ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.
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sábado, 27 de julho de 2019
sexta-feira, 19 de julho de 2019
PEDRO NARDI, UM EXEMPLO DE VIDA!
O que é um homem de
bem? O homem de bem é aquele que cumpre a lei da justiça, do amor, da caridade
e do trabalho. O verdadeiro homem de bem é aquele que se apresenta para o
tribunal da sua consciência para ser julgado pelos seus atos. Ele quer saber se
está cumprindo fielmente a pratica do bem. O verdadeiro homem de bem é aquele
que respeita a sentença do seu próprio tribunal e não tenta burlar as normas
que punem os seus erros. -Não é tão fácil para um ser humano aderir à perfeição
já que ele convive com um mundo cheio de imperfeições, mas existem aqueles que
se esforçam mais. Esse é homem de bem.
O nosso Blog Candeias
MG Casos e Acasos, vem hoje fazer uma simples homenagem póstuma a um homem de
bem. Um homem querido por todos aqueles que o conheceram e que jamais alguém
tenha ouvido sobre ele uma crítica que não fosse construtiva. Um candeense por adoção;
um amigo de todos e respeitado por todos. Eu digo uma simples homenagem, visto
que: por mais carinhosa; por mais amável; por mais justa que seja feita esta
nossa homenagem, ele, o nosso homenageado, mereceria algo mais abrangente, pelo
quê, eu gostaria de recomendar o seu nome à Câmara Municipal de Candeias.
Estamos homenageando
um grande amigo. Um filho adotivo de Candeias, que veio de longe para juntar-se
a nós na construção da nossa história: PEDRO
NARDI.
Pedro Nardi,
italiano, nasceu em Barga, Toscana, Itália no dia 10 de janeiro de 1913. Era o
terceiro filho do casal Massimo Nardi e Clementina Bonaccorsi, Irmã do nosso
tão querido Celestino
Bonaccorsi. --- Pedro Nardi tinha cinco irmãos: Maria, Mário,
Giovanni, Carolina e Ida. Todos já falecidos. Morou e estudou em Filecchio,
comunidade de Barga, até os 16 anos, ajudando a família nos afazeres da
propriedade rural.
A situação econômica
na Europa após a primeira guerra mundial era muito difícil, especialmente na
Itália, provocando um grande fluxo de imigração. Sua irmã mais velha, Maria,
imigrou-se para os Estados Unidos junto com o marido e foram muito bem
sucedidos. --- Pedro Nardi resolveu se juntar a eles em 1929; mas não conseguiu
o visto nos Estados Unidos, isso porque as entradas de novos imigrantes teriam
sido fechadas à vista da depressão econômica que o país atravessava naquele
momento.
Diante disso, O Sr.
Celestino Bonaccorsi, tio de Pedro Nardi, o convidou para vir para o Brasil
onde deveria ficar até a imigração definitiva se restabelecer nos Estados
Unidos. --- Pedro aceitou a proposta e viajou para o Brasil no vapor Conte
Verde e desembarcou no Rio de Janeiro no dia 30 de dezembro de 1929. Começaria,
então, uma vida nova já no primeiro dia do ano de 1930.
Com apenas 16 anos
chegou a Candeias e já arregaçou as mangas e colocando-se a ajudar o seu Tio,
Celestino Bonaccorsi, no movimento da loja, a então, Casa Celestino Bonaccorsi,
uma grande loja não só para Candeias, mas toda a região.
Pedro Nardi gostou do
trabalho, do meio, e foi ficando mesmo depois da imigração dos Estados Unidos
ter sido reaberta. Ficou e acabou apaixonando-se por uma jovem muito bonita,
filha do Sr. João Sidney de Sousa, com a qual se casou no dia 23 de fevereiro
de 1938. ---- Agora, Pedro Nardi já era o nosso popular Pedrinho Bonaccorsi, já
teria sido adotado como filho definitivo de Candeias e não voltaria mais. Do
casamento nasceram cinco filhos: Romulo, Rinaldo, Regina, Ricardo e Rossela.
Um pai de família
exemplar. Um homem inteiramente dedicado ao trabalho e a família. Amigo de
todos. Pedrinho era o coração da Casa Celestino Bonaccorsi. Era ele o gerente
geral e que comandava todos os balconistas que eram muitos. ---- Gerenciava e
atendia, também, a freguesia. Os fregueses preferiam-no por ser dono de um
atendimento diferenciado.
Lembro-me de vê-lo
sempre rodeado por fregueses e balconistas da loja sempre querendo saber algo;
sempre pedindo orientações e os fregueses chorando desconto que iam além da
autonomia dos funcionários, Pedrinho sempre tirava alguma coisa e sempre
agradava o freguês. Ele era um verdadeiro professor de atendimento. Era uma
figura simpática e marcante com o seu linguajar ítalo-brasileiro.
Sua vida foi toda
dedicada com muito amor à família e ao trabalho. Quando não se encontrava na
loja esta parecia estar vazia. Ninguém jamais o via desocupado. A Casa
Celestino Bonaccorsi, foi grande parte de sua vida. Mas o destino fez com que
Celestino Bonaccorsi voltasse para a Itália depois de tantos anos no Brasil. E
os herdeiros da casa comercial não a levando em frente, esta foi consequentemente fechada em 1975.
Pedrinho agora
estaria trabalhando em sua residência com a sua esposa Dona Irene no comercio
de confecções, joias e relógios. Se Pedrinho tivesse sido um homem desonesto,
não precisaria continuar trabalhando. Mas a sua dignidade, a sua qualidade de
homem de bem não o enriqueceu. Poderia ter se enriquecido se não tivesse sido tão fiel como homem de confiança do seu tio. E a vida de
trabalhador continuava e seguiu até a sua morte em 06/11/1992, aos 78 anos,
sendo dos quais 63 como candeense.
Um pai de família
exemplar, as pessoas babavam ao ver o carinho dele com os filhos e com a
esposa. --- Tia Nice, esposa de meu tio Wantuil, conta que o Dr. Renato Vieira
sempre dizia que jamais teria visto dois homens mais felizes quando ganharam
filhos: Wantuil no dia que ganhou o seu filho homem, o Santos --- e o Pedrinho Bonaccorsi, o dia que ganhou
a filha mulher, a Regina.
Pedrinho e Dona Irene
eram muito caridosos. Sua casa era procurada pelos pedintes da época,
Leopoldina, mãe do Zé Viroto, Matias Tatá, Gasparina, o Tica e outros. Eram
caridosos e amáveis com os mendigos. ---
Formaram todos os filhos e eles são excelentes pessoas e bem sucedidas que
herdaram dos pais todos esses bons princípios e retidão de caráter.
Durante todos os anos
de sua vida entre nós, voltou apenas duas vezes à sua terra natal. Uma em 1950
e a outra em 1986; ambas em companhia de Dona Irene e de seu filho mais velho,
o Rômulo. --- Voltou maravilhado após ver o seu país prospero e livre dos
estigmas da Segunda Guerra Mundial. Reviu parentes e lugares que conhecera
quando ainda criança. ----- Sua vida, com certeza, deve ter sido alimentada de muita
saudade!
Mas Pedrinho agora
era mais brasileiro; mais mineiro e mais candeense. A Itália, com certeza,
seria a melhor das lembranças. Deus lhe dera dois mundos para viver. No
entanto, deu-lhe, também, uma sugestão: fique em Candeias Pedrinho! E ele
aceitou.
Pedro Nardi, o nosso
grande amigo Pedrinho Bonaccorsi, está sepultado no Cemitério São Francisco em
Candeias. Sepultado com toda a sua honestidade, humildade e lealdade, virtudes que o
tornou tão querido pelo povo candeense; assim como amado pelos seus filhos
aos quais ele não era de dar muitos conselhos, mas sabia transmitir
implicitamente os seus valores por meio de exemplos constantes e coerentes.
No seu sepultamento
no Cemitério São Francisco, em Candeias, seu amigo Sebastião Pisidonha,
pediu a palavra e enfatizou: ----- Pedrinho era sim, um homem querido por todos
os candeenses e nunca teve um único inimigo. ----- Fica aqui o nosso endosso às
palavras de Sebastião Pisidonha. --
No epitáfio, escrito
pelo seu genro Jacson Zuim, está uma síntese de que foi Pedro Nardi:
“Poucos são aqueles
capazes de viver em paz, de abandonar a ambição e entregar a sua alma aos
caminhos mais simples e profundos. São poucos, mas são o nosso maior exemplo”.
Onde quer que esteja
amigo Pedrinho Bonaccorsi, receba o meu abraço.
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e
Acasos.
quarta-feira, 3 de julho de 2019
AVANTE CIDADE DE CANDEIAS!
Quando eu saio do meu
presente para dar uma volta ao meu passado, eu não poderia estar noutro lugar a
não ser em Candeias. --- Minha terra querida que já não seja tão minha, mas a
vida ali vivida me dá o direito de revivê-la através da saudade. --- Afinal, só
sente saudade quem foi feliz. ---
Era uma vidinha humilde,
porém, feliz. ----- Agora, com a morte de minha mãe, estou completamente
desligado do meu torrão natal. ---- Mas passeio por lá todos os dias, através
desse sentimento nostálgico.
Não se trata da mesma
Candeias onde eu nasci e vivi, mas é a Candeias que guarda os meus ascendentes;
os meus amigos, minha infância e juventude, principalmente a infância. Lá está,
ainda, a Pia Batismal onde me foi feito o assento do meu batismo. Lá ainda está
à rua onde eu nasci e por ela subia e descia todos os dias. Está a Avenida 17 de
Dezembro, hoje tão diferente do tempo em que era chamada de 'LARGO". Tantas praças! Tantas casas apareceram e tantas desaparecidas.
Com a minha residência
próxima da Catedral de Juiz de Fora, convivo com o bimbalhar dos seus sinos o
que me transporta ao meu passado religioso da velha matriz de Candeias. ----
Ainda
soa em meus ouvidos as badaladas do meio dia e a “hora do Ângelus” em Candeias. ---- Os sinos da velha matriz não silenciaram para os meus ouvidos. A demolição da
antiga Matriz mexeu profundamente comigo. Eu consigo fechar os olhos e me ver
dentro daquela inesquecível casa de Deus.
Com seus toques e repiques
os sinos da Matriz de Candeias, falavam aos fieis numa linguagem sacra. Na
bênção do Santíssimo e consagração nas missas, não seria necessária a presença
do católico na igreja para receber o toque de Deus. Toda a cidade era avisada
daquele momento e a pessoa se postava de onde se encontrasse para receber a benção de Deus.
Ao meio dia eram executadas
as doze badaladas, cujo soar atingia parte da zona rural. Não havia sequer um
lugar de Candeias onde não se ouvia com perfeição o som do grande sino.
Eram três avisos para cada
missa. Havia missas todos os dias da semana e aos domingos eram três horários,
6, 8 e 10 horas. Missas celebradas pelo, então, Padre Joaquim, posteriormente, conferido
pelo Papa, como Monsenhor Castro. ----
Nas missas semanais não havia a pregação.
Na torre da matriz havia
três sinos de tamanhos diferentes: Um grande, um médio e um pequeno. As
solenidades na igreja eram identificadas pelos seus toques e dobrados.
Os toques fúnebres informavam
se a pessoa falecida seria homem, mulher ou criança. E essa informação pelos
sinos era repetida de hora em hora.
Na sexta feira da paixão, os
sinos não tocavam. Era usado apenas um instrumento chamado “matraca”. Isso era
fornecido aos meninos que tropeçavam uns aos outros vendendo velas e batendo a
matraca. O silêncio dos sinos entristeciam ainda mais a sexta feira santa, quando a cidade adormecia em respeito a morte de Jesus.
Candeias era muito
diferente. Era muito atrasada em comparação aos dias de hoje. A saúde, a
educação eram precárias; o prefeito não tinha um carro; a polícia andava a pé;
não havia calçamento nas ruas; não havia empregos e nem aposentados. A
iluminação pública era fraca. Telefone nem pensar; transporte ferroviário e
precário. Uma viagem de ida e volta à cidade de Formiga, demorava um dia, eram duas horas
e meia para a ida e o mesmo tempo para a volta. Isso se o trem não atrasasse o
que seria raro. As mães morriam de parto; os homens morriam com problemas de
próstata. Quando algum candeense era levado para Campo Belo, era porque estava
às portas da morte. A pobreza não era um privilégio de Candeias.
Candeias era tudo isso, mas já
era uma fonte de inspiração para a Professora Neguita Alvarenga e o Maestro
Belmiro Costa para a criação do hino que me fez ver um belo rincão sem par; uma
pura fonte de exemplo cristalino onde o pobre se encontrava e que me fez desta fonte
o meu ninho adorado a quem eu consagro o meu coração. Mostrou-me a bela e
imensa clorofila cobrindo o seu solo com tanta lealdade e o seu céu azul
traduzindo fé, esperança e caridade. Além disso, me dar a certeza de que Candeias é uma
honra de Minas e do povo candeense no sublime setor da religião.
Salve, salve Candeias e
receba o hino do seu povo, um tributo da nossa gratidão.
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.
CRONICA RELACIONADA: https://candeiasmg.blogspot.com/2010/05/igreja-matriz-de-candeias.html
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quarta-feira, 19 de junho de 2019
O MEU AMIGO TITÔCO E A FAVA.
Candeias - Minas Gerais
uma coisa boa que eu gosto muito de sentir é quando eu estou sem fazer nada aqui no meu aposento de aposentado, com muita coisa para pensar sobre o passado, pouca do presente e quase nada do futuro. Dai flutua no lago do meu cérebro um pensamento bom de lembrar, eu rio sozinho parecendo um bobo alegre. ----
uma coisa boa que eu gosto muito de sentir é quando eu estou sem fazer nada aqui no meu aposento de aposentado, com muita coisa para pensar sobre o passado, pouca do presente e quase nada do futuro. Dai flutua no lago do meu cérebro um pensamento bom de lembrar, eu rio sozinho parecendo um bobo alegre. ----
Minha mulher gosta de fava verde com angu. Na família dela isso é uma
tradição, e eu experimentei e achei gostoso. ---- Eu fui criado diante de um
favismo psicológico, que me fez repudiar o grão, sem nenhum motivo. -------
Acontece que a fava seca, feita como se faz feijão, realmente é uma coisa muito
ruim. E é assim que eu a conheci.
O tempo me fez sentir que a fava nunca foi bem aceita em Candeias. São
vários os rifões que ouvi denegrindo a qualidade dessa iguaria, tanto para a
saúde como para o gosto. ----- Minha avó dizia sempre: “Fava além de ser muito
ruim, faz mal para a saúde”. Mas, não é bem assim.
Hoje, quando a minha mulher disse que estava com vontade de comer fava
com angu e frango à moda de sua avó, flutuou no lago do meu cérebro, um fato que estava
bem lá no fundo. -----
Sempre quando ouço falar na fava eu me lembro do meu amigo Antônio
Sidney de Sousa, o Titôco, infelizmente já falecido. ---- Meu
condiscípulo no Grupo Escolar Padre Américo, hoje Escola Estadual; meu
companheiro de carteira; meu grande amigo de infância e juventude e
contemporâneo em São Paulo. ---- Titôco tinha uma facilidade imensa de
encontrar um apelido para cada um de seus amigos. ---- Quando surgiu o jeans,
foi uma febre na juventude. ---- Eu teria comprado uma peça de calças na loja
do Bonaccorsi, cuja marca era “Turista”, o que trazia a etiqueta grande no bolso traseiro. ---
Titôco quando viu aquilo,
nunca mais me chamou de Armando. Até às vésperas de sua morte. A última vez que
estive com ele no então Bar do Bola, ele que vinha saindo lá do interior do bar
disse alto e em bom som: Oh! Turista! O apelido não pegou, mas ele não
desistiu. ---- Foi a última vez que o vi vivo. Sempre quando ouço alguém falar
a palavra “fava” eu me lembro do Titôco numa conversa que tivemos quando
assentados nesse banco do jardim da foto, em Candeias.
Depois de ouvirmos o
comentário do Willian Barbeiro, sobre a mulher após o casamento, Titôco
quase que irritado assim que o Willian afastou-se me disse:
“Sabe o que é Turista: o
cara dá fava para a mulher comer e quer que ela esteja bonita. Isso é querer
demais”.
Meu caro Titôco, onde quer
que esteja receba o meu abraço.
(Armando.)
NB) Parabéns Márcia Sena,
pelo marido que você teve!
quinta-feira, 13 de junho de 2019
OH! QUE SAUDADE QUE EU TENHO
Hoje, depois de tomar o meu café da manhã,
liguei para um amigo, da cidade de Luz, a fim de parabeniza-lo pelo seu 83º
aniversário. E como é patente, um idoso ao dar os parabéns para outro idoso, o
traço da conversa não é no mesmo tom da juventude. O meu amigo com o qual
outrora, juntos, experimentávamos bons tira-gostos e boas cachaças enquanto
discutíamos assuntos interessantes, agora, encontra-se naquela fase de saber,
apenas, o que é bom para aliviar ou curar doenças. E o prazer de degustar
aquilo que o cérebro pede já não lhe pertence mais.
Disse-me não estar
passando bem de saúde, em virtude de ter sido acometido por um diabetes. Falou
de doenças, de saudade e como teria sido motorista profissional não deixou de
falar em estrada, contudo, na estrada da vida. ----- Lamentei profundamente as
suas queixas, claro, sem boas palavras para conforta-lo.
O tempo não poupa
ninguém e a doença advinda pela idade avançada, nada mais é do que um
privilégio dado por Deus; a fim de que possamos entender que estamos nos
aproximando do fim da estrada da vida e prepararmos para isso. ---- Esta é a
melhor maneira de encararmos o fim da vida. ---- Devemos entender que o tempo é
como um ácido que corrói o nosso corpo e pede o espelho para que nos mostre o
estrago. -Lutar contra o tempo é lutar contra o inevitável. Afinal, nessa
estrada não há retorno, a não ser embarcados na saudade.
Após desligar o
telefone, fermentou-me nas dornas do meu cérebro a ideia de que a vida é
realmente uma estrada que estamos viajando sem saber de onde viemos e nem para
onde vamos. Uma viagem por uma estrada cujas margens têm flores e espinhos;
retas e precipícios, ora colocando as vidas em riscos; e em outros momentos
parecendo estar nos levando à verdadeira felicidade.
Eu, aos 73
anos, felizmente, não comunguei com o meu amigo a respeito da sua doença.
Felizmente não tenho o que me queixar da minha saúde. Mas sinto que não é só a
saúde que o tempo nos toma. E como essa viagem da vida não tem retorno,
deixamos para trás um rastro que se chama saudade que também dói. ------
Não foi só você
Casimiro de Abreu que sentiu aquela saudade da sua infância querida que os anos
não trazem mais! ---- Eu também sinto saudade da aurora da minha vida, de um
céu sempre lindo, quando eu rezava a Ave Maria, adormecia sorrindo e despertava a cantar. --- Eu sinto, também, muita saudade e saudade dói de verdade.
Saudade de ver minha mãe lavando arroz nas cuias e o meu pai regando a horta; saudade dos meus avós me abraçando e da minha tangerineira no quintal da casa onde eu nasci; dos brinquedos que o meu pai fazia para mim à noite após me ver dormindo para coloca-los atrás da porta nas noites de natal. Sinto saudade da minha Rua Coronel João Afonso, toda cheia de mato e buracos e as mulheres lavando roupa, brigando e com as suas latas d’água junto à torneira pública no meio da rua.
Saudade de ver minha mãe lavando arroz nas cuias e o meu pai regando a horta; saudade dos meus avós me abraçando e da minha tangerineira no quintal da casa onde eu nasci; dos brinquedos que o meu pai fazia para mim à noite após me ver dormindo para coloca-los atrás da porta nas noites de natal. Sinto saudade da minha Rua Coronel João Afonso, toda cheia de mato e buracos e as mulheres lavando roupa, brigando e com as suas latas d’água junto à torneira pública no meio da rua.
Sinto saudade sim, dos picolés de cereja e coco queimado do Bar Piloto; da
venda do Chico Freire; das fofocas de Dona Ester e Dona Joana do Galdino, do
cachorro Lírio do Henrique Sotero e das galinhas de Dona Marica da Melada, pastando
na rua e se recolhendo num buraco do muro. ---- Saudade, do açougue do Juquita
de Assis, no Beco Belmiro Costa e dos filmes do Oscarito e Grande Otelo, no
Cine Operário são José. Uma saudade muito danada dos meninos da minha rua
soltando papagaio, jogando bolinhas de gude matando passarinhos com bodoque e
jogando piorra. O tempo se incumbiu de manda-los para longe e eu nunca mais os
vi em sua maioria.
Saudade do
entra-e-sai na Sapataria do meu pai, onde havia um quadro de São Crispim na parede,
o protetor dos sapateiros. Saudade, também, da venda do Zé Lara onde buscava o
pão de manhã, enquanto a minha mãe coava o café.
--- O Grupo
Escolar Padre Américo... Ai que saudade doida, das professoras todas já
falecidas e os colegas repartidos pelo destino.
Saudade de sair pelas
ruas com uma carrocinha vendendo as laranjas de Dona Mariquinha do Sr. Chico
Freire e com isso ganhar uns trocados. Os nossos vizinhos; como eu gostava de passar à
porta de Dona Filomena Barros, vê-la fazer croché e ganhar o seu sorriso; como, também, observar o Sr. Erasto de
Barros, seu irmão de Dona Filomena, sempre nervoso e com o seu linguajar chulo. ------------- Muita saudade do Campo do Rio
Branco, que ficava abaixo da loja do Vicente Vilela. Aos domingos era dia de
futebol e a cidade toda descia a nossa rua... ----- É tanta coisa, é tanta saudade que não dá para
por tudo aqui. ----- E como
disse Clarice Lispector: Saudade é como fome,
só passa quando se come a presença.
E eu pergunto e se não tem presença? ---- Claro, não morre de saudade, mas morre com a saudade!
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e
Acasos.
quarta-feira, 5 de junho de 2019
CANDEENSES QUE MARCARAM O SEU TEMPO.
IGREJA DO ROSÁRIO - CANDEIAS MINAS
Hoje, remexendo numa gaveta das minhas recordações, encontrei diversos conhecidos e amigos. Pessoas humildes, carentes, doentes e problemáticos com as quais eu convivi em Candeias. ----- Alguns ainda no meu tempo de criança e outros já na fase adulta. Pessoas falecidas e que viveram muito tempo sendo lembradas pelos candeenses e que aos poucos vão se desaparecendo da nossa história. Cito aqui alguns nomes cujas imagens eu guardo muito bem guardadas no cofre da minha memória.
---- Jonas, um negro gordo que vivia trauteando musica de sua cabeça, pelas ruas e nessas solfejadas se alguém risse ficava agressivo, e se tornava perigoso, principalmente perante as crianças. Candeias não tinha calçamento e era muito fácil para ele agredir a pedradas, pois seria fácil apanhar uma pedra. -----
---- É difícil de esquecer, o negro magro, de chapéu de palha, de pouca prosa e quando bebia uns goles falava e cantava trazia consigo uma sanfona de oito baixos, na qual ele executava de forma interessante. Essa sanfona costumava cair pelo chão e não se sabe explicar como ainda continuava a funcionar. ---- Se alguém achasse graça das suas atitudes, ele embriagado mandava um nome feio e o mais comum era: “Vai desgraçado”, E ai é que a coisa ficava mesmo engraçada. Esse era o famoso "Quebra-gaio".
A outra função de João Ciganinho era a de coveiro do Cemitério São Francisco. E como era o patriarca de uma penca de filhos, entre esses havia o Tiguinho que o ajudava na abertura das covas. ----- Na área onde está à pracinha do cemitério havia uma capela usada para guardar petrechos funerários e depositar defuntos que vinham das roças em padiolas, enquanto aguardavam a confecção do caixão coberto de pano roxo, que era fabricado na oficina do Sr. Nicodemos Salviano, sob encomenda. Não havia serviço funerário em Candeias nesse tempo.
Hoje, remexendo numa gaveta das minhas recordações, encontrei diversos conhecidos e amigos. Pessoas humildes, carentes, doentes e problemáticos com as quais eu convivi em Candeias. ----- Alguns ainda no meu tempo de criança e outros já na fase adulta. Pessoas falecidas e que viveram muito tempo sendo lembradas pelos candeenses e que aos poucos vão se desaparecendo da nossa história. Cito aqui alguns nomes cujas imagens eu guardo muito bem guardadas no cofre da minha memória.
---- Jonas, um negro gordo que vivia trauteando musica de sua cabeça, pelas ruas e nessas solfejadas se alguém risse ficava agressivo, e se tornava perigoso, principalmente perante as crianças. Candeias não tinha calçamento e era muito fácil para ele agredir a pedradas, pois seria fácil apanhar uma pedra. -----
----- Outro era o Matias. Esse era
inofensivo. Era um mulato miúdo que vivia montado num bambu o qual ele imitava
os corcovos e o trote de um cavalo. As crianças gostavam de perguntar o seu
nome para ver a dificuldade que tinha de dizer: Maaaatia Taaatá.
---- É difícil de esquecer, o negro magro, de chapéu de palha, de pouca prosa e quando bebia uns goles falava e cantava trazia consigo uma sanfona de oito baixos, na qual ele executava de forma interessante. Essa sanfona costumava cair pelo chão e não se sabe explicar como ainda continuava a funcionar. ---- Se alguém achasse graça das suas atitudes, ele embriagado mandava um nome feio e o mais comum era: “Vai desgraçado”, E ai é que a coisa ficava mesmo engraçada. Esse era o famoso "Quebra-gaio".
----João Ciganinho era um homem
muito humilde e talvez naquele momento, o homem mais conhecido da cidade. Tinha
uma dupla função, no tempo em que o cemitério São Francisco e a Sociedade de
São Vicente de Paula, eram comandados pela paróquia. Ciganinho era sempre visto
nos quatro cantos da cidade, trajado com o seu terno de brim surrado da cor do
chão e o seu chapéu de lebre desgastado. Levava sempre debaixo do braço uma
pequena pasta de cobrador das mensalidades dos contribuintes da Vila. -------
Naquele tempo em que a pobreza era bordada de carência a miséria era gritante,
muitos desses contribuintes eram tão pobres quanto os pobres da Vila, portanto,
muitos escondiam dele por falta de recursos para pagar as mensalidades.
A outra função de João Ciganinho era a de coveiro do Cemitério São Francisco. E como era o patriarca de uma penca de filhos, entre esses havia o Tiguinho que o ajudava na abertura das covas. ----- Na área onde está à pracinha do cemitério havia uma capela usada para guardar petrechos funerários e depositar defuntos que vinham das roças em padiolas, enquanto aguardavam a confecção do caixão coberto de pano roxo, que era fabricado na oficina do Sr. Nicodemos Salviano, sob encomenda. Não havia serviço funerário em Candeias nesse tempo.
---- Certa vez, quando João
Ciganinho e seu filho Tiguinho abriam uma cova e tendo começado a chover, foram
se esconder da chuva nessa capela, momento em que caiu um raio que o matou e deixou Tiguinho desmaiado. Foi uma tragédia que abalou Candeias
nesse dia.
----Finalmente eu quero me
concentrar num participante ativo da Festa do Rosário, no terno de Moçambique. Ele
todo vestido de branco, parecia até um anjo negro. E sempre quando eu o
perguntava: Como vai Chico? Ele dizia: “Nossa tô bão dimais, tô muito filiz e
agora mió ainda purque vou ganha um cigarrinho”. Chamava-se Chico Lordino e eu
gostava de presenteá-lo com um maço de cigarros. ---- A última vez que o vi já
estava residindo na Vila Vicentina e seu estado de saúde já era precário. ---- Com
as minhas ausências de Candeias, não sei se ainda vive. Se vive, deve estar
muito decadente. Chico era um pobre feliz e carismático. Todo mundo gostava
dele. ----
Certa vez, por ocasião das barraquinhas no adro da Igreja Matriz em reconstrução, festas cuja renda era destinada as obras da igreja, Chico subiu num caixote e fez o seguinte discurso: “Gente, oia nóis pricisa ajuda o Padre juaquim (Monsenhor Castro) na fabricação da igreja. Reza impé é bão, mas sentadinho é bem mió num é? Quando nóis chega lá incima, Deus arruma um banquinho pra nóis tamém”.
Certa vez, por ocasião das barraquinhas no adro da Igreja Matriz em reconstrução, festas cuja renda era destinada as obras da igreja, Chico subiu num caixote e fez o seguinte discurso: “Gente, oia nóis pricisa ajuda o Padre juaquim (Monsenhor Castro) na fabricação da igreja. Reza impé é bão, mas sentadinho é bem mió num é? Quando nóis chega lá incima, Deus arruma um banquinho pra nóis tamém”.
A vocês, Jonas, Matias, Quebra-Galho,
João Ciganinho, Tiguinho, onde quer que estejam com certeza estão na Graça de
Deus. ----
E a você Chico eu não tenho
notícias de sua morte, se morreu estará junto deles e com certeza assentado num
banquinho dado por Deus. --- Se ainda vive estará sendo abençoado.
Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casos e Acasos.
segunda-feira, 27 de maio de 2019
UM INFELIZ NATAL.
Foto para ilustrar o texto.
Apesar de ter sido um menino pobre, eu tive uma infância muito feliz. Com relação ao Papai Noel, eu posso dizer que os natais da época em que eu acreditava na existência do bom velhinho foram os mais felizes da minha vida. Mesmo pertencendo a uma família de parcos recursos, ---- meu pai era sapateiro, antes de vir a ser Oficial de Justiça. ---- Mas a pouca renda era muito bem administrada.
Apesar de ter sido um menino pobre, eu tive uma infância muito feliz. Com relação ao Papai Noel, eu posso dizer que os natais da época em que eu acreditava na existência do bom velhinho foram os mais felizes da minha vida. Mesmo pertencendo a uma família de parcos recursos, ---- meu pai era sapateiro, antes de vir a ser Oficial de Justiça. ---- Mas a pouca renda era muito bem administrada.
Meus pais
sempre souberam remediar as coisas e foram muito carinhosos. No verdor dos
anos, tanto eu quanto os meus irmãos, tivemos muito carinho nas comemorações
natalinas. O Natal nunca foi uma festa indiferente para nós. ---- Vivemos
aquela doce ilusão de colocar os sapatos atrás da porta e, no outro dia, pela
manhã, estarmos muito felizes com os presentes recebidos. Meu pai confeccionava
os brinquedos. A cada ano, era um caminhãozinho diferente. Certa vez ele fez até uma bicicleta de madeira.
O meu
caminhãozinho, por ser eu o filho mais velho, era o maior e vinha sempre
carregado de balas e doces num saquinho com o nome de cada filho, coberto com
uma lona. Era como um caminhão que chegara de viagem trazendo os presentes.
As meninas eram presenteadas com pequenos
bonecos de papelão fabricados, naquela época, por uma fabriqueta na cidade de
Formiga e custavam baratinhos. Meu pai, que era muito criativo, sempre dava um
toque neles para ficarem diferentes. ----- Às vésperas do natal, cada um
colocava o seu sapatinho atrás da porta e no outro dia bem cedo era hora e ir
correndo para vermos os presentes. ----- A alegria era muito grande—Enquanto nós os
filhos ríamos, meus pais, não se continham na emoção e choravam.
Não me
lembro de ceia de natal nesse tempo. Cear na noite de natal foi um hábito que minha família
veio adquirir muitos anos depois. ---- Sei que, no dia de natal, éramos levados
até a Igreja Matriz para vermos o presépio e darmos as boas vindas ao Menino
Jesus e rezarmos agradecendo ao Papai Noel pelos presentes
recebidos.
O tempo
incumbiu-se de roubar esta alegria do meu coração. Não pelo fato da descoberta
da inexistência de Papai Noel. Quanto a esta questão, eu apenas fiquei triste
no dia em que soube que ele foi uma inofensiva e gostosa mentira na minha vida.
O motivo que me levou a sentir o natal
distante do meu coração aconteceu quando eu presenciei um fato que está
guardado no fundo dos meus olhos pelo resto da minha vida. De lá para cá, vi
que o natal nada mais é do que uma simples medida das diferenças humanas. Naturalmente,
trata-se muito mais de uma convenção comercial. Uma festa que nem sempre o
homenageado está presente.
Eu morava
em São Paulo e contava com os meus vinte e cinco anos de idade, quando fui
convidado por uma família amiga, a passar o natal com eles. Uma pequena família
portuguesa, formada por apenas a mãe e um filho solteirão. Dona Encarnação e o Toninho. Ele era um corretor de imóveis de pequeno porte, e eu o servia na parte da manhã, fazendo um bico como seu datilógrafo.
Esse foi o primeiro natal em que eu passei longe de Candeias e da minha família. O fato de morar fora e distante, me permitira escolher uma das datas de fim de ano para passar em casa. Assim resolvi passar o dia de Ano Novo em Candeias junto dos meus familiares.
Esse foi o primeiro natal em que eu passei longe de Candeias e da minha família. O fato de morar fora e distante, me permitira escolher uma das datas de fim de ano para passar em casa. Assim resolvi passar o dia de Ano Novo em Candeias junto dos meus familiares.
A ceia, com certeza, causaria muita inveja aos discípulos de Jesus Cristo.
Imaginei que haveria, por ali, outros convidados devido a fartura e quantidade de iguarias expostas naquela mesa. Eu nunca teria visto em minha vida uma ceia tão pomposa como aquela. Sem dúvida, haveria, naquela mesa, comida para vinte pessoas.
Subentendia-se que a velha portuguesa havia trabalhado horas e mais horas para
organizar aquela ceia.
Começamos
a comer e a velha não parava nem assentada e nem de pé.
Enquanto eu dava uma garfada nas iguarias, ela colocava alguma coisa no meu
prato e sempre dizendo: Sô Armando, coma isso --- beba isso e de quando em vez
dizia: Coma “NOZES PORTUGUÊSAS”. Então, eu não suportava a vontade de rir e me
divertia com os micos dos portugueses.
Dessa
maneira, eu me encontrava ali, meio perdido, naquele ambiente diferente do meu
meio, com a cabeça cheia de vinho português e a barriga cheia de peru, outras
carnes, castanhas, nozes e sei lá mais o quê! ---- E a velha com aquela lereia o tempo todo nos meus ouvidos: coma isso; beba isso...
O
português parecia um glutão e não era nada engraçado ver uma boca comer, falar
e beber ao mesmo tempo. A velha dissera que outros convidados iriam aparecer, entretanto, somente eu compareci. Duvidei dessa aleatoriedade e
imaginei que a ausência desses convidados poderia ser justificada pelo estilo
em recepcionar um convidado. Eu já estava enfarado diante daquele arsenal de
comida e da esganação daqueles dois.
Nos
apartamentos vizinhos, o movimento cessava. Eram facilmente ouvidos os
moradores que limpavam a sujeira de fim de festa e os restos eram jogados no
tambor de lixo, estacionado à porta do prédio.
Já de madrugada, eu estava empanturrado e já não aguentava mais nem olhar para a
mesa que ainda se encontrava, absolutamente, cheia, como se ninguém a tivesse
tocado. Despedi-me dos anfitriões, agradecendo o carinho e a consideração e sai.
À frente
do prédio, dei de cara com um quadro vivo: uma mulher remexia tal qual uma
cadela de rua, no tambor de lixo e apanhava os restos dos banquetes e dava aos
seus dois filhos, assentados à beira da calçada, o alimento lixoso que comiam
educadamente. A mãe ainda dizia: “Olha que pedaço bonito”!
Da janela
do terceiro andar, meninos riam daquele gesto infeliz. Parei, olhei e me
emocionei quando aquela mãe, em um gesto desconfiado, olhou para mim e me
perguntou: ----- “A gente pode mexê aqui, moço” ----- E eu, praticamente impotente, para respondê-la, fiz apenas um pequeno gesto com a cabeça dizendo que sim.
Fiquei
aturdido diante daquele cenário cujo proscênio, sob o clarão da ribalta,
mostrava uma ceia de natal cuja miséria humana era perspicaz. A desigualdade do
poder em se fartar numa noite em que os sinos bimbalhavam nas torres das
igrejas, da cidade engalanada comemorando o nascimento do Menino Jesus, ali,
num canto da cidade de São Paulo, eu sentia o meu coração partido, espremido e
o sumo me saindo pelos olhos.
Naquele
momento, eu perguntei aos céus: por que aquela infelicidade no meu coração e
tanta alegria nos olhos daquela mãe e de seus filhos miseráveis? E ao tentar responder a mim mesmo,
não pude obter resposta. A vida é, realmente, cheia de mistérios insondáveis!
Hoje,
quando me vem à memória de que Jesus nasceu em uma manjedoura, entre os
ruminantes, posso entender que o natal é uma festa paradoxal, principalmente se houver carne de boi ou de porco porque o primeiro recebeu Cristo e O acolheu em sua manjedoura, assistiu ao Seu nascimento e Lhe deu aconchego com o
seu bafo. ------ E o outro, por ser impuro e indigno, em uma festa oferecida a Jesus
Cristo. Portanto, eu imagino que o natal deveria ser uma festa de pobre para
pobre e que os mais aquinhoados acabaram, insensivelmente, alterando o seu real
sentido. A prova maior disso é recebermos de um judeu ou de um ateu os votos de
um “Feliz Natal”.
Eu queria
falar de um natal feliz contudo, foi esse que me veio à mente.
Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casos e Acasos.
Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casos e Acasos.
Abaixo, outras crônicas:
terça-feira, 21 de maio de 2019
O MEU PÉ DE TANGERINA.
Hoje, de manhã, verifiquei que, nesta data, estou morando neste mesmo apartamento, aqui em Juiz de Fora, há seis anos e que jamais teria morado por tão longo tempo em uma única residência a não ser na casa de meus pais. -----
Aqui eu teria completado vinte e cinco mudanças de tetos sob os quais eu tenho vivido incluindo cidades, pensões e casas, no decorrer da minha vida como bancário e algumas já depois de aposentado. Parece-me que isso me fez acostumado com a vida de cigano. --- Nessas andanças aprendi que vida é uma estrada cheia de obstáculos. Nascemos, vivemos e morremos. Somos enganados logo que chegamos ao mundo no momento em que nos colocam na boca um bico seco no sentido de nos castrar o choro.
Aprendi, também, que viver é uma arte que exige paciência, fé em Deus e tranquilidade. ---- Gosto muito de lembrar o poeta Vicente de Carvalho quando disse que a felicidade existe sim, mas nós não a alcançamos porque está sempre onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos. --- Crescemos em um mundo negativo onde a mentira impera. Os mais velhos mentem e os políticos roubam quando deveriam ser modelos sociais omitindo, assim, a condição de seres exemplares.
Chegamos à vida adulta por um caminho no qual a tristeza vai lado a lado com a alegria que é sempre menor. A Obra da Criação de Deus é perfeita, entretanto, é constituída de linhas tortas que nem sempre são respeitadas ou entendidas. Com isso, toma conta de grande parte das pessoas o sentimento de inveja, de vingança, mentira e maldade. Isso são coisas que trazemos de nossa infância.
A verdade é que vivemos enganando e iludindo a nós mesmos. Isso se deve ao fato de sermos frágeis. Nascemos sem pedir, vivemos entre a cruz e a espada e morremos contra a vontade. Obviamente, queremos ir para o céu, todavia, sem a necessidade de morrermos para isso.
O sentimento humano deveria ser trabalhado desde o dia do nascimento, todavia, não o é. Vivemos em um mundo viciado e o vício é contaminante. Os pais que deveriam ser os responsáveis, na realidade, são vítimas de um modelo social deturpado. E, com isso, somos dominados por sentimentos que retratam um sofrimento íntimo que vive corroendo o ser humano em sua grande maioria e destruindo o mundo encantado das crianças.
Em cada mudança de residência que fazemos parece que fica um pedaço da gente para trás. E nessa meditação, eu me lembro da primeira mudança que fiz na vida, quando eu contava dez anos de idade, minha família mudou-se da casa onde eu nasci na Rua Coronel João Afonso. Era uma velha casa vendida pelo meu pai, a fim de construir outra na mesma rua, porem num lote vago, na parte de baixo.
Essa mudança foi a primeira tristeza que entrou pelos meus olhos, registrou-se no meu cérebro e se acomodou no meu coração, hoje transformada em nostalgia.
Eu estava com meus dez anos de idade e ainda não tinha me deparado com a essência da vida. Naquele tempo, o céu era mais azul e as nuvens mais brancas. A velhice ainda não entendida e a morte pouco reconhecida. As minhas esperanças eram limitadas porque eu nem sabia o que esperar! ----- Eu não tinha expectativa para me formar em nada Não tinha uma televisão para me mostrar a ostentação da vida. Não tinha um rádio para ouvir uma canção que fosse alegre ou degradante. Não tinha um brinquedo de loja. O meu mundo era pobre e muito pequeno, porém, era imensamente e feliz.
E os limites deste mundo estavam no quintal da nossa casa que, em função daquela mudança, ficaria para trás. Assim, eram os meus amigos: o pé de lima da Pérsia, o pé de laranja, o pé de pêssego, o abacateiro e a minha preferida, a querida árvore na qual tantas vezes eu brinquei sob a sua sombra com o meu caminhãozinho construído pelo meu pai. Era o meu pé de tangerina pura sem mutação, hoje muito rara e que possuía frutos doces e saborosos dos quais eu nunca mais pude apreciar. A minha tangerineira era como a minha árvore de natal e os seus frutos eram os presentes vindos de Deus.
Despedi-me da minha árvore querida como um noivo que se despede da noiva ao ir para a guerra num banho de lágrimas. Assim, se não me engano, foi a primeira vez que chorei com o coração. E sempre, quando estou para me mudar de casa, ou vejo algum tipo de tangerina parecida, paira sobre minha mente, esta agressão emocional desencadeando uma dor incurável na forma de um rastro de saudade, que apesar de doída, é feliz.
"As crianças não têm passado e nem futuro; elas gozam o presente" --- Bruyère ---
"As crianças não têm passado e nem futuro; elas gozam o presente" --- Bruyère ---
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos
sábado, 11 de maio de 2019
DIA DAS MÃES
Comemora-se hoje, 12 de maio de 2019, o dia
das mães. -----Depois de 73 anos, tendo a minha tão querida mãe, hoje é o
primeiro dia das mães que ela me falta. Está fazendo 73 dias que ela partiu
chamada por Deus. ---
Sinto-me tão pobre, tão frágil, no momento em que escrevo
esta mensagem!... ----O destino é irônico, pois ela aguardava o dia de sua
morte para completar 92 anos. ----- Entre todas as datas de comemoração, nenhuma
é tão justa como esta do Dia das Mães. A mãe tem um significado de merecimento
extremo por ser a inspiradora da vida humana.
---- Eu deveria estar triste,
muito triste, e às vezes, quase sou dominado por esse sentimento, mas procuro
me controlar porque sei que Deus foi bom para comigo, deixando-me receber uma
carga tão grande de amor materno durante tantos anos. ---- Estou sim,
extremamente sensibilizado pela sua
ausência, mas entendo que ela não morreu, ela não faleceu, ela não me deixou.
Ela está aqui bem dentro do meu coração, bem presente como sempre esteve na
minha vida. Minha mãe continuará me amando e tratando-me como uma criança,
assim como fez durante 73 anos. ----
Enquanto vida eu tiver, ela estará viva,
bem viva para mim e eu estarei sempre guardando no peito a imagem querida do
mais puro e do mais verdadeiro amor, o amor de minha querida mãe, minha querida
Dona Luca, minha querida Luquinha, como assim eu brincava com ela. ----
E nesta
oportunidade eu quero, simbolicamente, oferecer a todas as mães falecidas um
cravo branco e às mães vivas um cravo vermelho, como também, homenageá-las com
a magia do soneto, Ser Mãe, do poeta Coelho Neto:
SER MÃE
Ser mãe é desdobrar, fibra por fibra
o coração! Ser mãe é
ter no alheio
lábio que suga, o
pedestal do seio,
onde a vida, o amor
cantando vibra.
Ser mãe é ser um
anjo, que se libra
Sobre um berço
dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é
ser receio,
é ser força, que os
males equilibra!
Todo o bem, que a mãe
goza, é bem do filho,
espelho, em que se
mira afortunada,
luz, que lhe põe nos
olhos novos brilho!
Ser mãe é andar
chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um
mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num
paraíso!
Coelho Neto.
O meu abraço a todas
as mães. (Armando)
terça-feira, 30 de abril de 2019
O FISCAL DA PREFEITURA DE CANDEIAS.
Um emprego difícil de executar; dos mais difíceis dos quais eu já pude observar até hoje, é o de fiscal de prefeitura do interior. ---- Aquele que se dispor a ser um funcionário dessa área terá, com toda a certeza, de ouvir muita conversa ---- ouvir desaforos e ter a paciência de Jó. ------Ser fiscal de prefeitura, em pequenas cidades, é, sem dúvida, nadar contra a correnteza, é fazer chover num veranico, é lamber os próprios cotovelos, é beliscar azulejo ou, ainda, reciclar papel higiênico.
O cidadão tem que enfrentar vereadores, secretários do prefeito, o prefeito e o pior: toda a população da cidade. Isso porque cada um está olhando somente para o seu lado e o fiscal terá que olhar o lado de todos.
Quanto menor for a cidade, maior será o número de eleitores exclusivistas. Se o eleitor faz parte daqueles que elegeram o prefeito, ele se acha com o direito a um atendimento vip. ---- Se não for integrante desse reduto, todos os envolvidos na prefeitura, passam a ser, no seu entendimento, um bando de xepeiros. E os políticos, por sua vez, não querem desagradar os seus eleitores. Afinal, eleitor é sinônimo de voto e voto vale ouro para os candidatos.
O voto pode ser também, um atestado de imoralidade tanto de quem vota como de quem é votado. Em uma cidade grande, essa febre política é mais bem administrada pelos políticos que alugam os seus cabos eleitorais.
Mas, voltando aos fiscais e remexendo em uma das gavetas de minhas lembranças, relembro um caso que houve entre o meu tio João Delminda e o fiscal da Prefeitura Municipal de Candeias na década de 50, João Alvarenga.
É de se saber que as pessoas da linhagem Alvarenga, aqui de Candeias, são pessoas, educadas, doutrinadas, pontificadas, lecionadas e gentis. E João Alvarenga era um legítimo Alvarenga: respeitoso, prestativo, atencioso, explicado e obsequioso. Parece até que teria sido escolhido a dedo para a função.
Magro, alto, pouca barba, chapéu e paletó de brim sempre tragando um cigarro de palha era visto rodando a cidade, buscando bicicletas, carroças de tração animal para serem emplacadas; chiqueiros de porcos e galinheiros fétidos; construções fora do alinhamento, todas essas eram algumas das atribuições do fiscal mais eficiente que eu conheci.
Os proprietários de bicicletas desse tempo pagavam o imposto de emplacamento. As bicicletas eram emplacadas pela prefeitura e lembro-me que o preço era Cr$ 30,00 (trinta cruzeiros) por ano, incluindo a placa que era afixada entre os raios de uma das rodas ou na ponta do para-lama traseiro. A placa continha o ano, as iniciais da P.M.C (Prefeitura Municipal de Candeiais) e o número. Tinha o formato e o tamanho de uma tampa de apagador.
Meu tio tinha uma bicicleta, entretanto, sempre fugia do João Alvarenga para não pagar o imposto. Achava que pelo fato de usar a bicicleta apenas para andar pelas roças não precisava pagar o emplacamento. Quando o fiscal descobriu que ele fugia da raia da sua fiscalização, passou a frequentar a sua selaria que existia na Rua Coronel João Afonso.
João Alvarenga chegava e, na maior educação, cumprimentava, ficava por ali um pouco aguardando o meu tio falar alguma coisa, mas como ele não falava, João Alvarenga aguardava o momento de dar o bote:
---Vamos emplacar a bichinha, hoje, Xará?
---Hoje, eu tô meio quebrado, João...
---Não tem importância não, Xará, eu passo aqui outra hora, então...
Assim, ia embora e meu tio comentava:
---Eu nunca vi um cabôco mais preguento nesse mundo. Parece que é só eu que tem bicicreta aqui nas Candeia, uai!...
Passaram-se dois dias, vinha o João Alvarenga de novo!
---Oi, Xará, como é que vai? Tem trabalhado muito?
---Que nada, João, tem poco serviço. É por isso que ainda não puis placa na bicicreta.
--- Não, Xará! Não se preocupa, não! Uma hora vai dá certo. Depois, eu passo aqui de novo.
Assim que ele saía o comentário era fatal:
----Eu num guento esse João Alvarenga! Ele é macio dimais, sô! Manso dimais. Se ele ficasse brabo, ficava mais fáci pra mim... A bicicreta é pra eu ir pescá, pra quê que eu vô impracá isso?
Passaram-se mais dois dias e lá vem o fiscal de novo e, assim, foi um punhado de vezes até que um dia:
---Olá, Xará! Bom dia! Como andam as coisas? E, hoje, nós podemos emplacar a bichinha?
---Óia, aqui, João! Vou falá uma coisa procê. Eu resorvi vendê a bicicreta e, quando eu vendê, quem comprá paga o imposto. Eu tô ficando com vergonha docê, tendo essa trabaiêra de vim aqui quais que todo dia. E, dispois, não tem me sobrado cobre pra eu te pagá. E eu quase não ando nessa bicicreta, sô! E ocê sabe, né, trinta contos, nessa pindaíba que eu tenho andado, me faz muita farta.
---Xará, isso não vai acontecer de jeito algum. Você não vai vender a bicicleta não Xara! Onde já se viu isso: um amigo meu precisar vender a bicicleta para pagar o imposto. ----- Olha, eu vou fazer uma coisa para você que eu nunca fiz para ninguém. Eu tenho visto que os seus serviços aumentaram. Então, vou emplacar a sua bicicleta e você me paga de três vezes, ou seja, Cr$ 10,00 (dez cruzeiros) por mês. Contudo, tem um problema, Xará! Eu vou ter que lhe dar uma placa que ninguém quer por causa do número.
--- E qualé o número, João?
--- É o 24, Xará...
Diante disso, meu tio enfiou a mão no bolso, pegou três notas de 10 e gritou, bem alto:
---Impraca logo essa merda dessa bicicreta, João! Impraca isso sem praca, mesmo. Só fartava agora ocê querê me infiá um número desse, tem dó, sô...
E João Alvarenga, todo vitorioso, tirou do bolso do paletó uma plaquinha e disse:
--- Veja, Xará! Eu encontrei, aqui no meu bolso, a placa de n° 32. Olha só que numerozinho, chique... Vê só que palpitão para o bicho!
---- Que mané parpitão João, eu nunca juguei no camêlo sô...
---- Que mané parpitão João, eu nunca juguei no camêlo sô...
E João alvarenga saiu dizendo:
---Agora, é só o ano que vem, Xará...
E meu tio João, com a boca totalmente fora de sintonia com a mente, disse:
---Vá com Deus!
Mas a mente, com certeza, estava dizendo: --- Vá com o diabo! E vá correndo João!
[Armando Melo de Castro.
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