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terça-feira, 22 de junho de 2010

PAU PODRE NÃO DÁ CAVACO

Foto apenas para ilustrar o texto.  
Eu sempre participei da vida de Candeias mesmo estando morando fora. Um pouco lá, um pouco cá, e assim vou vivendo o meu ócio privilegiado, coisa de quem já labutou na vida durante mais de quarenta anos.

Nessas idas e vindas, tenho me dado ao luxo de fazê-las de ônibus. Afinal, não tenho compromisso com o relógio. O relógio é um amigo do tempo e o tempo, nem sempre, é um bom amigo da gente.

Pensando assim, decido não conflitar com o tempo. Sei das intenções dele comigo, mas, farei de contas que estou alforriado por ele, depois de ter sido seu escravo por tantos anos. Uma alforria simbólica, porque já me terá dito: “levar-te-ei à morte, queira ou não queira”.

Enquanto o tempo não me dispensa de vez, eu vou, por aqui observando as coisas levando o meu tempo observando a natureza ou me esticando no meu aposento como aposentado que agora se encontra ajustado com o ócio da dignidade.

E neste convívio eu vou apreciando a vida de forma diferenciada daquela de quando o trabalho não me permitia observar, ou seja, o comportamento humano; os animais e a natureza.

Num ônibus, por exemplo, conversamos com os estranhos numa curta e descomprometida amizade, ao mesmo tempo em que podemos observar os passageiros no celular expressando os seus sentimentos ou problemas; o cobrador fazendo o seu trabalho; o motorista atento ou não; um ou outro meio bêbado, dando o seu pequeno vexame. E num silêncio profundo surge um flato fétido quando alguém grita: “Queimaram o cabo do facão aqui dentro” fato que determina os demais passageiros o pensamento de que a galinha que grita é porque botou o ovo.

Certa feita eu me embarquei na Rodoviária de Candeias, no ônibus da Viação TransUnião que faz a linha Boa Esperança x Formiga. Passando defronte a velha estação ferroviária, tomou o ônibus um casal totalmente desproporcionado, ou seja, o marido contando uns cinquenta anos de idade, e a mulher sem passar dos trinta...

Ele miúdo e magro mostrando os ossos; ela graúda e gorda com um corpo esculpido em toucinho...

Ele branco, cabelo liso, grisalho e glabro de natureza... E ela quase negra, cabelos hirtos e com um buço realçado...

Ele trajando uma calça de tergal antiga e uma camisa de algodão e manga comprida quase encardida entalando o pescoço... E ela por sua vez, cobria o corpo sem curvas, com um vestido estampado parecendo ter sido adquirido de uma cigana.

Para completar o contraste, o cidadão falava baixo e a patroa falava alto... 

Com o sacolejo do ônibus ao se arrancar, a embarcada senhora cambaleou-se e quase se desequilibrou no que a fez soltar uma gargalhada, mostrando uma janela entre os dentes, que mais me pareceu um portão... Um portão do céu; (do céu da sua boca é claro!).

Os dois tomaram assento ao meu lado, e apesar de tentar isentar-me da curiosidade humana, tive a oportunidade de ver e ouvir tudo que se passou ali durante a viagem.

No introito da história eu já pude entender a essência da questão: A mulher seria natural de Candeias, do Bairro da Gruta... O Bairro da Gruta é onde está situado o cabaré do Pedro Pitanga. Quanto ao cidadão, tudo indicava ser ele natural da zona rural do município de Formiga.
Teriam vindo a Candeias em busca dos direitos de uma herança da avó dela, falecida há cerca de um ano.

Como diria a Hebe Camargo: “Ai que bonitinho”!

Ela: “amor prá cá e amor prá lá”... E ele um tanto desajeitado...

Ela começou dizendo:

----Amor, aquele “danento” do meu irmão vai pagá caro por tê me fintado a minha parte da herança da vovó...
---- É ruim...
---- Eu não divia ter dado tempo...Eu fui uma pamonha...
---- Foi ruim...
---- Amor, ele sempre foi safado e desonesto... Desde piqueno...
---- É ruim...
----Amor, ele fala que cuidou da vó por muito tempo, mas que mané tempo!...
---- É ruim...
----Aquele “danento” queria era cumê o que era dela sozinho...
-----É ruim...
-----E ocê viu lá amor, é uma casa que vale um tanto...
-----É bão...
-----Tem um quintal grande...
-----É bão...
-----Cê viu o pé de caqui?
-----Vi, é bão...
-----Deve valê uns trinta mil, ou mais...
-----É bão...
-----A Zilá me falou, amor, que ele é viciado no jogo de bicho...
-----É ruim cum força...
-----Fora a pingaiada... E tem mais, sabe amor? (cochichando no ouvido do marido, mas deu para ouvir) a Zilá me falou que ele num vale mais nada não... As honra dele só oia pu chão...
-----Ah eu cum medo! É ruim...
-----Tem dia qui num tem cobre nem pum li de leite...
-----É ruim...
-----Amor, por que que ocê num falô nada lá?
-----Num é bão não... É ruim...
-----Mas ocê é meu home...
----Mas o assunto é seu... É ruim...
----Amor ocê tinha que tê falado arguma coisa pra ele podê vê que eu tenho um home...
----Falá o quê?
----Que eu tenho direito na herança tamém...E que ele não pudia tê cumido a casa com angu...Cê ficou calado...
----Cê ficou doida?... Ele já tinha cumido a casa!... É ruim hein!?

Nesse ínterim o ônibus dá uma parada na comunidade dos Rodrigues, e entra um cidadão contando uns quarenta anos mais ou menos... Magro, usando um chapelão da aba quebrada, uma camiseta cavada mostrando um sovaco mal cuidado... E uma dentadura amarelada, carecendo de asseio e trazendo entre os dentes um fio verde, que mais parecia um pedaço de folha de couve picada.
Aquela boca enfeitada me leva a imaginá-lo um patriota da Copa usando de uma maneira exótica para homenagear a Seleção Brasileira.
Trás consigo um balaio de ovos e ao avistar o casal de passageiros já gritou:

---Oi compá Tião!...
---Oi cumá Mariquinha!... Cumé qui é? Quando nóis vai cumê o leitão com os cobre da herança?

Nisso, antes dela responder o maridão atalhou:

----Num vai tê herança não cumpá Jirimia, Ocê lembra que eu te falei que pau pôde num dá cavaco? Pois é o trem furô no lavrado...
----Meu irmão me passou a perna cumpá Jirimia... Aquele “danento” já tá com a casa no nome dele...
---Uai é? Que trem hem cumá Mariquinha! Nó! Coitada!... Quer dizê, qui ele deu uma pernada nocê?...
--- Deu! Cumpá Jirimia, mas o tempo vai cuidá disso se Deus quisé...
----Essas coisa é ruim né cumpá Tião...
---É ruim... É ruim com força cumpá Jirimia...

Moral da história: “O tempo vai cuidar disso.” E assim vamos!

Armando Melo de Castro

Candeias mg Casos e acasos

Um comentário:

Anônimo disse...

essa foi boa kkkkkkkkkkkkk
Deve que o sehor achou a viagem + engraçada da vida rsrsrsrs
Parabéns pelo blog !!