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segunda-feira, 28 de junho de 2010

ERA UMA VEZ UM TOUREIRO


                                                   Foto: AFP apenas para ilustração do texto.

Ano passado eu tomei conhecimento, através do noticiário, de que um touro teria dado uma chifrada no pescoço de um toureiro espanhol, e este estaria em estado muito grave. Hoje, fui surpreendido com a noticia de que esse toureiro está se preparando para voltar à arena e enfrentar, de novo, os touros.                                                                                    

Dá-se para entender que neste mundo existem pessoas para todas as loucuras. Levar uma chifrada no pescoço, ficar em estado grave e depois ainda querer touro de novo!?...

Não existe para mim uma violência maior do que seja este tipo de espetáculo... Não existe para mim uma sintonia maior entre o homem moderno e o homem da idade da pedra... Eu jamais entenderei, como pode estar nas gavetas da intimidade humana a satisfação de travar entre si um combate com a irracionalidade de um animal... Um animal que pode ser ou estar violento... Eu busco, com afinco, nas profundezas do meu raciocínio, ter uma idéia clara no sentido de justificar esse tipo de aplauso.

Diante disso, me vem à tona, um fato que se encontra guardado nos fundos dos meus olhos desde a minha infância, e que me fez repudiar, pelo resto da vida, essa coisa chamada “tourada”.

Luiz Belo cidadão natural da cidade de Formiga,bonitão; estatura elevada com os seus quase dois metros de altura... Moreno, boa pinta, cabelos lisos de um castanho bem claro; olhos fundos; bem escanhoado; boca grande e sorriso de machão... Bem trajado e bem calçado... O seu visual fazia-lhe juz ao nome de Belo e referência como quê: “um massa de homem rico e bonito”... A mulherada talvez acrescentasse: “gostosão”.

Era, Luiz Belo, um apaixonado pelas touradas espanholas. Filho de pai rico, foi parar na Espanha, e lá não se sabe como, tomou aulas sobre a técnica de tourear. Após ter andado lá pelo mundo das touradas, em busca de aprendizado dessa diversão, a meu ver, excêntrica, voltou e se tornou proprietário de um bem montado circo de touros.

No nosso país não existe e nunca existiu estrutura para esse tipo de coisa. O circo de touros não faz parte da nossa cultura apesar dos nossos fazendeiros admirarem esses espetáculos. Influência, talvez, do convívio com esses animais donos desta festa...

Era, portanto, o circo do Luiz Belo, com certeza, o melhor circo da ordem; ao passo que instalado na Espanha, com certeza, seria o pior de lá...

Diziam: “Luiz Belo, é o melhor toureiro do Brasil”! Era a ultima atração do espetáculo e para ele era reservado o touro mais teimoso e mais violento...

Apresentava-se com uma pose de toureiro espanhol, talvez, trazendo no seu íntimo a máxima: “Se El Cordobés chegou lá, eu também chegarei porque sou melhor...”. Garbosamente se empanava em vestes de estilistas espanhóis...

Segurava um boi pelos cornos enquanto o palhaço puxava o rabo do pobre animal...
Como se vê, apenas as vestes de Luiz Belo, poderiam ser comparadas com as touradas espanholas.

Um grande problema: não possuía uma manada de animais preparados para tal. Portanto, os animais eram cedidos por empréstimos por fazendeiros locais que escolhiam entre as suas rezes as mais violentas e que oferecessem algum perigo.

Prudente seria, todavia, transportar um animal desses, escolhido como bravo e rebelde, num veículo próprio, ou à noite, para maior segurança da população...Mas, não... Os animais designados para o espetáculo vinham tocados, como que para o matadouro ou para um apartamento de reses... E nem sempre se faziam acompanhados de uma madrinha.

Na década de 50 quando eu morava na Rua Coronel João Afonso, era nosso vizinho e residia, onde está localizado, hoje, uma loja de produtos agrícolas, na esquina com a Rua Belmiro Costa, um senhor chamado João Lopes.

Cidadão pacato e tranqüilo. Se me não engano já havia se aposentado de sua fazenda e teria se estabelecido definitivamente na cidade.

Eu o via sempre descer a rua e ir até a venda do Zé Lara, onde está localizado o Bar do filho do Vicentinho Vilela. Subia e descia como que já tivesse acertado as contas com a vida e já se encontrava desvinculado de compromisso com o futuro. Afinal, aposentar-se, é, infelizmente, queira ou não queira, estar como que, no aeroporto da morte aguardando o avião que faz escala no inferno, purgatório e céu... Pior, ainda, antes, quando o vivente trabalhava enquanto continha forças.

Eu, que sempre estava de plantão assentado num banco à porta da minha casa, dava noticias de tudo que se passava na rua. Vi, como sempre via, João Lopes, calçado de chinelos de couro, descer a rua com os seus passos lentos, sorrindo para um e para outro, exibindo os dois dentes de ouro no seu maxilar superior.

Lembro-me da última vez que o vi sorrindo, quando desceu a rua, rumo à venda do Zé Lara. Uma hora depois, eu o via transportado sobre uma cama conduzida por quatro homens, alguns acompanhantes e uma meninada curiosa.... Estava agonizante e a roupa tinta de sangue... Era uma quadro de dor que dali a pouco iria aumentar aos olhos da família.

E o que teria acontecido? Vi quando alguém perguntou a um dos transportadores da padiola improvisada, o que teria acontecido ao senhor João Lopes, e a resposta teria sido de que um boi bravo o havia atacado nas imediações da antiga praça do circo, hoje Praça Antônio Furtado.

A falta de recursos, ou mesmo a falta de expediente que havia naquele tempo, fez com que os atendentes do socorro prestado ao moribundo, se limitassem ao entregar, simplesmente, o corpo quase sem vida aos seus familiares, diante de um desespero incontrolável.

Aquela cena de horror encontra-se guardada dentro dos meus olhos. Vejo, ainda, aquele homem pacato, descansado, agora com o corpo banhado em sangue... Não o sangue de um boi, mas o seu próprio sangue...

Que boi bravo seria esse meu Deus?... Perguntei aos céus!...

A Praça Antonio Furtado era destinada a armação desses circos de arena, anfiteatros, parques de diversões etc. E ficava bem proximo dali. O animal estourou-se nas redondezas do circo quando era tocado livremente pelas ruas... João Lopes, nascido e criado numa fazenda não teria avaliado o perigo que corria ao passar pelo boi que se encontrava desnorteado por ali. O bicho avançou-se contra ele e o arremessou longe.

Naquele dia o serviço de alto falante do circo não funcionou, a casa da vitima ficava muito perto... Mas, enquanto João Lopes estava entre a vida e a morte dava para ouvir da trombeta do circo uma voz forte a gritar:

“Senhoras e senhores! Dentro de alguns minutos na arena o touro criminoso... Luiz Belo irá desafiá-lo com a sua capa espanhola”. Era Luiz Belo nos píncaros da glória!

Quanto ao João Lopes a morte não lhe poupou. Algumas horas após o término do espetáculo com o touro que lhe ferira, João Lopes partiu desta vida deixando impune os responsáveis pela tragédia.

Era como se fizesse cumprir as leis de Êxodo 21:28.

Anos mais tarde, vejo um pequeno circo armado nas imediações do bairro da “Lage”.
Era um circo com o aspecto geral da miséria traduzindo toda a falência da arte de tourear. Aquilo poderia se chamar tudo, menos um ponto de espetáculo.

Diziam cá de fora que o espetáculo se limitava a duas rezes e apenas um toureiro para operar... O semblante do bilheteiro/porteiro traduzia amargura e desânimo. Seu sorriso se escondia de uma boca sem dentes... Suas botas agora eram substituídas por chinelos de tiras... Seus cabelos escondiam debaixo de um chapéu velho... Um visual dramático... Era o fantasma de Luiz Belo, aguardando o ônibus da morte aqui em Candeias onde outrora teria atuado na sua arena iluminada... Já não era mais toureiro e talvez não tivesse mais gosto pelos touros. Caíra num buraco do qual não conseguia se livrar...

A pobreza tem o poder de pregar peças à felicidade...


Armando Melo de Castro

Candeias MM Casos e Acasos

6 comentários:

Tássia disse...

Caramba, na minha infância eu ouvi muito falar do Luiz Belo, e acho que me lembro um pouco desse final infeliz dele, lá perto do campo da Associação. Nunca tinha ouvido essa história do pobre do João Lopes, que coisa!
Parabéns pela lembrança, Armando
Clara Borges

Raiane disse...

Belo documentário Armando,até me emocionei aqui em ler essa história do meu avô,tem coisas aí que eu nem sabia,Ele ainda é vivo tem 85 anos e reside na mesma cidade de Formiga,tem duas filhas no casamento Emilia E Decimilia e um filho antes do casamento.
Hoje 2 filhos em formiga e uma em BH.
Ainda é o mesmo homem alto e por sinal muit vaidoso,o mesmo adorável.
raianelacerda@hotmail.com

Anônimo disse...

Nossa !!!...Sou de Corrego Danta, MG, nao muito longe de Candeias ou de Formiga.
Me lembro dessas touradas qdo eu ainda era bem criança e nunca mais tinha ouvido falar nesse nome tão famoso pra mim naquela época. "luiz Belo"
Que Historia fantástica esta. Me remeti aos meus tempos de criança e me emocionei aqui.
Obrigado por mecher com minhas emoçoes Armando

Anônimo disse...

Fiquei surpreso ao ler aqui algo sobre um personagem que marcou muito a minha infancia. Sou de Corrego Danta MG cidade nao muito longe de candeias ou formiga. Me recordo com nostalgia do famoso circo do Luis Belo......me emocionei aqui....viajei no tempo. Pensava nunca mais, nem sequer ouvir o nome LUIZ BELO abraço ao SR. Armando Melo de Castro

Anônimo disse...

fiquei sabendo que o Luiz belo morreu

Onofre Ribeiro disse...

Na minha infância, em Campos Altos, lá por 1956, assisti a muitas touradas do Luiz Belo. Era mesmo bonitão e vaidoso. O alto falante do seu circo tocava até uma canção em sua humenagam: "Luiz Belo é o meu nome. Sou filho de fazendeiro. Sou natural de Formiga, porisso sou mineiro. Eu nasci come essa sina, sina de ser toureiro..."