quarta-feira, 14 de março de 2012

A GALA DO GALO

                                                   Foto para ilustração
Semana passada, eu saí de casa em busca de ovos caipira. Eu não consigo comer ovo de granja. Tenho a impressão de estar comendo ração. É incomparável um ovo com a gema bem amarelinha, frito e misturado no meio do arroz! A gente come quase tendo um orgasmo. Aliás, ovo de granja não tem gameta masculino e ovo sem gameta masculino, nesse mundo de mistérios, pode ser perigoso. Sei lá se isso faz o cristão virar o disco ou virar gilete. Conheci um barbeiro barbudo, bigodudo, com pose de machão, que comia ovo de granja todo santo dia e não era pouco não. De repente, ele passou a brincar de pinto. Pegou uma ginga nas cadeiras e suas mãos flutuavam como de quem dá um “tchauzinho”. Eu sempre fui desconfiado. Afinal de contas, nós estamos vivendo em um mundo tão esquisito, tão confuso! A ciência está sempre inventando uma novidade. Agora chegou a vez do açúcar. Estão dizendo que o açúcar faz tanto mal quanto o cigarro e a bebida alcoólica. Dizem os pesquisadores que o açúcar é tóxico e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do diabetes. É desse jeito. A cada tempo é uma novidade. Sei lá se amanhã vão dizer que o ovo de granja pode deixar o homem falando fino ou brincando de pintinho? Antigamente, homem que falasse fino pesava muito na escolha da moça na hora de encontrar um marido.

Hoje, as coisas estão ficando invertidas. E como as causas são desconhecidas, eu não vou brincar com ovo de granja não. Precaução e oração nunca são demais. Tem muito homem por aí passando a tomar conta da casa no lugar da mulher. A profissão de “marido” vai, a cada dia, ficando mais em evidência. Sabe Deus se isso não é efeito de ovo de granja? Não custa nada ser desconfiado.

Eu tenho um amigo, quer dizer, amigo não é bem o termo: um conhecido. É desses que fica em casa lavando roupa, fazendo comida, remendando meia, varrendo quintal, lavando o piso, a louça, o banheiro e cuidando das crianças enquanto a mulher dele dá um duro danado trabalhando fora. Um dia, ele me disse que o seu prato predileto é omelete e que ninguém a faz tão bem quanto ele. Mas disse, ao mesmo tempo, que só utiliza ovos de granja. Eu entendo, à vista disso, que esse camarada está liberando a sua patroa. Esse negócio de mulher trabalhar fora para competir ou até assumir as despesas da casa, a meu ver, é uma aberração. Essa responsabilidade maior é do homem. A mulher trabalhar fora é uma opção respeitável, porém, não se trata de uma obrigação. Mas, se ela o faz, o dinheiro dela deve ser destinado aos presentes para o marido, filhos e parentes, arrumar unhas, pentear os cabelos, comprar produtos de beleza e se enfeitar. Poderá, também, caso queira, participar no pagamento do salário da empregada. E até colocar na poupança. Com isso já estará ajudando bastante à família. Agora, a mulher trabalhar para ajudar no aluguel, nas prestações, no supermercado etc. e ainda chegar a casa e encontrar o que fazer? Isso aí foge do meu ponto de vista. Mulher tem que ser cheirosa, como se estive sempre preparada para uma festa. Mulher que trabalha fora e tem o seu homem tomando conta da casa deixa a impressão de que cheira macho. Afinal, mulher custa caro e é produto de luxo. Para ter mulher tem que poder e não basta querer. Lugar de homem é no batente. Homem tem que cheirar cerveja. Tem que ter cheiro de suor, tem que ter dinheiro no bolso. Não, necessariamente, no Banco, mas, no bolso é preciso ter. Tem que gostar da fruta, portanto, tem que ser macho. O homem pode fazer a mulher pensar que ele é um diabo, mas um diabo que a carregue.

Sob um sol de estorricar e eu procurando esse tipo de ovos. Entretanto, é quaresma e, na quaresma, as galinhas caipiras quase não botam. Mas é desse ovo que eu gosto, é desse ovo que eu quero. É ele que dá sustância ao macho. Sabe-se que o galo é um macho respeitável pela sua virilidade. Portanto, vou continuar procurando ovos de galinha caipira, mesmo debaixo desse sol escaldante.

Finalmente, graças a minha persistência, tomei conhecimento de que em uma casa, lá pelos lados do Bairro da Lage, vendem-se ovos caipiras:

---Oi de casa!...

---Oi de fora!...

---Disseram-me que a senhora vende ovos caipira?

---Vendê eu vendo, só que não tá teno. Devo ter poco mais de uma dúzia. As galinha num bota nesse tempo de coresma. O sinhor sabe disso?

---Sei! Já me disseram isso!

A velha, então, convida-me para entrar no que aceitei o convite. Ofereceu-me água e me perguntou se eu aceitava café, enfim, aquela recepção que se confere a um bom mineiro. Adentrou ao interior da casa e voltou com uma dúzia e meia de ovos e comentou:

---Esse ovo tá cuma gema marilinha. Dá gosto vê.

---Então, tá do jeito que eu gosto.

---Eu tamém gosto é assim. Num como ovo de granja de jeito ninhum.

---Temos, então, um gosto em comum! Eu também não gosto não.

---O sinhor já viu?Num tem trem mais sem gosto e, além disso, é discorado e num dá sustança. Ovo bão é da galinha que come verde, bicho e porcaria.

---Porcaria!? Ah!...

---Galinha come tudo que vê. Cobra, cambalião, lagartixa, escorpião, e outra coisa que eu num vô nem falá se não o sinhor num vai quere cume os meus óvo...

---A senhora pode falar. Eu não ligo pra isso não!

---Num liga mês, não? Oh! Eu vô falá pu sinhô, aqueles ratinho miúdo, aqui incasa num fica um. Agora, o trem que galinha caipira mais gosta é de bosta.

Riu contente como se as dela fossem privilegiadas com essa iguaria. E continuou:

---Eu tenho uma fia que num come ovo caipira de jeito ninhum. Ela morre de nojo mais é da gala do galo.

---Gala do galo!? Ah sei!...

Saí dali um tanto desconsolado. Aquele papo não me deixou nada satisfeito. Eu tenho pavor de cobra. Arrepio só de ver um cambaleão. Detesto lagartixas, não posso nem pensar em ratos e nunca tinha pensado sério sobre a galadura do ovo. Fiquei com isso na cabeça! Pensei: Vou esperar passar uns dias, assim eu me esqueço do episódio.

Os dias estão passando e eu não consigo me esquecer nem dos ovos e nem do papo da velha que vem, a cada dia, fermentando em minha cabeça que o zigoto de galinha caipira é uma lambança danada, é uma composição de cobra, cambaleão, lagartixa, ratos, merda e mais a “gala” de galo! Meu Deus!

Há quem diga que ovo de granja é gostoso! E eu sempre contrariei quem diz isso. E agora? Como eu vou falar do ovo caipira depois disso?! Vou só pensar! ---- Ai que nojo!!!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

























































quinta-feira, 8 de março de 2012

UM DIA DE CÃO

Foto apenas para ilustração
Quando se trata de emagrecer ou fazer dieta, o cérebro do cristão vira uma tempestade. Não existe coisa mais chata do que fazer regime alimentar e ficar à espera do emagrecimento. Toda vez que penso nisso, chega a ser quase que um martírio. A cabeça do ser humano é muito complicada. Quando eu contava com os meus dezoito anos, tinha uma grande vontade de ser gordo. Comia, comia e, quanto mais comia, mais magro ficava. Quando eu comecei a me entender com a minha magreza, entrei na onda de ser gordo. Agora, não posso ter preguiça de andar, preciso passar fome e, ainda, ser alvo de comentários aborrecíveis.

Na fábula, o lobo e o cão, Esopo conta:

---Amigo cão -- pergunta o lobo faminto e magro – que te fazes pra viver tão gordo?

---É a vida boa que eu levo, --- respondeu-lhe o cachorro. ---Eu sou o guardião da casa do meu senhor. Ele dá-me os ossos que sobram da sua mesa e os seus criados vigiam-me com cuidado para que eu possa dormir de dia e ficar acordado à noite.

---E que sinal é esse no teu pescoço, amigo cão?

---Isto é a marca da minha coleira. Eu fico preso na corrente para ser olhado com mais cuidado.

E o lobo, magro e faminto saiu dizendo que preferia ser magro e livre, a ser gordo e preso.

Estou fazendo dieta. O excesso de peso me incomoda. Ficar sem beber uma cerveja, um refrigerante, é um grande sacrifício. Deixar de comer a vontade o meu feijão com arroz, o meu bife mal passado, o meu churrasco dois pelos, é como que um castigo. Ficar andando sem destino! Eu não sei como existem pessoas que dizem gostar de fazer caminhada! Isso para mim é um tremendo... Bem, afinal eu tenho que me submeter a tudo isso. Enfim, é uma questão de razão. Eu devo fazer esse sacrifício.

Primeiro dia de caminhada. Ao passar em uma das ruas do meu mapa que fora cuidadosamente traçado, passo defronte à casa de um amigo meu assentado em um banco à sua porta. Como há tempos eu não o via, não me foi possível evitar uma parada. O Pedro mais parecia um Buda gigante, todo esparramado. Suponho que oitenta por cento do seu corpo foi tomado pela barriga que parecia um fole de ferraria. As pernas abertas. Camisa de fora das calças. Ponta da língua fora da boca e respiração ofegante. Contudo, sorridente como sempre.

---Olá Pedro, como vai?

---Bão e gordo!

---Você está gordinho mesmo!

---Gordinho não. Eu tô gordão! --- E riu gostoso.

---Você, então, gosta de ser gordo?

---Num é que eu gosto. É qui eu fico muito preso e preso come muito.

---Você já tentou fazer dieta?

---Num dô conta não. Nem penso nisso. Cumê é bão dimais, Armando!

---E você come muito? ---Perguntei.

---Uma latinha dessas de doce eu abro ela e logo, logo, meia vai imbora. Ovo é meia dúzia frito cum farinha. Pão de queijo uns cinco cum carne. Cedo é meio bolo. Carne eu gosto é bem mantegosa. Gosto de cumê até iscorrê mantega no canto da boca. Uma custela de boi assada e um pedaço de toicinho de barriga, ah, num tem coisa mió não. Frango tá teno qui sê dois. Um vai quais só pra mim. Agora, o que me ingorda é o arrôis. Esse é qui é danado. Eu como quais uma caçarola de arrôis duma veis. É o qui tá me engordano. Mais eu num dô conta de dexá de cumê não. Quero morrê de barriga cheia...

---E você não sente nada?

---Sinto umas parpitação. Eu até tô quereno ir no médico mais é que a gente chega lá e ele inventa tanto remédio que eu até vô dexano.

---Você não tem medo?

---Medo de quê? De cumê? (Riu satisfeito) Eu num tenho medo nem de morrê qui dirá de cumê? Um dia eu iscutei, num sei quem falá, qui a baleia só bebe água e come peixe e é gordona. Ah! Tamém quando eu morrê de todo jeito eu vou virá ossada memo. Tá bão! O maió disajeito é quando vô no banheiro. Aí a patroa tem que me ajudá!

---Ajudar? Como assim?

---Eu num dô conta de limpá não...

---Quer dizer que...

---É ela que me limpa!

---Ela que limpa você!?

E eu depois disso, saí assustado, andando feito um louco e naquela ânsia de emagrecer fui pensando sem parar. Pensava em aprender a passar fome, em ficar um ano sem comer. EU PRECISO!!! Preciso me acudir, enquanto há tempo. Perto do Pedro, eu estou magro! Afinal, eu quero é ser livre como um lobo e não quero ficar preso às minhas banhas, como preso fica o cão na corrente.

À frente, encontro-me com uma antiga vizinha sorridente e diz:

---Olá, Sr. Armando! Andando para se emagrecer? Isso é bobagem. Gente velha cansa as pernas e a barriga continua. Meu pai nunca andou, nunca fez nada. Viveu 96 anos. Vou falar para o senhor: andar para emagrecer é querer ir para o céu sem morrer. Eu tenho um primo que é carteiro. Ele anda o dia inteiro e está gordo feito um balão.

---Bem, só que eu faço dieta, também, Dona Lia!

---Poupando a boca, Sr. Armando? Não faça isso não! Cuidado com a anemia. O senhor gordo está bonito. Larga disso!

E nessa confusão mental, vem em mim a vontade de falar um nome bem feio, daqueles bem cabeludos, tipo pedra 90. Um palavrão que esvazia a gente por dentro de uma só vez. Porém, acabou ficando apenas na vontade. Só em pensar, eu devo ter perdido mais de mil calorias.

Gordo! Gordo! Saber que um dia eu fui magro e pensei que ser gordo era bom. O tempo é que era bom. Eu pensava e não sabia o que pensava.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.


Crônica relacionadas
http://candeiasmg.blogspot.com/2011/05/rainha-do-cochicho.html




quinta-feira, 1 de março de 2012

A PERUCA DO CAPADOR

                                                 Foto ilustrativa - HI-FI
Bicho complicado é o homem. Apesar de ser o único animal racional, ocupante do primeiro lugar na escala zoológica, faz cada barbaridade de deixar até os seus irmãos gelados, arrepiados e com os olhos arregalados. O homem é o maior depredador do mundo. Além disso, é sádico. Passa a faca no pescoço de uma galinha; dá uma paulada na cabeça de um coelho; joga uma rã em uma lata de água fervente; marreta a cabeça de um cavalo; estoca a espinha de um boi além de lhe malhar a cabeça com um marrão pesado; atira em uma ave e quase sente um orgasmo ao vê-la cair na boca de um cachorro; enfia uma fisga no traseiro do tatu e mete a faca no coração de um porco e por aí vão as mais diversas formas de matar um bicho. O que mais impressiona é a frieza das pessoas que fazem esse tipo de trabalho. Parece que sentem um imenso prazer nisso.

A gente fala, mas, fazer o quê? Ficar sem comer um pedacinho de carne não dá? E lá, entre os bichos, existe, também, a violência. A carne humana é um prato delicioso para muitos animais. Se se jogarmos um defunto em um chiqueiro, veremos logo o que acontece! Portanto, se a gente for pensar bem, estamos, mais ou menos, empatados. Agora, esta história de falar que o homem é racional é coisa de homem para homem, porque se os bichos tivessem algum discernimento, jamais diriam uma coisa dessas sobre nós. Queiramos ou não, somos todos animais violentos. É um comendo o outro. Os peixes, por exemplo, parecem ser os piores. É o maiorzinho comendo o menorzinho até chegar ao grande. Aí o homem vem e papa! É o bicho racional sempre levando vantagem na base da covardia.

Bem, deixemos isso para lá porque afinal esse assunto é mais apropriado para os vegetarianos que mais parecem mandarová comendo folhas. Na hora que estou de frente com um bife de boi mal passado ou de um espeto de churrasco dois pelos, eu mudo de idéia e vou achar que essa bicharada tem mesmo é que morrer. Afinal, eu sou um animal carnívoro e como quaisquer carnes. Ah, como gosto de carne!

Aqui, em Candeias, antigamente, no tempo em que não existia a lei que proíbe criar porco na cidade, diversas casas mantinham um chiqueiro de porcos em seus quintais. Alguns faziam chiqueiros bem feitos: cimentados com cocho de cimento e coberta para o animal. O lugar era lavado diariamente e, mesmo assim, ainda exalava o cheiro danado de desagradável. Agora, o pior era aquele que fazia um chiqueiro tosco, com casqueiro de madeira, ou seja, aquelas tábuas serradas em primeiro lugar e que vêm acompanhadas da casca da árvore. Sem cimentação, onde o animal fuçava provocando lama, com um cocho rústico de madeira ou, às vezes, em uma improvisação de pneu de caminhão. Isso aí era terrível! Essa lambança proporcionava uma criação de moscas e um odor fétido de tirar o apetite de qualquer glutão. Eram muitas reclamações, todavia, como não existiam leis ou, se existiam não se faziam cumprir, o vizinho que não gostasse desse tipo de coisa sofria. Acontecia de causar indisposição entre bons vizinhos que acabavam se tornando inimigos.
Havia um hábito de ajuntar lavagem para o fulano e, quando esse matava o porco, ganhava um pedaço do bicho. Caso o pedaço não fosse bom, o fornecedor de lavagem ficava tiririca da vida.

Outra forma de alimentar os porcos era com soro da fábrica de manteiga do Bonaccorsi, acrescentado de farelo de arroz. Como, nesse tempo, Candeias era auto-suficiente na produção de arroz, as máquinas que limpavam esse grão trabalhavam dia e noite. O porco das pessoas mais pobres quase não via milho. Acontecia muito de serem vistos porcos chorando de fome. Se alguém nunca viu um porco chorar de fome, não queira ver: é triste!

Muitos engordavam um capado em sociedade. Isso aí costumava dar uma ingresia na hora de partir o bicho. Aquele que o sediava se via no direito de algo a mais e costumava a “passar a perna” no sócio.

O porco precisa ser castrado quando ainda novo porque, ao engordar, a sua carne e, principalmente, a sua gordura ficam com um odor muito desagradável e um sabor bem prejudicado. A castração, em grande escala, é feita através da aplicação de hormônios que impede as funções das glândulas reprodutivas. Já em um porquinho aqui e em outro acolá é feita a castração escrotal. O método consiste em extirpar os testículos do animal que guincha desesperado, chamando atenção de todo mundo. A primeira vez que eu vi isso, eu fiquei tão horrorizado que senti que o corte era em mim.

Por falar nisso, eu me lembro, quando assisti uma operação dessas no quintal da casa de meu tio, João Delminda. Era um leitãozinho pequeno, da raça “Carunchinho” e para fazer aquela maldade foi chamado o Zé Capador. Diziam ser ele o mais famoso “capadô de porco das Candeia”

Se o leitão era roncolho, ninguém arriscava outro castrador porque operar um porco, com apenas um testículo, é muito difícil e Zé Capador era, realmente, o melhor. Nunca, até então, um animal teria morrido depois de sua castração.

Baixinho, cara redonda e orelhas de abano. Parecia um coelho. Tinha um mascado com a dentadura que dava a impressão de que estava procurando uma semente de goiaba no buraco do dente. Se se recebia um elogio, ria e se ria, dava pra ver a vermelhidão da sua úvula palatina em contraste com o céu da sua dentadura. Entretanto, o que mais chamava a atenção no seu porte, era o cabelo. Tinha uma calva que se estendia quase até a nuca. O maior atrativo para os pensamentos íntimos de quem o via, era a sua cabeleira. Esta agasalhava a careca de forma precária, contudo, deixando sobrar uma franja em um ridículo contraste com os cabelos naturais e grisalhos que rodeavam a cabeça. Era uma cabeleira caseira, talvez, feita por ele mesmo ou, então, aproveitada de algum boneco de manequim jogado fora. Suas roupas, apesar de simples, eram impecáveis. Em síntese, era um homem, extremamente, vaidoso. Chegava trazendo a sua faca que ele dizia ser especial e própria para o que chamava de “capamento”, um vidro de desinfetante, uma agulha e linha. Primeiro, contava uma historinha de sua vida de capador e, depois, se postava como o Dr. Zerbini em uma sala de cirurgia e, ainda, se esnobava:

--- Nunca matei um roncôio no “capamento”!

Certo dia, Zé Capador descia a Rua Coronel João Afonso e, ao passar debaixo de um pé de beijo que existia na porta da casa da Sra. Marica da Melada, não viu um galho pendente no qual a sua cabeleira ficou agarrada. Isso aconteceu às vistas de muitas pessoas. Todavia, ele continuou andando como se não tivesse acontecido nada. Eu, como sempre, vigilante assisti a ocorrência e gritei atrás dele:

O cabelo do sinhor ficou agarrado! E Zé Capador, com aquele olhar de ódio, contestando o óbvio, disse:

---Que isso minino?! Cê ficô doido!? Aquilo lá nunca foi  meu não!

É, mas acontece que, no outro domingo, eu fui à missa e o vi com uma cabeleira bem diferente e ela tinha os fios de cabelos meio loiros. Afinal, no caso dele, acredito que qualquer cabelo servia.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos