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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A VELHA ESTOUVADA.

                                                Parque Halfeld (Juiz de Fora MG)

Contando com uma população de fato e flutuante beirando os 600 mil habitantes, Juiz de Fora, a importante cidade mineira, tem 18% de população idosa. O idoso daqui parece que é diferente daqueles de outras praças. É comum ver pessoas com idade acima dos oitenta anos pelas ruas transitando entre os carros e correndo grande risco de acidentes.

O Parque Halfeld, localizado no centro da cidade, fica durante o dia povoado de idosos conversando, jogando damas e outros entretenimentos. E os assuntos mais evidentes são doenças, remédios, aposentadoria defasada, o peso da idade, conjugado de acordo com o verbo, ou seja, o passado que para todos tem uma medida de tempo muito grande... Um presente sem ação e um futuro sem esperanças. Aliás, o que praticamente não se fala ali é de futuro. 

À tarde, por volta das seis horas, quando as calçadas estão lotadas de pessoas apressadas, para lá e para cá, voltando do trabalho e o comercio fechando as suas portas; vemos idosos de mãozinha dada, totalmente descontraídos passeando vagarosamente em meio aquele tumulto de pessoas indo e vindo sem nenhuma preocupação. Vão com os seus passos rasteiros na maior tranquilidade de quem já cumpriu todos os seus compromissos com a vida. E se alguém lhes esbarra ou lhes aborrece eles ficam bravos e há casos de até citarem a lei 11.765, do Estatuto do Idoso.

Muitos idosos, às vezes, se tornam engraçados quando são contrariados. Parece que querem que o mundo seja vazio, pequeno e por serem de outras gerações e terem chegado primeiro aqui no planeta, julgam-se proprietários de um espaço maior, quando na dura realidade o espaço do idoso vai ficando dia após dia a cada vez menor.

Com passe livre nos ônibus coletivos por vezes agem com esnobismo. E quando detêm alguém assentado nas poltronas destinadas a eles pedem licença de forma determinada para que desocupem o lugar. Outras vezes começam a resmungar, birrar, e até denunciar ao cobrador. Parece que gostam de ser impertinentes e ranzinzas. Talvez por terem poucos problemas após uma vida problemática.

Eu que já estou jogando no time dos idosos, às vezes, detenho-me numa observação que me leva a pensar que ainda estou jovem diante dos acintes desprovidos de maldades por certos idosos cujo tempo ao invés de lhes deixar mais cautelosos os fazem impacientes em demasia.

Ontem quando eu me dirigia até ao Alto da Gloria, aqui em Juiz de Fora, a fim de comprar uma ração especial para a cachorrinha da minha filha, resolvi tomar um ônibus próximo daqui de casa, na Avenida Rio Branco. E logo que adentrei o coletivo, no segundo ponto, entrou um jovem cego, auxiliado por outro passageiro. O deficiente visual foi acomodado numa das poltronas destinadas aos passageiros de passes livre, ou seja, que não pagam passagens incluindo idosos, deficientes, gravidas etc. O rapaz ao ocupar o último acento disponível fez com que a área destinada se completasse.

Mais adiante entrou uma senhora contando uns setenta e tantos anos, baixinha, magrinha, olhos esbugalhados, boca pequena, nariz avermelhado, cabelo enrodilhados e um buço respeitável... Parece que tinha também cabelo nas ventas. Um perfil de quem vinha para criar caso. Só lhe faltava estar escrito em sua testa: “Eu sou chata”. Entrou, olhou para um lado olhou para o outro e em meio minuto, tinha-se-lhe soltado completamente a língua; e dirigindo-se ao cego disse-lhe:

----“Aqui num é procê não moço, o seu lugar é lá atráis... Eu tenho direito purque tenho quais oitenta ano.”.

Alguém tentou lhe explicar que se tratava de um deficiente e que lhe era permitido estar ali. Mas a velha insistiu:

----“Ele é novo e o que tem sê cego? Lá perto de casa tem um cego lá que é cego só na hora que sai na rua. Vive vigiano a vida dos ôto. Tem pôco tempo ele arrumou um futico danado com o nome da minha vizinha, falano que ela tava andano com o vizinho da rua de baxo. Esses cego de hoje inxerga mais do que morcego sô!. Esse memo ai foi lá em Santos Dumont vê show do Gino e Geno... O qui tem de cego bão da vista ai num dá nem pá conta... Num me ingana não purque eu num gosto!”.

Diante disso, eu me levantei a fim de ser cavalheiro e ofereci o meu assento para a velha que protestou logo:

---- “De jeito nenhum! Não sinhor meu sinhor, pode fica sentado. O sinhor parece que é mais veio do que eu!”.
 Enquanto isso o cego indignado, pediu para descer no próximo ponto, enquanto a velha assentou e se sentiu a dona do mundo.

Agora eu, tive uma vontade danada de lhe dizer: --- Velha chata, você é cega, procure olha que entre mim e você tem uma diferença de idade muito grande... Eu tenho só 69 anos e não estou na hora da morte não viu!? 
Mas preferi não ser um velho chato. Dei o sinal e desci, eu já estava chegando ao fim da viagem.

Armando Melo de Castro

Candeias Casos e Acasos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

PADARIA ANDRADE

O Blog Candeias MG Casos e Acasos fará hoje uma homenagem ao fundador de uma das mais tradicionais empresas candeenses, e a mais antiga no seu ramo de atuação, ou seja, indústria de panificação. Estamos falando do candeense amigo, Mozart de Souza Andrade, filho de José de Souza Andrade e Dona Zenóbia Lara.

Nascido no dia 11 de janeiro de 1917, na comunidade rural de Boa Vista, em Candeias, teve uma adolescência muito humilde como lavrador, contudo foi um menino muito feliz. Aos 22 anos de idade resolveu se mudar para a cidade em busca do seu espaço próprio. Foi balconista entre outras atividades. Dono de um talento empresarial explícito, já em 1950 resolveu montar o seu próprio negócio. Foi quando nasceu a Padaria Andrade, uma pequenina padaria junto à residência de sua mãe.

Tudo que é necessário para que uma pequena empresa venha a crescer, Mozart tinha com sobra: honestidade, perseverança, vontade de trabalhar, tato comercial e qualidade dos produtos.

No princípio era ele quem fazia tudo. Sabe-se que os padeiros trabalham a noite. E fica difícil saber a que horas Mozart descansava ou dormia. Amassava, assava e ainda saia vendendo. Não tinha loja nesse tempo, Dona Zenóbia sua mãe, o ajudava vendendo os produtos à porta quando ele não estava.

Um lançamento de Mozart à época foram os cartões. O freguês comprava os cartões para o mês todo. Cartões de valores diversos. Era uma forma de vender a prazo onde o freguês não tinha como duvidar do vendedor. Compra de cartões com pagamento antecipado, tinha um desconto de 10%. 
Lembro-me de ver as pessoas pagar os pães com cartões.




                                               Mozart de Souza Andrade

Durante muitos anos Mozart foi visto pelas ruas com o seu balaio de pão até que foi crescendo, ampliando o negócio e admitindo funcionários.

Nas festas da Semana Santa ou do Rosário, a Padaria Andrade funcionava dia e noite. Naquele tempo durante esses eventos a cidade dobrava a sua população, isso porque vinham os candeenses ausentes de outras cidades; mais aqueles da zona rural. Não existia o êxodo rural verificado nos dias atuais. A produção nesses dias tinha que ser aumentada. Pessoas fora do ramo procuravam Mozart e pediam um balaio de pão e saiam à procura de fregueses eventuais. Eu mesmo fiz isso certa vez. A meninada ganhava um bom dinheiro. Mozart sempre recomendava não por a mão nos pães, e fazer o uso do pegador que ele fornecia.

Entre os produtos da Padaria Andrade, há um que eu nunca me esqueço; era o pão tatu, talvez pelo nome exótico de um pão; além da famosa rosca da rainha e do pão sovado, originalmente conhecido por São José e com um incremento diferenciado, a semente de erva doce; até hoje fabricado em dias distintos.

Mozart foi sempre um grande amigo. Viveu a vida em prol da família, sua mãe, Dona Zenóbia, esposa, Maria e seus três filhos, Nilton, Zenóbia (Preta) e Cidinha, para os quais deixou um legado moral e financeiro. Seu esporte favorito era o futebol ao qual dedicava nos seus raros momentos de folga.

A Padaria Andrade encontra-se situada no mesmo local de sua fundação, na Rua Celestino Bonaccorsi, 44 onde nasceu, cresceu e se encontra até hoje.  Teve um grande desenvolvimento estrutural, inclusive com filial em Formiga. Vem sendo muito bem administrada pelo herdeiro da empresa, Sr. Nilton Andrade, um empresário que busca na modernidade o crescimento necessário imposto pelo mercado, além de seguir à risca os bons princípios morais e profissionais de seu tão querido pai. E isso, faz com que a Padaria Andrade, hoje acumulando a função de lanchonete, vem sem dúvida alguma, liderando em Candeias, o mercado de panificação.

Parabéns Nilton Andrade por dar continuidade a um trabalho que não poderia realmente ser interrompido, tendo em vista a circunstância com que foi começado. Que Deus o abençoe para que a Padaria Andrade continue fazendo história --- a História de Candeias.

E a você meu amigo Mozart Andrade, onde quer que esteja, receba o nosso abraço e parabéns pela missão cumprida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.





sábado, 7 de fevereiro de 2015

O MEU CANTO DE CORDEL.


Texto transferido para o livro candeias MG Casos e Acasos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

JOÃO BERNARDINO DINIZ

                                                 

Hoje o Blog Candeias Casos e acasos fará uma homenagem ao nosso conterrâneo e amigo João Bernardino Diniz; conhecido por “João Surdo”. Esse apelido tenha sido, talvez, pelo fato de João falar alto, porque a bem da verdade, a sua surdez não lhe faria merecer tal cognome.

Nascido no dia 14 de agosto de 1914, filho de José Bernardino de Sena e Lourdina Lamounier, João passou a sua infância na fazenda do seu avô, figura histórica da elite candeense, o Coronel João Afonso Lamounier.

Candeias, grande produtora de café era procurada por pessoas de outras cidades na época da colheita. Numa dessas oportunidades João conheceu Jacira Donata de Jesus, oriunda da cidade de Claudio, MG. O namoro começou contra a vontade dos familiares, porque casamento de empregados com filhos de patrões não eram aceitos. Mesmo com essa contrariedade familiar o casamento aconteceu no ano de 1935, e João foi ser usineiro na Empresa Força e Luz Candeense, então, recentemente instalada e de propriedade do empresário Celestino Bonaccorsi, que fornecia força e Luz para a cidade.

João Bernardino era muito inteligente e após um curto período como usineiro foi convidado a vir para a cidade e ser o eletricista chefe da empresa, cargo que exerceu até se aposentar.

Homem agitado; estava sempre às pressas dado ao acúmulo de serviço. Era ele sozinho o responsável e apenas em operações específicas era auxiliado por eventuais companheiros.  Atendia as reclamações de consumidores e dava soluções. Efetuava cortes e novas ligações. Corrigia defeitos na rede, enfim era ele que fazia tudo. Durante anos e mais anos João foi visto subindo e descendo com uma escada nas costas. Somente mais tarde veio ser auxiliado pelo seu filho Danilo.

Foi uma pessoa admirável. Cidadão correto, honesto, exemplar pai de família rígido na disciplina, criou oito filhos, sendo eles, Nilsa, Danilo, Waldir, Marlene, Marilene, Marli, Marlei e Deusdete, todos bem criados e bem orientados. Sua esposa, Dona Jacira felizmente vive bem se deslizando dos entraves da idade avançada.

João faleceu no dia 11 de fevereiro de 1998 aos 83 anos de idade, deixando para os seus familiares e amigos uma história exemplar de um homem que nasceu em berço rico, mas soube viver pobre em troca de um ideal.  Que teve o trabalho e a família como seus principais deveres e os amigos como direito.

Onde quer que esteja meu amigo João Bernardino Diniz, receba o nosso abraço.

Texto: Évelin Diniz e Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

sábado, 31 de janeiro de 2015

BAR DO MARMITA.



Foto: Professor Milton Moreira e o Marmita.


O asseio é fundamental na vida das pessoas. Aquele que não toma banho regularmente preservando a limpeza do corpo; não tem higiene no preparo dos alimentos, enfim, não se preocupa com os princípios da higiene; além de se tornar numa pessoa alvo de escrúpulos e ante social, pode, também, contrair doenças com mui to mais facilidade. O que existe de gente porca por ai, não está no gibi.


Existem pessoas tão extremas com a falta de higiene que chegam a ficar cheirando mal ao ponto de se tornarem insuportáveis. O hábito da higiene depende do meio e do aprendizado. A natureza parece não ter caprichado muito com o ser humano em termos de higiene. Portanto, é preciso cuidado e atenção. Afinal, é muito triste, mais triste do que feio, é nojento uma pessoa sem asseio.
Eu sou muito exigente na hora de escolher um bar, uma lanchonete, ou um restaurante para comer ou tomar alguma coisa.
Às vezes vemos um estabelecimento com vitrines limpas, e bem lavado, bem espanado, bem clareado, mas, enfim, dentro de todo aquele conceito de higiene, de repente, você observa um fragmento de catarro no bigode do proprietário.
Outras vezes o balconista é surpreendido enfiando o dedo no nariz e ainda dando aquela rodopiada como se a narina fosse o mancal de um rolamento. Pior ainda é quando o cara enfia a mão dentro da braguilha e dá aquela coçada no roxo...
E numa outra variável o cidadão tem uma mão desinquieta que passeia por todos os buracos do corpo e para arrematar usa uma camiseta “subacão”. E, de quando em vez, dá aquela esfregada no sovaco peludo e suado naturalmente, como se estivesse coçando a testa; dai pega o copo pelo lugar onde o freguês vai por a boca.
Viver não é fácil. E não é raro a gente receber convite de amigo para ir num lugar desses e o amigo ainda fala como se aquilo ali fosse o lugar mais agradável do mundo. E quando a gente chega lá!? Logo se dá com as apresentações e normalmente sai um lá do banheiro imundo, sem lavatório sem nada, vem e lhe dá a mão toda infectada de senhoras bactérias e senhores ácaros de residência fixa naquele condomínio denominado saco escrotal, que raramente vê água a não ser aquela que o seu canal reprodutor inverte. Isso é brabo meus amigos????!!!!
Portanto, nesta oportunidade, eu quero recomendar aos meus amigos aqui em Candeias, o Bar do Marmita. Aqui tem tira-gosto de todo jeito e bem feito com asseio num ambiente limpinho. Limpinho tal qual a cozinha de São Benedito. Como já disse o Marmita não cobra pelo preço da bebida, ele cobra apenas a lavação, o uso dos copos e a embalagem. O sorriso e a gentileza é um brinde distribuído a todos os fregueses. É sempre bom lembrar que o Bar do Marmita apesar de ser de sua propriedade quem dá as cartas é a sua esposa, Dona Maria Martins, ela risca e ele corta, porque conforme o bordão da casa “ A fome aperta e o povo grita: QUEREMOS MARMITA”.
Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos

Foto: Professor Milton Moreira e o Marmita.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

UM FRANGUINHO AO MOLHO, ANGU E QUIABO.



Adorar é um tratamento dado aos deuses, mas é a melhor forma que eu encontro para dizer como gosto de um frango ao molho, bem entendido, um franguinho caipira, caipirinha mesmo, ao molho pardo ou de qualquer outro jeito de molho. Eu adoro! Que me perdoem os deuses! Mas eu adoro um franguinho caipira! Quando eu vou até a cidade de Luz, terra da minha mulher, eu tenho o prazer de saborear por lá, um cabidela feito por minha sogra que é especialista no assunto.

Em Candeias, minha mãe sempre encomenda ao João do Taxi um desses para que eu possa matar esse gosto parecido com o de mulher grávida. O frango caipira ao molho, com quiabo e angu, é um prato incomparável para mim, pois me leva aos distantes anos da minha infância.

Infelizmente, quem mora em apartamento e em cidade grande, como no meu caso, esse luxo torna-se difícil e só acontece em raras oportunidades.

Eu já criei muita galinha em fundo de quintal; mato e preparo um frango em 40 minutos em condições apropriadas. Piso com o pé direito nos pés da ave e com o esquerdo nas asas. Com a mão esquerda, pego a cabeça, e com uma faca bem afiada, com a mão direita raspo o pescoço, dou uma batidinha para o sangue subir, dou um corte certeiro, e vejo o sangue cair sobre um prato e o bicho esmorecer. Eu sinto um pouco de pena, mas já que o frango existe com o objetivo apenas de alimentar o homem, isso faz com que me sinta perdoado. O meu corte é tão preciso que parece até corte de médico numa cirurgia.

Esta semana eu fui até à feira e vi lá uma gaiola cheia de frangos caipiras, bastante apetitosos. Nesse caso resolvi fazer uma proeza. Pensei: Vou experimentar ajeitar um bicho desses lá no apartamento. Comprei um frango que foi colocado dentro de um saco e vim para casa, satisfeito da vida, porque era o frango no saco e os planos na cabeça. Vou comer primeiro o sangue, depois o fígado, depois a moela, depois as costelas tomando uma cervejinha etc. e tal.  Toda essa empolgação, com a minha mulher, do lado, feito ave agourenta, tentando me tirar de cabeça. “Olha que isso não vai dar certo! Compra um de granja!” --- O negócio é que eu não gosto de molho de frango de granja e ela não gosta de frango caipira.

Assim que cheguei a casa preparei o ambiente para sangrar o bicho, escaldar, depenar, sapecar, lavar com sabão e limão, abrir, destrinchar, colocar na panela, esperar e começar a saborear.

Só que deu tudo errado. O diabo do frango quando eu pensei que estava morto saiu feito um danado pelo apartamento afora, espalhando sangue para todos os lados, Assim que o tive nas mãos, era hora de enfia-lo numa panela cheia de água fervente e ai foi outra tragédia. O danado do frango ainda não tinha morrido direito e deu aquela rabanada.

Foi uma lambança total e o pior: ter que ouvir a minha mulher o tempo todo dizendo: “Eu falei que isso não ia dar certo! Eu bem que falei... Mas você é teimoso! Podia ter comprado um frango de granja era muito mais fácil...”

Mulher fique quieta!!! Se eu gostasse de coisa fácil eu não teria me casado com você!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos








segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

NA FILA DO SUPERMERCADO.



Uma coisa eu devo admitir: no meu time de aposentados tem “nego” manso. Essas filas prioritárias, às vezes, me leva a pensar que não foram criadas porque o idoso não aguenta ficar muito tempo de pé numa fila, mas sim, porque quando ele chega ao caixa do supermercado, ou do Banco, numa bilheteria ou em qualquer outro lugar onde tenha uma fila, ele não olha para trás e como aposentado, está sempre procurando uma chance de puxar conversa, especular, interrogar, bisbilhotar, tendo em vista a sua disponibilidade de tempo; ai ele está sempre congestionando as filas.

Ontem eu estava na fila prioritária do supermercado e havia três idosos na minha frente que monopolizaram o processo em mais ou menos meia hora. O primeiro queria saber o nome da funcionária do caixa, de quem  ela era filha, se era solteira ou se casada. Depois tirou um cartão fornecido pelo próprio supermercado e não se lembrava do número da senha e ai foi um custo. E eu ali, com uma cesta na mão --- atrás de mim um velho não muito velho, resmungava: Holy shit ...
Veio o segundo e já começou perguntando à moça se era parenta do Clemente funcionário do antigo Credireal. Estava lhe achando parecida com uma filha de um amigo seu. Ainda lhe perguntou se era casada ou tinha filhos. Pagou um pacotinho de caixas de fósforos com uma nota de 100 e ficou o tempo todo justificando porque não teria trazido o dinheiro mais miúdo. E eu ali com uma cesta na mão, ficando, cada vez, mais pesada e o cara atrás de mim resmungando: But that fucking!

Depois veio o terceiro. Esse então deixou o saco bem cheio, principalmente pelo fato de estar na minha frente. Primeiro, ele reclamou de estar muito tempo na fila. Alegava que o supermercado não tinha consideração com os velhos; tinha que por mais caixas; tinha que ter mais respeito com os idosos... E eu ali com uma cesta na mão, agora resolvo coloca-la no chão... E atrás de mim o chato resmungando: More that fucking! E o cidadão da minha frente continuava dizendo que o custo de vida está muito caro, que o dinheiro dele só a farmácia come a metade... Dai elogiou os dentes da moça, dizendo que ela tem um sorriso muito bonito... Não contente, falou do calor e da falta de chuva... E eu ali com a cesta no chão e o  chato atrás de mim, resmungando: But that fucking. O velho, para ser mais chato, ainda queria, porque queria ter informações técnicas sobre um produto, e a moça do caixa mais perdida do que cego em tiroteio... E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking! E para finalizar o velho arrumou um banzé sobre esta questão dos “99”. Dizia que os supermercados inventam esses preços de 99 centavos, mas nunca lhes devolvem esse danado desse 1 centavo. Isso é propaganda enganosa dizia ele. Depois saiu.

Agora era a minha vez...  A moça do caixa com uma cara de quem estava indo para um cadafalso, naturalmente, também, com a capanga cheia, pediu licença e chamou uma coordenadora  e saiu apressada. E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking!

A coordenadora vem, pede um minutinho e alega que a moça volta já.  Mas, voltou num minutinho? Deve ter descarregado toda a sua produção de excremento do mês inteiro. Veio de lá com uma cara de quem fez um cocô muito duro, ou então muito mole. Felizmente agora era de novo a minha vez... Olhei para trás e disse para o cara, vou ser prático... E ele com uma cara de merda diz: But that fucking... Essa frase, também, já estava  enchendo o saco, quando uma senhora com perfil de curiosa, atrás dele, perguntou: “ o senhor esta falando se tivesse uma faca?” O cara riu, se divertiu à custa da pobre velha e se negou a traduzir.

A moça do caixa parecia ter tido uma baixa de pressão de tão mole, um rosto meio desbotado de mulher que vai ser mãe. Na sua camiseta estava escrito nas costas: “Funcionária em Treinamento.”

Fui rápido e em silêncio fui atendido.


Agora era a vez do cidadão que vinha atrás, quando a moça do caixa de novo, pediu licença e chamou a coordenadora que veio e pediu mais um minutinho... Ai o cara avermelhou-se e alto e em bom som, traduziu a frase:   "Puta Merda".

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

LEVANDO A VIDA COMO ELA QUER.


Hoje, 16 de janeiro, completo 69 pés de couve na horta da vida. Não tem mais espaço para velas no meu bolo. Diante disso eu agradeço a Deus por já estar vivendo de sobra. Afinal, humanos ao passar dos 65 anos, já estarão nadando contra a correnteza em obediência a ordem natural da vida.

Queira ou não, os contemporâneos têm que aceitar essa realidade, vez que a sociedade está sempre do lado do tempo. Não adianta passar tinta no cabelo; tomar viagra; fazer plástica; fazer aplicações faciais, nada disso vai esconder a mala de anos que o idoso carrega nas suas costas, fazendo  com que o seu corpo vai arqueando com o passar do tempo. O rosto vai enrugando, o cabelo branqueando e o sorriso se modificando. Não dá nem para dizer ex-jovem.

A partir dos 65 anos de vida, o jovem de outrora passa ter uma nova nomenclatura: idoso, ancião, anoso, longevo, maduro, experimentado. Até ai tudo bem, mas e quando passa para, velho, caduco, antigo, esclerosado, quadrado, carunchoso, matusalém, antiquado, gagá, e por aí afora?...  ---Não faltará um sinônimo pejorativo para classificar uma pessoa que carrega nas costas um punhado de anos...

Feliz do idoso que têm uma família consciente e que sabe reconhecer o seu idoso no seu âmago.

Os idosos, do nosso país, infelizmente, apesar do Estatuto do Idoso, são tratados como sucata humana. Os reajustes salariais já não são feitos sobre a pressão da força do trabalho. A saúde que o Estado lhes oferece chega a ser humilhante. E apesar de viver uma ociosidade com dignidade, o aposentado é visto pelos governantes como um peso no orçamento da nação, a qual foi sustentada durante anos com a força dos seus braços.

Os idosos são os viajantes da parte mais perigosa da estrada da vida, cujo ponto de chegada está a cargo do destino.

Hoje, 16 de janeiro, é dia dos meus anos. Não sei se mereço os parabéns por ser tão insistente com a vida, mas naturalmente alguém me dirá feliz aniversário Armando! Que esta data se repita por muitos e muitos anos!... “Se Deus quiser e ele há de querer” assim direi! 

Mesmo sentindo a sutileza na frase junto à ironia da realidade eu direi que quero viver mais. Mesmo cônscio de que sou um idoso vivendo sem previsão de futuro, permito-me ser egoísta... E quero viver mais! Mesmo sabendo que os idosos são as grandes vitimas do tempo, esse fenômeno impiedoso que mede o espaço entre a vida e a morte; que massacra e corrói feito ácido a  carne, ferindo frontalmente a beleza e a saúde que alimenta a vida! Mesmo assim, eu quero viver mais, muito mais!

Quero ainda enfrentar esse tempo que mata virtudes, ironiza os destinos e transforma a matéria deixando-a sem futuro! Eu quero sim, eu quero viver mais, quero os “muitos e muitos anos” que alguém me desejar porque sei que sou parte da Obra da Criação de Deus, e em sendo assim, serei útil simplesmente existindo e persistindo com a vida, graças a vontade de viver!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A PEREca DA VIZINHA.


Eu como devoto de Santo Antônio, já pela terceira vez na minha vida, nessas minhas mudanças de domicílio, sou levado a morar perto de uma igreja do meu querido Santo Toinzinho, a quem me refiro com muito carinho. Agora, estou morando próximo da sua catedral aqui em Juiz de Fora, onde ele é o padroeiro.

Na Rua Santo Antônio, que passa pelo fundo da catedral tem um barzinho onde eu costumo ir encontrar com uma pequena confraria de amigos da mesma faixa de idade, onde discutimos o futebol antigo, as músicas antigas, os costumes antigos, enfim tudo antigo como nós somos. A maioria da turma come é banha de porco, ovos caipira, gosta de cachaça, pé de porco, não pensa em se separar da mulher e quem ainda tem pai ou mãe, tios ou padrinhos, tomam a bênção. Não vou contar o que eles falam do viagra porque senão fica feio. Mas nas trocas de ideias cada um acaba sendo representante de uma doencinha. Contudo, estão ali reunidos e tomando uma cervejinha, uma pinguinha e comendo um rebatizinho. Parece que as coisas no sufixo diminuitivo “inho” ficam mais leves.

Para chegar nesse local eu tenho que passar pelo adro da Catedral, que representa uma grande área onde existem um estacionamento para automóveis; dois velários onde os fieis colocam velas para queimar; uma gruta de orações e um tipo de chafariz de cimento onde as pessoas lavam as mãos; moradores de rua fazem uso para encher as suas garrafas etc. Enfim, trata-se de uma área que fica bem movimentada com a chegada da noite, com pessoas transitando e visitando a catedral.

Ontem, ao anoitecer eu passava de volta pelo local e deparei-me com um quadro inusitado. E como meus olhos não são cercados, eu dei uma paradinha para apreciar a tranquilidade de uma pequena família que se banhava naquela bica. Um homem, uma mulher e uma criança de uns oito ou dez anos, com características de nordestinos recentemente chegados à cidade. O pai da família de média estatura, contando uns trinta anos mais ou menos, cabelo e barba bem aparados, camisa azul claro e calça jeans. A mulher com uma bermuda azul; blusa amarela, cabelos curtos, corpo chamativo e olhar reservado. A menina com aparência de ter sido modelada na mãe; bastante parecidas. --- Que Deus me perdoe, mas quando vi aquilo eu fiquei parado a uma média distância para observar a tranquilidade humana.

O homem com uma marmita vazia colhia a água na bica do chafariz e no corpo sem camisa se banhava como se banham os passarinhos. Via-se que a sua preocupação maior era com os sovacos peludos; fazia isso enquanto era aguardado pela mulher e a filha. Depois abaixou as calças e com um pano molhado o fez passear por dentro de uma cueca tipo ceroulas. Terminado o seu banho foi a vez da criança. A mãe veio com um pano molhado enfiava por dentro do vestido da menina atingindo todas as partes. --- Finalmente chegou a vez da mulher. Ai foi a melhor parte, porque a assistência teria aumentado, já não era só eu, e eles não estavam nem um pouco preocupados. Estavam como atores numa filmagem muito séria.

A mulher esticando o cós da bermuda enquanto o marido vinha com a marmita cheia de água e jogava nas suas partes íntimas e assim ela as esfregava como se estivesse passando por uma coceira. Parece que a genitália da patroa estava carente de asseio. Logo ela tirou a blusa e ficou só de sutiã e por dentro deste, passava a mão molhada.
Finalmente os três banhados, rostos lavados, roupas molhadas, cabelos molhados e penteados, fresquinhos, colocaram a marmita no saco e desceram tranquilamente a via dentro do adro da catedral, como se estivessem saído da piscina de um hotel 5 estrelas, quando se ouvia o homem dizer: “Agorinha mesmo nois tá tudo inxutinho”.

--- Nisso, dois rapazes que haviam presenciado tudo de dentro de um carro estacionado pouco acima, cantarolavam numa alusão a música de carnaval de Dercy Gonçalves:
"A perereca da vizinha agora ficou lavadinha, bem lavadinha, bem lavadinha"!

E eu descia a via e refletia: Viver é uma arte!

Armando Melo de Castro


domingo, 11 de janeiro de 2015

DA JANELA DO MEU APARTAMENTO.


A minha morada está instalada num apartamento padrão, sendo uma suíte, tres quartos, salas de jantar e estar, cozinha, área de serviço e dispensa. Somos uma família de tempos diferentes, eu, a mulher e a filha temos naturalmente um conflito de gerações porque contamos 28, 59 e 76 anos. Contudo isso vem a ser bem administrado; cada um tem o seu computador, a sua televisão e o seu lugar preferido dentro da residência. Eu fico maior parte do tempo no quarto de hospedes sala onde posso ouvir os meus boleros, navegar na internet e me concentrar numa leitura.  A minha filha, chegada num sertanejo universitário, ouve as suas músicas lá no seu quarto na área dos fundos. E a mulher corre todos os pontos sem ter preferência.  

Quando debruço em minha janela sinto-me acomodar num camarote de um grande teatro de um extenso palco onde se desenrola grandes variedades da vida real.  É como se eu estivesse num ponto privilegiado e o proscênio estivesse abrindo os meus olhos... Um ponto onde eu poderia contar até os focos das lâmpadas da ribalta.

Um aposentado como eu aproxima-se a toda hora da janela. Principalmente quando ouve um barulho qualquer. Eu que moro no terceiro andar dou notícia de tudo que se passa a duzentos metros para baixo, duzentos para cima na rua e particularmente aqui no meu caso que tenho de frente um arranha céu, fico sabendo de muita coisa que se passa olhando para cima.

A cidade aos domingos amanhece morta em comparação com os dias da semana. Hoje, de manhã bem cedo, após uma noite de calor infernal, levanto-me e depois de esquentar os meus ovos e tirar o meu jejum, é hora de abrir a janela e bispar a rua apenas para conferir o “paradeiro”.
 Atendendo a curiosidade dos meus olhos, após dar uma olhada saudosista lá pelo apartamento da vizinha que morreu recentemente e deixou as suas  plantinhas órfãs,  surpreendo-me vendo uma mulher caída ou deitada, debaixo de uma quaresmeira que existe de frente com a minha janela, na margem oposta da rua. E mexendo com a mulher no chão estão duas outras mulheres tentando reanima-la.

Sabe-se que aposentado quando vê uma coisa dessas sai correndo com a intenção de se sentir útil. Imediatamente me livrei do pijama, já tomei de um copo de água com açúcar, desci as escadas quase correndo e cheguei ao lugar onde a mulher estava deitada. Eu que a imaginara morta vejo agora que está viva, pois respira ofegantemente. Estaria desmaiada ou extremamente bêbada. Tentei reanima-la com a ajuda das duas outras pessoas e mais outros que se aproximaram, mas nada. A mulher não conseguia sair daquela síncope da qual a gente não sabia se era um colapso, uma embriaguez, um ataque epilético etc. Alguém já tentava ligar para o SAMU, e apesar da hora começava a juntar gente. 

E eu ali, um aposentado imbuído no espírito de escoteiro, se sentindo inteiramente útil ao próximo, presidindo e administrando, comandando e interferindo, com a vida daquela mulher de uns quarenta e poucos anos, mulata, meio gorda de cabelos crespos amarelados, batom vermelho e vestido curto listrado. 

E quando ela deu uma balbuciada, eu, carinhosamente, fui tentar faze-la tomar água com açúcar, e foi quando, para a minha surpresa e dos demais presentes, essa mulher com uma voz pastosa de bêbada, usando do seu rompante um tanto rouco e grosseiro, diz com todas as letras:
 “Sai de mim viado e me deixa em paz”!

Enfiei o rabo no meio das pernas e com um sorriso sem graça para os presentes, saí... Sai calado, caladinho da silva, brigando comigo mesmo: Quem mandou você mexer com quem estava quieto seu viado!? Não é assim que se diz? Vê se aprende seu aposentado de merda a não sair mais do seu  camarote, da sua janela, e vir dar uma de ator da vida real. Quem entra sem ser chamado vira viado! Bem feito!!!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.