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segunda-feira, 12 de abril de 2010

SOBRE QUEDAS E JABUTICABAS


A jabuticaba é uma fruta nativa do Brasil, originária da Mata Atlântica e muito desenvolvida em Minas Gerais. Para nós mineiros trata-se de uma árvore corriqueira; toda pessoa a conhece, o que já não acontece em outros Estados do Brasil. Não é muito espontânea no nordeste porque não é dada em climas muito secos.

Também não é comercial. Logo que colhida tem que ser consumida. Aliás, é de se saber que a jabuticaba é boa de ser chupada no pé. Além do mais, requer certo cuidado ao ser consumida, porque se trata de uma fruta cheia de caroços. E esses caroços depois que adentram o aparelho digestivo são congestionantes, ou seja, entulha os intestinos do ávido comilão que vem a pagar caro pelo descuido. Lembro-me, sempre, quando estou chupando jabuticaba, do meu pai dizendo: “cuidado menino isso intope”! E quantas vezes eu não me vi entupido quando era menino?...

Existem diversos espécies da frutinha brasileira, entre elas a miúda e a graúda; mais comum na nossa região... Não é aconselhável comer nenhuma delas com o caroço, mas a de qualidade graúda, se o cristão facilitar, o “congestionamento” é fatal.

Eu tenho uma amiga, Irmã de Caridade, vinda das Filipinas. - Veio prestar seus serviços religiosos em Lagoa da Prata. Ela não conhecia jabuticaba e ficou encantada com o pé florido e depois com as frutas... Ficou cheia de desejo de experimentá-las. E não se poupou. Diante da fartura só não comia a casca da fruta e essas eram daquelas de qualidade graúda e estavam bem graúdas. Ela comportando-se como uma sôfrega comilona, comia tanto com os olhos quanto com a boca.

Irmã Clara!... Que dó que eu tive dela!...Viu-se numa situação muito constrangedora. Recém chegada no Brasil, não sabia falar e nem entender a língua portuguesa. Entrou na jabuticaba com caroço e tudo. Depois foi aquele Deus-nos-acuda. Foi parar no hospital. E que vergonha coitada... É fácil de imaginar uma irmã de caridade entupida de caroço de jabuticaba, num país estranho, não entendendo quase nada e tomando um clister... Meu Deus! Isso deve ter sido um castigo...

No meu tempo de criança em Candeias haviam muitas casas fechadas e as frutas perdiam nos pomares. Os fazendeiros moravam na zona rural, mas tinham suas casas na cidade para as épocas de festas. Era uma situação muito diferente de hoje. Com os amigos do alheio que existem, se alguém deixasse uma casa fechada como se deixava antigamente, nos dias atuais, não encontrariam nem mesmo a casa no lugar. Mas, naquele tempo parecia que havia mais respeito e os ladrões não andavam tão à solta como hoje.

A meninada da cidade comumente pulava os muros a fim de associarem aos passarinhos, principalmente os sanhaços, em busca de frutas maduras. E eu, para não ser diferente, também fiz isso, quando quase morri ao cair de um pé de jabuticaba. Posteriormente com o esfrega que levei de Dona Julita, por causa das suas laranjas, eu nunca mais me arrisquei a entrar num pomar alheio. Aliás, como ladrão de frutas, nos quintais, eu não fui nada bem sucedido. Foram duas vezes... Foram dois fracassos...

A Rua Pedro Vieira de Azevedo, antigamente, chamada, Rua dos Capãos, era uma rua de poucas casas. Onde atualmente está edificada a casa do Wandinho Bonaccorsi, havia uma grande casa velha, de pau-a-pique, caindo e abandonada. Diziam tratar-se de propriedade dos Furtados ou do Dr. Renato Vieira. Tinha lá um pomar imenso que ia até ao córrego. Eram muitos pés de mangas, jabuticabeiras e laranjeiras abandonadas. E o que cercava tudo isso era apenas uma cerca caindo, feita de arame farpado. Assim não havia impedimento a quem lá fosse fazer a sua colheita sem autorização do dono.
Sabe-se que uma fruta do pomar do vizinho é mais doce... Mais madura, enfim, muito mais gostosa.

Eu tinha mais ou menos uns doze anos de idade quando estive nesse pomar em busca de jabuticaba. Eu e mais o Zé Eustáquio Alvarenga, meu cunhado falecido, marido de minha irmã Maria Amélia.

Nós éramos vizinhos e amigos. Fomos juntos e escondidos de nossos pais, chupar, no pé, as deliciosas frutas do alheio. Felizes da vida, bem nas grimpas da árvore, o galho quebra, eu e Zé Eustáquio caímos ao solo o que nos levou a ficar gritando por socorro. Ele com o braço quebrado e eu sentindo que as pernas haviam entrado no meu corpo. Com muito sacrifico conseguimos sair andando ele segurando o braço e eu quase que agachado envolvido por uma dor terrível.

Defronte dali, morava uma “dama” morena, um tipo esquisito de porte precário, cobrindo as suas farripas com um lenço cor de sujo; um baita cigarro de palha enfiado na boca já contando a quarta dentição e preta pelos malefícios do fumo. Devia ter uns setenta anos de idade e seus traços davam sinais claros de que a vida, em nenhum tempo lhe fizera jus ao apelido que recebera na juventude --- Izefa Beleza --- Trazia no seu visual o pecado de uma mariposa cuja luz foi um distinto senhor chamado Nascimento Cassiano, com quem vivia maritalmente. As pessoas temiam a ferina língua daquela vigilante do alheio como legítima representante de uma patuléia sem escrúpulos com o respeito privativo de uma pessoa de bem.

Ao lado do grande pomar da tapera, havia uma casa onde passa hoje um segmento da Rua João Sidney de Souza. Ali residia à família do Sr. Légio, um senhor vindo da vizinha cidade de Cristais, comerciante de galinhas quando, naquele tempo que não havia, ainda, o frango de granja. Sua esposa, Dona Nira, pessoa boníssima da qual guardo gratas recordações, foi quem nos socorreu levando água de sal e propondo providências se necessárias.

Ao sairmos defrontamos com aquela figura rara exposta na janela de sua residência. A casa dela ficava onde mora hoje a família do Senhor Roldão. Bem de frente ao cenário dramático começamos a ouvir, daquela bruaca, um falatório enquanto soltava baforada de cigarros. A velha mais parecia um preto velho num círculo de fogo recebendo um espírito mau.

“Eu sabia que um desses esfomeados ainda ia cair lá de cima. Parece que não tem comida em casa... Esses filhos sem pai e sem mãe... Esses degenerados. Parece que essa praga nunca viu fruta na vida... Esses diabos nem entopem... Eu chupo meia dúzia dessa desgraça e já estou entupida. Esses moleques chupa, chupa e não lhes acontece nada.”

Na hora tive raiva. Tive vontade de matá-la se me fosse possível. -- Deveria ter nos acudido ao invés de ficar ali falando todas aquelas coisas disparatadas.

Posteriormente, Izefa Beleza veio residir frente à casa de minha mãe e eu pude conhecê-la melhor. Não tinha amigos. Vivia só. Não recebia visitas... Era uma pessoa muito infeliz... E a infelicidade a fazia maldosa, revoltada por não ser honrada, revoltada por não ter filhos e por isso não gostava de filhos dos outros... Não conhecia o seio de uma família... Não conhecia o amor, pois nunca teria sido amada... Ela era simplesmente um produto do meio em que vivia e o seu meio não era bom... A solidão da velhice lhe causava medo. Para ela a solidão era a consciência da morte... E por estar encantoada pela idade, pelos males que lhe afligiam, pelo medo que lhe atormentava, falava de tudo e de todos e quando não tinha de quem falar falava de si mesmo. Izefa Beleza era o símbolo da tristeza. O mundo para ela era como se fosse uma lata de lixo do qual ela pertencia. Não tinha um sorriso para oferecer... Não recebia de ninguém uma palavra de alento... Não convivera com o bem, pois, nunca fizera por merecer... Porque não sabia como fazer... Terminou os seus dias junto de seus cachorros morrinhentos e que moravam dentro de casa.

Certa vez Izefa me pediu o favor de trocar uma lâmpada da sala de sua casa... E nesta oportunidade, num declínio de moral ela me disse: “É preferível cair de um prédio a cair na vida”. Ela não sabia que um dia teria demonstrado a mim toda a sua maldade... Lembrei-me do meu tombo da jabuticabeira... Pensei lhe perguntar, o que achava de cair de uma árvore, ao invés de cair na vida... Quis lhe perguntar se já teria visto alguém cair de uma jabuticabeira... Enfim quisera fermentar a sua consciência, mas desisti, achei melhor esquecer eu já não era mais um ladrão de jabuticaba e preferi perdoá-la do fundo do meu coração.

Onde quer que esteja Izefa, que Deus lhe abençoe...

Armando Melo de Castro
Candeias/Abril de 2010

3 comentários:

Clarita disse...

Ah, que delícia chupar jabuticaba no pé! Não invado hortas alheias, mas sempre dou um jeito de me fazer ser convidada a desfrutar das 'pretinhas'. Agora, no início do mês de abril, com esse clima louco, algumas jabuticabeiras já tinham florido e desfrutei com vontade dos frutos, invadindo uma horta, que no final, não foi invasão, porque será o futuro quintal de minha irmã Poliana. Boa recordação, Armando.

Luiz Celso disse...

Caro Armando
Não conheço Candeias e nem Lagoa da Prata, mas sou mineiro de Pirapetinga e conheço muito bem essa sua história porque eu também a vivenciei. É maravilhoso chupar jabuticabas no pé, para rivalizar com esse prazer, somente chupando manga espada lá no alto da mangueira. Que maravilha é ter vivido no interior. Hoje vivo no Rio de Janeiro e, em vez de jabuticabas, recebemos balas de chumbo, em vez de corremos do "Seu Zé" dono do pomar, corremos para escaparmos dos bandidos. Triste é a vida de nossos filhos e netos que não sabem o que é chupar jabuticabas no pé, no pomar do Seu Zé.
Queria te perguntar: estou escrevendo um livro de memórias sobre momentos do passado e as jabuticabas não poderiam ficar de fora. Não disponho de nenhuma foto de uma jabuticabeira em flor e com seus frutos, você poderia ceder seus direitos de uso para que eu possa eventualmente incluí-la em meu texto? Ficarei imensamente grato. Meu e-mail: hygino@estacio.br

Anônimo disse...

Olá Armando,

Parabéns pela linda crônica.Sua história foi tão bem narrada que eu cheguei a pensar que estava assistindo tudo que você escreveu.

Parabéns