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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

EMULAÇÃO AO POETA.

                                                                  Sabiá Laranjeira
 

O Sabiá das Candeias canta é na laranjeira.

Candeias tem laranjeiras

Que deu nome ao sabiá.

Aqui não tem as palmeiras

Como nas bandas de lá.


O nosso canário da terra

Também sabe gorjear.

Está presente na serra

E em qualquer outro lugar.

 

Nosso céu é mais azul,

Nosso campo mais florido,

Nossas praças são mais lindas

Nosso povo mais querido.

 

Quando estou sozinho à noite,

A alegria é pensar cá.

Minha terra tem laranjeira

Que deu nome ao sabiá.

 

Sei que um dia vou morrer,

Pois assim é a lei da vida.

Agradeço a Deus Clemente.

Minha terra tão querida.


Armando Melo de Castro.

 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

UM CANDEENSE INESQUECÍVEL.

 

                                                                     José Alvarenta de Sousa.

O meu pai, tinha o hábito de sentar-se num tamborete que ele chamava de banqueta, quando rodeava os filhos junto de si para contar casos. E nunca faltava nessas oportunidades, as histórias da família, desde o seu tempo de solteiro, do namoro com a nossa mãe; o parto de todos os filhos, as alegrias, as tristezas e sobretudo as dificuldades e facilidades que a vida sempre nos oferece. --- E foram através desses momentos em que ouvi por mais de uma vez, a dívida de gratidão que ele tinha com um senhor que teria lhe feito um favor num dos momentos mais difíceis, naturalmente num desses momentos em que conhecemos os verdadeiros amigos. Era o dia do meu nascimento em 1946, logo após o encerramento da guerra, que teria deixado uma grande recessão, até hoje tão bem lembrada pelos mais antigos.

No dia do meu nascimento meu pai estava completamento desprevenido de dinheiro. E como fazer? Enfim, tinha as despesas que uma criança causa aos seus pais no dia do seu nascimento. --- Nesse dilema, meu pai que nesse tempo era sapateiro, recorreu-se a um amigo. Um comerciante estabelecido junto a sua residência na esquina da Rua Expedicionário Jorge, com Sebastião Guimarães, na contra esquina com o Divino Machado. ---- Ali estava o amigo, José Alvarenga de Sousa, mais conhecidoi por ZÉ CHORÃO a quem lhe fora oferecido alguns produtos de pronta entrega de sua oficina de sapatos, onde a maioria da produção era feita por encomenda, num tempo em que era difícil encontrar calçados nas loja em Candeias.

Zé Chorão não precisava no seu comercio dos produtos de meu pai, disse que as vendas estavam muito ruins, dada a crise em que o comercio atravessava. Afinal faltava produtos de primeira necessidade. Para se ter uma ideia, para comprar um quilo de açúcar, teria que apresentar a necessidade do açúcar para a prefeitura que autorizava a compra. Diante do argumento de meu pai, Zé Chorão, abre a gaveta, pega o dinheiro entrega ao meu pai e diz: “Toma Zé, tá resolvido o seu problema, depois a gente acerta isso.

José Alvarenga de Souza, era mais conhecido por Zé Chorão. --- E porque esse apelido?

Acontece que José era apaixonado por futebol. E quando o seu time perdia o jogo ele reclamava com a voz de choro... Quando o Juiz roubava, ele xingava, também com voz de choro e quando vencia, ele sorria chorando também. ---- E assim era o seu choro por causa de futebol. O que lhe valeu o apelido, que o levou a ser inteiramente conhecido por Zé Chorão. ---

Mas a bem da verdade era um homem alegre e sorridente. Grande colaborador com o seu time de futebol e com a Banda da qual era músico, colaborava muito na confecção de uniformes. ----

O seu comércio era de produtos bastante variados. Armarinho, secos e molhados, utensílios domésticos e muitas outras miudezas. --- Não seria um homem designado para ser rico, isso porque era demasiadamente caridoso e generoso. Tinha um coração que não cabia dentro de si. Num momento de crise, o comercio ruim, o povo na miséria por causa da crise devida à guerra, grande parte dos produtos de primeira necessidade desaparecidos, Zé Chorão não se poupava do fiado e nem do seu espírito caritativo. E assim não se prosperou como merecia, no comercio.

Casou-se em 1937, com Dona Onofrina Freire, filha do Sr. Chico Freire e Dona Mariquinha, quando tiveram 7 filhos, Luci, Neli, Paulo, Zeli, (falecida) Clarice, Cleonice e Marli. --- Em Candeias residem hoje, apenas a Neli e o Paulo o único filho homem. Clarice e Marli, residem nos Estados Unidos e Cleonice na cidade de Barão de Cocais – Luci, a filha mais velha, casada com o Sr. Eurides Lamounier faleceu recentemente, avó do Padre Yuri Lamounier, da paróquia de Nossa Senhora das Dores, em Itaguara MG. Naturalmente Zé Chorão teria grande história com esse bisneto padre, pois foi muito católico.

Zé faleceu no mês de agosto de 1956 aos 40 anos de idade, morreu no mesmo mês em que nasceu, deixando a esposa com sete filhos dependentes dela, que depois de algum tempo se transferiu para a cidade de Formiga. ---- Não foi uma vida fácil, mas como Deus está sempre recompensando as pessoas caridosas e de coração puro, como Zé Chorão, hoje seus descendentes estão todos muito bem de vida, são trabalhadores e muito respeitados pelos amigos de nossa querida Candeias.

Onde quer que esteja meu querido Zé Chorão, receba o meu abraço e a minha eterna gratidão.

Armando Melo de Castro.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A CRIANÇA QUE VIVE DENTRO DE MIM.


 O tempo mais distante que consigo buscar em minha memória, vem do princípio da década de 50. Eu que nasci no dia 16 de janeiro de 1946, estou contando, portanto, 76 anos, o que representa um monte de aniversários. Tenho muitas lembranças dessa data já passada, mas existe uma da qual nunca me esqueci e jamais esquecerei, e que me inspira esse comentário. Dela eu guardo as lembranças mais nítidas que poderiam ser chamadas de prefácio da história de meus aniversários; e que aconteceram no dia 16 de janeiro de 1951, quando eu completei 5 anos de vida.

O meu pai e meu tio João Delminda, tinham,então, uma oficina de selaria e sapataria anexa as nossas residências, na Rua Coronel João Afonso Lamounier. O meu tio Wantuil Delminda que também era meu padrinho de crisma, trabalhava na Manteigueira do Bonaccorsi, no Beco do Botafogo, Hoje, Rua André Pulhes. Todos os dias quando ia ou vinha do trabalho ele passava ali na sapataria, para aquele contato de irmãos. E no dia 16 de janeiro de 1951, quando eu dele tomei a bênção, minha mãe por perto disse: “Hoje é aniversário do Armando compadre, 5 anos já”. Ele me abençoou, me deu um abraço e enfiou a mão no bolso pegou 5 notas de um cruzeiro e disse: “ Olha aqui Armando, é uma nota para cada ano.

Se eu com 15 anos fui um menino tímido e acanhado, imagine com 5? Disse-lhe apenas obrigado porque a minha mãe logo determinou: “ Diga obrigado ao padrinho”. Fiquei com aquelas notas na mão sem saber o que fazer com aquilo. A minha cabeça rodopiou de todo jeito. Eu não entendia nada de dinheiro e nunca sequer havia visto uma nota em minhas mãos. A vida, era ainda para mim, uma incógnita.

Eu fico impressionado de ver como os meninos de hoje são ativos, diferentes, da criançada do meu tempo. É por isso que eu sempre falo, eu nasci adiantado. Gostaria de estar nascendo agora. Apesar dos pesares, hoje o mundo é muito melhor.

Depois minha mãe me explicou dizendo que com aquelas notas, o meu pai iria sair comigo e troca-las por uma coisa muito gostosa. E assim aconteceu. A noite, meu pai, me levou até ao Bar Piloto. Eu nunca havia entrado lá. Vi aquele povão assentado às mesas tomando bebidas. E um rádio falando alto, quando fomos atendidos pelo Sr. Afonso, o gerente do bar. Numa cena que jamais esquecerei, quando ele disse. “Esse é o melhor chocolate” E me entregou aquela maravilha de presente que as notas me deram. Meu pai, para aumentar a minha alegria comprou cinco balas compridas, e me disse esse é o meu presente. E o Sr. Afonso, ao saber que era o meu aniversário, deu-me um punhado de balas “nata”. E eu sai dali na maior felicidade. Eu não sabia então, o que era aniversariar. Foi um dia maravilhoso, pois eu tive contato com o dinheiro, ganhei abraços, fiquei conhecendo o chocolate, vi aquele movimento dos fregueses nas mesas. E jamais esqueci o gesto carinhoso do Sr. Afonso, espichando o braço para fora do balcão e me dando um saquinho da bala nata.

Eu comi aquele chocolate degustando aquele sabor até então desconhecido. Era um chocolate grande, pena que não sei o nome dele. Aliás os chocolates antigos eram grandes e não essas miniaturas de hoje. E o dia que ele acabou eu passei a esperar o próximo aniversário que só viria no dia 16 de janeiro do próximo ano.

Muitos anos depois, o Sr. Afonso Ferreira de Oliveira, assentado num banco dos jardins, já aposentado eu lhe disse: “ Das boas lembranças que eu tinha dele, o saquinho de balas, no dia do meu aniversário de cinco anos; a primeira água tônica que tomei na vida; o primeiro picolé, o primeiro sorvete, tantas coisas que eu experimentei a primeira vez servidas por ele. E ele com aquela sua elegância de homem sério, deu um sorriso e disse: “Você não sabe o quanto fico feliz por você me contar isso.”

Essa é a parte da minha infância que continua criança dentro de mim. É a parte que não cresceu e não envelheceu em mim. Esse dia foi tão feliz que consigo lembra-lo e reviver aquele momento. Busco-o como isca para me apoderar daquele mesmo sentimento que conta hoje 71 anos, ou seja, 16 de janeiro de 2022.

Armando Melo de Castro.

HELENA DOS SANTOS.

                                               A compositora   Helena dos Santos e Roberto Carlos.

Você sabe quem foi Helena dos Santos? Lamentavelmente, muita gente não sabe. Ela foi uma mineira nascida na cidade de Conselheiro Lafaiete no dia 7 de janeiro de 1922 e teria completado 100 anos no ultimo dia 7. Negra, descendente de uma família muito pobre, perdeu a mãe quando ainda muito criança. --- Seu pai se casou de novo e ela era muito mal tratada pela madrasta com quem viveu até os seus 11 anos, quando passou a viver com a sua irmã casada.

Aos 12 anos seu cunhado resolveu se mudar para o Rio de Janeiro e ela os acompanhou. No Rio logo depois se empregou numa fábrica vindo depois a trabalhar numa loja de confecções masculinas onde aprendeu a costurar. Durante esse tempo passou por um transtorno, pois sofreu um acidente de trem quando ficou por mais de dois anos sem trabalhar. Mas tão logo se recuperou empregou-se como doméstica.

Ao completar 17 anos um colega de trabalho da fábrica onde teria trabalhado, lhe pediu em casamento, casaram-se e tiveram seis filhos. Quando ela se casou era, então, semianalfabeta sabia pouco mais do que assinar o nome. Mas aprendeu com o seu marido a ler e escrever e fazer versos. ---- Aos 30 anos perdeu o marido estando ainda gravida do sexto filho e ela se viu numa situação financeira extremamente precária. Foi faxineira, cozinheira e arrumadeira, e tão logo pode comprar uma máquina de costura, voltou para a costura, quando passava as madrugadas costurando.

 Nos anos 60 Roberto Carlos e a Jovem Guarda dominariam o mundo musical da juventude no Brasil. Daí então, Helena resolveu compor uma canção daquelas e fez a música: “NA LUA NÃO” HÁ”. --- Helena, uma negra pobre, costureira, e faxineira, e doméstica, queria encontrar Roberto Carlos para lhe oferecer a sua música. Foi muito difícil, mas ela conseguiu um dia falar com ele quando ficou sabendo que iria à Rádio Nacional. Se plantou lá o dia todo. Roberto Carlos apesar de estar ainda no inicio da fama, tinha já uma carreira prodigiosa, foi gentil com ela, gostou e gravou aquela canção num dos seus primeiros LPs.

Dai para a frente Helena e Roberto se tornaram grandes amigos e entre as musicas gravadas por Roberto Carlos essas foram grandes sucessos: Vejam: Na Lua Não Há; Agora eu Sei; Meu grande bem; Nem mesmo você; Sorrindo por mim; No outro lado da cidade; O Astronauta; Recordações; Esperando você e muitas outras com parceria de um compositor famoso, Edson Ribeiro. Outras músicas de Helena dos Santos foram gravadas por outros artistas famosos.

 Com a renda de suas composições Helena comprou um belo apartamento. Escreveu um livro “O REI E EU” então publicado por uma grande editora. Foram também, confidentes fruto de uma bela amizade. Helena trocou a sua vida sofrida pelas alegrias da música de Roberto Carlos.

 Helena dos Santos, a negrinha pobre de Conselheiro Lafaiete, iniciou caminhando numa estrada da vida cheia de buracos e precipícios. Mas a sua perseverança, a sua luta, a sua fé em Deus, fizeram dela uma participante ilustre num dos mais importantes movimentos da música jovem brasileira, A JOVEM GUARDA.

O negro brasileiro, não precisa de cotas escolares; não precisa de ser tratado como inferior porque um dia foi escravo. O negro brasileiro precisa assumir o seu lugar, na sociedade política. Brigar mais pelos seus direitos principalmente o direito ao respeito. Infelizmente quem busca direitos são os mulatos, os mestiços de branco e negro.

Armando Melo de Castro.

 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A CRIANÇA NÃO MORRE DENTRO DE NÓS.


 Eu hoje amanheci triste por ter sido injustiçado num fato ocorrido ontem à tarde comigo. Se escrevo sobre isso é uma forma de desabafo para com os meus amigos. ---Nas encruzilhadas da estrada da vida, também, às vezes, somos levados a caminhos diferentes e indesejáveis. ----- Eu fui um menino muito querido pelas pessoas idosas. Sempre os tratei com respeito e o faço até hoje. Meus pais me ensinaram a tomar a bênção não só deles, mas, também de tios, padrinhos, dos padres, das catequistas etc. Lembro-me sempre da catequista Maria Brasileira, uma solteirona, neta do Padre Américo, quando dela eu tomava a benção e ela respondia com todo o carinho: “Deus o abençoe meu queridinho”. Se a pessoa fosse mais velha do que eu seria senhor. ----- Eu sempre gostei muito de crianças. Tenho diversos afilhados em cidades onde passei, filhos de vigilantes do Banco onde trabalhei e de colegas de trabalho.

Sempre brinco dizendo que as crianças não deveriam crescer. Pois eu imagino que uma criança por mais pobre que seja, por mais humilde que seja a sua família, ela é feliz porque ainda não conhece o mundo, onde impera a maldade, a mentira, o desrespeito, a corrupção moral, enfim todo o desgaste humano que a vida nos oferece. --- Eu sempre brinco com um pai ou mãe jovens quando estão com uma criança no colo: “Aproveite bastante esse tempo, porque um dia ele será a sua grande saudade.” Os filhos crescem muito rápido e depois de crescidos passam a pertencer mais ao mundo do que aos pais. Afinal nós os criamos para o mundo.

--- “Se vejo uma criança chorando sempre me aproximo na tentativa de poder ajudar.”--- Quantos adultos hoje em Candeias, até mesmo já avós, com os quais eu conheci nos colos de seus pais. Carrego comigo uma saudade muito grande dos meus filhos na infância. Não consigo vê-los como adultos, assim como não consigo, também ver filhos de amigos e sobrinhos sem ser chamado a atenção pela saudade.

-- Gosto muito de lembrar das músicas no alto falante do Cinema em Candeias, exercido pelo meu grande amigo Sebastião Salviano, numa discoteca onde havia uma velha música do histórico cantor Francisco Alves, a valsa da Canção da Criança. – Cuja letra encontra-se muito bem guardada dentro de mim. ----------- Criança feliz, feliz a cantar, alegre a embalar um sonho infantil, ó Meu bom Jesus, que a todos conduz, olhai as crianças do nosso Brasil. ---- Criança com alegria, qual um bando de andorinhas, ouviram Jesus que dizia: vinde a mim as criancinhas! ---- Hoje no céu num aceno, os anjos dizem amém porque Jesus Nazareno foi criancinha também.

Ontem quando eu me dirigi até a Avenida Brasil, aqui em Juiz de Fora, tive uma grande decepção. Ao passar perto de um ponto de ônibus, quando havia muitas pessoas aguardando os coletivos, ouvi uma criança chorando desesperadamente. A criança deveria ter de quatro a cinco anos de idade, e a mãe, também bastante jovem, gritava com aquela criança, dizendo brutalmente: “cale essa boca, senão vai apanhar aqui na rua”. E a criança tremia e tinha o rosto quase roxo. --- As pessoas ali rodeadas olhavam assustadas o comportamento daquela mãe, mas não faziam nada. Eu parei, e perguntei o que estava acontecendo com a criança, se precisava de ajuda. --- É de todo sabido que uma criança quando está com fome pode ficar transtornada, principalmente em se tratando de uma criança com problemas de fobia alimentar quando ele dispensa alguns alimentos e preferem outros.

Eu simplesmente perguntei se a criança não estaria com fome... Nisso aproximou-se uma senhora de meia idade, parecia ser avó da criança, e disse alto e em bom som olhando para mim: “Faça ele calar essa boca Tânia, porque é só menino começar chorar já aparece um pedófilo”. ---

- Algumas das pessoas por perto, riram e acharam engraçado aquela bordoada moral que aquela senhora me deu injustamente sem que eu pudesse me defender dadas as circunstâncias. ---- Foi, para mim, como tomar um tapa no rosto. Naquele momento eu me senti emocionalmente desorganizado, parecendo-me ter tomado um tiro. Eu não tinha o que falar. Afastei-me silenciosamente sobre o olhar maldoso daquela gente.

Durante os meus quase 76 anos, nunca me senti tão impotente em toda a minha vida. E após esse fato, no silêncio da minha consciência eu pude entender o que diz o rifão: “Existem palavras que cortam mais que as facas; elas não cortam a pele, mas rasgam a alma.” --- Eu não sei, se a partir de hoje eu terei mais a coragem de brincar com alguma criança, principalmente quando estiver acompanhada dos pais meus desconhecidos.

Sinto em mim que começamos a morrer antes da morte chegar. Senti morrer um pouquinho naquele momento.. ---- Infelizmente, o convívio humano está a cada dia ficando pior. O comportamento das novas gerações vem se transformando a cada dia. E a gente idosa vai se perdendo na modernidade do mundo. ---- O respeito, o amor, a consideração, a gentileza, a solidariedade, já não são mais exercidos, no sentido de uma vida feliz. É lamentável.

Armando Melo de Castro.

 


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

BIRIBICO, UM CANDEENSE QUERIDO.


 Natal e ano novo, nos oferece um momento de reflexão. É hora de dar um balanço em nossa vida, saber como foi, como está e como será. E neste balanço o que mais temos são as lembranças de outros natais, uns muito felizes outros já nem tanto. Anos que foram novos e que já estão muito velhos. A nossa prosperidade e quem sabe alguns deslizes? Afinal ninguém está livre deles. --- Contudo, as perdas de amigos e parentes são, naturalmente a parte mais triste dessas reflexões.

 Aqueles amigos com quem tivemos uma convivência maior, com os quais trocamos favores e gentilezas. Companheiros que estavam sempre presentes nas alegrias e nas tristezas. Enfim, resumindo: Um amigo da cozinha. São esses os amigos mais raros, mas que a distância e nem a morte os fazem esquecidos. A lembrança é o que sobra dessa amizade que se transforma em saudade.

 Entre o meu rol de amigos, eu quero destacar hoje neste texto, o nome de um grande amigo meu e de toda a minha família. Colega de escola de minha mãe, e durante anos, companheiro de pescaria do meu pai. -- O amigo Miguel Tortura Albanês, o meu querido BIRIBICO.

 Descendente de italianos, Biribico nasceu no dia  26 de julho de 1929, em Candeias, filho de  Miguel Albanez e Carmelia Tortura Albanez.,  Era o caçula de uma prole de 10 irmãos sendo eles:  Silvio Albanez,  Luzia Albanez, Maria Albanez, Francisco Albanez, Afonso Albanez, Ângela Albanez, Carmelita Albanez, José Albanez (Padre) Tereza Albanez e Miguel Tortura Albanez.

Biribico não conheceu a sua mãe, pois esta faleceu após o seu nascimento levando-o a ser criado pelos irmãos. Ainda jovem, ajudava o seu pai na fabricação de móveis, concertar relógios e sanfonas. Na década de 50, foi para o Rio de Janeiro prestar concurso para o IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Após permanecer por algum tempo no Rio de Janeiro, voltou para Minas Gerais transferido, para a agência do IBGE da cidade de Cristais, onde conheceu a jovem Maria Aparecida Santos, com quem se casou em 28 de setembro de 1956, indo morar, então,  na cidade de Oliveira, MG e posteriormente veio para Candeias, em Substituição ao Sr. Edson “Pachá”(*), então transferido para a cidade de Divinpópolis. Biribico permaneceu por muitos anos como o Agente da Agência do IBGE em Candeias.

Residiu à rua Expedicionário Rui, mas anos depois transferiu sua residência, quando adquiriu       o sobrado situado na esquina da Rua João Caetano de Faria, com a Rua Vereador Sidney Galdino, antigo Bazar Talita, onde permaneceu até ao seu falecimento. Da sua união com Dona Aparecida nasceram os filhos Miguel Ângelo, Marco Antônio, Marinês e Claudio Marcelo.

Biribico e meu pai, José Delminda, foram grandes amigos e companheiros de pescaria e caçadas. Quantas e quantas vezes ele aparecia em nossa casa combinando uma pescaria com o meu pai, nos ribeirões do município. Era uma pessoa bem humorada, estava sempre sorrindo e sempre tinha um caso para contar. Eu também muitas vezes os acompanhei nessas pescarias. E lembro-me até hoje assustado, uma vez num ribeirão na estrada que vai para Itapecerica, Biribico não era desses pescadores que muda de pesqueiro a todo momento, ele ficava ali, tranquilo, fumando o seu cigarrinho e esperando o peixe e quando o dia amanheceu foi que ele viu, que tinha passado a noite toda junto de uma cobra venenosa bem próximo dele.

Sua imagem era caracterizada pelo seu chapeuzinho de palha e sempre assentado no Banco do jardim próximo da residência do Sr. Nestor Lamounier. Foi um cidadão candeense dos mais participativos. Participou da fundação do Círculo Operário São José; do S.O.S. Serviço de Obras Sociais que dava assistência aos menos favorecidos. --- Em 1973 foi transferido para a cidade de Curvelo, e logo veio para Perdões, cidade mais próxima, onde permaneceu até a sua aposentadora. Durante o tempo em que esteve em Curvelo e Perdões, continuo residindo em Candeias quando ia e voltava.

Lembro-me de quando vi e conheci Biribico. Isso foi em 1954, ele era Inspetor Escolar e a minha professora Maria do Carmo Alvarenga escreveu no quadro negro esse nome:

 MIGUEL TORTURA ALBANEZ

 E disse: Olha meninos, amanhã nós vamos receber a visita desse senhor, ele é o nosso inspetor. Na hora que ele chegar vocês se levantem e façam o maior silêncio e só vão assentar quando ele ordenar. --- O nome do Biribico, foi assunto durante o recreio, depois da aula e antes no outro dia. A nossa curiosidade de conhecer um homem não por ser o inspetor, mas porque tinha o nome de  Tortura. Foi um feliz encontro porque ele com aquele seu sorriso sorrateiro, disse: Vocês pensaram que eu era torto, não é? --- E já deixou a turma descontraída.

 Miguel Tortura Albanez, o Biribico, faleceu no dia 05 de agosto de 2018 aos 87 anos, após ter convivido com Alzheimer. Deixou um grande número de amigos que muito o respeitava ele era o tipo de amigo que entra pelo cérebro e desce ao coração para fazer morada.

Está sepultado no Cemitério São Francisco.

 Armando Melo de Castro.

SAUDADE QUE NUNCA MORRE.

De ontem para hoje o meu coração que já bate há 75 anos, bateu mais forte. Isso porque ele foi tomado pela saudade dos meus natais do passado. Saudade essa que me transportou lá para o princípio da estrada da minha vida. Estrada que começou na Rua Coronel João Afonso Lamounier, na minha querida Candeias, que hoje já não sou tão dela, mas ela continua sendo minha. ---

A saudade às vezes se transforma no sentimento que transcende as forças de nossa alma. Se nós a matamos ela ressuscita e essa ressureição chega a ser dorida. É verdade que esse tipo de sentimento às vezes, dói mais como se fosse uma dor sem nome. Trata-se de algo que entra pelo cérebro e desce ao coração para ali permanecer, todavia nem sempre fazendo parte da felicidade do nosso coração.

Há quem diga que a saudade e a felicidade andam de mãos dadas. Eu acho que não. Eu entendo que a saudade e a felicidade são sentimentos diferentes e sendo a saudade muito mais forte, pode transformar uma felicidade em tristeza principalmente quando moram no coração quem sabe amar, aí são dois sentimentos que se unem. É natural lembrarmos de uma fotografia feliz e chorarmos de saudade.

A vida é assim: Nascemos, vivemos e morremos de saudade, antes de morrer para Deus. Quando mais tempo a pessoa vive, mais lembranças estarão embaladas no saudosismo que habita o coração. Cabe, então, a cada um de nós administrar esses sentimentos que se transformam. ---- Afinal, não vivemos no mesmo mundo em que nascemos. Ele se transforma e nós também nos transformamos em monstros em comparação de quando nascemos. Afinal, quem compara um idoso de oitenta anos, com uma criança de 10 sendo a mesma pessoa?

O natal é uma festa significativa, afinal uma festa que comemora o nascimento de Jesus Cristo, já é por si um símbolo de felicidade. Mas nos dias atuais essa religiosidade vai se esvaindo; não é uma felicidade generosa e nem generalizada. Porque cada um tem o seu natal diferenciado. Para mim o natal se transformou completamente. Era uma festa religiosa. Uma festa apenas do papai Noel e do menino Jesus.

---- As igrejas em Candeias ficavam cheias com a entrada e saída de pessoas visitando o grande presépio montado junto a um dos altares da igreja matriz . As crianças adoravam o natal porque sempre, por mais humilde que fossem ganhavam um presentinho, muitas das vezes caseiro, de coisas que naturalmente já estavam precisando, mas aquilo seria como se fosse um presente de papai Noel. A missa a meia noite, era a chamada missa do galo que lotava tanto a igreja, que foi um dos motivos que levaram o Monsenhor Castro a se entusiasmar em construir uma grande matriz. Essa missa fazia com que as pessoas permanecessem na rua até tarde pois o seu horário era à meia noite. --- Logo após essa missa as pessoas voltavam para casa quando iam cear com a família. Muitos teria se jejuado nesse dia para participar da ceia para festejar a chegada do menino Jesus.

---- Os filhos do Sr. João Bernardino Langsdorff , Antônio e Olímpio, criaram um presépio elétrico onde os personagens bíblicos do presépio se movimentavam. Um invento tão extraordinário que vinham pessoas de fora para conhece-lo.

A noite de natal em Candeias era muito movimentada, pois vinham das roças o pessoal para habitar as suas casas que ficavam fechadas para essas oportunidades e assistir a missa do galo, como também visitar o menino Jesus então exposto. Nesse tempo o pessoal da comunidade rural permanecia mais em suas terras e só apareciam na cidade em épocas de festas ou por outras necessidades. Portanto, as festas religiosas como, Festa do Rosário, Semana Santa e Natal, a cidade ficava lotada, pois aqueles que residiam fora, também, vinham nessas oportunidades visitar os parentes.

Eu, no verdor dos meus anos não havia recebido essa frase “Feliz Natal Armando” Eu nunca teria sequer visto um cartão de natal. Quando a cidade toda movimentada, naquela noite de natal de 1959, com a espera da missa e duas seções de cinema antes da missa, eu entro no Bar Piloto, com as mesas todas ocupadas, eu entro, procurando o meu pai, quando eu vejo o Cabo comandante do destacamento policial da cidade, pegando na mão de todo mundo. E logo ele veio para o meu lado, me estendeu a mão e perguntou o meu nome e me disse: “Feliz Natal Armando” deixando-me trêmulo de susto, pela minha timidez. --- Foi a primeira vez que eu ouvi alguém me dirigir aqueles votos. Eu nunca o esqueci, pena que não me lembro o nome daquele senhor. Mas onde quer que ele esteja está sempre no meu natal recebendo a minha resposta. “Para o senhor também sô Cabo”.

O badalar do sino e os dobrados e as músicas natalinas tocadas na matriz antes da missa; os sermões do monsenhor Castro; A grande parte daquelas pessoas que não existem mais e que estavam sempre presentes nas solenidades religiosas. São como um grito da minha saudade.

Armando Melo de Castro.

HOJE, A MÃE MARIA VAI DAR A LUZ AO MENINO JESUS.


Estamos em plena véspera de natal. 24 de dezembro de 2021. As pessoas se comunicam desejando uns aos outros uma noite feliz. --- É tão bonito isso, essa confraternização. Contudo, merece uma reflexão, para saber se a humanidade está verdadeiramente se confraternizando nessa data tão querida que registra o nascimento de nosso Senhor Salvador.

Longe de mim ser um “grinch” ou alguém que não gosta do natal. Contudo, entendo que o natal de Jesus Cristo, deveria ter um comportamento humano diferenciado, principalmente por aqueles que vivem com o nome de Cristo na boca, mas não imitam a humildade do seu nascimento. A frase “Feliz Natal” expressa felicidade, e será que esta felicidade existe realmente? ---- Eu não a vejo nos dias atuais o natal como já pude ver na minha infância, quando o mundo ainda era estranho para mim. Infelizmente o natal que comemoramos trata-se acima de tudo de uma convenção criada para um aspecto inteiramente comercial. A bem da verdade não se trata de uma felicidade religiosa e universal quando deveria ser.

A felicidade para muitos é uma mentira. ---- O Papai Noel, que não visita os pobres. A fome em certos lares enquanto se esbanjam em outros que sequer se lembram do menino Jesus. Não seria isso que o Pai Celestial ia querer para os seus filhos. Temos então o livre arbítrio do Pai, para que possamos escolher o certo ou o errado. Assim, temos os natais felizes e os infelizes.

---- Eu fui um menino muito feliz nos natais da minha infância, mas hoje, após conhecer a verdade sobre o natal, trata-se de uma festa, sem brilho e sem importância. Já não sinto aquela noite silenciosa quando o meu coração batia de emoção como sendo a noite do nascimento do meu querido Jesus Cristo. Era um tempo do mundo desconhecido para mim. Mas aprendi que Jesus Cristo está presente em meu coração todos os dias e todos os anos. Hoje, eu me contento em relembrar as noites de natal de minha infância com uma saudade que me serve de oração. Éramos uma família pobre; meu pai era sapateiro em tempos difíceis. Quando naquela noite o meu pai puxava o terço e nós o acompanhava ajoelhados de frente a um pequeno quadro do menino Jesus, Mãe Maria e São José.

Depois desse ritual da oração era ora de colocar os sapatos atras da porta da sala. ---- Lembro-me que tínhamos o cuidado de engraxar os nossos sapatinhos para esperar os presentes de Papai Noel. Eu o irmão mais velho, fazia esse serviço. Depois disso, trocávamos os beijos e após recebermos as bênçãos de nossos pais, deitávamos para adormecer e aguardar o amanhecer mais feliz de nossas vidas. Era realmente uma noite muito feliz, sem ostentação, sem jantares, sem bebidas e sem discursos. Era uma noite silenciosa, e o meu coração sentia com força, a chegada do nascimento de um menino santo e que veria para nos abençoar e melhorar o mundo. Era assim que eu pensava sobre o natal.

Na manhã seguinte corríamos rumo a porta quando, sobre os nossos pequenos calçados, estavam um saquinho de balas para cada um, --- bonecos de papelão com cara de adultos fabricados numa fabriqueta, então existente na cidade de Formiga, para as minhas irmãs. Para mim era sempre um brinquedo fabricado pelo meu pai às escondidas antes do natal. Meu pai foi sempre um homem muito habilidoso e eu ainda me lembro nitidamente dos caminhõezinhos e instrumentos musicais infantis que ele fabricava para mim, quando eu ia para a rua brincar à porta de chegada de nossa casa para todo mundo ver a minha felicidade trazida pelo Papai Noel. Posso ainda me lembrar da felicidade dos meus pais, vendo a felicidade minha e de minhas irmãs.

Cresci e conheci a verdade sobre o natal. Hoje, quando me vem à memória de que Jesus nasceu em uma manjedoura, entre os ruminantes, posso entender que o natal é uma festa paradoxal, principalmente se houver carne de boi ou de porco. Isso porque o primeiro recebeu Cristo e O acolheu em sua manjedoura, assistiu ao Seu nascimento e Lhe deu aconchego com o seu bafo. ------ E o outro, por ser impuro e indigno, em uma festa oferecida a Jesus Cristo.

Portanto, eu imagino que o natal deveria ser uma festa de pobre para pobre e que os mais aquinhoados acabaram, insensivelmente, alterando o seu real sentido. A prova maior disso é recebermos de um judeu ou de um ateu os votos de “Feliz Natal”.

Eu desejo a todo o mundo e em especial aos meus amigos, não apenas um natal feliz, mas uma felicidade completa, todos os dias de suas vidas.

Armando Melo de Castro


domingo, 19 de dezembro de 2021

EU, UM CANDEENSE MINEIRO, POBRE BAIRRISTA.


Sou um candeense, mineiro e brasileiro bairrista. Eu nunca tive vontade de conhecer um país estrangeiro. ---- Para que essa vontade me viesse à tona necessário seria que eu já conhecesse todos os cantos do Brasil. Como isso nunca foi e nem me será possível continuarei sem esse desejo e feliz.

 O bairrismo às vezes é mal entendido como herança do coronelismo reconhecido pelo poder social e patrimonial. É claro que neste sentido o bairrismo pode ser justificado não apenas por amor a terra onde a pessoa nasceu, mas pelo apego às terras de sua propriedade. A literatura brasileira insiste em comentar que o bairrismo foi uma das causas que muito atrapalharam para que o Brasil tivesse uma república consolidada. É, todavia, inegável que o Bairrismo econômico é uma perversa herança do coronelismo e sua política.

Mas o bairrismo o qual me refiro neste texto, não é desse pacote... Não é desse saco de farinha... Não se trata dessa ambição dos antigos proprietários de terra. O meu bairrismo é o bairrismo do amor à terra que me viu nascer. Das mais belas lembranças que guardo dentro de mim, da serra do Sr. Bom Jesus; a igreja matriz onde fui batizado; o Santuário do Senhor Bom Jesus reservado aos domingos para as reuniões dos irmãos de São Vicente; no mês de maio para as coroações da Mãe Maria; do meu querido Grupo Escolar Padre Américo; do Bar do Bóvio, Bar Piloto; Casa Celestino Bonaccorsi e a chegada do calçamento das ruas e das tantas praças que foram criadas em Candeias. Tudo isso me viram nascer e crescer até aos 18 anos na minha querida Candeias.

Eu tive que sair de Candeias para ganhar a minha vida fora. Fiz isso aos 15 anos e voltei... Aos 16 e voltei... Aos 17 e voltei, mas após os 18 anos parece que Candeias não quis ser mais minha, mas eu continuei a ser dela. A minha terra cantada em prosa e verso nas salas e no pátio da escola. Tudo isso ficou entranhado em mim como se fosse uma marca candente, como aquelas que se faz no gado.

Certa vez, aqui em Juiz de Fora, quando eu conversava com um baiano e ele me perguntou onde eu nasci, e eu disse-lhe que era de Candeias, ele pirou e me disse: “ Nois somo conterrano cumpanhero? --- Mas ele com aquele sotaque de baiano matuto, me fez logo entender que se tratava de um candeense da Bahia, no que eu naturalmente exaltei a minha Candeias de Minas Gerais.

Mas veja só: O baiano teve a ousadia de dizer: “Eu nunca vi falar dessa Candeias sua”. E depois de dar um sorriso sorrateiro e malicioso, disse em bom tom  --- “Oceis intão ficou com inveja de nóis” e deu aquela risadinha de esnobe, como estamos vendo entre Atleticanos e cruzeirenses.

E bairrista como sou, tive que engolir aquele sorriso insultante

Bairrista como sou tive que engolir aquela frase embrulhada naquela risada, mas tentei me desabafar e disse:

Pelo contrário meu amigo, foram vocês que nos imitaram. A nossa Candeias emancipou-se em 1938 e a sua foram 20 anos depois. Disse-lhe.

“Mais a sua deve ser muito piquena né”

E eu pela força do bairrismo o interpelei: não é tão pequenina não. Tem quase 20 mil habitantes... E ele soltou na minha cara agora um sorriso daqueles bem reprochados e não se conteve em abrir o verbo, dizendo que a sua cidade daria umas cinco da minha, que lá tem isso e tem aquilo, de uma forma indireta dizendo que a minha Candeias, a minha pobre Candeias não devia nada quase nada. Notei então que eu estava à frente de outro bairrista.

Assim, me vi derrotado diante de uma competição, onde eu não teria argumentos e isso levou-me a um pensamento. Onde estão os políticos de minha Candeias que nunca tentaram uma mudança do nome da cidade para CANDEIAS DE MINAS, através de um plebiscito. --- Eu como um candeense mineiro, tenho “birra” dessa Candeias da Bahia, desde menino, quando o meu avô foi para São Paulo a fim de ser operado, e como naquele tempo as coisas eram diferentes, pois não existiam as facilidades de comunicação, como existem hoje. As cartas que o meu Tio  escreveu para o meu pai, foram todas parar na Bahia, e demoravam um mês para chegar em nossas mãos.

Na internet é triste ver a nossa Candeias se misturando com a Candeias da Bahia, a diferença é  só o MG pelo BA. E quando os baianos se referem a nossa Candeias é como se nós estivéssemos tirando-lhes até a nossa padroeira, Nossa Senhora das Candeias. A quem eu peço, Mãe! Dá um jeito nisso

Armando Melo de Castro

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

UMA LEMBRANÇA BENDITA DAS CANDEIAS!


Eu peço licença aos meus amigos, para que hoje, eu possa falar de mim. Entendo que aquele que se propõem a falar de outras vidas, deve, no entanto, falar da sua também. Falar sobre si mesmo é assumir a sua condição, seus percalços e as mudanças que a vida oferece. Não falar de si sem uma afirmação, ignorando os buracos da estrada da vida; isso seria criar uma condição para a própria ignorância. Afinal cada ser humano escreve a sua história. Uma história naturalmente verdadeira.

Eu fui um menino feliz, mas tinha um problema que custei a me livrar dele. Eu entendo que se a pessoa não sabe que o tem, tudo bem. Mas se o tem e não aceita tê-lo é terrível. Trata-se da timidez. Eu era um menino acanhado, portador de uma timidez precária que me impedia de alcançar o meu proposito o qual seria perder aquele maldito medo de ser abordado

Eu queria ser um menino sorridente, alegre, respondão, e não aquele bobão que quando chamado a atenção por um erro involuntário, não sabia se defender e sim abrir a boca a chorar. Eu queria ser um menino igual os outros e não aquele que me sentia ser. --- Na escola quando a professora se aproximava de mim eu baixava a cabeça. ---- Cinquenta anos mais tarde, eu visitei a minha primeira professora, então moradora na cidade de Formiga, a minha querida Dona Maria do Carmo Alvarenga, esposa do amigo Alberto do Sr. Nico da Estação, e ela se lembrou de mim e disse: “Eu me lembro muito de você Armando, caladinho no seu canto...” --- E a minha mãe que estava presente, e teria sido amiga de infância de Dona Maria do Carmo disse, a frase que eu tanto gostava de ouvir: “Pois é Do Carmo, quem o viu e quem o vê agora, não faz ideia”... Como era bom ouvir isso da boca de minha mãe.

Mas desde que aprendi a jurar, jurei e cumpri o juramente de deixar de ser aquela vítima de mim mesmo, e poder me inteirar de forma social. Mas posso garantir que isso não foi fácil.

Eu não conhecia a palavra “Timidez” e sim as palavras, acanhado e bobo. Uma hora ouvia dizer que eu era bobo, outra hora acanhado. E eu não queria ser nenhuma das duas coisas. O meu papo maior era comigo. Eu falava comigo mesmo: Um dia eu perco essa vergonha; um dia eu deixo de ser bobo e acanhado. --- E jurava para Deus pai, Jesus Cristo, a Mãe Maria e o meu Santo Antônio.

A postagem neste grupo, do meu amigo Júlio Cezar Viglioni, quando pergunta a quem se lembra o nome do dono da budega em que o leitor comprava na infância, coloca os meus olhos no retrovisor da estrada da minha vida, quando existia a venda do Sr. Zé Lara, estabelecido ali na esquina da Rua Professor Portugal com a Rua Coronel João Afonso Lamounier, onde hoje reside a família do Sr. Vicentinho Vilela.

A nossa casa ficava próximo dali e qualquer moeda que me chegasse às mãos, eu corria até a venda do Sr. Zé Lara para comprar a bala nata a minha preferida. Eu deveria ter nesse tempo os meus 6 anos de idade, por volta do ano de 1952. E minha mãe deixava eu ir até a venda, para, naturalmente, combater a minha timidez que não vinha acompanhando o meu crescimento. No princípio era preciso escrever o nome da bala. Eu só entregava o bilhete para o Zé Lara. Eu chegava correndo e saia correndo. Se alguém me perguntasse de quem eu era filho não tinha resposta.

Na então, Rua José Maria Alkmin, hoje, João Caetano de Faria, abaixo da esquina com a Rua Professor Portugal, numa tapera ali existente, morava uma velha prostituta, que vivia bêbada, gaforina e suja. Os meninos morriam de medo dela e não passavam naquela rua porque ela não gostava de criança, talvez por um trauma da sua vida pregressa. E se um menino tivesse medo dela, ela ameaçava bater nele o que já teria feito com outras crianças. Essa mulher tinha o nome de Sá Orozina.

Zé Lara era um homem sistemático, e não atendia e nem servia pessoas embriagadas que entrassem no seu estabelecimento. Às vezes ele entrava para o interior da residência e o freguês ficava esperando por algum tempo. E nesse dia aconteceu isso. No exato momento em que adentrei a venda, essa mulher chegou atrás de mim. E ao vê-la foi como se tivesse visto o diabo. Comecei a chorar e ela então ameaçou me bater, o que levou Zé Lara chegar, me pegar e colocar do lado de dentro do balcão, e pediu a alguém ali presente, que fosse à casa de meu pai chama-lo.

Meu pai chegou correndo, quando a velha bêbada já o recebeu com palavras de baixo calão, daquelas bem próprias de prostitutas bêbadas. Eu no colo do meu pai, e essa mulher levanta o vestido e expõe uma grande bunda branca me deixando totalmente assustado com a sena e ela disse por mais de uma vez “Ocê e esse “muleque” seu, beija aqui oh! Beija meu rabo! Beija meu c... beija minha b... ---- E o meu pai, então insultado, lascou um baita tapa na bunda dela e disse-lhe: tai o seu beijo.

O fato correu a cidade. Candeias nesse tempo era ainda uma cidade bastante pequena, no tempo dos velhos partidos políticos da UDN e PSD. A UDN do Sr. João Pinto de Miranda e o PSD do Dr. Zoroastro Marques da Silva.

Em três dias chegou a nossa casa um cabo da política Militar e disse ao meu pai, que o delegado Sr. José Resende de Almeida, teria mandado lhe pedir para dar uma chegada na delegacia para expor o ocorrido. ---- Mas que não precisava acompanha-lo que isso poderia ser mais tarde. --- Mas quando eu vi o cabo, eu agarrei na perna do meu pai e não soltava e chorava alto, chamando inclusive a atenção dos vizinhos que teria visto o cabo à porta de nossa casa. E eu só fui acalmar após a retirada do militar. ---- Mais tarde o meu pai foi até a delegacia onde reconheceu o seu erro, mas que aquilo teria sido um efeito do susto que levara, pois o rapaz que o teria chamado dissera que a Sá Orozina, queria bater em mim.

O delegado dissera que a iniciativa junto a delegacia, e que inclusive teria ido ao Dr. Zoroastro pedir uma punição para o meu pai era uma mulher, então muito conhecida de meu pai, mas não disse o nome de quem. Era uma senhora casada, muito conhecida na cidade por seu temperamento briguento. E que seria bom esquecer o ocorrido porque o marido dela era muito amigo do meu pai. E que na delegacia já havia diversas queixas de pais que tiveram seus filhos ameaçados por aquela mulher bêbada. ---- Meu pai agradeceu o delegado, após reconhecer que um homem não pode agredir uma mulher, mas o fato teria acontecido num momento de muita tensão.

Anos depois, o Dr. Zoroastro Marques da Silva, numa conversa com meu pai disse-lhe o nome da mulher que chegou a encher a paciência dela por causa do fato, e ele ainda deu nela um chega pra lá dizendo: “O Zé é meu amigo, ele é da UDN, mas política não se faz desse jeito. ---- Dr. Zoroastro Marques da Silva, um exemplo de político. E a surpresa não foi tão grande para o meu pai. Essa senhora, teria sido namorada dele, e ele a teria dispensado para se casar com a minha mãe.

Mas voltando ao assunto da minha timidez eu acho que o Pai, o Filho e o Espirito Santo, com a presença da Mãe Maria e Santo Antônio, fizeram uma reunião para resolver o meu caso, que ficou tão bem resolvido.

Armando Melo de Castro.