do Jesus Morto.

Com certeza, muitos comungam comigo esta saudade.

É lamentável que tenhamos perdido três templos importantes na nossa história. Hoje, isso seria evitado. A nação brasileira está munida de leis que coíbe esses abusos. Infelizmente, essas leis chegaram atrasadas para o patrimônio cultural de Candeias.

É de todo patente o sofrimento desses dois sacerdotes diante da construção de seus templos.

Padre Dionísio, que via na igreja uma propriedade sua, foi transferido para outra cidade logo após a sua inauguração. Foi levando consigo uma grande frustração banhada em lágrimas.

Monsenhor Joaquim de Castro não pode ver o seu projeto realizado. Levou para o túmulo, no ano de 1968, o desejo de ver a sua Matriz concluída. Isso só veio acontecer a dez anos, em 1978, em condições precárias.

Os retratos da Matriz anterior estão guardados nos fundos dos meus olhos e dos meus sentidos e, claro, dentro do meu coração. É um sentimento atroz que fermenta uma saudade misturada com mágoas, alegrias e tristezas.

No mesmo tempo em que vejo o Monsenhor Castro, em uma celebração, vejo o Waldir, filho do João Surdo, operário das obras da igreja, no cimo da torre, amarrar, sobre o pé da cruz, um cabo de aço ligado à carcaça de um caminhão carregado de areia. Esta operação consistia em quebrar o suporte da cruz, lá instalada, de onde começaria, por dentro, a destruição da torre.

Aquela cruz que há trinta e um anos apenas fora colocada pelo, outrora, pedreiro da construção, senhor Adolfo Chagas sob as orações
de sua esposa, Doca. Encontrava-se espatifada no chão sob o riso de alguns e a tristeza de outros.

Apesar de não ser praticante, sou católico e filho de tradicional família católica. Não é de minha intenção denegrir aqui a imagem consagrada do Monsenhor Joaquim de Castro e nem do Padre Dionísio Chagas. É fato que eles foram dois sacerdotes respeitados na construção da história de Candeias. Todavia, toda história tem os seus capítulos infelizes. E é lamentável que tenham sido eles a escreverem os mais tristes de todos os capítulos.

Assim sendo, entendo que apenas mostro um retrato manchado da história de Candeias, a fim de atender aos lamentos do meu coração bairrista.

É uma pena! É muito triste! É, deveras, lamentável...

Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casos e Acasos

Fotos do Album de Clara Borges (album Candeias Antigamente)

8 comentários:

Clarita disse...

Sempre sonhei em ouvir um pouco da história dos templos de Candeias, e em tão poucas linhas, meu sonho foi realizado. Belíssima crônica, merecedora de entrar para os anais da história de Candeias. Quem se habilita a escrever a história de Candeias? Você, Armando, com suas crônicas ao mesmo tempo históricas e romanceadas. Mil vezes parabéns.

Franz disse...

O tempo muda as pessoas, hoje não sou mais católico, nem mesmo tenho religião alguma. Mas esta antiga matriz traz lembranças de minha infância, boas lembranças. Alí devo ter sido batizado, lembro de minha primeira comunhão com clareza. Só lamento que tenha sido destruido um templo de profunda beleza plástica, Candeias não merecia isto.
Parabéns pelo artigo, trouxe à tona a saudade de um tempo.

Eliana disse...

Que saudades voce me trouxe da nossa antiga igreja.Quão linda e luxuosa era ela!
Nenhuma outra iria conseguir substituí-la nem aos meus olhos e nem no meu coraçao.

ELIANA LOPES MORI

Carlos Augusto disse...

Nossa eu não sabia, que foram demolidas três igrejas antigas aqui em Candeias, pelas fotos estou vendo que eram lindas, deveriam estar ai de pé, um absurdo o que essas pessoas fizeram, lugar aqui nessa cidade, pelo menos, naquela época é o que não faltava, nossa essa é maior vergonha na História de Candeias! Não da pra acreditar que as autoridades daquela época permitiram essa crueldade...
Nossa Cidade falta pontos turísticos nao é pra menos, destruíram três...
Eu tenho 21 anos, sou de Candeias e estou chocado, com o que eu acabei de ler...
Vergonha na história de Candeias - MG....
Grande Abraço.
Meu Blog: http://carlosatualidades.blogspot.com

Mérlyn disse...

Gosto muito de histórias principalmente quando são verídicas,e mais ainda quando são da minha cidade natal.
Eu sou de 88,e admiro pessoas como você,que lutam para deixar o passado de nossa cidade vivo,acho que esse material deveria estar á mostra nas escolas e nos aniversarios dela.
Ser exposto para que todos lembrem de que Candeias teve,terá,sempre um passado que deve ser lembrado mesmo com tantos fatos tristes ocorridos,infelizmente não temos mais essas igrejas maravilhosas para serem vistas e contempladas como bens patrimoniais.
Foi uma pena a população não ter tido forças nem apoio de governantes da época,para que o triste fato não acontecesse.
Enfim,graças a você,que guardou essas lindas lembranças,podemos viver um pouco de nossa história.
Parabéns pela iniciativa de contar esse grande fato obrigado!!!

Anivaldo Saldanha disse...

Armando, assisti à derrubada da ponta da torre da matriz puxada pelo caminhão do "Candinho" do Vico Teixeira. Não entendia a razão daquilo e hoje, lendo seu texto, confesso que chorei. Nossa Candeias perdeu, e muito.
Parabéns pelo blog.
Um abraço do amigo.
Anivaldo Saldanha

Anônimo disse...

Eu passei a entender melhor o que aconteceu com as igrejas que foram construidas,mas eu não entendia porque foram demolidas,eram belíssimas e hoje eu as vejo somente em fotos.E uma pena essas demolições.Só ficaram saudades,obrigado por mim mostrar o passado de minha querida Candeias.Parabéns.

MAGNO JOSE FERNANDES disse...

NASCI EM 1957 E INFELIZMENTE NÃO PUDE TER O PRAZER E A HONRA DE CONHECER AQUELAS IGREJAS, MAS ISSO NÃO ME FEZ DEIXAR DE ADIMIRA-LAS PELAS FOTOS QUE RESTARAM. REALMENTE É LAMENTAVEL QUE TENHAM SIDO DESTRUIDAS. REALMENTE É LASTIMAVEL QUE NINGUÉM TENHA TENTADO IMPEDIR. TENHO ORGULHO DE SER CANDEENSE, AO MESMO TEMPO EM QUE ME ENVERGONHO PELO FATO DE QUE NÃO TENHAM CONSERVADO, PELO MENOS NAS CONSTRUÇÕES RELIGIOSAS, O NOSSO PASSADO. PARABENZ PELA MATÉRIA, ELA ME FEZ RETORNAR A MINHA INFÂNCIA, QUANDO EU CORRIA PELAS RUAS DA NOSSA CIDADE. GRANDE ABRAÇO.