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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

TOMANDO UM CLISTER



Foto apenas para ilustração

Entre os males que mais atormentam a vida das pessoas o pior deles é a doença. São tantos os tipos de moléstias que não se contam as doenças e sim os seus grupos. --- O CID: Classificação Internacional de Doença ---- Existe uma relação tão grande de doenças que muitas são totalmente desconhecidas pela maioria das pessoas. Umas são mais graves, outras menos e outras corriqueiras. Entretanto, por mais corriqueira que seja, incomoda muito. Quem nunca sentiu uma dor de dentes, não faz ideia do que seja uma dorzinha mais chata. Para certos segmentos, a dor de barriga não é uma doença. Eu entendo que a dor de barriga, ou seja, a diarreia é quase sempre um grande alívio para as pessoas que têm problemas de constipação intestinal.

 A constipação intestinal ou prisão de ventre é um mal que atormenta muitas pessoas. É sempre uma grande queixa feita aos médicos e nas farmácias. A medicina recomenda que o ideal seja uma pessoa evacuar duas vezes por dia. No entanto, existem pessoas que passam até uma semana sem ir ao banheiro. O interessante é que existem aqueles que, mesmo evacuando, normalmente, têm problemas de constipação intestinal, sendo necessário um grande esforço na hora de evacuar. ----

 Portanto, podemos entender que cada caso é um caso, tendo em vista as diversas causas desse terrível incômodo. Esse problema atinge mais as mulheres grávidas e aos idosos. Um dos principais motivos da constipação intestinal é a baixa ingestão de fibras, de pouca fruta, de verduras e de grãos, etc.

Quem sofre desse mal deverá tomar mais cuidado com a alimentação, evitando produtos que congestionam os seus intestinos. A própria pessoa vai descobrindo o que não lhe faz bem. Naturalmente, com a própria experiência diante da observação necessária.

Nos dias atuais, as coisas têm sido mais fáceis. Existem medicamentos eficazes que atendem essas necessidades. Tipos de clisteres mais modernos. Se bem que o uso constante de medicamento pode causar transtornos porque o organismo vai se acostumando com o remédio e esse passa a não fazer um efeito satisfatório. ---- Lembro-me de que antigamente eram vistos, em muitas casas em Candeias, dependurados nas paredes, um aparelho que tinha a função de resolver o problema de prisão de ventre.

O instrumento tinha o nome de Clister. Era uma coisa bem rudimentar e muitos eram até mesmo de fabricação caseira. Tratava-se de um recipiente de capacidade para uns dois litros, mais ou menos. Tinha o fundo em forma de um funil no qual era adaptada uma mangueira de um metro mais ou menos, com um bico injetor.

Preparava-se uma infusão onde eram misturadas plantas laxativas como a raiz de jalapa, azeite de mamona (óleo de rícino) e sal amargo. Fervia isso tudo, coava e colocava, ainda morno, nesse aparelho que muitos o tratavam de “chuca”. Este era posto numa posição alta, para dar queda ao líquido cujo bico era penetrado no ânus do doente colocado de bruços sendo tal ato, popularmente, chamado de lavagem.

A primeira vez que vi um instrumento desses foi pela janela de uma velha casa que existia próximo onde hoje é a clinica do Dr. Celso. A janela sempre aberta e aquela coisa dependurada na parede e eu perguntei ao meu pai o que era aquilo. Só de me contar para que servisse e como o funcionamento daquela geringonça, eu já quase sujei as calças de medo de um dia precisasse levar uma estocada daquilo no meu (...) – Seria muita humilhação para a minha reserva de dignidade.

Tempos depois, na esquina da Rua Coronel João Afonso com o Beco Belmiro Costa, onde hoje reside o Sr. Carminho Machado, existia a casa de propriedade do Sr. Quincas Guimarães. Tratava-se de um imóvel de aluguel. Durante muitos anos aquela casa teve diversos inquilinos e todos eles deixaram, em minha memória, muitas lembranças gravadas. Eu morava quase defronte e como vizinho próximo participava da vida dos moradores.

Certa vez, veio morar ali um casal de idosos, Sô Afonso e Dona Ritinha. Ele baixo, carrancudo, grosso, meio careca, barba crescida e cara fechada, pescoço curto e um sorriso contrafeito. Ela magra, cabelos curtos, rosto cheio de rugas, um óculos fundo de garrafa, sorridente, comunicativa e amiga de toda a vizinhança.

Sr. Afonso era carrancudo e tinha sérios problemas com constipação intestinal. Aliás, a cara dele já seria como identidade de alguém encalhado. Já havia tomado de tudo e nada de melhorar. O velho já tinha uns dez dias que não desocupava os intestinos. Dentro de casa não tinha banheiro. E depois, não seria fácil para uma pessoa idosa usar um penico, uma coisa realmente complicada. Alguém já imaginou uma pessoa encalhada sobre um penico? Ah! Viva a liberdade dos casais!!! Até o amor sai correndo!

Existia uma latrina nos fundos do quintal, todavia, não havia como ele ir à noite, mesmo porque, tinha uma escada na saída da porta da cozinha que, praticamente, lhe impossibilitava de sair ao quintal. Essas dificuldades, sem dúvida, foram colaborando para que fosse ficando, a cada dia, mais difícil dar alívio ao triste mal-estar.

Sabe-se que de médico e louco todo mundo tem um pouco, diz o ditado popular. Assim, não faltou quem quisesse ajudar a dar alívio ao velho. ---- Aos domingos à tarde, depois da reza, descia um grupo de mulheres carolas. Dona Ester, Dona Joana do Galdino, Dona Maria do Zico, Dona Chiquinha e outras. Ao passar à frente da casa de Dona Ritinha, que já teria puxado conversa com todas essas senhoras, ela de pé, à porta, foi questionada por Dona Chiquinha, uma velha que morava no final da rua e era muito prestativa.

---Uai, Dona Ritinha, eu num tem visto a sinhora na igreja?

 ---Ah! minha fia, o Afonso num tá me dano forga!

 ---O que qui ele arrumô?

 ---Tem uns deis dia que tá intupido!

 ---Intupido! Coitado!

 ---Eu até to isperano o Quinzinho vim pra nóis levá ele no dotore! Tem uma duda quarqué. Ele num dispacha de jeito ninhum!

 ---Ah, Dona Ritinha, a sinhora vai tê qui dá uma lavage nele!

 --Lavage! Aquele trem que tem que infiá no...?

---É aquilo mesmo. Eu tenho lá in casa. Se quisé eu impresto.

 ---Mais o Afonso é muito isquisito, é capais dele num querê!

 ---Mais aí é pirigoso ele até morrê, Dona Ritinha! Eu vô traze o “chuca”. Aí a sinhora isprementa e resorvê o probrema.Eu insino a senhora direitinho cume que faz.

No outro dia, vi quando Dona Chiquinha chegou à casa de Sô Afonso levando o tal “Chuca” e explicando, em detalhes, como usá-lo. Eu, com a minha imaginação fértil de criança, fiquei imaginando o sofrimento do velho na hora que lhe enfiassem nele aquele bico. Mais tarde, eu e meu primo Vicente, ficamos fingindo que estava brincando debaixo da janela da casa deles só para escutar o barulho.

---Tira essa merda de dentro de mim, Ritinha, eu já num aguento mais não! Tá ardeno muito e quente.

Eu não fiquei sabendo a que tipo de merda ele se referia. Contudo, não me foi difícil imaginar o que realmente aconteceu dada à inexperiência de Dona Ritinha com o “chuca”: Foi merda pra todo lado, inclusive, nela.

Hoje, quando me lembro disso eu fico imaginando, o Sr. Afonso com todo aquele seu perfil de homem sério, carrancudo, machão, de bruços levando uma estocada no (...) “Tadinho” ai que dó!

Há quem diga: Bons tempos! Bons tempos! (Eu hein!?) Bom tempo é hoje que tem outros recursos e ir a um médico ou à farmácia não é caso de morte; temos banheiro dentro de caso e o pinico foi erradicado o clister que hoje mudou chamam-no de enema tem um bico mais educado é mais bem elaborado e tem outras serventias como na safadeza e no preparo cirúrgico. De qualquer jeito... Tô fora!

Armando Melo de Castro

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

LÁGRIMAS DE SANGUE



ESTE TEXTP FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O CACHORRÃO CAGÃO!

O MAIS ANTIGO AÇOUGUE DE  CANDEIAS

 

 

      ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.

 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O HISTORIADOR DA RALÉ


O celibato clerical não é um dogma da Igreja. Ele teve a sua origem por mais de 300 anos d.C. --- A Igreja Católica justifica o celibato como uma maneira de tornar o religioso mais próximo aos propósitos de Jesus Cristo. ---- Ora, meu Deus dos Céus! Isso para mim é uma grande piada. Que sejam celibatários aqueles que assim o desejarem... Mas que respeitem aqueles que querem servir a Cristo e sejam casados, pois com certeza seriam bons pais e bons maridos. Bons filhos que poderiam seguir a carreira religiosa dos pais, como acontecem em outros seguimentos religiosos. O Celibato, só se explica, para a conservação do patrimônio físico da Igreja. A meu ver, não existem outras razões.

---Certa vez eu postei no nosso Blog Candeias MG Casos e Acasos, um comentário sobre um sermão que eu teria ouvido do Padre Fábio de Melo, em defesa do celibato, quando ele teria dito que o celibato foi feito para eles, padres, e que as pessoas deveriam se preocupar mais com as suas vidas. Eu tive a impressão de que aquele reverendo não conhecia a lei de causa e efeito. ---- E diante do meu texto, recebi por isso, de uma leitora da cidade de Santo Antônio de Pádua, do Estado do Rio de Janeiro, não apenas um simples comentário, mas um e-mail agressivo onde essa senhora defendia não só o reverendo sacerdote em tela, mas sim todo o clero católico.

Era a minha interpelante, a senhora Ana Zélia Rodrigues que me enviou um e-mail contrário ao tema do texto, como também, uma agressividade sobre a minha pessoa levando-me a entender tratar-se de alguém extremamente fanático, o que conforme dizia o famoso cearense, Padre Cícero: “O fanatismo é o mal das religiões”. --- Aquela senhora ao ler o meu pensamento sobre o celibato manifestou-se a favor da fala do padre e não se conteve a dar a sua opinião, agredindo-me, enviando-me um e-mail quando falou pouco de si, limitando-se a dizer tratar-se de uma professora de 59 anos, privilegiada com a graça de Deus e na sociedade católica onde é participante ativa. Fez ainda, questão de realçar de que se trata de uma pessoa independente financeiramente.

O interessante é ela não se limitou a dar a sua opinião apenas sobre o texto que fazia referência apenas ao celibato. Ela fez questão de insultar-me falando e babando. --- Disse que os meus textos revelam um meio obscuro, ressalvando a minha afinidade com a ralé. Disse ser Católica, Apostólica Romana e que não consegue se omitir quando alguém ousa desdenhar a sua religião. Borbulhou outras pragas dizendo que uma pessoa que não respeita os padres, está faltando com o respeito com Jesus Cristo. Chamou-me de herege, ateu, e que deveria lavar a minha boca antes de falar algo sobre a sua amada Igreja Católica e que eu seria um historiador da ralé, desse Blog Candeias MG Casos e Acasos”.

Longe de mim qualquer intenção de refutar as opiniões que possam advir dos leitores que me honram lendo o nosso Blog. É de todo patente que qualquer exposição de ideias encontrará prós e contras. Portanto, eu recebo de bom grado qualquer crítica seja ela contrária ou favorável ao meu pensamento. Isso, com certeza, é a recompensa para quem pensa algo e tem a coragem de colocá-lo sob debate. Respeito qualquer juízo de valor que venha a ser feito sobre os meus escritos que jamais me levaram a pensar em ser membro de uma academia de letras. Cumpre-me, todavia, apresentar as minhas desculpas àqueles que não concordam comigo. Pois levo em conta a reciprocidade dos direitos.

Resolvo, portanto, me dirigir à Sra. Ana Zélia Rodrigues, aqui, através deste texto do Blog numa demonstração de que não tenho nada a omitir e que a sua manifestação em nada irá alterar o que penso.

Prezada Dona Ana Zélia Rodrigues:

Confesso-lhe que estou lhe abrindo uma exceção considerando que esse comportamento, sob a minha óptica, não se trata de uma atitude elegante, principalmente, relativa a pessoas com as quais não conheço e não convivo pessoalmente. ---- Pena que falou muito pouco de si. O seu intento foi realmente me censurar e condenar o meu texto. De si limitou-se a dizer muito pouco. O seu maior interesse foi desnudar a minha pessoa em defesa da sua ideologia religiosa a meu ver totalmente desencontrada. --- Pois bem! Na verdade, eu gostaria de conhecê-la melhor para que, assim, pudéssemos discutir o assunto de uma forma mais abrangente. Todavia, eu tenho uma grande certeza Dona Ana Zélia, é que estará enganada a meu respeito. Isso porque eu tenho sim uma religião, a mesma sua, só que não sou praticante e nem congrego. Não participo dos rituais religiosos, porque não sinto necessidade disso. Estou muito feliz, pois sinto que o Divino Espírito Santo reside em minha casa.

A maneira com que se referiu a minha pessoa foi como uma sentença oriunda do tribunal da sua consciência. Todavia, a senhora pode estar enganada. Aliás, eu tenho a certeza que está enganada. Mas, eu também tenho uma consciência que comporta um juízo e que, neste momento, me absolve, senão vejamos:

A senhora diz que sou um herege e que não tenho religião. Pois bem, quem me conhece sabe que eu não sou um herege e tenho uma religião onde fui batizado, crismado e representado catolicamente pela fé dos meus pais. Fui um assíduo congregado, mas o tempo me mostrou com decepções e contradições o meu desânimo religioso. Mas jamais abateu a minha fé celestial. Jamais duvidei da existência de Deus, de Jesus Cristo e a Mãe Maria. Conclui que a minha igreja está dentro de mim ou de um quarto de portas fechadas, como Cristo nos orientou no capítulo 6 de Mateus.

Eu acho que servir a Deus, não é amar os padres e nem pastores. Não são as religiões. Eu entendo que a senhora, pratica uma heresia maior do que a que me julga. O meu comentário se reduzia à minha opinião simplesmente sobre o celibato. Mas a senhora abriu um cenário muito maior na ânsia de defender o que não conhece bem.

O meu comentário se reduz a minha opinião sobre o celibato. O celibato clerical não é um dogma da igreja e a meu ver serve apenas para ocultar uma vergonha nos armários da igreja, vergonha que pode ser tratada de um homossexualismo deturpado, pecaminoso e vergonhoso. Muitos padres escondem-se dentro de suas batinas as suas tendências nem sempre religiosas. Sou contra, e isso é a minha opinião. Quem não concordar comigo, o problema não é meu. Eu não acho que os padres estão errados com relação ao celibato. A Igreja Católica sim, ela é que está errada a meu ver.

--- Eu tenho admiração por diversos padres. Nunca generalizei a coisa. Temos por exemplo, o Padre Zezinho, o Padre Antônio Maria e outros que mostram um verdadeiro trabalho de amor ao próximo. Mas não vamos negar que existem os pedófilos e os ladrões de dízimo e ofertas; e aqueles que vendem a sua voz por um alto preço.
A senhora me chama de historiador da ralé, de herege e ateu. Garanto para a senhora que eu não sou nada disso, senão vejamos:

Sendo uma professora está um tanto por fora do dicionário. A heresia significa ofensa, falta de respeito, a uma religião. Em momento algum eu desrespeitei os dogmas da Igreja apesar de não concordar com alguma coisa. Parece que a senhora pensa que o celibato é um dogma e não é. Chamou-me de ateu... Sem me conhecer... Será que esse comportamento justifica a Igreja Católica? O tratamento que recebo da senhora, seria aprovado pelos padres?

Historiador da Ralé! Essa ralé é explorada por diversos pastores e padres, que vivem no rádio e na televisão espalhados por toda a mídia sensacionalista como em seus altares nos seus sermões tendenciosos. A boa expressão é que usam as religiões para achacar os pobres ignorantes e humildes, criando mitos, purgatórios e causando transtornos emocionais aos que temem ao diabo e o inferno. --- O meu Deus está dentro de mim e não na boca daqueles que usam um canal de televisão ou os seus altares para fazer o mal orientado de idiota. Eu respeito a todas as religiões, desde que ela propague apenas o mundo celestial. Para mim minha ilustre senhora, heresia é se opor aos dogmas da igreja, mas insistir em seguir fielmente uma regra contra Deus, impedindo um homem de ser pai, pode, também, ser chamado de heresia. ----- Aquele que realmente ama o Filho do Carpinteiro não faz discriminação dentro de uma sociedade hipócrita. Jesus foi assediado pelos pobres que a senhora denomina de ralé. Contudo, Ele tratou toda essa gente com extrema dignidade. Ele, que nasceu pobre, veio, igualmente, para os ricos que o perseguiam desde o seu nascimento.

Sou contra o Celibato sim porque entendo que é um direito de qualquer ser humano acordar e discordar de algo. Devemos ter as nossas opiniões, as nossas ideias. Eu sou contra o celibato porque ele esconde crimes sexuais, esconde pecadores e afronta a Igreja de Cristo. Eu sou contra o celibato porque ele bate de frente com os princípios da própria Igreja que vive condenando os métodos contraceptivos e usa de uma forma muito mais agressiva ao princípio humano.

A responsabilidade de uma família é tão difícil que privar um homem de constituí-la é conceder-lhe um grande prêmio ou isentá-lo de um ônus importante para Deus. Ter filhos é viver carregado de obrigações, cercado de responsabilidades e sofrendo de cuidados. Não os ter é viver dentro de si, livre de preocupações, todo sossegado, a cabeça descansada e descomprometido com o sofrimento próprio do ser humano.

A política interna no catolicismo sobre o celibato é demagoga. Ela visa outros interesses além da evangelização. Pessoas sem nenhuma vocação sacerdotal ocupam espaço na Igreja Católica para se esconder da sua homossexualidade incubada. A cada dia que passa os problemas de pedofilia aumentam e essa história de padre não se casar para ficar à disposição da evangelização é pura balela.

-- A senhora diz que eu sou uma pessoa sem religião. Não. Não me considero sem religião. Sou cristão e qualquer igreja cristã me serve desde que não seja administrada por mercenários. Eu apenas não sigo as diretrizes de padres e pastores que não merecem a minha confiança. Todavia, acredito na existência e na exigência de bons religiosos que cumprem com louvor os ensinamentos de Jesus Cristo.
Sou adepto incontestável de Jesus Cristo e grande admirador da Obra da Criação. Venero um Deus que é Onipotente, Onisciente, Onipresente, Justo e Bom. Talvez, por uma ironia, deste contato, sou adepto fervoroso, há 74 anos, de Santo Antônio de Pádua desde quando integrei essa irmandade com apenas um ano de idade. Observei pela sua mensagem que se faz tratar-se de uma pessoa rica, materialista, seguidora de uma religião não por convicção, mas, por vaidade. Contudo, sem retratar a filosofia maior do mestre dessa Igreja, Jesus Cristo. --- Pode ser que a senhora traga apenso ao seu pescoço um crucifixo, entretanto, poderia estar trazendo, ao invés da cruz, um pequeno revólver ou uma forca em sua corrente de ouro. Infelizmente, suponho que a cruz não lhe seja o símbolo maior da cristandade e quanto ao seu coração, me parece estar vazio.

Dirijo-lhe algumas perguntas para finalizar minha resposta que não a faço como contestação, mas sim por uma exigência sua. Portanto, pergunte a sua consciência e essa, com certeza, fará a devida resposta se tenho ou não religião:

A senhora já deu banho, em uma pessoa idosa, abandonada pela família, esquecida em um quartinho de fundo de quintal, envolvida nas suas fezes causando extremo nojo em seus próprios filhos?

Eu já fiz isso Dona Ana Zélia e lhe confesso que não foi fácil. É preciso ter muito amor ao próximo. É necessário ter uma religião, não de padres e nem de pastores, mas, uma religião na qual o Cristo esteja no coração.

A senhora pegou um leproso acidentado e o colocou dentro de seu carro e para vê-lo atendido em um hospital foi preciso brigar, ameaçar e quase apanhar? E ainda ter que pagar do próprio bolso pelo tratamento precário que deram ao infeliz acidentado.

Eu já fiz e o faria de novo porque acredito que na Obra da Criação de Deus todos nós somos um prestador de serviço e se coube a mim esta tarefa, eu não fiz nada mais do que a minha obrigação.

A senhora já deu banho em algum defunto?

Eu já. Como membro da Sociedade de São Vicente de Paula, eu fiz isso por diversas vezes.

A senhora já salvou alguma vida?

Eu já. Existem três pessoas que se lembram de mim em todos os natais há mais de quinze anos, por lhes ter salvado a vida, quando acidentados, se esvaindo em sangue, enquanto todo mundo passava e não parava. Eu os socorri e, posteriormente, tive que lavar o meu carro com água de sal para tirar o forte cheiro de sangue. Eram pessoas desconhecidas e distantes do meu meio. Lembro-me que ainda tive que prestar contas à justiça por esse feito.

A senhora já perdeu algum parente acidentalmente?

Eu já. Perdi a minha primeira esposa, aos 37 anos de idade, em um violento acidente de carro, quando eu dirigia corretamente. Perdi, também, uma filha, de maneira trágica, ainda muito jovem, quando se suicidou vítima de uma depressão profunda e cruel. Foi, assim, diante de todo esse sofrimento que aprendi que Deus não estava nas igrejas e sim dentro de mim.

A senhora já adotou um afilhado mendigo?

Eu sempre, em todas as cidades em que morei eu adotei um mendigo, para visita-lo no dia do seu aniversário e no natal, quando levo-lhe um presentinho, e algo com referência ao dia.

O Santo padroeiro de sua cidade é Santo Antônio de Pádua.

A senhora, por acaso, sabe que em todas as primeiras terças feiras do mês, os irmãos de Santo Antônio, o seu padroeiro, distribuem pães em seu nome? Eu faço isso e jamais esquecerei. Faço desde quando comecei a trabalhar ainda com poucos anos de idade. Eu sou da sua irmandade desde 1 ano de vida.

Eu teria mais o que falar, dona Ana Zélia. Todavia, acredito que quando se dá com uma mão, deve se esconder a outra. Assim disse o Mestre.

Obrigado, Dona Ana Zélia Rodrigues. Valeu muito. Continue lendo as minhas historinhas. A ralé tem coisas interessantes. Umas tristes; outras bobas; algumas alegres. Porém, são histórias humanas e verdadeiras. Ah! Não se esqueça jamais que Jesus disse:

“Nem todo aquele que me diz “Senhor! Senhor!”, entrará no Reino do Céu”. Mateus 7.21

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos
NB) Este texto não está sendo postado no Grupo Sou de Candeias com muito orgulho, devido o tema fugir as regras do Grupo.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UM PECADO CORRIQUEIRO



  ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NO MEIO DOS POBRES.

                                         
                                                     JARDINEIRA CHEVROLET 1954

 Por volta do ano de 1962, eu fui cobrador de uma jardineira que fazia a linha Candeias / Oliveira. O veículo era da marca Chevrolet, de fabricação estrangeira, do ano de 1954, e já se encontrava ultrapassado e vencido pelo tempo. Teria sido colocado a correr naquela linha em condições precárias, cheio de problemas, mesmo porque, não havia a fiscalização governamental como existe nos dias de hoje. O motorista era o Jésus Teixeira,  irmão da Luzia do vico.
Trazíamos, no seu interior, um cacho de banana verde para esfregar nos buracos do radiador a fim de evitar o vazamento de água. Levávamos, também, uma lata vazia, sendo que era necessário parar, em quase todos os córregos do itinerário, para completar a água do radiador. ------ Essas duas coisas ficavam expostas ao lado do motorista. Não tinha como esconder isso dos passageiros. O veículo possuía apenas um pequeno porta-malas sobre o seu teto. Ali ficava amarrada uma enxada encavada para os atoleiros nos dias de chuva, junto a bagarem dos passageiros.
A jardineira era uma fotografia em preto e branco, da pobreza e do desleixo. Aliás, naquele tempo, a pobreza rondava Candeias em quase todos os sentidos. Suponho que os pobres de hoje tenham uma vida muito mais confortável do que os ricos daquele tempo.

A lotação era de apenas 25 passageiros. Saía do seu ponto às seis horas da manhã, na Avenida 17 de Dezembro, da porta do antigo Bar Rodoviário de propriedade do Sr. Raimundo do Antero, estabelecido numa velha casa que existia onde atualmente há um lote vago nas imediações do Cartório da Marília Viglioni.

Do seu ponto inicial, subia pelo Alto do Cruzeiro e tomava a estrada de chão passando pela fazenda do Sr. João Pinto de Miranda, na comunidade do Retiro, na Cidade de São Francisco de Paula (Naquele tempo era distrito) e, finalmente, Oliveira.

Até São Francisco de Paula eram poucos os passageiros. Dali para frente, a velha jardineira ia lotada e apertada tal qual uma lata de sardinha. Por ser, ainda, um distrito, a população de São Francisco dependia muito da presença em Oliveira. Havia dias que o veículo de 25 passageiros transportava nada menos de 40 pessoas o que causava um tremendo desconforto entre todos os passageiros. ----- Era uma situação difícil: se existissem 100 passageiros, todos queriam viajar assim mesmo. Todos num só momento, com um só pensamento diante de uma aleatoriedade sobre direitos, capacidade de lotação, necessidade de viajar e mais um monte de motivos, principalmente, em dias de chuva.

A volta era o mesmo transtorno. Portanto, a viagem de Candeias a São Francisco de Paula era tranquila e vice e versa. De Candeias a Oliveira quase não apareciam viajantes. Dificilmente, aparecia um.

Juca da Virgínia era um cidadão muito requintado. Descendente de duas famílias íntegras e tradicionais da sociedade candeense: Alves e Alvarenga. Era um homem bem informado e falava ao pé da letra. Naquele tempo, era o único leitor, em Candeias, da Revista: “O Cruzeiro” e do Jornal “O Correio da Manhã”, dois dos mais conceituados veículos de comunicação do Brasil. Juca era, portanto, muito esclarecido, bem falante e bem afeiçoado. Enfim, uma pessoa interessante e extremamente vaidosa.

Certo dia Juca aparece para viajar de Candeias para Oliveira. Estava todo banhado, cheiroso, bem vestido e satisfeito por estar indo fazer um passeio à casa de amigos na cidade vizinha. Ao vê-lo, o motorista já cochichou nos meus ouvidos: “Hoje tem”. 

Notava-se, durante a viagem, o mal-estar do Sr. Juca dada à poeira da estrada penetrando dentro da jardineira e criando um ambiente bastante desagradável. Contudo, Juca não poderia imaginar o que o esperaria  lá em São Francisco de Paula.

Era chegada a hora, naquela cidade, da superlotação. Veio tomar assento, junto ao Juca, em uma poltrona sem divisória, uma senhora gorda, que mal caberia sozinha na poltrona, deixando-o duplamente desconfortável. ------ A situação era muito difícil que eu, apesar de ser, então, bem magro, não tinha como me locomover dentro do carro para cobrar as passagens e para isso era preciso, sempre, parar a jardineira antes da chegada à cidade de Oliveira para acertar com os passageiros. Mesmo porque, o percurso de São Francisco de Paula a Oliveira é de apenas 17quilômetros.

Nesse dia, aconteceu um fato inusitado. A passageira assentada ao lado do Juca, em pleno estado de necessidade, soltou os intestinos causando um tremendo desconforto a todos os passageiros e, principalmente, ao seu colega de poltrona que já vinha horrorizado com a viagem.

A situação daquela senhora foi  triste e difícil até de descrevê-la dado o excesso dos dejetos lançados. Ao vê-la descer do carro, logo na entrada da cidade, os passageiros sentiram um misto de nojo e pena daquela pobre mulher tão humilhada diante daquelas circunstâncias.

Pouco à frente, nas proximidades da fábrica de balas Santa Rita, todos os passageiros desceram, exceto o Sr. Juca que terminaria a sua viagem na Rodoviária que já se encontrava próxima. Descendo da lotação, postou-se com um ar de revolta, com nojo, cheirando as suas vestes, protegendo o nariz com um lenço branco quando trajava um belo terno de casimira azul e fazendo, finalmente, o seu pequeno discurso para o qual não lhe faltava o dom da eloquência:

---Olhem, meus amigos Jésus e Armando: Jamais me verão, de novo, dentro dessa jardineira de vocês! Não existe cruz maior do que viajar dentro de um veículo tão desconfortável, empoeirado e em meio a passageiros sem requintes de higiene. ----- Parece-me que fui premiado nesta viagem desastrosa. Isso para mim é um espírito malfazejo colocando-me como colega de viagem junto a uma senhora sem válvulas intestinais, defecando-se ao meu lado o tempo todo. Estou, simplesmente, horrorizado. Esse cheiro fétido não sairá fácil do meu nariz. Viva eu cem anos, lembrarei sempre dessa viagem. Voltarei para Candeias por outro meio. Talvez a pé, mas, longe de vocês. Desculpem-me a franqueza!

Eu, um garotão ingênuo, não sabia o que significava aquelas palavras tão diferentes, até então estranhas do meu vocabulário. Pedi ajuda ao motorista Jesus. Lembro-me de que quando me foi traduzido “defecar e fétido” eu ri como um bobo alegre. Afinal, eu acabara de aprender um jeito chique de falar “cagar fedendo”.

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O PEQUI E O VIAGRA





Certa vez eu vinha da cidade de Formiga para Candeias, quando vi parado, àbeira da estrada, um micro ônibus cujo motorista me fez um sinal  para parar. Como havia mulheres e crianças ao redor do veículo, resolvi parar imaginando que estariam precisando de algum socorro. ----- Logo, tomei conhecimento de ser o veículo da cidade do Rio de Janeiro e sua lotação era de uma irmandade crente, em uma excursão pelo interior de Minas (suponho que estavam indo prestigiar um casamento gay em algum lugar). Eram todos cariocas, pois pareciam ter um “x” na ponta da língua que chiava mais do que bico de chaleira.

A primeira a me abordar foi uma mulher morena, estatura mediana e cabelos pintados de roxo. Parecia estar coberta com um jaleco comprido cor-de-rosa. Braços e pescoço, excessivamente, ornamentados, com brincos argolados e um sorriso agradável. Enfim, a ex-donzela tinha uma estampa genuína de perua. Bem diferente do padrão dos crentes daqui das nossas bandas. Veio com um punhado de pequi nas mãos e me perguntou: -------

---Moço, essasx frutinhasx são osx famososx pequisxx? 

Apesar de saber que o tratamento de moço seria uma força de expressão, respondi, contentemente, como um velho rejuvenescido:

---Sim! Isso aí é o pequi, sim! E ibrugado pelo "MOÇO"

Pensei, cá comigo: Que gente frouxa. Parar um carro para saber se isso é pequi. Todavia, como já que eu havia parado, resolvi ser um mineiro hospitaleiro e dar asas à curiosidade daquela gente. Tornei-me, portanto, voluntariamente, em um guia turístico.

Verifiquei que aquela confraria de crentes cariocas não conhecia o pequi e estava próximo de uma grande árvore carregada da fruta. Todavia, diante de uma incógnita, pois conheciam a fruta apenas pelo nome. Alguns já teriam consultado a internet. Afinal, estavam bastante curiosos sobre como consumir aquele produto do cerrado que vem sendo tão difundido nos últimos tempos e que muito se comenta sobre os espinhos de sua castanha.

A faixa etária do grupo variava de dez a cinquenta anos. Cada qual mais curioso. Um queria saber como fazer licor, entretanto, foi logo contestado por um irmão mais conservador que lhe disse: 

---“Crente não bebe álcool e licor tem isso”. 

Já queriam saber como fazer pequi com arroz, com galinha, com isso e com aquilo. Queriam saber, também, como se livrar dos espinhos. Acho até que eles pensaram que eu era algum mestre cuca do pequi, haja vista me perguntarem como fazer o doce de pequi, no que respondi: "Doce de pequi eu nunca comi. Se existe eu não conheço."

Da janela do ônibus, uma mulher de uns cinquenta anos, mais ou menos, apenas ouvia as conversas e não falava nada. Entretanto, quando eu fui saindo, ela resolve fazer a última pergunta:

---Olha, aqui, meu senhor! Essa frutinha é, realmente, afrodisíaca como dizem? Falaram para o meu marido que é melhor que viagra! Será verdade? Se for, eu vou voltar para o Rio levando um saco para o meu marido."

A turma caiu toda na risada. Afinal, carioca é um povo muito bem humorado.
Foi quando eu pensei cá comigo: Já começou a avacalhação... A resposta poderia me comprometer. Supondo uma maliciosa intenção para a pergunta, já fui respondendo: 

--- Dizem que é, mas isso eu não sei. Inclusive, por aqui, os meses que mais nascem crianças são setembro e outubro, ou seja, nove meses após a safra do pequi. Mas, isso pode ser lenda.

Dois gays comiam uma maçã encostados no ônibus, em silêncio, e apenas observando o movimento. Não estavam nem aí para o assunto de pequi. Assim que eu respondi a pergunta da mulher, eles riram e, com ar de gozação, vieram para cima de mim a fim de tirar um sarro e comentaram:

---Nossa! Que exagero! Então, é por isso que mineiro tem a cara de pequi, assim, meio amarelaaaaaaada???

Aí, eu mandei a minha resposta com voz forte e severa:

---Não, seu moço! Nós, em Minas, temos cara é de cobra para quem não tem medo de picadura! E fui saindo, quando um deles exclamou:
---Nossa! não fale ssim comigo senão eu gamo! Que mineiro violento!

---Ai! Afrodisíaco para mim é esse sotaque de mineiro! Ai, Ai, Minasxx Geraisxx. Meus Deusx, isso aqui é uma locuuuura!

Dessa maneira, aquela bulha de crentes ficou rindo e se divertindo às minhas custas; e olha que eram crentes, hein! Imagine se fossem favelados

Armando Melo de Castro
Candeiasmg casos e acasos

sábado, 7 de janeiro de 2012

MORTO E SAFADO



O velório, apesar de ainda existir, vem, aos poucos, deixando de ser na residência do morto. Hoje, a exemplo das grandes cidades, existem os locais destinados a esses rituais, onde o finado é velado em um ambiente apropriado em que os veladores possam estar mais confortados para passar uma noite junto ao defunto.

Aqui, em Candeias, era comum o velório ser na própria residência. Quanto mais estimado fosse o falecido, maior dificuldade enfrentava a família para dar acesso aos amigos visitantes.

Atualmente, com o advento das funerárias nas pequenas cidades tendo instalações apropriadas, as coisas estão melhoradas. Inclusive, já se falam em velório virtual, pela internet, quando parentes podem acompanhar a cerimônia à distância, através da instalação de câmeras no local do funeral.

Quando essas inumações eram preparadas nas residências, dava-se um banho no defunto e lhe colocava a melhor roupa, normalmente, que era poupada para esse momento. No homem, comumente, vestia-se um terno com gravata e na mulher costumava-se preparar uma mortalha. Quase toda pessoa tinha uma muda de roupa usada apenas para ir à missa e ser enterrada. Às vezes, acontecia do morto ou a morta ficar meio exprimido dentro da roupa, talvez, por ter engordado ou inchado com a morte. Nesse caso, abriam-se, por detrás, as vestes que serviam de mortalha. Sempre se dava um jeitinho. Não havia flores sobre o defunto. As flores de velório eram apenas duas jarras que ficavam próximas aos castiçais na cabeceira do finado. Muitos enterravam os seus mortos com sapatos e roupas novas e eram comuns as histórias de cadáveres assaltados pelos coveiros. Esses lhes roubavam as roupas, os calçados e a dentadura com dentes de ouro. Isso pode parecer absurdo, contudo, era a pura verdade, principalmente, nas grandes cidades.

Nos tempos em que Candeias não tinha uma funerária, eu auxiliei, por muitas vezes, o Alvino Ferreira, nessas tarefas de preparar defuntos para as quais ele se oferecia. Éramos voluntários da Vila Vicentina. Os caixões eram simples e resumidos em um engradamento coberto com pano roxo e noventa por cento das pessoas eram enterradas no chão. Havia gente que ficava impressionada com a fragilidade do caixão e imaginando o momento em que a terra batesse em cima daquilo! Coisas de pessoas de mente fértil com relação à morte.

Havia grande diferença entre um velório de pobre e um velório de rico. O rico, normalmente, tinha um banheiro dentro de casa, uma sala ampla e se dava um café reforçado para os presentes, sucos, refrigerantes, etc. Na saída do enterro, era a hora de fechar o caixão, os enlutados colocavam óculos escuros para esconder as lágrimas e choravam em silêncio. As providências, obviamente, eram tomadas por familiares.

Já o velório de pobre era diferente. A casa nem sempre cabia todo mundo. Fazia-se uma fogueira no terreiro e providenciava um garrafão de pinga quando a vizinhança se incumbia do tira-gosto. A noite varava e, quase sempre, alguém ficava embriagado. As pessoas ficavam contando piadas e rindo. No local onde estava exposto o morto, cada qual comentava os seus problemas. De hora em hora, era rezado um terço e, na maioria das vezes, comentava-se, entre os participantes, o estado degenerativo do falecido. Alguns chegavam a beirar o caixão e observar se havia algo de errado, se o cheiro do defunto estava normal. Isso porque não existiam os cuidados existentes nos dias atuais. Ali, todo mundo dava palpite e a casa do morto virava uma "casa da sogra". Na hora de fechar o caixão, a gente via de tudo: gente desmaiando, outros não querendo deixar fechá-lo e havia quem aos gritos dizia: ---“Num vai, não, meu pai!” ou “Num vai, não, minha mãe!” --- Meu Deus! O que será de mim com essa fiarada!? O quê qui o sinhor fez cumigo, meu Deus do Céu!? Outros já berravam em cima do caixão: Eu quero morrer, tamém! Exclamações das mais variadas e não só choravam os familiares como, também, os vizinhos e os parentes diante de tamanho drama. Todavia, hoje as coisas estão modificadas para melhor.
Certa vez, trouxeram, das bandas dos Vieiras, um homem para ser enterrado. Veio trazido, em uma padiola, tipo de uma escada rústica. Teria sido emprestada à família do morto, uma casa que ficava no quarteirão da minha residência, na Rua José Furtado. A casa era de roceiros que a usava apenas nas ocasiões de festas. Era uma casa velha com uma pequena sala onde o morto foi depositado. O enterro foi marcado para o dia seguinte, às 8 horas da manhã. Não se fazia enterro à noite e, durante o dia, as providências não foram suficientes para que o sepultamento se desse antes.
A vizinhança se mobilizou para o velório. Dona Ester já deu as suas voltas convocando a confraria. Ela e Maria da Sinhana já se apresentaram como puxadoras do terço. Maria do Ônor buscou flores entre os vizinhos e Alvino Ferreira estava pronto para dar banho e fazer a barba, etc. A confraria do bairro se fazia presente, cada um querendo prestar algum tipo de serviço. Naturalmente, todos tinham débitos com Deus e não queriam perder a oportunidade de fazer um resgate.

Minha família morava ali perto e eu acompanhei o meu pai pela noite inteira, nesse cumprimento do dever com a divindade. Aliás, eu acho que aprendi a beber cachaça foi em velórios. Meu pai sempre me permitia um golinho para tirar a friagem.
Lá pelas tantas, para um cavalo à porta da casa, apeia dele uma mulher magra, cabelos compridos e lisos, mal vestida e feia, com uma lanterna na mão, sem cumprimentar ninguém, iluminou a cara do defunto e já começou com o seu discurso de bêbada:

--- Pois é, seu safado! Cê morreu de repente pra me dexá na mão. Agora, quem vai tratá de mim? Isso era hora docê imbora pus inferno? Pois é, seu cachorro! Eu te dei por mais de dez ano e ocê acabou num me dano nada. Safado, cê só quiria o bem bão. Só quiria cumê a fruta! Na hora de apruveitá de mim ocê apruveitô de todo jeito. Agora tá aí todo gostosão, parece até qui lá vai pruma festa. Seu trem! Trem ruim. Agora, nem Deus vai querê me ajudá!

Nesse momento, entra em cena a dona do defunto, ou seja, a viúva:

---O quê que é isso? Onde já se viu isso? Ocê tá doida? O que ocê tá falano, Cumá Mariquinha? O Joaquim andava co'cê? Eu num acridito, num pode ser, meu Deus! Acho que eu morri e tô no inferno. Num pode! Isso num pode. Ocê andava com ele, Cumá Mariquinha!?
E a outra respondeu:
---Não Cumá Tiana, ele qui andava cumigo. Ele qui vivia inrrabichado ni mim e tem mais: se ocê qué sabe, meus dois minino é fio dele.

Logo, saiu resmungando, montou novamente no cavalo e saiu.
Nesse instante, a viúva olhou para o caixão e disse:

---“Era ela a sua canseira, né, disgraçado! Ah! Se ocê num tivesse murrido! Ocê ia chegá no inferno era vivo, mardito”.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A ROLA DO ESTEVÃO


Descendo a Avenida Alvino Ferreira, indo para o Alto da Igrejinha, no Bairro Jaci, encontrava-se a Chácara do Porfirio. Entre os filhos do Porfirio, havia a Benedita, portanto, Benedita do Porfirio, sua filha mais nova.

 Moça beata, balzaquiana, contando os seus trinta e cinco anos, branca, bem branca, fala mole, cabelos ondulados, dentes amontoados, fanhosa, buço compatível com bigode masculino e uma barriga tipo pera; coisa de quem não se preocupa com dietas para emagrecer. Se no mundo existem pessoas sistemáticas, eu posso garantir que nunca vi, em toda a minha vida, alguém mais ranheta.

Por ser a caçula, viu morrer a família toda. Não tinha mais os seus pais e nem irmãos e seus sobrinhos não a toleravam dado ao seu temperamento sistemático, esquisito e maníaco. ---- Não conseguia empregar-se em virtude da sua morosidade para executar qualquer tarefa. Na cidade já conhecida e muitos já sabiam da sua incondicionalidade de assumir um emprego. Vivia de “deu-em-deu”, morando de favor nas casas dos outros em troca de cama e comida pelos seus parcos serviços domésticos. 

Demorava mais de duas horas para lavar a louça após uma refeição. Levantava-se após as oito ou nove horas da manhã e não tinha pressa para nada. Quando entrava no banheiro, este se tornava seu monopólio. -------- Se por ventura, estivesse à sombra de um telhado prestes a desabar, talvez, o esperasse cair para sair correndo. Saindo para ir a algum lugar, o tempo não era o seu problema, mesmo porque, Benedita detestava relógios.

Descuidada em demasia. Copos, xícaras e pratos viviam caindo de suas mãos. Sua lentidão era, então, atribuída a tudo: trabalhar, falar, andar, comer, pensar, enfim: até para tomar um copo de água, Benedita era lenta. O tipo que para morrer de repente pediria prazo.

Era preciso ter paciência demasiada para tolerar a lentidão da moça. Portanto, não conseguia emprego, pois a sua morosidade espantava qualquer dona de casa interessada e tinha mais: Qualquer coisinha poderia ser tomada por ofensa. Era como se dizem: espinhada, desconfiada e danada para entender as coisas de forma errada.

Jamais teria tocado em um homem. Não tinha nenhuma história nesse sentido. Tudo era pecado, tudo era banal e tudo era coisa do diabo. Em determinadas horas, estava de posse de uma agulha e linha, trabalhando um pano de crochê que jamais alguém o vira terminado.

Quando estava sem onde morar, pedia alguém, pousada por alguns dias até arrumar um local para ficar. Daí, ela se acomodava e não saía deixando a família hospedeira numa situação, às vezes, difícil e constrangedora pela dificuldade de ver-se livre dela. Convidada a sair, o fazia protestando, xingando e rogando pragas àqueles que teriam lhe ajudado. Era, portanto, Benedita do Porfírio, uma pessoa muito complicada.

Certa vez, viu-se, completamente, sem alento. Teria ficado já em diversas casas em suas condições costumeiras e já não lhe estava fácil arrumar onde ficar. Toda casa na qual ficara, saiu inimiga das pessoas e falando mal.

A Vila Vicentina não lhe aceitava por ser, ainda, uma mulher jovem e que poderia cuidar do seu sustento. Todavia, no fundo, Benedita gostava mesmo era de morar de graça e não ter um compromisso efetivo com o trabalho.

Nesse momento de sua vida, procurou a nossa casa. Pediu a minha mãe pousada por apenas uma semana, quando já teria arrumado onde ficar definitivamente a partir da próxima semana. ------ Minha mãe, apesar da falta de condições de então, mas tendo em vista o curto tempo previsto e envolvida no seu espírito caritativo, concedeu-lhe abrigo, apesar de nossa casa não ter quarto de hospede e ser de pouco espaço. Reservou-lhe um canto da sala onde pudesse colocar um colchão e a alimentação naquela filosofia de pobre: “panela que come cinco, come seis”.

Entretanto, ela não saiu no tempo prometido. O lugar onde ela teria dito que arrumara era simplesmente conjectura que furou no lavrado. --- E com isso ela foi se acomodando, sem nenhuma previsão de sair, tomando a liberdade da casa, porque não levantava cedo e às vezes, chegava alguém em nossa casa e não tínhamos como receber na sala. Aquilo que seria por uma semana já acumulava três meses.

Diante disso, a situação foi se tornando insuportável. Um simples favor que não prometia tranquilidade, pois a moça não tinha ninguém por ela e sendo uma pessoa completamente despreparada para o trabalho, poderia cair sobre a minha mãe a responsabilidade sobre ela. E isso começou a causar muita preocupação. Até que minha mãe abriu o verbo: “Olha Benedita não tenho mais condições de ajudar você, portanto, você vai ter que arrumar com urgência outro lugar para ficar. A minha casa não está preparada para receber um hóspede por tanto tempo.”.

Ela respondeu mal, dizendo que tinha trabalhado em troca dos favores. Isso foi motivo de riso, porque ela num único dia que foi lavar a louça quebrou um prato e um copo. Motivo pelo qual minha mãe não a deixou por mais a mão em nada. A única coisa que ela fez durante os três meses foi bordar um pequeno forro de mesa.


Até que, enfim, ela saiu. Pegou as suas roupas e se foi. Voltando-se quinze dias depois para buscar uma peça de roupa que havia deixado esquecida.

Após chegar, com uma cara de poucos amigos, disse para a minha mãe que teria arrumado um lugar muito melhor que a nossa casa onde supunha que ninguém a dispensaria, assim, numa forma indireta de se fazer entender. Quando minha mãe, na maior das inocências, lhe diz:

---A Maria do Dondico me disse que viu você entrar na Rola do Estevão.

Ao ouvir essa frase, Benedita virou uma serpente e ninguém nunca havia lhe visto falar tão alto, parecia que havia perdido o fanho sendo clara e agressiva: Falava, abanava e, por pouco, não agrediu a minha mãe:

---"Eu não entrei na rola de ninguém não sua égua. ---Eu sou uma moça de boa família. Sou virgem e vou morrer virgem porque sou pura e honesta, sua excomungada! Eu não sou mulher de zona não cadela...”.
A sua reação mostrava, claramente, não ser ela  tão pura como dizia...

(NB) Rola era a esposa do Sr. Estevão, comerciante no ponto onde fora estabelecido o Armazém do Divino e todos a tratavam de Rola do Estevão. No entanto, ela não havia entrado na casa do Estevão e sim nas proximidades. A Maria do Dondico teria dado a informação errada.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos

























sábado, 24 de dezembro de 2011

UM DESENCONTRO COM O NATAL

                                                               Foto Wikipédia
Certa vez, eu fui convidado para uma ceia de natal cuja fartura, nunca vista por mim, deixou-me, deveras, encabulado na minha condição de proletário. Eu jamais teria participado de coisa igual. Compunha-se a mesa de iguarias das mais diversificadas possíveis, contendo produtos nacionais e, também, importados. Uma grande variedade de carnes, castanhas, vinhos, etc.

A família composta apenas por mãe e filho, portugueses, fizera tanta comida que daria para alimentar mais de vinte pessoas. No entanto, apenas eu e mais um fomos os convidados presentes. Isso, naturalmente, fez com que a dona da casa, no afã de mostrar os seus dotes culinários, quisesse que fosse consumido todo aquele banquete. Com isso, insistia, de forma pouco recomendável, servindo-me, constante e diretamente ao prato, fazendo com que eu me perdesse entre a fome, a vontade de comer e o sustento. No final, eu já não podia olhar mais pela mesa principesca, pois, os excessos faziam-me embrulhar o estômago, tendo em vista o meu cuidado em ser educado e não deixar restos no prato.

Foi, sem dúvida, o mais farto de todos os natais da minha vida. Contudo, foi, igualmente, e com toda certeza, o pior de todos. Daí para frente, eu passei a ver o natal de forma angustiante. O sentimento natalino que, até então, habitava o meu coração passou a não existir mais. A festa do nascimento de Jesus que outrora me trazia as alegrias do Papai Noel, deixou de habitar o meu coração. A meu ver, a união da família, nesse dia, já não tinha o mesmo sentido. Passei a perceber um ambiente, verdadeiramente, monótono, contudo, feliz e real. A legitimidade da reunião familiar retratando a candura de Maria e a humildade de José diante do nascimento do filho. Prefiro, portanto, sentir dentro de mim a imagem dos presépios me transportando ao verdadeiro mundo pelo qual o filho de Deus chegou.

Ao sair daquela festa, deparei-me com um quadro, até hoje, acomodado nos fundos dos meus olhos. Vi uma pobre mãe apanhando restos de comida num latão de lixo e dando aos seus filhos assentados na beira do passeio, enquanto aquelas crianças comiam aquela soca como se fosse o melhor manjar do mundo. Enquanto isso, meninos vizinhos riam daquela cena de cuja estupidez da vida agredia, violentamente, aqueles filhos de Deus.

Jamais, por mais que eu viva, me esquecerei de cena tão deprimente. Portanto, para mim, o natal perdeu todo o seu brilho. Nunca mais senti as emoções de uma festa natalina. Para mim, isso é um teatro cuja peça mal escrita não tem quase nada, ou nada, a ver com o menino Deus.
As pessoas se reúnem para se deliciarem com um pedaço de carne. Carne de um animal que na noite de natal aqueceu o Messias aquele que viria como Salvador, ou então, a carne do animal de porco que o Velho Testamento reputa como imunda. Reúnem-se, simplesmente, para cear quando o coração já não se encontra alimentado de amor. O amor que Cristo pregou.

Esses paradoxos fazem com que eu não acredite mais no natal e o perceba como uma festa hipócrita pela qual a diferença humana se torna gritante.



O natal é uma data convencional, sustentada pelo comércio que não comunga com nenhum princípio religioso.



Armando Melo de Castro
Candeiasmg. Casos e acasos
Candeias – Minas

Cronica relacionada: Um triste Natal: