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sábado, 14 de agosto de 2021

CANDEIAS, NINHO ADORADO.

É inegável que a nossa cidade é muito bonita e bem posicionada. Ser brasileiro, mineiro e candeense, é para mim um orgulho sem par. A nossa Candeias deveria ser chamada Candeias de Minas, para não ter que ficar se misturando com a Candeias da Bahia de forma diminuída. Certa vez alguém me perguntou se eu era baiano, quando eu disse que era de Candeias, sem citar o Estado. --- Ah! Como essa pergunta aborreceu o coração do bairrista!!!

É uma alegria recordar a professora Neguita Alvarenga, com a dedicação do seu hino:

Ninho adorado, idolatrado!

A ti consagramos nossos corações

Dar-te a vida queremos triunfantes

Como nobres e firmes campeões.

Antes de ser chamada Avenida 17 de Dezembro, a data da emancipação do município, em 1938, a Av. 17 de Dezembro tinha o nome de Avenida Rui Barbosa. Mas ainda no meu tempo era chamada de “Largo” apelido hoje já esquecido. Era até engraçado, se uma pessoa descia do lado direito e uma subia do lado esquerdo, eles se cumprimentavam ou até conversavam aos gritos de tão largo era o espaço. A Avenida 17 de Dezembro é como dizia o meu avô: “do Largo até ao Cruzeiro, é uma pernada.”

Certa vez eu contei o número de praças existentes em Candeias, e somaram 32, hoje pode, este número estar superado. --- Suponho que são raras as cidades que tenham uma avenida central tão cheia de praças, como a 17 de Dezembro e também nos bairros de Candeias.

A meu ver esta avenida deveria ter o nome do Dr. Zoroastro Marques da Silva após a sua morte. Eu acho que as homenagens prestadas ao fundador da nossa cidade são muito poucas pelo que ele representou para o nosso município em todos os sentidos,

Dr. Zoroastro deu a vida para Candeias em prejuízo de sua própria família e sua carreira de médico. Suponho que jamais alguém amou Candeias tal qual o Dr. Zoroastro. Quem como eu que por muitas vezes bateu papo com ele, poderia sentir de perto o carinho, o amor, a fidelidade jamais vista por um político em prol de sua terra.

Certa vez um jovem candeense, inclusive de família bem conhecida, me mostrou na tela de um computador de uma Lan House em Candeias a imagem do Dr. Zoroastro e me perguntou: “ Dizem que esse homem é importante, o que ele foi” --- Foi uma pergunta triste e uma resposta ainda mais triste, porque tratou-se de uma pergunta que eu jamais gostaria de ter ouvido. ---- Dr. Zoroastro Marques da Silva é um nome que jamais poderia ser desconhecido por um jovem candeense. – Portanto eu quero aqui, apelar para os nossos jovens, que não deixe esse nome ficar esquecido.

Armando Melo de Castro.



 

 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O HORTO FLORESTAL DE CANDEIAS.


 --- Eu gosto muito de passear no meu passado. De vez em quando tomo a estrada da minha vida, asfaltada pelo tempo, para visitar os lugares onde nasci, vivi, convivi e trabalhei. Não ouso matar a saudade que carrego comigo. Eu a deixo viver. Afinal um coração para bater feliz, é preciso desse ter saudade.---- No meu estojo de saudades eu guardo muitas delas; de familiares e amigos que foram levados por Deus;   dos lugares por onde passei; saudade da minha adolescência insegura, enfim, eu tenho um coração cheio de saudade. --- Mas a saudade que se encontra mais distante de mim e mais próxima ao mesmo tempo é a saudade da minha infância na minha querida Candeias, o meu torrão natal. Ali está a saudade do tempo em que eu não entendia desse sentimento chamado saudade.   

--- Hoje, eu dei uma bispada no retrovisor da minha vida e vi bem distante o horto florestal de Candeias, que ocupava toda a área do matadouro municipal desativado e o estádio do Rio Branco Esporte Clube, o meu querido “Ranca Tôco”.--- Esse horto teria sido criado na gestão do prefeito José Pinto de Resende nos fins da década de 50 diante de um festão de inauguração, quando no local foi oferecido ao povo de Candeias um churrasco com fartura e refrigerante. Eu desconheço as causas que deram o fim a existência desse horto. Pode-se, imaginar que terá sido um desinteresse político, o que é lamentável porque é de se saber que a existência de um horto ajuda a proteger as espécies de plantas principalmente, de animais, pois é considerado um oásis metropolitano além da contribuição com a educação ambiental, o lazer e outros serviços essenciais ao bem-estar do ser humano.

--- O nosso horto florestal era um ponto de lazer ativo. Nos fins de semana, a minha rua era um sobe e desce o dia todo, das pessoas que iam visitar o horto e um ponto sugestivo para os namorados e idosos. Era uma área bastante desenvolvida e contava três divisões, cada uma com função diferente. No centro um grande galpão onde esta o escritório do engenheiro chefe e outras divisões determinadas. O horto era administrado por um engenheiro agrônomo. e um gerente. Eram vistos subindo e descendo todos os dias. O engenheiro não me faço lembrar o nome, mas o gerente chamava-se Victor. Era ele que administrava o serviço dos meninos e rapazes que trabalhavam aprendendo e plantando e fazendo os pequenos potes para semeadura. Meninos eram diaristas por um ganho pequeno.  

--- Sr. Victor, o gerente, morava numa casa da rua Professor Barreto, Era casado tinha filhos, mas era separado da esposa. Morava sozinho. Uma pessoa meia difícil de ser entendida. Se não me engano era natural da cidade de Boa Esperança. Seus filhos o visitava de vez em quando. Ele era uma pessoa um tanto excêntrica. Estatura média, idade por volta dos 50 anos, pele clara,  camisa esporte e chapéu de lebre. --- Um dia estava para muito papo, no outro estava caladão. Ele fumava e não gostava que os trabalhadores do horto fumassem. E os meninos que trabalhavam no horto viviam vigiando-o quando ele jogava o toco de cigarro fora, para aproveita-lo --- 

--- Certa vez um fazendeiro lhe presenteou com um saco de milho verde. E então ele convidou três dos meninos para ir até a sua casa ajuda-lo a ralar o milho para fazer pamonha. Ai Sr. Vitor se mostrou uma pessoa muito diferente (sei não) Durante essa festa da “ralação” de milho, ele entrou para o banheiro, defecou num penico, colocou as fezes dentro de um saco de  plástico, misturou um pouco de milho ralado aumentou o volume com jornal e fez um embrulho de presente. --- Tomou desse  “pombo sem asa” e colocou no meio da rua, correu para dentro de casa e ficou olhando, pela fresta da janela para ver alguém apanhar o embrulho. ---- Deixando os meninos completamente assustados com esse comportamento, vindo de um homem tão sério lá no trabalho. (sei não).

 --- Ser excêntrico não significa ser louco, mas sim ser uma pessoa diferente das demais da sociedade que são normais.

 Armando Melo de Castro.

 

 

domingo, 1 de agosto de 2021

O PRIMEIRO JURI EM CANDEIAS.

Este sobrado guarda muito da história de Candeias. Pena que são fatos que foram perdidos ou esquecidos. Não sei se entre os descendentes dos seus antigos proprietários possa ainda existir algum resquício da tradição oral. Os dois últimos proprietários da antiga fachada desse prédio, de que tenho lembranças, são o dentista Boanerges Pacheco Lopes e o farmacêutico Levi, oriundo da cidade de Cristais. – O Sr. Boanerges, todavia, não teve filhos e o Sr. Levy já veio a partir da década de 60.

É uma pena, esta falta de registro sobre esse prédio, tão antigo. O pouco que sei de até então foi ouvido a meia boca, é de que foi construído no tempo da escravidão, e que teria acontecido ali um crime, e que durante anos o prédio foi assombrado. Contudo, o tempo incumbiu-se de cessar com esse rumorejo abstrato. O sobrado era um ponto de referência para a Rua José Hilário da Silva, tendo em vista que até há pouco tempo, se ouvia dizer: “A RUA DO SOBRADO”

Tenho, comigo lembranças da sua existência a partir do momento em que comecei a me entender como gente. Era, já então, um velho sobrado carente de uma reforma e que essa reforma foi feita em meados da década de 50. Seu telhado era ainda daquelas telhas antigas. Foi trocado por telhas francesas e a fachada foi remodelada através de um novo reboco e pintura. Essa reforma foi feita pelo mestre de obras da cidade de Itapecerica, Sr. Luiz do Miroque, construtor de diversas casas em Candeias.  ---

Por ocasião da vinda da comarca de Candeias na década de 50, foi nesse prédio, na área residencial, instalada a primeira sede do fórum de Candeias. Nesse tempo os cartórios eram instalados junto ao Fórum, e era assim composta a equipe geral. ---- Primeiro Juiz de Direito: Dr. Eurico Andrade Pereira, oriundo da cidade de Perdões, MG. O promotor de Justiça era o Dr. Fernando de Sousa Lima, vindo de Belo Horizonte. Escrivão do Crime: Sr. Luizinho Teixeira, oficiais de Justiça: Arlindo Silva e José Candido de Castro (meu pai) ---- Contadora era Ofélia Barros e os avaliadores Gabriel Carlos e João Resende de Almeida. --- Os oficiais dos cartórios eram: De Notas: 1º e 2º Sra. Laura Barreto, (Dona Barretinha) e o Sr. Willian Viglioni. --- Registro de Imóveis: Sra. Dalva Marques Azevedo. Os demais cartórios eram unificados na Residência do oficial Álvaro Teixeira de Oliveira, (Vico Teixeira)

Candeias nesse tempo não tinha nenhum advogado, e com o advento da comarca, veio de Belo Horizonte um velho advogado, que teria sido médico e resolveu mudar de profissão. --- Atuou no primeiro júri da comarca, em Candeia, nesse sobrado, quando a ré era a Sra. Célica, que teria feito vítima de um tiro, o Sr. Humberto Pulhês.  

O Dr. Álvaro durou pouco tempo. Ele adorava a nossa cidade, mas foi acometido por um câncer, naquele tempo em que o câncer ainda era raro e chamado de “doença ruim” --- Ele faleceu em Candeias e foi sepultado no cemitério São Francisco, em cova rasa, no local onde hoje está o tumulo do Dr. Zoroastro Marques da Silva. --- Os advogados que trabalhavam em Candeias, eram praticamente todos de Campo Belo.  --- Posteriormente a nossa Comarca, já na gestão do Dr. Júlio Maria Mesquita, teve as suas funções encerradas e transferidas para Campo Belo. posteriormente,  veio como uma segunda comarca.

Aqui estão as casas de comercio que foram instaladas na área comercial do prédio que estão nas minhas lembranças:  ---- A primeira de que me faço lembrar foi o bar do Sr. Inácio Pacheco Lopes. --- Depois dele veio a casa de ferragem do Sr. Miroque. ----- Mais adiante um bar do Candinho do Vico Teixeira. Esse durou muito pouco. ----  Daí uma farmácia de um farmacêutico que teria vindo da cidade de Alfenas. Essa farmácia trocou de dono uma três vezes. --- Depois da farmácia, foi o Bar do Wanderley de Carvalho,(Lelei) irmão do Carmélio Carvalho.  ---- O bar do Lelei esteve estabelecido aí por muitos anos. Foi passado para o Sr. Salvador Moreira e depois para o Sr. Ulisses Pinto,(Licinho) pai da Silvana Freire. --- Dai passou a pertencer ao Sr. Levi com a sua farmácia e depois o seu comercio e residência. Todos esses citados são falecidos. Hoje o prédio totalmente remodelado, pertence ao Contador, Sr. José Antônio onde está estabelecido os seus escritórios.

Eu gostaria de solicitar aos amigos ou parentes e ou descendentes  de proprietários antigos desse prédio que pudessem fornecer alguma informação que possa acrescentar ou alterar o nosso texto. Eu suponho que se trata da construção mais antiga de Candeias e merece um lugar de destaque na história de Candeias.

Armando Melo de Castro.

 

 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

CANDEIAS NA DÉCADA DE 50.


                                     ANTIGO POSTO DE HIGIENE DE CANDEIAS

 Eu ouvi, numa entrevista, o cantor Ney Matogrosso detonando a saúde no Brasil. E me despertou a atenção quando ele disse que a saúde no nosso país na década de 50 era decente e um exemplo na América Latina; e mais, que o Brasil era copiado no seu sistema de saúde, disse ele. ----  Como esse período  ainda se encontra acomodado em meu cérebro, eu achei essa informação desencontrada com a realidade e resolvo, então, dar uma volta mental lá pelos idos da década de 50 e lembrar como a saúde em Candeias era naquele tempo. Dar uma conferida no que disse o cantor. Afinal, Candeias é uma partícula do Brasil.

A meu ver, a saúde no Brasil não era nenhum exemplo na década de 50. Isso porque a ciência era ainda muito atrasada, e o país bem mais pobre. Os hospitais raros, não existiam esses planos de saúde que existem hoje, não existia o INSS. Cada seguimento da sociedade tinha o seu instituto de pensão e aposentadoria. O comercio tinha o IAPC Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários. os motoristas era o IAPTC, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Transportadores de Cargas. O IAPB, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários. --- E assim por diante. --- Era uma desigualdade social, pois o IAPC, dos comerciários era muito grande e o atendimento era o maior  e precário. --- O dos bancários era considerado de ricos, tinha um atendimento superior. O governo da Revolução Militar unificou todos formando o INPS. Essa unificação naquele momento foi muito complicada, mas foi uma grande ação social, os direitos passaram a ser iguais sobre esses benefícios. Eles só existiam para quem fosse um empregado registrado. E as leis não cobravam tanto como se cobram hoje.

Os trabalhadores chegavam à velhice sem um pingo de proteção. Os seus dias pelas ruas pedindo esmola ou encostados na Vila Vicentina. Muitos morriam à mingua. --- A Vila Vicentina de Candeias poderia ser chamada da casa da miséria. Eu sei porque eu fazia parte da sociedade de São Vicente de Paula e frequentava lá junto com o meu avô e via de perto a miséria. A vila era sustentada apenas pela caridade pública. Hoje podemos dizer que aquilo lá é uma maravilha em vista do que foi.

O trabalhador rural trabalhava de sol a sol. Não tinha assistência médica. Não tinha aposentadoria, não tinha nada, até que surgiu o Funrural.

A assistência médica pública era apenas do Posto de saúde que aliás, tinha o nome de Posto de Higiene. Um posto precário que possuía pouquíssimos recursos  na distribuição de medicamentos e se limitava em lombrigueiros, comprimidos e pequenos curativos, apesar da atenção e da boa vontade do médico chefe, Dr. Zoroastro e os funcionários de então, Hamilton Marques, Zoroastro Filho, João de Sousa Filho, Juca Ricarte e Quintino. --- Nesse tempo não existia um dentista no posto.

A cidade possuía duas farmácias. A pequena farmácia São Geraldo, de propriedade do Sr. Chiquinho Fernandes, administrada pelo seu filho Zé da Farmácia e tinha como farmacêutico responsável o Sr. Darciro Corrêa; e a Farmácia São José do farmacêutico, Sr. Waldemar Lopes dos Santos

----  Atendiam efetivamente a saúde de Candeias, os médicos, Dr. Zoroastro Marques da Silva, este era uma prata da casa. Fundador de Candeias, formado no Rio de Janeiro, onde se casou com a professora Dona Stela Marques. O Dr. Zoroastro atendia em sua residência e no então Posto de Higiene onde era o chefe. O Dr. Zoroastro nunca teve um carro. Ele andava a pé pelas ruas portanto a sua pasta com instrumentos médicos. Não tinha pressa; parava para conversar com os seus amigos. Era um homem facilmente acessível e sem nenhum protocolo. Até as pessoas mais humildes aproximavam dele.

--- O Dr. Renato Vieira, natural do Triangulo Mineiro. Veio para Candeias trazido pelo casamento com a senhora Jandira, da família Furtado. Não tiveram filhos. --- Ele atendia no seu consultório, junto a sua residência. Teve grande participação na história de Candeias. Foi Vice Prefeito na Gestão do Sr. João Pinto de Miranda. --- Era comum ver o carro dele, um Dodge Verde e depois branco, transitando pelas ruas, indo visitar doentes. -Interessante lembrar que quando caia uma chuva, Dr. Renato saia com o seu carro, naturalmente para lhe dar  um banho de chuva... E as pessoas gostavam de comentar.

---- Outros médicos que passaram por Candeias em períodos alternados, e tiveram presentes em Candeias na década de 50: Dr. Wandick que veio do Rio de Janeiro, na década de 40, integrando uma força tarefa no combate ao surto violento da lepra que existia em Candeias. Casou-se com a candeense Tuitti de Paiva, filha do Sr. Américo de Paiva, -----  da família da professora Dona Elisa Paiva. --- Depois de vários anos residindo em Candeias retornou-se ao Rio de Janeiro na década de 50.

Dr. Pery Malheiros, veio com o mesmo grupo do Dr. Wandick. Casou-se, também, em Candeias com Dona Maria Diniz. Retornou à sua origem após a força tarefa, mas depois voltou e estabeleceu residência em Candeias, por alguns anos. Seu consultório era junto de sua residência, na Praça da Fraternidade onde hoje mora a Sra. Wilba. ---- Foi vereador, presidente da Câmara e teve também uma boa participação na história candeense. Depois de algum tempo retornou ao seu lugar de origem.

Dr. Willian Elias, filho do empresário da comunidade dos Vieiras, Sr. Carmo Elias, de origem árabe. Dr. Willian estabeleceu-se em Candeias por algum tempo e posteriormente se transferiu para Campo Belo no fim da década. O seu consultório ficava ali onde hoje é a Relojoaria do Alex. O Dr. Willian Elias, também era visto sempre rodando em seu carro, um Dodge cinza,  parado ou na porta de algum paciente. Aliás, quando os carros do Dr. Renato ou do Dr. Willian eram vistos estacionados à porta de alguém, as pessoas já comentavam... Ali tem alguém doente! Fulano deve estar passando mal.... Despertava a curiosidade.

Já no final da década de 50 estiveram por algum tempo o Dr. Daniel Barbato, casado com a Dra. Rosalba, neta do Sr. Celestino Bonaccorsi, também médica. Os dois atendiam no consultório na Av. 17 de Dezembro, onde posteriormente veio estabelecer o Pon’s Bar (fechado) -------- Dr. Daniel Barbato também não tinha carro, era visto para baixo e para cima com a sua pasta de médico. Ele e também a Dra. Rosalba, sua esposa. Dr. Daniel era um jovem médico comumente visto pelas ruas nas madrugadas atendendo doentes quando era chamado. Certa vez meu pai o chamou para a minha mãe em plena madrugada. Ele ficou em nossa casa até o amanhecer. Meu pai pensou que ele iria cobrar um preço alto, e no entanto acabou achando que ele cobrou barato. --- Achar que um médico cobrou barato numa visita dessas, só mesmo na década de 50.----Todos esses médicos foram brilhantes em Candeias. Parece que naquele tempo os médicos eram mais dedicados e não se preocupavam muito com dinheiro. Era comum visitarem os doentes em suas casas. O preço de uma consulta era acessível.

Na década de 50 um médico à noite em Candeias não era difícil. Hoje, talvez, mesmo com o hospital não seja tão fácil. Os médicos iam às casas e não precisava estar morrendo para serem chamados. Era comum o atendimento em casa. E nem sempre essas visitas tinham o preço acrescido. Ou então atendiam em seus consultórios a qualquer hora da noite. ---- Eu aos 2 anos de idade fui salvo pelo Dr. Wandick, pois fui acometido por um crupe e fui atendido de madrugada. Ele salvou, também a minha irmã Diana, recém nascida e tomada por um andaço de coqueluche. Minha mãe chegou a entende-la morta, pois ela era recém-nascida

Nesse tempo Candeias, tal qual a grande parte do Brasil, tinha poucos recursos. O dinheiro era mais difícil e a ciência era ainda muito atrasada. Comparando-se com os dias atuais a coisa era feia. Barriga d’água; papo, mulheres morriam  de parto; as gripes pareciam mais fortes; câncer confundido com ulcera estomacal etc. Os andaços um em cima do outro: Catapora, sarampo, varicela, coqueluche, crupe, cachumba. Isso sem falar nas pandemias, que não tinham os recursos hospitalares que existem hoje. Não tinha vacinas. Era comum caso de tuberculose nesse tempo. Em 1957 houve uma pandemia da Gripe Asiática e Candeias não ficou livre de algumas mortes e nem do terror pandêmico. E a vacina veio sair muitos anos depois.

Em termos de atendimento médico concluo que o cantor Ney Matogrosso tem alguma razão. A saúde no Brasil está uma indecência. A indústria farmacêutica está arrancando o couro do povo e naquele tempo não explorava tanto. A grande parte dos medicamentos era manipulada nas farmácias e os preços eram muito mais baixos.   O custo de uma consulta naquele tempo não se compara jamais com os preços de hoje. O que se paga por uma consulta atualmente chega a ser desumano. Afinal, nem todo médico gasta para se formar. Formam-se em faculdades públicas e não dão nenhum retorno a sociedade que lhe custeou o curso. Eu digo isso porque era comum a gente via os médicos visitando doentes nas suas residência e não eram clientes ricos. Ser médico hoje é sinônimo de riqueza. Um diploma de médico pode ser visto como um bilhete premiado. Naquele tempo eram raríssimas as pessoas aposentadas; e poucos tinham uma renda fixa e o atendimento era bom. Parecia que os médicos eram mais humildes e tinham mais amor na sua profissão, menos ambição pelo dinheiro e levavam mais a sério o juramento de Hipócrates.

 Armando Melo de Castro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

AOS MEUS AMIGOS ANA ZÉLIA E CACÁ.

A dor da morte de um cônjuge dá ao que permanece vivo, o nome de viúvo. A morte de um pai ou da mãe, dá ao filho o nome de órfão, mas a dor de um pai ou mãe que perde um filho? Para essa dor não existe nome. É uma dor sem nome. O sofrimento dos pais que perde um filho é imensurável em comparação a qualquer outra pessoa da família, que vem a ser levada pela morte. É dolorosa demais a morte de um filho seja criança, adolescente ou adulto.

--- E o pior é quando existem atenuantes que levam os pais ao sentimento de culpa, se em vida pais e filho não tinham boa convivência; eles podem vir a se sentirem um tanto culpados. Se o relacionamento era bom a dor será jamais aliviada por isso, pode até ser acrescida. A perda de um filho, às vezes, pode até causar o desequilíbrio de um casal dada, talvez, circunstâncias que podem ser ajuntadas. E assim ocorre essa dor intensa; essa dor cruel e sem nome. É preciso muita fé em Deus. No entanto, num momento desses, há quem possa, até fragilizar a sua fé por falta de entendimento com o fato de estar passando por um sofrimento tão intenso.

Ontem, ao navegar pela internet deparei-me com uma notícia que me deixou deveras abalado. A morte do Italo Freire, o filho do casal, meus grandes amigos conterrâneos. Ana Zélia e Antônio ítalo Freire, o Cacá do gás, e para mim, ainda o caveirinha do nosso tempo do Grupo Escolar Padre Américo.

Eu quero aqui enviar o meu abraço e a minha mensagem a esse casal tão querido por mim e por seus amigos:

Eu imagino Ana Zélia o quando você está sofrendo... Eu sei Cacá o que é perder um filho. E posso garantir que somente quem já perdeu um filho sabe avaliar a intensidade dessa dor. --- Minha filha Regina de 30 anos voltou para Deus levada por uma morte cruel e sofrida. Eu sofri muito e posso dizer que ainda sofro. Contudo, hoje, felizmente entendo que ela foi apenas devolvida para Deus, mas continua presente comigo. É como dizia Guimarães Rosa, ela se encantou para viver no meu coração. Mas essa mãozinha só o tempo poderá lhes dar.

Essa dor que vocês experimentam meus bons amigos, não se compara com nenhuma dor. Para cada pai, para cada mãe a sua será sempre a maior. Chegamos a pensar tão fundo que podemos até pensar tratar-se de um castigo de Deus. Mas não. Deus não castiga ninguém.

Enquanto julgarmos que perdemos o filho o sofrimento é maior. E só poderá amenizar quando entendemos que o filho apenas voltou para Deus. A grande verdade é que um filho não morre enquanto ele possa permanecer em nossa lembrança. --- Há 14 anos eu convivo com a ausência de minha filha levada por Deus. Mas aprendi a conviver com a sua ausência física, sempre presente com ela espiritualmente. Porque ela nunca se foi do meu coração.

Portanto, meus caros amigos. Busque em Deus o conforto que poderá lhes advir. Nenhum outro lenitivo vai lhes amenizar essa dor incomparável.

Armando Melo Castro.

Candeias MG Casos e Acasos.

EMULAÇÃO POETICA.


 

Bom dia meu sol!

Aqui estou de novo para cumprir a missão

desta triste pandemia que sem piedade

veio para me assustar.

No entanto, sem maldizer o destino,

prefiro sentir saudade da aurora da minha vida,

assim como sentiu Casimiro de Abreu

Assim como também sinto a falta

do meu torrão natal, da minha Candeias querida,

 que os anos não trazem mais,

relembrando Gonçalves Dias poder pensar

nas palmeiras onde cantava o sabiá

e hoje não canta mais... 

Saudade do meu rincão sem par,

fonte de exemplos cristalinos

onde este pobre encontrava o seu lar.

Ah! Neguita Alvarenga, como é belo,

esse seu hino...


Agora, neste contexto isolamento pandêmico

ainda posso reservar o direito de sentir saudade;

esse sentimento nostálgico!

Que invade o meu presente

comandando um futuro incerto

propiciando um passado

que não deixará saudade.

-------------- Por favor Drumond!

Tire essas pedras do meio do caminho!

Armando Melo de Castro.

 

domingo, 18 de julho de 2021

LEMBRANDO OS MOTORISTAS CANDEENSES.


 A indústria automobilística no Brasil chegou com o advento do governo de Juscelino Kubitschek no final da década de 50. Juscelino que teria prometido ao povo Brasileiro fazer do Brasil cinquenta anos em cinco de progresso, trouxe a indústria automobilística para o país quando foram fabricados os primeiros veículos. Até então, o Brasil só tinha montagens de carros estrangeiros. Em 1959 chegou a Candeias o primeiro caminhão chevrolet-Brasil, de propriedade do Waldir do Zé Alves. E logo apareceu o primeiro fusca de propriedade do Zé Pulhes.

Os proprietários de automóveis em Candeias na década de 50 eram poucos e todos importados, e se limitavam à família Furtado, Nestor Lamounier, Dr. Renato Vieira, João Bernardo; José Pinto de Resende, João Pinto de Miranda, Monsenhor Castro, Ângelo Afonso. --- Algumas poucas caminhonetes dos fazendeiros mais abastados, como João Pinto, Mariano Bernardo e família Carrilho. E um único carro de praça pertencente ao Sr. Edson Cordeiro. Um Ford 1946. Os demais que existiam afora esses citados, eram os chamados ximbicas que viviam mais na oficina mecânica do Nestor Lamounier.

A década de 60 chegava para balançar o mundo. E Candeias não poderia ficar indiferente. Foi quando começou uma grande revolução comportamental como a onda do feminismo e os movimentos de defesa dos negros e dos homossexuais. O Papa João XXIII deu uma remexida forte na Igreja Católica, o movimento hippies protestando; a revolução musical; o começo da anarquia em Cuba o que levou Fidel Castro ao poder. Enfim o espaço aqui é curto para falar da mudança que o mundo teve a partir da década de 60. Portanto, vamos limitar a falar da época antes de antevir a década de 60.

O Brasil experimentava a revolução industrial muito bem orientada pelo governo Juscelino Kubitschek, já iniciado com a Construção de Brasília. A impressão que se tinha antes de Brasília, seria de que o Brasil era Rio e São Paulo. O Nordeste dava a entender que estaria do outro lado do mundo. Goiás era sertão. Aliás, em Candeias, por exemplo, chamava Bambuí de sertão. Qualquer coisa que vinha de Bambuí para baixo, era produto do sertão, queijo, farinha de mandioca, feijão roxinho... eram produtos do sertão.

O termo “caminhoneiro” era simplesmente motorista de caminhão. E os motoristas que viajavam para outras cidades eram chamados de Chofer de Estrada. Eram poucos os caminhões em Candeias na década de 50. Posso até citar todos aqui e seus respectivos proprietários e motoristas.

--- Sebastião Redondo, tinha um chevrolet 1940 o qual ele usava para transportar tijolos de sua olaria. Ele o motorista.

---Chico de Assis tinha um Ford 1942 com o qualfazia pequenos transportes dentro da cidade. Motorista era ele mesmo.

---João Sidney de Sousa tinha um chevrolet 1946 que era usado para transporte de dormentes para a RMV. (Rede mineira de viação) o motorista era o meu amigo, o meu grande amigo Henrique Pinheiro.

---Celestino Bonaccorsi tinha um chevrolet 1946 para fazer os transportes de seu grupo empresarial. O motorista era o Sr. Geraldo do Emídio.

---Sebastião Freire tinha um Ford 1946 para carretos dentro da cidade. Motorista era o Nenê seu filho.

---João do Artur tinha um chevrolet 1949 para carretos em geral, motorista era ele.

---César Paixão, tinha um Internationale 1950 leiteiro de Candeias a Campo Belo.

---Joãozinho da Fazenda, tinha um Ford 1960 para os seus transportes rurais.

---Prefeitura, tinha um chevrolet 51 e o motorista era o Zé Cacheiro.

---Américo Bonaccorsi tinha um GMC, para transportar galinhas para o Rio de Janeiro. O motorista era o Vandinho seu filho.

---Zico do Carrinho, tinha um chevrolet 51 com o qual era para transporte de leite para Campo Belo. Ainda não existia a CACISA.

---Zé Maria, tinha um chevrolet 51 com o qual ele

atendia os carretos dentro da cidade e nas roças.

--- Barroso tinha uma caminhonete Ford com o qual ele fazia transporte de Creme das roças para o seu depósito num açougue onde está localizada Instituto Simetria.

Até então não existiam caminhões fabricados no Brasil. A partir de 1960 já começaram a aparecer os caminhões, outros automóveis. Com o advento da fábrica de laticínios CACISA, vinda de Cristais, do Sr. Calimério Alves Costa, os transportes de leite cresceram e surgiram outros caminhões para atender a demanda.

Não existiam nesse tempo grandes transportes rodoviários em Candeias. A maior parte dos produtos era transportada através da ferrovia. Os carroceiros e faziam ponto na estação, porque quando as mercadorias chegavam, eles já as levavam para os seus destinatários. Lembrando alguns deles: Serafim, Arlindo Barrilinho, Juca Cordeiro, Nego da Zenóbia, João Branco e outros mais.

Nesta oportunidade eu quero lembrar aqui um grande amigo meu, o motorista Renato do Zico do Carrinho, que era o motorista do seu pai. Começou a dirigir o caminhão ainda garoto. Ele tinha como ajudantes o seu irmão Zé do Zico, casado com a Dalva do Cassinho. e o Geraldo que tinha o apelido de Cigano.

 Armando Melo de Castro

 

CANDEIAS, E UMA SAUDADE.


Nesta época os dias são tão pequenos. Seis horas da tarde estamos no escuro. Agora, no principio do mês de julho, quando deixamos mais um junho para trás. O mês das festas juninas, dos grandes eventos, com as exposições agropecuárias estão a todo vapor, prometendo shows com artistas famosos e outras coisas mais. Completamos, portanto dois “junhos” sem festa junina, sem exposição. iSSO QUER DIZER Isso quer dizer que estamos mais pobres. Pobreza não é simplesmente a falta de dinheiro. Pobreza é falta de lazer, falta de falta de liberdade. Mas numa pandemia, quando ficamos reféns de um vírus, que não sabemos quando nos livraremos dele, isso é um sinônimo de uma grande pobreza em todos os sentidos.

 A infância é um trecho da viagem cuja estrada não há buracos e nem tropeços. Ela é alegria e sem dramas. Mas se pinta uma pandemia, consequentemente esta contamina a infância. --- A inocência e isenção de maldade é um lugar de onde viemos e que não voltamos jamais. É algo que fica guardado dentro de nós como um livro de história gostoso de ler. No entanto as crianças estão guardando para o resto da vida, nos armários de suas memórias, esse tempo que será lembrado assim com muita tristeza, pela perda de de mãe, pai, avós, irmãos etc.

O tempo passa e por vezes nos perdemos nessas encruzilhadas da vida. O presente, o futuro e o passado. Aí dá vontade de voltar... Mas como não tem volta ficamos na busca, como se procurássemos aquilo que não perdemos.Hoje me despertei ainda com o escuro. Como disse, os dias são pequenos nessa época do ano . Parece até que o dia voa. E que esse tempo de pandemia está correndo mais. Acordar com o escuro inspira-me ficar pensando. Isso me faz lembrar o meu amigo Zé Mori, porteiro da Escola Presidente Kenedy, quando ele dizia que colocava uma garrafa de café na cabeceira da cama, acordava as 4,30 horas da manhã, tomava um gole de café acendia um cigarro e ficava ali pensando, afinal levantar-se para fazer o quê?. Do jeito que o Zé Mori contava dava vontade de acordar as 4,30 e imita-lo 

Hoje aconteceu isso comigo, só que eu não tinha café e nem cigarros, porque fumei durante 40 anos mas felizmente deixei o vício há mais de 20. E se eu tenho um conselho para quem fuma, é deixar disso. A saúde melhora muito para quem deixa de fumar.

Mas numa emulação ao meu antigo amigo Zé Mori, eu resolvi acordar, fui até a cozinha e tomei um gole de café frio e amanhecido, voltei para a cama e fiquei pensando. E pensando resolvi dar uma voltinha na minha terrinha, na minha Candeias querida. E o frio estava tão bravo que resolvi ir passear na década de 50, lá em Candeias na praça defronte a Igreja do Senhor Bom Jesus

Ali todo mês de junho aconteciam as comemorações de São João. --- E sempre quem organizava era o Lico do Matadouro, para outros o Lico da Sinhana. Alguém trazia um bom tanto de lenha num caminhão, e lico fazia a grande fogueira. Bem alta com toras de paus que dariam para queimar até o dia posterior. A fogueira ainda fomegava no outro dia. ---- No centro dessa fogueira eram colocados gomos de bambus cheios de água e lacrados. E aquilo dava cada estouro muito violento.

Às vezes aparecia por ali uma dupla de cantores sertanejos que ficavam de fora de uma barraca montada próxima ao chafariz, existente ali até hoje, claro, inoperante. ---- A barraca preparava um quentão distribuído gratuitamente para os adultos, um quentãozinho, sem pinga para os meninos não aguar como diziam

Eu tinha a impressão que a nação candeense parava ali naquele local para esta festa. Naquele tempo as pessoas se locomoviam muito pouco, principalmente as mulheres donas de casa. Se viam nas missas às vezes, mas nem sempre. E também não podiam conversar se viam nas igrejas ou na semana santa, mas nem sempre paravam para bater um papo. Mas nas comemorações juninas, era um verdadeiro encontro de amigos do alto do cruzeiro, da laje ou da região da ponte. Eram os três pontos fortes da nossa cidade.

Quem preparava a fogueira e o pau de cebo era o Lico do Matadouro. O pau de cebo consistia numa longa vara de eucalipto, previamente preparada pelo Lico. Ela não era seca e nem verde. Dias antes, a gente passava por ali e estava o lico uma hora descascando-a outra ora já lixando-a. Essa vara era fincada à alguns metros da fogueira. E na sua ponta havia um envelope com a maior cédula do momento. Hoje seria uma cédula de $100,00 reais. E a meninada ficava muito doida para ganhar esse dinheiro, que naturalmente seria um bom dinheiro.

Mas só que o pau era lubrificado com cebo ou óleo queimado. E os meninos se vestiam das suas roupas velhas, que naturalmente ficariam perdidas, para concorrer ao evento. Os mais espertos subiram mais, e logo derrapavam indo parar até o pé do pau. Eles faziam escada. Um subia no ombro do outro, E à medida que fosse limpando o cebo eles iam atingindo o topo . E no final, aquele que pegava o envelope saia correndo e a turma atrás dele querendo parte do dinheiro. ---- Lembro-me de um vencedor --- meu conterrâneo, contemporâneo, e condiscípulo no Grupo Escolar Padre Américo. “O MOSQUITO” (Antônio Canarinho) Eu nunca participei desses eventos. Afinal eu era um menino bobo, e gostava só de olhar e torce

Naquela mesma noite havia outros bailes na cidade. Na antiga fábrica de Farinha do Sebastião da Pecidonha, na esquina de frente o Posto do Itamar. O pagode era animado pelo Sebastião com um tambor e a sua filha Toninha, casada com o Paulo Gomide, cantando e tocando o acordeom. Ali se misturavam músicas de São João, carnaval, sertanejo, boleros e muita pinga. O local tomou o apelido de “Caldeirão do Diabo”.

Na máquina de Café do Emídio Alves, era o pagode do Chiquinho Ferreira, irmão do Alvino Ferreira, animado pelo seu genro Amarlene, um sanfoneiro de primeira e ele num tambor e a sua filha cantando. O repertório era sempre o mesmo, músicas sertanejas, boleros, carnaval, São João. Nos bailes de carnaval, quando o salão ficava meio fraco, Chiquinho dizia para a sua filha, Solta a jardineira minha filha (Música de carnaval) Aí a coisa fervia.

No Clube Recreativo Candeense durante todo o mês havia quadrilha todas as noites, animadas pelos Srs. Geraldo Vilela e Alvino Ferreira.

Quando faltava luz na cidade por problemas técnicos na usina hidroelétrica do Sr. Bonaccorsi, o povo ia para as portas das ruas e os vizinhos interagiam-se nos mais diversos assuntos.

A cidade não era tão deserta como nos dias atuais. O povo saia mais; convivia mais; visitava mais, e era mais solidário porque não existia a televisão. Infelizmente as novelas prendem as pessoas em silêncio a conviver com os dramas criados na cabeça de uma só pessoa, que seja o autor de uma novela nem sempre benéfica.

Eu gosto do mundo de hoje. Sem dúvida temos mais conforto, temos mais dinheiro, temos mais recursos. Mas eu sinto que o povo antigo, era mais tranquilo, era mais amigo, era mais sincero. Desculpe-me meus amigos. Eu falo por mim. Posso estar enganado. Afinal sou de gerações ultrapassadas.

Armando Melo de Castr

Foto Clara Borges.


 

terça-feira, 29 de junho de 2021

DITE FREIRE E A CIGANA CARMENCITA.


 

DITE FREIRE E A CIGANA CARMENCITA

A praça Antônio Furtado em Candeias até o principio da década de 60 foi o ponto determinado para receber os circos, parques, ciganos, comerciantes circulantes, em ônibus etc. ---- Às vezes estava ali estacionado um circo, quando tinha um parque esperando para chegar. Era muito comum ver por ali armada uma barraca de cigano. --- Os ciganos chamavam muito a atenção do povo candeense por ser o candeense um habitante de cidade pequena, bastante curioso e os ciganos serem de uma cultura muito diferente.

A origem dos ciganos é muito confusa até nos dias atuais é envolta em um grande mistério. Existem diversas versões sobre  eles. Muitos acham que eles são oriundos da Índia dado aos indícios da língua. Mas não há nada de concreto sobre isso. O cigano é uma gente sem nação. Eles estão espalhados no mundo todo. A etnia cigana é muito variada; no Brasil, por exemplo, temos três delas, e os Estados onde eles estão mais acumulados são Minas Gerais, Bahia e Goiás. A comunidade cigana no Brasil conta 800.000 pessoas.

Os primeiros ciganos que chegaram ao Brasil foram enviados por Portugal  já nas primeiras caravelas junto aos degredados. A vida deles por serem nômades foi sempre muito difícil. Sempre foram tratados com preconceito e, às vezes, até expulsos do país. Sua cultura é preservada. E eles não se misturam para a conservação da cultura que trouxeram da sua origem. --- O Nazismo matou mais de 400 mil ciganos, confundindo-os com os judeus. Em outros países, como na Europa, quase sempre pode ser vista a notícia de um assassinato de cigano. No Brasil os ciganos são bem recebidos e não são perseguidos.

O casamento de cigano é feito entre eles, quase sempre entre primos. As moças a partir dos 14 anos já estão prontas para o casamento e o rapaz com 16. Vivem em grandes barracas num estilo centenário. Os ciganos são como uma nação diferente dentro do país que ocupam. O ritual do casamento é amplo. O casal não se casa por amor. É feito entre as duas famílias dos noivos um acordo. Às vezes os noivos nem se conhecem e ficam se conhecendo no dia da união. Acontece sempre de os noivos serem escolhidos na mesma família, quando o casamento acontece entre primos. Se algum cigano ou cigana decidirem se casar com alguém que não seja da mesma raça, eles serão expulsos da comunidade e não são mais considerados ciganos.

O casamento cigano é feito sob pagamento de dote pelo pai da noiva. As famílias que fizeram o acordo se unem em negócios, pelo pai  da noiva, podem barganhar, negociar dívidas e fazer acordos para que o dote venha a ser pago de maneira que satisfaça ambas as partes. É bom lembrar que existem ciganos ricos e ciganos pobres.

Mas falando em cigano, lembro-me de quando, na década de 50 chegou a Candeias um grupo de ciganos ricos. Montaram as suas barracas na praça Antônio Furtado e ao redor do grande acampamento uma cerca com apenas um fio de arame. Apenas para que os curiosos não se aproximassem muito deles. Ali montaram uma tenda e fabricavam tachos, enquanto outros saiam vendendo, e lendo sorte e trocando carros e cavalos. Faziam qualquer tipo de negócio. A água para eles quem fornecia era a vizinha, Fina Teixeira viúva do patriarca da família Teixeira, Sr. Francisco Teixeira. --- Nesse tempo que a luz de Candeias era um tomate nos postes, eles tinham uns lampiões que deixavam a praça Antônio Furtado como um dia. 

Nesse intervalo a praça Antônio Furtado se transformou num ponto turístico para atender a curiosidade das pessoas e observar a cultura diferenciada. Lembro-me do Zé Souto, um fabricante de tacho artesanal, que ficava excomungando os ciganos por terem tomado os seus fregueses por um bom tempo, pois encheram a cidade de tachos. E ele achava que durante um bom tempo não venderia nem um tacho.--- Lembro-me, também, da Maria de Dona Joana Gorda, ela ia todos os dias apreciar os ciganos e observando o que eles faziam e depois saia contando para a vizinhança. Certo dia ela ficou apreciando uma cigana preparar uma carne. E no outro dia ela comprou um belo de um pedaço e imitou a cigana até no jeito de mexer a panela.  Ela só não copiou a forma que eles usavam para matar um frango, era batendo com a cabeça da pobre ave num esteio da barraca.

Mas o caso mais engraçado aconteceu foi com um amigo meu, o Djalma Freire, mais conhecido pelo nome de Dite do Chico Freire. Rapaz bem aparecido, ainda jovem, bom jogador de futebol, participou da Associação Esportiva Candeense e do meu glorioso Rio Branco Esporte Clube. Foi motorista do caminhão da prefeitura onde se aposentou.

Dite assediado por uma cigana muito bonita, para ler a sua sorte, apaixonou-se por aquela flor cigana. E durante alguns dias dite ficou beirando os olhos do futuro, e já não bastava a quiromancia, no dia seguinte a cartomancia, alomancia, e outras coisas mais... Até que o Dite pensando que a cigana topava algo mais sério com ele em troca de dinheiro, perguntou-lhe o quanto ela cobraria para dormir uma noite com ele. --- A cigana deu um sorriso e não se assustou com a proposta do Dite, e disse-lhe: “Só se for no acampamento”. Fora eu não posso. E apesar da insistência Dite não obteve sucesso. A cigana só topava dormir com ele na sua barraca, preparada para tal. E assim foi marcado o encontro pelo valor, naquele tempo, de 100 cruzeiros e o encontro amoroso aconteceria dois dias depois, numa quinta-feira, as 11 horas da noite depois que a comunidade se recolhesse, ele poderia chegar que a alcova estaria preparada.

Pobre Dite! Ao chegar todo untado de desejo, imaginando coisas e coisas. Naturalmente pensando que aquela seria a sua noite mais feliz de toda a sua vida, foi recebido amigavelmente pelo marido da  cigana Carmencita que lhe solicitou o pagamento antes de entrar o que lhe foi feito deixando o Dite um tanto assustado. Quando foi levado ao cubículo destinado num canto do acampamento, ali havia uma cama no chão, a mulher deitada vestida como manda o figurino cigano, e um grande sarrafo de madeira separando a cama de forma que um não poderia se encostar no outro.

O marido da cigana, gentilmente já foi indicando o lugar que ele deveria se deitar. Ele não estava querendo mais o encontro, mas o cigano disse, não o senhor pagou o senhor vai dormir aqui do jeito que foi combinado. Dite tentou ir embora e sair logo dali, mas não lhe foi permitido e ele teve que permanecer até as 5 horas da manhã deitado com a cigana, separados por um sarrafo e com o marido dela assentado numa banqueta no canto do cubículo, quando foi liberado para ir embora.

Djalma, que para uns tinha o apelido de Dite e para outros o apelido era “Chô”, saiu contando para muito pouca gente esta história e falava:

Nocha shinhora chô, eu nunca pachei tanto aperto na minha vida.

Armando Melo de Castro.

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

VICENTE DA GERALDA DA NITA E O OLEO LIRIO.

 Grande parte dos candeenses tem em seus nomes uma espécie de dono. É uma cultura a inclusão  do nome do pai ou da mãe para identificar a pessoa. Por exemplo: João do Nestor; Wandinho do Américo; Zé da Zenóbia;  Juca do Nico; Armando da Quinha; Getúlio da Virgínia; Maria do Firmino. Em outros casos acrescem, também, o nome do cônjuge, como Maria do Erasto, Rola do Estevão etc. O nome do qual eu vou falar da sua história, leva até o nome da avó: Vicente da Geralda da Nita.

Vicente, era funcionário da Casa Celestino Bonaccorsi. Fazia parte do grande grupo de caixeiros que exercia a função nos balcões daquela loja. Entre eles, ali estavam os irmãos, Paulo, e Aurélio Vilela, Wantuil e Francisco de Castro, meus tios. Os irmãos Aurélio e Antônio Breias, Cristóvão Alvarenga e seu filho Tovinho, Lulu, Bebé da Mariazinha, Zé Mori,   e muitos outros, que no momento me falham a memória e que prestaram os seus serviços ali na grande casa comercial,  tão bem lembrada. --- O gerente era o Pedrinho Bonaccorsi. Todos aqui citados são de saudosa memória.

Alguns dos balconistas da Casa Celestino Bonaccorsi,  entrosados no ramo de comércio, resolviam sair do emprego e montar um negócio e começar a vida de comerciante, como o caso  do Lulu e o Zé Mori que montaram um Bar no cômodo de comercio do casarão do Sr. Torquato Viglioni, localizado onde hoje está o Banco do Brasil. Posteriormente Zé Mori foi ser o porteiro do Grupo Escolar Presidente Kenedy e Lulu continuou até se aposentar. --- Vicente e Paulo Vilela, também ao deixarem a Casa Bonaccorsi, abriram as suas lojas. ---- Os nomes citados neste texto se referem a amigos meus já falecidos, porque foram pessoas com as quais eu convivi.

O caso que estaremos especificando, o Vicente da Geralda da Nita, foi um dos vendedores que resolveu deixar o emprego e começar um pequeno negócio. E o fez num limitado cômodo de venda junto a sua residência, uma pequena casa por ele construída na Rua Celestino Bonaccorsi,  onde hoje se encontra a antiga  residência do Sr. Antônio Virgílio, já falecido.

Vicente, era filho único;  casado e tinha uma escadinha de filhos. Lembro-me de ver a esposa dele sempre gravida. --- Ele era um tanto ágil e não parava dentro do seu pequeno balcão. Se visse um produto mal colocado na prateleira estava ele lá o colocando o seu lugar certo. A sua pequena venda tinha pouca mercadoria, porque o seu capital era curto, mas o seu esforço era muito grande.

Tendo trabalhado na Casa Celestino Bonaccorsi, ficou amigo de muitos fregueses e como era um bom vendedor, foi conquistando a simpatia de muitos. Assim, quando abriu o seu pequeno comercio, começou a trabalhar no peito a peito. E as vezes deixava a sua mulher tomando conta do negócio e saia pelas ruas no sentido de encontrar fregueses que ele estava acostumado a atender no seu antigo emprego. Enfim, o seu ponto não era estratégico para comercio. --- Lembro-me o dia em que ele se encontrou com o meu pai, bem próximo do Hotel do Américo, quando ele disse:

--- Zé, estou precisando de você.

---O que foi Vicente?

---Eu abri uma vendinha e eu preciso que você compre alguma de mim para me ajudar.

--- Onde é o seu comercio?

--- É perto da padaria do Mozart, junto de minha casa.

--- Vicente, lá é muito longe; e u moro lá na Rua da Ponte,      (R.Cel. João Afonso) E quem faz compra é o menino(eu)...

--- Não Zé, eu estou lançando um produto que é só eu que o tenho. Breve ninguém mais vai comer gordura de porco, porque a gordura de porco tem um tal de colesterol que faz dar derrame. E eu já tenho esse óleo de fazer comida, Chama-se Lírio e é feito de amendoim e sai mais barato que a gordura de porco, cheia de vermes e lombrigas.

E o Vicente acabou convencendo o meu pai. Que se propôs a comprar pelo menos o óleo de cozinha Lírio, de amendoim. O primeio óleo de cozinha que apareceu em Candeias, pelas mãos do Vicente. Logo depois vieram óleo de caroço de algodão, soja e milho, já de outras marcas, e as propagandas contra a banha de porco foi crescendo, e o comercio de porco foi sendo abalado.

Era de entender que Vicente iria prosperar no comercio. Dinâmico, educado, humilde, e parecia que gostava da sua profissão de comerciante. Ele era tão atencioso com a sua freguesia que parecia que os fregueses além de serem bem servidos, tinham o prazer de comprar dele com o fito de ajuda-lo. A sua vendinha foi crescendo a ponto dá área física não o atender mais e ele teve que procurar um espaço maior.

Na avenida 17 de dezembro, onde se encontra o Salão do Nenê, Sorveteria Celinho, Planeta Vídeo, era uma área ocupada por uma grande casa de comercio e residência que se encontrava fechada. --- Vicente a alugou e mudou-se para lá com a família e o comercio. Todos viram o quanto Vicente teria melhorado de vida graças ao seu esforço. Homem honesto, educado e dedicado a família e ao trabalho. Hoje sua loja teria se transformado no que dava para observar o quanto vale um trabalho bem feito, com amor e dedicação. Desde o tempo em que Vicente teria começado com o seu pequeno negócio, eu vinha o acompanhando, porque meu pai sempre lembrava, de mandar comprar alguma coisa na sua venda dada a sua atenção.

Comumente a gente via a sua mãe assentada numa cadeira num canto da loja e a sua esposa com um filho no colo.

Certo dia quando eu entrei ali para comprar alguma coisa, Vicente teria recebido um estoque de papel higiênico e já teria preenchido as prateleiras com as unidades e recolhendo algumas caixas do produto para o interior da casa. Disse numa força de expressão:

Tenho papel higiênico para o resto de minha vida! Sua mãe exaltando-se disse: “ O que é isso Vicente, como você fala uma bobagem dessas? --- e ele sorrindo disse: “Ora mãe, quem sabe?”

Uma semana depois Vicente morria de repente. Deixando na orfandade uma escadinha de filhos, a esposa e a mãe.

Armando Melo de Castro.