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quinta-feira, 17 de maio de 2018

ABELINO SALVIANO.

                                                    Abelino Salviano e seu conjunto.

Dando uma olhada no retrovisor da minha juventude, encontro-me com um conterrâneo dos mais queridos da nossa comunidade. Um descendente da família Salviano, ----- uma das mais tradicionais famílias candeenses, de cuja gema nasceu Abelino Salviano.

Abelino Salviano nascido no dia 19 de maio de 1912, e falecido em 2009 aos 97 anos, na capital de São Paulo, onde se encontra sepultado. ----- Portanto, Abelino estaria completando, neste mês, 106 anos. ----

Filho de João Batista Salviano e Leonina Maria Lúcia. ---- Logo após o seu nascimento sua mãe faleceu. À vista disso, foi entregue aos cuidados de suas tias beatas, Sebastiana e Domitila, irmãs de seu pai. ---- Elas moravam na Casa Paroquial, quando pároco era o Padre Américo Brasileiro. ---- Sendo assim, Abelino foi criado por duas tias e tendo o Padre Américo como um verdadeiro pai que lhe transmitiu grande parte da sua cultura didática e musical.

Homem simples, muito religioso, congregado Mariano, honesto, trabalhador, reservado e muito correto com os seus compromissos. ---- Casou-se com a senhora Luzia Trindade Salviano, com a qual teve quatro filhos, sendo eles: Angélica, residente em São Paulo ---- Ângelo, (meu condiscípulo do Grupo Escolar Padre Américo) Ângela e Hailton, o único residente em Candeias, casado com a Delma, filha do já falecido e amigo Vicente Teixeira.   

Pai de família exemplar, não permitia palavrões na família o que se lhe dava motivo para enérgicas repreensões aos filhos.
Aprendeu o ofício de alfaiate o qual exerceu por grande parte de sua vida. Tinha a sua alfaiataria junto a sua residência, que ficava num velho casarão centenário, construído com Pau Brasil, onde se mantinha rastros do tempo da escravidão. Esse casarão situava-se ao lado da Igreja Matriz onde atualmente se encontra instalada a COPASA.

Abelino Salviano amava o seu trabalho, mas a sua paixão verdadeira estava na música. O seu instrumento especial era o clarinete. ---- Assim, ensinou a vários companheiros esta arte adquirida com o Padre Américo; tendo sido também, membro e um dos fundadores da primeira Banda Musical de Candeias, ----- Um de seus constantes companheiros até o fim, foi o seu irmão José Urias Salviano, o José Leque. ----- Abelino ganhou vários troféus como músico e pela sua dedicação a musica.

Teve o seu Conjunto Musical, “Conjunto Salviano” que por muitas vezes abrilhantou bailes e as chamadas “horas dançantes” em Candeias e cidades vizinhas, entretenimento muito importante num tempo em que não existia a televisão e os rádios eram raros em Candeias.

Mas, infelizmente, Candeias era uma cidade sem recursos. À medida que a indústria de confecções foi crescendo foi decrescendo a profissão de Alfaiate. Assim, esses profissionais tiveram que buscar alternativas. ----- No caso de Abelino a opção foi partir para uma cidade maior que lhe fosse mais conveniente. ---- Em 1960 mudou-se para a cidade de Formiga onde, também, participou da sociedade musical durante dois anos. ----- Dali partiu para São Paulo, naturalmente, na busca da sua sobrevivência juntamente com a sua família onde residiu por 47 anos, vindo a falecer aos 97.

Meu pai Zé Delminda, era muito amigo de Abelino. Lembro-me da minha infância acompanhando-lhe para assistir os ensaios da Banda no interior da sua alfaiataria. ---- 

Lembro-me, também, de Abelino no “Jaz Tiro e Queda”, quando foram seus companheiros, Américo Bonaccorsi, ao saxofone, --- Luiz Bonaccorsi, na bateria, --- João do Sô Nico, no pistão, --- Antônio Jacinto ao cavaquinho, ---- Meu pai ao violão; --- Dino Guimarães (Tio do Tibau do Lulu) e Abelino Salviano, juntos numa dupla de clarinetistas. ---

----- Como era bom esse tempo!!!

A nossa mente é um baú onde guardamos tudo: ----- tristezas, alegrias, e tudo mais que mexe com as entranhas do ser humano. Mas entre todos os sentimentos que abordam a nossa mente, a meu ver, estão em destaque a saudade e nostalgia, ----- A saudade como disse Lu Oliveira: ----- “Saudade tem cheiro, tem gosto; é a vontade que não passa. É a ausência que incomoda. Saudade é a conclusão de que o que fizemos valeu a pena. --------- Sobre a nostalgia disse Mestre Arievis:” A nostalgia pode gerar um comportamento anormal em indivíduos que foram afastados da sua terra natal ou separados da sua família. É um sentimento semelhante à saudade, mas tende sempre a aumentar.

Onde quer que esteja amigo Abelino Salviano, saiba que você deu uma grande contribuição a nossa História de Candeias, portanto, receba o meu respeito e o meu abraço.

Armando Melo de Castro


Candeias MG Casos e Acasos.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

BAZAR TALITA.


                                                                         Antigo Bazar Talita.
Eu suponho que o primeiro bazar que existiu em Candeias tenha sido o Bazar Talita, que foi estabelecido na esquina da Rua João Caetano de Faria com a Rua Vereador Sidney Galdino.

Quem passar por ali pode observar até hoje, cravado na marquise do prédio, o nome BAZAR TALITA.

Fundado no final da década de 50. Porém, não teve vida longa. Talvez pela fragilidade do mercado candeense... Ou pela mudança de ramo de vendas exercida pelo seu fundador, ----- Sr. Afonso Ferreira de Oliveira, ---- possa, quem sabe, lhe ter faltado adaptação no ramo?...

O nome de Bazar Talita foi uma homenagem do seu fundador  à sua filha Talita, a caçula à época. ----Afonso Ferreira de Oliveira pelo que representou, é um nome que merece ser registrado nos anais da História de Candeias.

Afonso foi funcionário, durante anos, do Sr. Mário Rigali, proprietário do Bar Piloto, onde foi o gerente e posteriormente veio a ser o proprietário. ----- O Bar Piloto nesse tempo era um cartão de visitas de nossa cidade ---- Não se servia bebidas no balcão. Apenas nos reservados ou nas mesas. --- Uma referência de conforto e bem estar. ---- Um requinte que hoje não existe mais em nossa cidade.

Após muitos anos naquele bar, Afonso resolveu mudar de ramo.

----Bazar é uma loja onde se vendem vários tipos de objetos, como brinquedos, bijuterias, antiguidades, roupas, brinquedos, objetos de decoração ou colecionadores. --- Existem, também, bazares de roupas usadas.

Enfim, subentende-se que Bazar é uma mistura de produtos à venda. Aquele tipo de loja que tem de tudo, e às vezes bagunçado. Não era o caso do Bazar Talita, que ao contrário do que registra a literatura, era até muito bem organizado.

Antes de se aposentar, Sr. Afonso funcionou como gerente de uma indústria de peças de gesso em Candeias, e posteriormente veio a participar da administração municipal, junto ao Prefeito Francisco Coletor.

Afonso da Alvarina, como era mais conhecido, foi sempre merecedor do respeito de todo o povo candeense. Todos os capítulos de sua história foram escritos aqui onde nasceu, viveu e morreu. ---- Aqui trabalhou honestamente, viveu honradamente e criou a sua família a quem lhe deu o exemplo emanado por Deus. São seus filhos: Terezinha, Túlio, Tarley, Talita, Taísa, Tonio e Telmo.

Um homem correto. Todos os adjetivos que possam qualificar um cidadão na sua plenitude podem ser dedicados ao Sr. Afonso Ferreira de Oliveira,----filho do Sr. J. de Assis e de Dona Alvarina. ---- Portanto, foi muito conhecido por Afonso da Alvarina. -----  Pai de família respeitado e amigo requintado. Jamais teria sido ouvido criticas que pudessem denegrir o seu comportamento lícito e admirável.

Casou-se com Dona Iolanda Teixeira, filha do Casal Sr. Vico Teixeira e Dona Laura Barreto. Esta foi uma união de duas famílias das mais tradicionais de Candeias e que muito colaboraram na construção da nossa história; cresceu e se multiplicou com honra e dignidade. 

Onde quer que esteja Sr. Afonso, receba o meu abraço. Eu o tenho de boa memória, principalmente na data 16 de janeiro de 1952, quando completava seis anos de idade. O presente a mim oferecido por meu pai foi um belo chocolate comprado no seu querido Bar Piloto, e foi de suas mãos que recebi aquele presente em forma de troféu: Era o primeiro chocolate que eu experimentava quando me encontrava no crepúsculo matutino da minha vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

Comentário da Sra. Talita a quem deu o nome ao Bazar.

Obrigada Armando por essa bela lembrança do meu querido pai. Verdadeiro tudo que vc falou. Meu pai sempre foi um exemplo de honestidade, nós temos muito orgulho de ser seus filhos! Sabe Armando a história que eu sei sobre esse nome do Bazar Talita é que meu pai estava em dúvida qual nome daria ao bazar, aí um viajante muito conhecido por todos nós Canadenses, o Sr. Pedro Vieira de Azevedo, meu pai falava que ele era vendedor das Lojas da China e numa dessas visitas ao Bazar ele sugeriu ao meu pai colocar o meu nome pois na época eu era a caçulinha e por sinal bem bonitinha. Há pouco tempo atrás um caminhão danificou o nome, quando eu vi fiquei muito triste pensando que ia acabar aquela tradição, mas qual não foi minha alegria quando o Marquinho e o Sr. Biribico mandaram restaurar o escrito com meu nome. Fiquei muito feliz, até tiramos uma foto em frente ao bazar. Agradeço de coração a vc que lembrou do meu pai com tantas palavras bonitas sobre ele e ao Marquinho e seu pai que não deixaram acabar essa o marca do meu pai. Obrigada de coração a vocês. Deus os abençoe!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

PADRE AMÉRICO BRASILEIRO.

                                                             Padre Américo Cristiano Brasileiro.

Meus amigos: Esse texto não pode ser editado no nosso Grupo "SOU DAS CANDEIAS COM MUITO ORGULHO", por envolver um tema religioso o que viria contraria as regras do Grupo. Portanto, está sendo editado no meu Facebook numa reedição do Blog Candeias MG Casos e Acasos.

Entendo que o tribunal da minha consciência não me condena por ser radicalmente contra o celibato. Portanto àqueles que não concordarem comigo perdoem-me. Afinal eu  sou católico, batizado, crismado e representado, mas não congrego em igrejas. Se exponho o meu pensamento naturalmente esse estará sendo apenas para aqueles que pensam como eu. Não significa, portanto que eu esteja tentando persuadir alguém com esse texto.

Não há nada que promete a Igreja Católica rever essa abstração que gera uma grande vergonha para a igreja. Por ocasião da posse do Papa Francisco teria sido dito que isso se encontrava na sua agenda, mas até hoje o celibato continua, e os padres continuam pecando, e a igreja fazendo vista grossa. ---- O Papa teria mostrado proposta para debater e rever as regras do celibato. Inclusive disse que o celibato não é um dogma de fé e sim um regulamento da igreja; e prometeu tolerância zero contra os abusos sexuais a crianças.  No entanto, parece que o Papa tem mudado  de conversa, pois vive se preocupando demasiadamente com a Amazônia, quando deveria estar preocupado com a vergonha do celibato no mundo inteiro. Já anda até dizendo que o celibato é uma regra de vida e que  muito o admira. É... Ele o Papa andou dizendo que admira o celibato!

Parece-me que na atualidade quem não quer acabar com o celibato são os próprios padres na sua maioria, apoiados pelo Papa. Afinal está parecendo que aquele que quer ser padre, quer na verdade é o celibato e fazê-lo de armário para esconder a sua vergonha. Essa coisa é um adjetivo que qualifica quem não tem intenções sexuais claras e nem quer estar casado do jeito que a própria igreja recomenda.  

Recentemente, quando eu navegava pela internet, deparei-me com um vídeo onde um jovem padre, bastante conhecido na mídia, fazia a apologia do celibato dando ênfase ao assunto de maneira confusa e com certa agressividade. Aquele ministro de Deus, falava alto e parecia até que estava tirando as palavras do estômago, quando dizia que o celibato foi feito para eles, padres, e não para os outros --- e que ninguém teria nada com isso.  --- Dava a entender como se a Igreja Católica fosse uma propriedade particular dos padres. ----- Acrescentou ainda, que às pessoas deveriam estar mais preocupadas com as suas próprias vidas e menos com a deles, os padres. --- Esse padre não estava se referindo a outras igrejas...

Diante daquela pregação excêntrica, onde se via uma questão mais pessoal do que coletiva, fermentou em minha mente o nome de uma pessoa, que Candeias, acolhera como filho adotivo e que dorme o seu sono eterno sepultado no santuário do Senhor Bom Jesus: Trata-se do Padre AMERICO CRISTIANO BRASILEIRO.

Natural da cidade de Lavras ordenou-se padre em agosto de 1876. --- Antes de vir para Candeias já teria servido as paróquias de Perdões e Cana Verde. --- Apesar de ter sido um personagem importante na construção da História de Candeias, pouco se tem registrado de sua vida, graças ao preconceito e a crueldade dessa coisa chamada celibato, instituída pela Igreja Católica e que a meu ver, isso passa da hora de ter um fim..

Pecado, é privar o homem de constituir a sua família, é furta-lo de um direito que Deus lhe deu. --- Ter filhos é desígnio de Deus. É estar comprometido com as obrigações impostas pela vida; é sofrer diante da responsabilidade emanada pelo Criador... Enfim, é participar das Obras da Criação. ---- Não os ter é viver dentro de si; é deixar de crescer e não se multiplicar... É não deixar pai e mãe para seguir a sua mulher e se tornar numa só carne; ---- uma recomendação bem lastreada pela Bíblia. ----

Lembro-me de certo dia, no princípio da década de 50, quando meu pai me chamou para irmos a um enterro. Eu sempre acompanhava ao meu pai nos enterros. ----- De repente me vi na porta de uma capela que existia antigamente na entrada do cemitério São Francisco, onde hoje existe uma pracinha.

Dali o enterro subiu a Rua Francisco Bernardino e foram rumo a Avenida 17 de Dezembro. E eu achando aquilo muito esquisito porque afinal um enterro normal, por costume, saia da casa do morto, passava pela igreja e o ponto final seria o cemitério. ---- Aquele estava ao contrário --- Foi quando fiquei sabendo que se tratava da transladação dos ossos do Padre Américo para a Igreja do Senhor Bom Jesus, após estar sepultado por muitos anos no Cemitério São Francisco.

Foi nesse dia que comecei a entender sobre o que era o celibato e saber um pouco sobre a vida do Padre Américo Cristiano Brasileiro.

Pobre Padre Américo teria violado as leis da Igreja faltando com a vida celibatária por ter sido pai; por ter amado uma mulher. Por causa disso foi punido severamente sendo afastado das suas funções na Igreja de forma humilhante. – –----- Numa visita a Candeias, do Bispo Dom Silvério, Padre Américo, já afastado das suas funções há muito tempo, bem a porta da do santuário, caiu de joelhos aos pés do Bispo e lhe pediu perdão a frente de todo mundo ali presente. E o Bispo lhe fez levantar-se diante daquele cenário tão humilhante. Mas o povo não deixou de amar Padre Américo. É triste ter conhecimento de um fato histórico onde a minha igreja  tenha agredido a própria natureza humana.

Naquele tempo os padres eram sepultados nas igrejas e os bispos nas catedrais. Padre Américo foi humilhado até depois da morte tendo sido enterrado no Cemitério São Francisco. E só após muitos anos que a igreja autorizou a transferi-lo do cemitério para o santuário do Senhor Bom Jesus diante dos clamores constantes do povo candeense.

O Santuário do Senhor Bom Jesus guarda os restos mortais do Padre Américo Brasileiro, como também uma das cenas mais emocionantes de sua vida, quando de joelhos pediu perdão ao Bispo seu superior Dom Silvério Gomes Pimenta. Mas  subentende-se que o Bispo não o tenha perdoado naquele momento porque o seu sepultamento se deu contra as regras da época, no cemitério municipal e não numa das naves do santuário.

Talvez a Igreja tenha autorizado mais tarde a transladação dos seus restos mortais do Cemitério são Francisco para o Santuário do Senhor Bom Jesus, numa tentativa de buscar o seu próprio perdão. Afinal, se a Igreja tem os padres que podem perdoar em nome de Deus, porque não perdoar um padre, antes ou depois da morte?

Um homem de profunda cultura era o Padre Américo. Ele que muito colaborou com a história de Candeias, num tempo quando  Candeias não era ainda cidade. O afastamento do Padre Américo e a sua substituição, não impediu que muitos fiéis continuassem a tê-lo como o pároco, pois era procurado em sua casa para bênçãos e batizados e até casamentos.

O nome do Padre Américo foi ligado injustamente ao preconceito; ao pecado e ao delito em forma de crime. Ele foi humilhado e massacrado. --- A mãe, e os filhos dele foram como se  a razão do seu pecado  e de um crime, ---- o que Deus jamais lhe teria atribuído-----. Isso porque um padre ser pai e amar uma mulher pode ser violar as leis da igreja, mas não as leis de Deus!

Ainda bem que as autoridades políticas lhe deram o nome de uma Escola, para que o seu nome não se tornasse esquecido. ---- Seus filhos foram um pecado escolhido pela Igreja------- O amor que trazia consigo pela mulher e filhos nunca pode ser exposto e nem exaltado. --- João do Padre e Zé do Padre. ---- 

Lembro-me muito do Zé do Padre (Zé Cristiano) Era professor rural. E um homem de cultura admirável. Não foi casado e não teve filhos. ---- João do Padre sim foi casado e teve filhos, entre eles, Maria Brasileira, que foi minha catequista.

Fazer nascer talvez seja um pecado maior para a igreja; matar talvez nem tanto. A Igreja que através dos padres pode absolver os pecados não pensou nisso quando inventou o celibato. Foi conhecendo a história de Padre Américo que comecei a repudiar o celibato.

-----E vendo aquele jovem padre dizer que nós não temos nada com isso... Que o celibato foi feito para eles... Eu fico pensando: E nos registros históricos de irmãs de caridade que já abortaram e enterraram os seus filhos nos fundos dos conventos?... E os filhos de padres abortados na clandestinidade? Filhos que nunca viram os seus pais e que jamais o souberam... Afilhados de padres quando que na verdade eram seus filhos... --- E agora vem aquele padre dizer que nós não temos nada com isso?! Que deveríamos cuidar de nossas vidas?! Histórias essas que sempre serviram de temas para muitos livros e grandes escritores como a história de Eça de Queiroz, no seu livro: “O Crime do Padre Amaro.”

Infelizmente o ser humano tem sim uma tendência arraigada de defender aquilo que lhe interessa. Comumente estamos vendo padres defendendo o celibato. Contudo, eu insisto em dizer que a defesa que eles apresentam não me convence de modo algum.  Principalmente quando dizem que Jesus era celibatário. Sim, Jesus era celibatário, mas não foi ele que instituiu o celibato. ---- Quando comentam ou se defendem com o escatológico, o eclesiológico de forma generalizada. Que não seja pecador e nem infringente das leis da igreja aquele que desejar amar uma mulher e ter um filho e que seja celibatário aquele que o desejar.

Onde quer que esteja Padre Américo mande-nos a sua bênção. Para mim você nunca pecou contra Deus. E se violou as leis da igreja não terá violado as leis de Deus.

Armando Melo de Castro.

 

 

 

UM INVENTOR CANDEENSE

                                                                              Belmiro Costa


Muitas são as invenções brasileiras, assim como o avião, o relógio de pulso, o balão a ar, o orelhão, o cartão telefônico, a urna eletrônica, a abreugrafia e muitas outras coisas, que no momento me falta à memória, e estão no rol das grandes invenções mundiais.
Infelizmente as invenções brasileiras são pouco divulgadas e muitas são roubadas tendo em vista a falta de condições dos seus inventores de enfrentarem a burocracia do registro do invento.

 Muita gente não sabe que antes do italiano Marconi e o canadense Reginald Fessenden, por exemplo, o rádio já teria sido inventado por um brasileiro, o gaúcho, Padre Roberto Landell de Moura, foi ele o pioneiro a transmitir a voz humana num aparelho sem fio. Mas a igreja católica o proibiu de divulgar o seu invento sugerindo que os católicos poderiam achar que aquilo fosse coisa do diabo. ---

As invenções brasileiras são pouco divulgadas como brasileiras. Uma invenção brasileira e que pouca gente sabe é o soro antiofídico. Ele foi criado pelo médico mineiro Vital Brasil, nascido em Três Corações, no sul de Minas. ---- Esse soro tem salvado muitas vidas. Trata-se de um medicamento para tratar mordidas de cobras venenosas e é obtido de anticorpos do sangue do cavalo. ----  

A fazenda onde Vital Brasil desenvolvia seus experimentos é onde está hoje o Instituto Butantã, um dos centros mais importantes de produção de vacinas do país. A descoberta do soro aconteceu no início do século XX

Em Candeias tivemos um grande inventor, o Sr. Belmiro Costa que na sua profissão de pirotécnico desenvolveu um antimônio para a fabricação de pólvora, o qual até então era importado da China.

Orgulhoso de si, Belmiro que já usava o produto do seu invento como um similar do produto chinês, tinha o sonho de vê-lo registrado e fabricado em Candeias. Mas para isso, se fazia necessário procurar um centro de pesquisas. Nas suas buscas através de informações, tomou conhecimento de que na cidade de Jacareí, no estado de São Paulo, havia esse centro.


Infelizmente, no nosso país os governantes apoiam muito pouco às pessoas necessitadas de recursos para pesquisas. Belmiro não conseguiu nenhum apoio governamental. O único apoio conseguido foi, então, do Sr. Mário Rigali, o Piloto, dono do Bar Piloto na época, que o levou a Jacarei. -----Mas, como o Sr. Mário, também, não se dispunha de recursos financeiros para ajuda-lo, ----- a fórmula preciosa de Belmiro Costa, caiu nas mãos de pessoas inescrupulosas com a promessa de um retorno sobre o assunto; e nunca mais foi vista e nem devolvida. Essa conversa eu tive pessoalmente com o Sr. Belmiro.

Belmiro levou para o túmulo o desejo de ver a formula do seu produto fabricado em candeias.  ---- Ele não dizia, fabricado por mim... Ele dizia: O meu invento vai ser fabricado aqui em Candeias.  

---- Candeias, representada por seus políticos, às vezes, é cruel com alguns de seus filhos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

BAR DO OTÁVIO MARTINS.

                               
                                          Rua Professor Portugal esquina com Praça Antonio furtado.

Um dos pontos comerciais mais antigos de Candeias fica na esquina da Rua Professor Portugal com a Praça Antônio Furtado onde, atualmente, se encontra a residência do Sr. Wanderley Andrade, sendo que o ponto comercial, outrora bastante amplo, de diversas portas pintadas de azul celeste, hoje se encontra reduzido a um pequeno depósito de pães. --- Lá, no correr dos tempos, foram estabelecidos diversos segmentos comerciais: bares, empórios, padarias, botequins, etc.

Guardado bem nos porões da minha memória, o primeiro comércio que conheci ali, quando eu comecei a me entender como gente. --- Era o Bar do Sr. Otávio Martins. --- Um bar fuçado, totalmente desorganizado. O piso era de um assoalhado já bem velho, cheio de buracos por onde, naturalmente, deveriam trafegar ratazanas de todas as ordens. ---

Havia uma velha sorveteira que quando ligada, fazia uma acústica com o assoalho provocando tanto barulho que a conversa entre os fregueses se tornava quase impraticável. E, na competição com o ruído da máquina, os frequentadores falavam tão alto que da rua se ouvia tudo. ----Parecia uma locomotiva dentro do bar cujo cômodo era grande e havia muito espaço vago.

Os sorvetes e picolés, ali fabricados, não tinham nenhum requinte de higiene e aqueles copos em forma de casquinha, próprios para sorvete e que o consumidor gosta de comer, eram, comumente, vistos com algum rastro. Além disso, a caixa da salmoura da máquina sorveteira tinha ferrugens que vazavam e se juntavam ao congelado, fato que levava sempre o freguês a se queixar de que o picolé estava salgado.

As prateleiras com garrafas cheias e  vazias pareciam seguras pelas teias de aranha. As vitrinas eram forradas com papel manilha da cor rosa, de péssima qualidade, e que, às vezes, deixava o produto manchado. ----- As cadeiras, tipo “balança mais não cai”, de quando em vez, levava um freguês ao chão. E, quando essas estavam todas ocupadas, os fregueses tomavam assento sobre o balcão bastante amplo à medida da área.

Havia água encanada no bar, mas estava sempre em falta. Nas construções antigas, não se faziam caixas de depósito para água. Usava-se, normalmente, um tambor de duzentos litros sem tampa e comprado, de segunda mão, nos postos de gasolina. Este era preso em quatro forquilhas do lado de fora. Aquilo nunca era lavado e servia de bebedouro para gambás e aves que morriam ali, acidentalmente, e que só eram descobertas quando a água se tornava fétida.

Naquele tempo, a água encanada, principalmente nas ruas de baixo, não tinha um fornecimento regular --- Aí, então, quando a água faltava, a lambança dobrava. ---- Tomava-se de uma gamela cheia d’água e, à medida que os copos eram usados, iam sendo jogados ali, e, quando necessários, apenas retirados e usados novamente. Não se usava lavar os copos com sabão. Apenas deixava-os mergulhados na mesma água usada horas e horas.

Num dos cantos de dentro do balcão, havia um varal de bambu onde ficavam dependuradas linguiças e uma bexiga de mortadela, da pior qualidade, expostas às moscas que, naturalmente, davam, ali, o seu toque de imundície.  Os intestinos dos fregueses, já estariam tão providos de anticorpos que seria mais fácil à morte dos parasitos intestinais do que dos consumidores.

Eu morava próximo dali, na Rua Coronel João Afonso, e acompanhava sempre o meu pai quando estava lá a chamado do proprietário que era seu grande amigo e compadre, a fim de tocar violão para atrair os fregueses que gostavam de formar duplas sertanejas. Portanto, eu sempre saboreava, daqueles restos mortais suínos e bovinos oferecidos por meu pai e os amigos. --- Hoje só de me lembrar disso sinto arrepios.

O meu estômago já estava tão afinado com as porcarias dali que o sentido do paladar nem se ofendia. E meu pai, também, por sua vez, não estava nem aí. Tomava a sua pinguinha e a sua cervejinha naqueles copos infectados, mal lavados e trincados como se estivesse bebendo numa taça usada na Santa Ceia. ----

Mas tem um detalhe desse tempo que eu não me esqueço: Se por ventura me aparecesse uma dorzinha de barriga, uma indigestãozinha qualquer, minha mãe bradava:

“Isso é as lambanças que o seu pai lhe enfia lá no bar do compadre Otavio”. ---- Fosse ou não fossem os seus cozidos estavam isentos. ---

---É esquisito sentir saudade de uma coisa dessas não é? Mas eu sinto!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 3 de abril de 2018

ROSCA E BOLACHA QUEIMADAS.





                                         FOTO APENAS PARA ILUSTRAR O TEXTO
Os candeenses mais antigos, naturalmente, deverão ter em suas lembranças o “BEM”.  ---- Bem era um cidadão que se chamava Alexandre, contudo, todos o conheciam por Xande.  Vivia sorrindo, e chamava todo mundo de bem, motivo pelo qual os outros o tratava do mesmo jeito.

Seria ele já um parceiro da terceira idade; magro alto e sorridente. Uma voz mole; um jeito mais pra lá do que pra cá. Gostava de achar homem bonito e fazia pouco comentário sobre as mulheres. Num tempo que a frescura era oculta ninguém tinha certeza, mas diziam que ele gostava de queimar a rosca e nos seus casos amorosos era o rabo que abanava o cachorro. Era chegado, também, numa intermediação de copulação clandestina. Gostava de um cochicho, no pé do ouvido.

Se Xande fosse uma pessoa culta, naturalmente iria ser um grande admirador da arte de Leonardo Da Vince.  --- Mas como não era portador desses cabedais da cultura, entender-se-ia, naturalmente, com a turma da pederastia ativa, porque nele estaria o passivíssimo cravado no seu olhar de quem quer “Dá Vinte”.

Fiinha do Xande era sua filha. Diziam filha dele, mas deveria ser pai adotivo. Xande jamais poderia ter sido seu pai biológico. Afinal, ele era como navalha que corta só de um lado. Deveria ser filha de criação e ela o chamava de padrinho. A fruta do Xande era outra, ele gostava era de banana e detestava melancia. ---- E, depois, numa bananeira não nasce melancia.

Fiinha que era uma mocinha até bonita, transformou se numa prostituta vulgar. Era uma infeliz porque além de prostituta se tornou alcóolatra e, às vezes, era vista assentada de mau jeito, mostrando o buraco da cobra destampado. Era uma cena de doer o coração de um cristão.

Certa vez ela apareceu com uma doença ginecológica, tudo levava a crer não ser coisa que pudesse dispensar um médico. Contudo, Xande a levou ao curador, famoso Chico Viriço, já comentado neste Blog.  Nesse tempo Chico Viriço era como um médico das raízes, não havia na medicina essa evolução de hoje. Remédios eram caros e parece que o povo mais humilde não confiava muito nos remédios de farmácia.

Às sextas feiras a sala da casa do Chico Viriço era repleta, vinha gente de todas as partes para consultar com o curandeiro que tinha muita conversa e pouca cura. Os seus remédios e a sua conversa, a bem da verdade, tinham apenas um efeito placebo.

Naquele clima chega o Xande com a Fiinha:

---- Oi Bem, tá tudo bem?!
----Mió só no céu Xande, responde o CHICO.
----Ô bem, eu truxe a minina aqui de novo, o trem dela piorô!
E o Chico pergunta:
-----Que que foi Fiinha, o que que piorô?
-----Oia Sô Chico, aquele remédio que o senhor insinô de infiá limão com bicabornato na minha bu... Quer dizê na minha “bulacha” quase me matô, eu tô quela tudo queimada; ardeno igual pimenta.
E o Chico olha para um lado e olha para o outro à frente das pessoas e diz:
----Vamo cunversá lá dento aqui fora tá muito quente!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 27 de março de 2018

UMA CANDEENSE ILUSTRE.



Candeias foi o berço de uma ilustre senhora que teve uma grande participação na história do nosso Estado de Minas Gerais. Trata-se da professora Marta Nair Monteiro, nascida em Candeias MG no dia 24 de dezembro de 1913.

-----Descendente da família Barreto, uma tradicional família Candeense. -----

Entre alguns membros da família Barreto podemos citar: Dona Laura Barreto, a nossa querida Dona Barretinha, primeira titular do Cartório que hoje leva o seu nome, “Cartório Laura Barreto” atualmente nas mãos de seu neto Raimundinho filho da Luzia, filha de Dona Laura Barreto. ----- Sr. José Barreto o primeiro dentista de Candeias, pai do nosso amigo Zizi Barreto e de Dona Dulce Furtado. ---- Dona Nica, esposa do Sr. José Pacheco Lopes, pais de Domiciano Pacheco e Maria Lúcia Viglioni ----- Dona Salomé, professora histórica que deu sua grande participação na educação candeense, quando candeias ainda se engatinhava na educação. E muitas outras pessoas membros dessa família de gente inteligente que há anos participa da história de Candeias com dignidade e honradez.

A ilustre professora Marta Nair Monteiro, formada em Administração Escolar, foi professora primária, orientadora e diretora escolar. ---- Foi Vice-presidente, presidente e conselheira da Associação das Professoras Primárias de Minas Gerais. -----Com o objetivo de alcançar melhoria nos salários para a classe, liderou a primeira greve de professores deflagrada no Brasil. ---- Foi a 3ª Secretária e Vice-Presidente da Confederação dos Professores Primários do Brasil. 

Na política foi juntamente com Dona Maria José Nogueira Pena, a primeira mulher eleita a deputada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde foi, também, líder do seu partido.  --- Após anos afastada da política, se elegeu vereadora de Belo Horizonte. ---- Presidiu a associação Mineira de Professores Aposentados até a década de 90.

Lembro-me muito pouco de quando vi essa senhora em Candeias; isso por ocasião da eleição de Tancredo Neves ao Governo de Minas, pela primeira vez, em 1960, no comitê que foi instalado num cômodo de loja atrás da Igreja Matriz. ---- Apesar de ser candeense e sempre acompanhar a política de Candeias, eu não tenho conhecimento de algo que ela, como deputada conceituada, tenha feito por Candeias. ---- Parece-me que Candeias, também, nunca teria sido o seu reduto político. Pode ser que eu esteja enganado.

Atualmente, entre os presidenciáveis, está a sua neta, Valéria Monteiro, ex-jornalista da Rede Globo de televisão, tendo sido a primeira mulher no Jornal Nacional, esteve no Fantástico, Jornal da Noite etc. e que estará tentando se eleger para presidência da República. --- Uma candidatura, a meu ver, praticamente simbólica com objetivos opostos dentro da política.  ----

A professora Marta Nair Monteiro faleceu no dia 22 de janeiro de 2004, na cidade de Nova Lima, aos 90 anos de idade quando ainda participava de atividades político-partidária.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

Nota-- Eu não conheci pessoalmente a Professora Marta Nair Monteiro, apenas a vi uma vez há anos. Esse texto foi elaborado tendo em vista o alto conceito que usufrui a Família Barreto e a biografia considerável da senhora Marta Nair Monteiro. Portanto, no caso de alguém possuir algo que possa ser acrescentado neste texto, está a minha disposição em fazê-lo, como também, retirar algo que possa estar demais.
(Armando)

sexta-feira, 23 de março de 2018

A DIGNIDADE DE CANDEIAS.



Certa vez, eu estava numa Lan House, em Candeias, quando um jovem que ali navegava na internet, filho de Candeias, pertencente a um tronco familiar muito conhecido, se defronta com a imagem de um candeense e me pergunta: --- “O senhor sabe quem é esse homem? Parece-me que ele foi muito importante aqui em Candeias não é?”. ---

E a pergunta daquele jovem me deixou triste, muito triste... Subentendi que existem jovens em Candeias que não sabem quem foi o Dr. Zoroastro Marques da Silva, e isso é de se entristecer.

Esse é o Candeense que precisa ser conhecido por todos, lembrado por todos e querido por todos, disse-lhe.

-----Dr. Zoroastro, médico parteiro que salvou a vida de muitos candeenses ao nascer.  Político candeense, filho do coronel Marques, uma das mais tradicionais famílias de Candeias. Foi vereador quando ainda distrito de Campo Belo, e, já nesse tempo, foi presidente da Câmara. Um homem ligado aos maiores políticos de Minas Gerais, do seu tempo. Entre eles Juscelino Kubitschek, Benedito Valadares e Tancredo Neves. Foi o fundador de Candeias e correu o município a cavalo e a pé, medindo a área a ser emancipada. Motivo do bom tamanho do nosso município. ---- 
 Foi o primeiro prefeito de Candeias e tem uma história política maravilhosa e que todos os candeenses deveriam tê-la na ponta da língua.

O Livro do ilustre historiador candeense, José Gomide Borges, foi um grande presente do nosso querido Zé do Tuta, para os candeenses. Mas infelizmente não dedicou um capítulo especial ao homem que mais fez por Candeias  e, talvez, aquele que mais amou Candeias. ----- Assim, fica a sugestão para que no futuro, numa reedição dessa obra tão importante: “O Sertão de Nossa Senhora das Candeias da Picada de Goiás” possa ser acrescida de um capítulo especial sobre esse candeense de corpo e alma.      .

Quem conheceu o Dr. Zoroastro Marques da Silva, com certeza, sente tristeza ao ver que a política contemporânea  brasileira só visa interesses próprios.

----- Ninguém segue a cartilha desse homem que dedicou toda a sua vida a trabalhar por Candeias e o seu povo. ---- É lamentável.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.


terça-feira, 20 de março de 2018

AO AMIGO FLÁVIO RIBEIRO.


                                          Foto: Deoclecio Ribeiro.


A vida, na infância e juventude, é uma estrada larga que parece nos levar à verdadeira felicidade. Mas à medida em que vamos vivendo ela vai se transformando e pode até terminar abruptamente em precipícios. O trecho corrido pode ser revisto através do retrovisor da vida, mas voltar ao passado vivido, por mais que se tente, será apenas uma abstração... É um filme preto e branco.

Às vezes, quando me afloram esses sentimentos, eu encontro pessoas com as quais eu vivi e convivi na minha querida Candeias. Pessoas que morreram, mas que para mim não morreram; apenas se encantaram para repousar dentro do meu coração. 

----- Busco na rua onde nasci, ----- a velha casa de Dona Benta, mãe do Sr. Erasto de Barros e avó de minha professora Maria do Carmo Bonaccorsi. ----- Dona Filomena Barros e Dona Melada, também filhas de Dona Benta. ----- Ainda fermenta em minha memória o armazém do Sr. Chico Freire e Dona Mariquinha, sua esposa; a venda do Zé Lara e as fofocas de Dona Joana do Galdino. ---- Encontro, ainda, bem no fundo de uma gaveta do meu cérebro a torneira de água pública, quando ainda não havia água encanada nas casas da minha querida Rua Coronel João Afonso Lamounier.

Era a década de 50... Era o meu tempo de escola. E eu nunca imaginara que um dia fosse me envelhecer e ver esse tempo tão longe de mim. --- A saudade, às vezes, é dolorosa, esmagadora. Na vida sabemos claramente que não somos nada mais do que simples passageiros neste mundo de Deus, bendito, maravilhoso e cruel ao mesmo tempo. --- Quanto mais vivemos mais contabilizamos perdas de pessoas queridas e amadas e muitas vezes perdas traumáticas.

Está, todavia, patente que todos nós vamos um dia enfrentar a perda de um ente querido de forma distinta. Mas por uma bênção de Deus, nós não nos acostumaremos com isso.

Envolvido nesta nostalgia, busco nos armários da minha memória alguns guardados da minha infância e juventude e encontro-me com um grande amigo; um grande companheiro desde o Grupo Escolar Padre Américo, quando foi nossa professora a minha tão querida Dona Ninita Alvarenga: FLÁVIO RIBEIRO DO NASCIMENTO.

Professor Flávio Ribeiro, foi no meu tempo o maior amigo dos jovens estudantes. Ele teria se formado em Campo Belo e viria ser o professor de Inglês no recém-fundado Ginásio de Candeias. Não só foi apenas um professor, foi membro da diretoria do Ginásio sem recurso, sem dinheiro, cujo prefeito Nestor Lamounier teria doado o seu salário de prefeito para auxiliar a permanência do nosso Ginásio de Candeias.

Humilde e prestativo, Flávio foi casado com a filha do Casal Mariinha e Vete Teixeira. Era carinhosamente tratada de “Fitinha” ----
 Um professor dedicado que dava aulas particulares de graça, procurava os pais de alunos para incentiva-los a estudar os filhos, tendo em vista que muitos pais não apoiavam o Ginásio. Aliás, temos que reconhecer que a permanência do Ginásio de Candeias foi por mais tempo devido um esforço do corpo docente da época que colocou à frente dos seus interesses, o anseio do povo de Candeias em ter um ginásio.

O Ginásio de Candeias acabou. Infelizmente acabou.

Flávio transferiu-se para Campo Belo, agora como professor e proprietário de uma farmácia. Posteriormente mudou-se para são João Del Rei onde se estabeleceu, também, com uma farmácia. ----
Certa vez, eu passando por São João Del Rei, eu o procurei na sua farmácia. Infelizmente não o encontrei teria viajado para Belo Horizonte. Foi um desencontro cruel.

Até que um dia, eu em Candeias, ouvi o aviso pelo alto-falante da igreja Matriz, de que Flavio Ribeiro do Nascimento teria falecido e seria enterrado naquele dia.  ----- Custou-me ouvir aquela notícia. Foi como se o mundo ficasse mais vazio...  Aquele amigo não era amigo para se perder. Pensando assim não fui ao enterro. Eu não queria ver o Flávio dentro de um caixão, inerte; olhos fechados e sem aquele sorriso nos lábios que lhe era tão peculiar. --- O relógio de sua vida estivera adiantado e despertou-se fora de hora para o chamado de Deus.

Dar adeus a um grande amigo é algo muito difícil. É perder um pouco de si, é um sentimento de ausência dramático. Não é fácil entender a perda pela morte. Mas no decorrer da viagem pela estrada da vida vamos compreendendo que a morte de um amigo ou de uma pessoa da família é como se fosse um acidente na viagem dessa estrada, um acidente que não machuca o corpo, mas fere o coração com a ausência e a saudade.
Meu amigo e bom parceiro Flávio Ribeiro do Nascimento, eu guardo-o comigo numa lembrança viva, acomodado num canto agradecido do meu coração, sem me esquecer de que você está, também, juntinho de Deus.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


sábado, 17 de março de 2018

CANDEIAS! UM DIA DE INFERNO!

No principio da década de 60 Candeias foi palco de um dos maiores acidentes ferroviários. Naquele tempo, o trem era o meio de transporte de passageiros e de carga mais usado na nossa região. Ainda não existiam ônibus e sim umas pequenas jardineiras que transportavam no máximo vinte e cinco pessoas

A opção rodoviária em Candeias era apenas uma dessas jardineiras que fazia a linha de Campo Belo a Formiga, passando por Candeias, quando, ainda, não existia a via asfaltada e o itinerário era uma estrada de chão, via Arrudas.  Além disso, a passagem era cara.

A viagem de trem além de mais confortável era muito mais barata, apesar de ser bem mais demorada.

As linhas de trem eram feitas por trechos onde faziam as conexões para outros rumos. ----- Candeias estava localizada no trecho que ligava Ribeirão Vermelho a Garças de Minas, ---- no município de Iguatama, ali havia as baldeações para Goiás e Belo Horizonte. ----Não é difícil imaginar como era difícil ir de Candeias à Belo Horizonte naquele tempo.

De Bambuí para baixo era considerado sertão, o queijo artesanal, por exemplo, fabricado em toda aquela região, era chamado “queijo do sertão”.

Eram quatro os horários dos trens de passageiros: O misto e o noturno, que desciam e subiam diariamente, sendo que posteriormente foram alterados para três vezes por semana. O misto descia às 10,30 h. Da manhã e voltava por volta das 17 h. ----- Isso quando estava no horário, mesmo porque, esses trens nunca andavam no horário. ---- E o noturno que descia pelas 23 horas e voltava pelas 5 da manhã.

Certa madrugada, por volta das 2 horas, o povo de Candeias foi despertado assustado, com o alto-falante da igreja Matriz no ultimo furo tocando uma música fúnebre e o apelo do Monsenhor Castro, pedindo ao povo que se dirigisse rumo à comunidade da “Santinha,” a fim de socorrer as pessoas acidentadas com o desencarrilhamento do trem noturno.  ----- 

Meu pai na mesma hora se levantou e chamou-me para acompanha-lo. A cidade já estava alvoraçada. Até as pessoas que não foram até ao local do acidente, saíram pelas ruas aguardando notícias.

O acidente se deu num local de difícil acesso, nas imediações da comunidade chamada “Santinha”, há poucos quilômetros de Candeias.  ---- Sabe-se que os acidentes ferroviários têm esse problema, por se darem em locais isolados e, às vezes, de difícil acesso. -----Era um tempo ainda muito atrasado, muito sem recursos de comunicação e de transporte.

Os vagões de madeira com a base de ferro caíram de bruços, numa grande depressão ao lado da estrada ---- ferro sobre madeira –--- deixando os passageiros presos dentro dos vagões.

Até que a notícia do acidente chegou à cidade... Até que chegou algum recurso no local, já havia nove mortos. Pessoas quebradas, sangrando e desesperadas. –Não é difícil alguém imaginar a dimensão dessa tragédia.

Entre os mortos, apenas um candeense que teria tomado o noturno minutos antes, quando seguia para Campos Altos, onde era a sua moradia com a sua família. Tratava-se do senhor Laerte do Bilú, pai do Paulo ex-funcionário do posto de gasolina do Dalton Freire e casado com uma tia do Miguelzinho Simões.

Lembro-me que eu e meu pai ainda chegamos ao local quando as pessoas encontravam-se desesperadas, e o povo que chegava, não tinha como ajudar, totalmente impotentes diante de tamanha desgraça. Pessoas chorando de dor, sangrando-se e sem ter como ser ajudadas. Pessoas já mortas e outras morrendo.

Depois de muitas dificuldades, muita correria, muito desespero, os corpos ficaram a disposição na igreja matriz, quando esta estava em reforma. Foi improvisada uma grande mesa com o material de andaime da construção e ali foram expostos os corpos do jeito que foram retirados do local do acidente. Ensanguentados, machucados e roxos e desconhecidos. Houve muita dificuldade na identificação dos corpos. As pessoas naquele tempo não se preocupavam em portar documentos.

Laerte do Bilu era amigo do meu pai e os dois estiveram conversando na esquina do sobrado próximo à matriz, no dia em que ele embarcaria para Campos Altos. Teria vindo estudar a possibilidade de voltar a morar em Candeias. Lembro-me de ouvi-lo falar isso. 

---- Mal sabia ele que no outro dia, naquele mesmo horário ele estaria exposto em meio a outros mortos de outras cidades, bem próximo dali, na igreja matriz, morto e quase irreconhecível, pois teria ficado com o rosto totalmente negro. Quem fez o seu reconhecimento foi o Wantuil Delminda, meu tio, que estivera com ele, também, no dia anterior e ele estava com a mesma roupa; calça marrom, camisa azul claro e paletó azul marinho. ·.

Até hoje não se sabe a quem atribuir à culpa dessa terrível tragédia. Na época diziam tratar-se de que o maquinista estava embriagado e operou com excesso de velocidade... Outros já diziam tratar-se de problema com a linha. Enfim, nada ficou apurado; nada ficou esclarecido e nada chegou ao conhecimento do povo candeense.

Recordar aquele dia... Aquele quadro trágico é como voltar ao tempo de maneira desastrosa. É como se tivesse conhecido o inferno por algum momento. Por mais que eu viva, jamais sairá das minhas retinas o sofrimento daquelas pessoas sangrando, gritando, chorando e morrendo diante da falta de socorro; da falta de recursos que só chegaram quando aqueles que se encontravam em estado mais graves já teriam falecido. Um quadro difícil, muito difícil até de ser lembrado...

 Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.