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terça-feira, 20 de abril de 2010

UM FRANGO PRA GALO


   Por volta do ano de 1959 existia, em Candeias, na Avenida 17 de Dezembro, o Bar e Restaurante, do Sebastião Cassiano, posteriormente o Bifão do Lulu e atualmente Restaurante da Cidinha. ---- Ao lado desse bar, ---- havia uma Barbearia de propriedade dos barbeiros, Srs. Arquimedes Viglioni (Midinho) e Pedro do Candola (Pedrinho). Anexo à barbearia, de propriedade dos mesmos donos, havia uma tabacaria a qual lhe foi dado o nome de Tabacaria BB (Tabacaria Brigitt Bardot) numa referência à famosa atriz francesa, então, no auge da fama.

Nesta tabacaria me foi dado o primeiro emprego.

Além da barbearia, e a tabacaria, num apêndice da área, foi montado um pequeno estúdio fotográfico do Sr. Cândido Roberto Teixeira, o Candinho do Vico, onde havia, também, um cubículo designado ao laboratório fotográfico.

Eu ganhava em termos do dinheiro antigo, duzentos cruzeiros por mês. A praxe de vender cigarros despertou em mim o entusiasmo para adquirir o hábito de fumar. Comecei a fazer parte da confraria do fumo, nessa época, quando contava treze anos de idade, e somente fui abandonar o vício no ano dois mil após quarenta anos.

Eu era um menino bobo criado na barra da saia, sem maldade, completamente cego diante da vida, não sabia um palavrão, nem uma piada; mas os meus instintos naturais já começavam aflorar o meu cérebro inocente. Sabe-se que os jovens aos treze anos já entram para a adolescência. E aí está uma fase confusa da vida... Sentem-se inseguros; carentes de afeto e são inconstantes. O mundo vai mudando e com ele vai o adolescente deixando as gerações mais conservadoras em total desacordo. Começam a fermentar o líquido da contradição; das coisas condenadas e pecaminosas... Daí entra nos caminhos pouco transitados da vida, hora em que colocam suas almas sob disputa dos anjos e demônios.

Nesse caso, trabalhar num salão de barbeiro, seria muito interessante para um adolescente que inicia o descobrimento das reações do corpo até então desconhecidas...

Sendo o homem um produto do meio, aquele ambiente favoreceu para eu começar a esconder nas células do meu cérebro os mais íntimos pensamentos; mesmo porque, é de todo sabido que antigamente, num salão de barbeiro, rolavam piadas sobre sexo, revistas pornográficas importadas da Noruega, (no Brasil essas edições eram proibidas) além dos comentários sobre a vida alheia... Mulher do fulano, do beltrano, do sicrano. Enfim, ali se tomava conhecimento de tudo e de todos. Não porque o dono da casa queria, mas, como segurar a língua do freguês?... E depois o ambiente era favorável em virtude de que os salões de barbeiros e cabeleireiras eram frequentados por pessoas do mesmo sexo. Não existiam esses salões unissex; favorecendo, então, a liberdade de expressão. Tratava-se de uma questão cultural, atualmente, bastante escrupulosa, felizmente.

Eu, um garoto de treze anos, ali presente, tomando aulas o dia todo, após uns três meses já poderia receber um diploma em conhecimentos sobre a vida dos outros: Já sabia o que era uma prostituta e quem era prostituta; sabia dos podres dos padres; o que era corno e o que ser cornudo. Sabia quem pulava muros à noite para comer a fruta do vizinho sem pomar. Sabia o que era uma camisinha de “vênus” e para o quê servia. Sabia quem era o Zé Bolinha e o que vendia no seu tipo de comercio, um cabaré. Sabia o porquê de o galo arrastar a asa para as galinhas. Enfim eu sabia porque o meu sangue fervia dentro de mim quando via a Fi-inha do Xande, uma jovem prostituta, que bebia, se embriagava e se assentava de qualquer jeito pelas portas, mostrando aos passantes o seu instrumento de trabalho totalmente desprotegido.

Esse emprego na tabacaria teria mudado a minha vida. Fumava escondido e bebia escondido. Imaginava já, dar uma chegadinha pelas bandas do Zé Bolinha, situado na rua do capim, lá naqueles fundões da cidade, donde viria posteriormente o seu sucessor, Pedro Pitanga. (Praticamente acabado).

No reduto do Zé Bolinha, além de umas casinhas de aluguel para as meretrizes, havia, também, uns cômodos de aluguel que ficavam nos fundos. Somados ao bar, perfaziam o meio da zona boêmia. Lá era um céu cujo deus era o diabo. Não havia naqueles tempos essas liberdades de hoje. Sexo de graça era coisa de gostosão. Caso uma namorada lhe abrisse mão da sua virgindade, para o namorado, o romance estava terminado.

Afinal, eu estava naquela fase de achar que as coisas inventadas pelo diabo eram mais atraentes...

O pequeno estúdio fotográfico do Candinho ficava junto à barbearia, separado por uma divisória precária e um portal prendendo uma cortina de chita. Assim, para se chegar ao estúdio era necessário passar entre a barbearia e a tabacaria.

Das damas da noite que prestavam os seus serviços ao vulgar empresário Zé Bolinha, havia uma morena, tipo “mulata do Sargentele”, contando mais ou menos uns quarenta anos de idade e teria vindo dos Baiões, uma comunidade ligada a Candeias, porém, pertencente ao município de Formiga. Ela passava todos os dias à porta da barbearia, e logo os fregueses ali presentes faziam os seus comentários sobre os bons serviços prestados por aquela mariposa. Como diziam: “Essa nega tá abafando”.

Certo dia, num horário de almoço, quando eu me via sozinho no recinto, chega àquela cabrita e assenta-se numa das cadeiras aguardando a chegada do fotógrafo Candinho, que aparecia naquele local só diante de alguma encomenda.

A sensação de ver-me sozinho junto àquela mulher pecadora me fez sentir os arrepios mais emocionantes do meu corpo sem pecados. Senti naquele momento que o diabo não era tão feio como o pintam.
Eufórico mas desajeitado, não sabia como puxar conversa. Fiquei na expectativa enquanto os meus olhos buscavam o que o pensamento já via.

De repente, aquela mulher, causa de desejo que proporciona o efeito do prazer remunerado, pergunta-me se havia estado por ali um cidadão chamado Zazá, para o qual iria tirar uma foto para lhe dar de presente.
De súbito, quase que num desespero, quando deveria estar vermelho como um tomate, todo encalistrado, soltei a voz e lhe perguntei:

--Você não daria um retrato para mim também?
No que ela sorrindo, mostrando uma janela entre os dentes, me disse:
--Para você eu dou é eu mesma se você me der dois maços de cigarros por mim escolhidos...
Naquele momento o meu sangue ferveu. Senti-me apatetado, eufórico, pasmado, desorientado, assustado, abobado, como se tivesse ganhado o grande premio de uma loteria.
Era a inexperiência batendo contra a experiência. Dera-lhe a liberdade de escolher e a rameira não pensou duas vezes ao escolher o cigarro mais caro da época: “Columbia".
Naquele momento eu pedi a Deus, para que ninguém chegasse ali, pois era o momento de marcar o horário e o local onde estaria a minha espera o meu leito de verdura... Mas se o diabo, realmente, tem poder foi ele quem ajudou.

Naquela noite às oito horas o mundo estaria de cabeça para baixo para mim. Meu sangue fermentava. Minha cabeça não pensava em outra coisa. Havia tomado de dois maços de cigarros, caros, num tipo de apropriação indébita... As horas não passavam. Finalmente o relógio deu seis horas. Era hora de ir para a casa.

Tomei um belo banho de bacia sob o interrogatório de minha mãe. Lambuzei-me do perfume Madeira do Oriente numa associação com a Brilhantina Glostora...



E como ainda não sabia o que era axila, passei perfume até no sovaco da perna... Vesti-me da minha camisa de missa e da minha calça de festa.

Quando o relógio marcava sete e meia da noite eu estava atrás de uma mangueira existente, até hoje, abaixo do Cemitério São Francisco, a poucos metros dali seria o encontro fatal. 

Minha cabeça zunia tal qual uma cabaça de abelhas. Eu imaginava uma alcova branca, especialmente preparada para a minha virgem inocência.
Foi chegada a hora. Cheguei à porta do casebre. Bati na porta. Meu coração rebatia.
Uma voz de homem foi ouvida lá de dentro. Tremi num desespero total. Abriu-se a janela era o Baltazar, um pedreiro conhecido pelo nome de Zazá, 

--O que quer aqui moleque?
--Nada não Sô Zazá...
Aparece, também, na janela, ela, a minha “donzela” toda sorridente e diz:
--Esse menino pra mim deve ser doido...
E o Zazá como velho galo do terreiro bradou:
--Some daqui pinto empestado!

Sumi e nunca mais apareci por lá. Eu não era um galo, mas era um frango pra galo. Era um menino bobo que ainda não conhecia o mundo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


    
  



Um comentário:

José Pedreira da Cruz disse...

Quem não gosta de ler um CAUSO como este? Qual sujeito nunca passou por tal qual momento? A gente viaja na história como se estivesse vivendo as peraltices da personagem principal: um adolescente querendo se desfazer da sua virgindade e na hora H ele se depara como um grande obstáculo; a idade.