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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

UMA MISSA EM LATIM


 Resolvo dar uma volta. Desço a rua da minha casa, a Vereador José Hilário da Silva, e tomo a Avenida Pedro Vieira de Azevedo; sigo rumo a Vila Vicentina. É lá que faço uma parada de vez em quando para ver como estão os velhos amigos e, enfim, conviver um pouco com aquela gente cujo futuro já é conhecido.

Nas imediações da casa do senhor Zé Duarte, defronto-me com um cidadão gordo, assim como eu. De cabeça branca, assim como eu. Contando mais de meio século de vida, assim como eu... E outros adjetivos mais carregados na nossa cangalha de tempo...

Eu não o reconheci e nem ele me reconheceu... Melhor: nós não nos reconhecemos por culpa do tempo que mudou a pele de nosso rosto... Trocou as nossas cadeiras por ancas... Pintou a nossa cabeleira de branco e outras coisas mais que nos fizeram passar um pelo outro sem que percebêssemos que ali se cruzavam duas pessoas que outrora se encontravam regularmente numa sala de aula. Era ele o meu professor e eu o seu aluno...
Ao cruzarmos, pensei cá comigo: eu o conheço, mas não sei quem... E ao vê-lo entrar na sua residência, confirmei: Zé Duarte!

Sim, porque Zé Duarte foi meu professor de latim quando estudei no Ginásio de Candeias, por volta do ano de 1960. Além de professor, Zé era Bancário, do Banco de Crédito Real de Minas Gerais S.A. cuja agência ficava estabelecida onde se encontra, hoje, a Prefeitura.
Nada mais, no meu tempo de ginásio, deixava-me tão contrariado do que assistir àquelas benditas aulas de latim, ministradas pelo Zé Duarte. Aquele sotaque do latim fermentava o meu cérebro. Talvez pelo fato de estar acostumado com o lero-lero do padre nas missas em latim. Essas me faziam totalmente alheio àquela coisa. E depois, não me passava, nem por perto, vir a ser padre. Eu queria crescer para namorar e padre seria apenas para me casar e batizar os meus filhos. E, para mim, latim só serviria para quem viesse a ser padre... E eu não entendia porque estudar aquilo uma vez que já se tratava de uma língua morta.

O Zé Duarte teria sido seminarista e, com isso, estudara o idioma... Aquela língua complicada, já agonizando nos currículos escolares... E a gente deveria ficar ali, ouvindo aquela ladainha... E eu só pensava: Senhor! Dai-me forças!...
Mensalmente, havia uma sabatina cujas notas eram transmitidas aos alunos em voz alta e em bom som... Quem passou pela rua, num desses momentos, com certeza, terá ouvido o Zé Duarte encher o peito e dizer: Armando Melo de Castro: Zeeeeeeeeeeeeeeeeeeero.

Ambiguidade familiar eram as missas no latim. Não havia coisa, também, mais sem sentido. O padre, lá na frente, de costas para os fieis e ninguém entendia nada do que ele falava... Signum, crucis, noster, pater, Angele, Dei, etc.etc.etc. Ai meu Deus! Pra quê isso?! Assim era a minha concentração durante a missa.

Como naquele tempo o povo rezava mais do que nos dias atuais, a igreja ficava sempre lotada e não havia bancos para todo mundo. Então, as naves da igreja ficavam superlotadas. Era costume nos acomodarmos na nave que ficava à direita do altar-mor, bem nas proximidades de um confessionário. Parece-me que, naquele tempo, os fieis tinham lugar fixo na igreja... Comumente, se via a mesma pessoa no mesmo lugar e em todas as missas. Lembro-me, como se fosse hoje, o Sebastião Redondo e o seu filho Antônio Redondo, assentados, bem juntinhos e bem gordinhos, ouvindo atentamente o sermão do padre. Havia uma parenta do padre que, se acaso, alguma pessoa tomasse o seu lugar nos bancos, a intrusa era convidada a desocupá-lo de maneira hostil. A Joana do Galdino, moradora da Rua Coronel João Afonso, tinha afixada, na sua parte do genuflexório, uma pequena almofada para torná-lo mais confortável. E, se porventura, alguém tomasse o seu assento... Brigava ali, na frente de todo mundo, e depois, tomava a comunhão numa boa... Mas, nas rezas, o povo era dispersivo... O padre rezava o seu latim... Os homens rezavam o seu terço... As mulheres cantarolavam... Até que, num determinado momento, tudo se tornava um silêncio total. Era a hora da consagração.
As pessoas se ajoelhavam, ficavam de cabeça baixa, batendo a mão no peito e dizendo algo que ninguém ouvia e nem sabia o que era...

O meu pai, quando me via absorto, cochichava nos meus ouvidos e mandava falar: “Jesus, perdoa-me, por misericórdia”. Eu achava aquilo muito esquisito, afinal, eu não havia feito nenhum pecado... Mas, dizia muitas vezes, em voz alta, sem me preocupar de que estaria chamando a atenção dos presentes.

Eu era ainda bem criança quando, certo dia, bem à minha frente, eu ali sob os olhos vigilantes do meu pai, exato na hora de dar início à cerimônia consagrada... Hora de ajoelhar para receber a santa fluidificação... De ouvir apenas o soar da sineta... Hora de rogar a Deus pelos pecados e, no ápice da concentração, um barulho quebra o silencio: Um flato! Um flatão! Solto naquela hora sem que o seu dono pudesse fazer algo para impedi-lo tornando-se totalmente impotente, naquele momento.

Era um senhor magro, claro, meio idoso, terno de brim amarelado, chapéu na mão e bengala. Escorava-se na bengala para se ajoelhar e, nesse exercício, soltou, involuntariamente, o prisioneiro que havia em sua cela.

Criança munida de todos os sentidos, na forma de “zero-bala”, e sem as malícias adultas que ainda não lhe haviam poluído o cérebro, disse em voz alta: Pai! Alguém deu um peido aqui dentro da igreja e isso é pecado. No que fui admoestado pelo meu pai através de um olhar repreensivo.

Fiquei silencioso diante do olhar severo do meu pai. Mas, ao sair da igreja, junto àquela aglomeração, eu disse alto e em som aberto: “Pai, olha ali o homem que deu o peido dentro da igreja”... Pai, ele dá pum e raspa a bengala no chão para enganar a gente.

Somente hoje eu poderei entender o olhar daquele homem sobre mim: É como dissesse:
“Ai que vontade de matá-lo, desgraçado!”.

Armando Melo de Castro

Candeias Casos e Acasos.

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