Total de visualizações de página

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

UM FRANGUINHO AO MOLHO, ANGU E QUIABO.



Adorar é um tratamento dado aos deuses, mas é a melhor forma que eu encontro para dizer como gosto de um frango ao molho, bem entendido, um franguinho caipira, caipirinha mesmo, ao molho pardo ou de qualquer outro jeito de molho. Eu adoro! Que me perdoem os deuses! Mas eu adoro um franguinho caipira! Quando eu vou até a cidade de Luz, terra da minha mulher, eu tenho o prazer de saborear por lá, um cabidela feito por minha sogra que é especialista no assunto.

Em Candeias, minha mãe sempre encomenda ao João do Taxi um desses para que eu possa matar esse gosto parecido com o de mulher grávida. O frango caipira ao molho, com quiabo e angu, é um prato incomparável para mim, pois me leva aos distantes anos da minha infância.

Infelizmente, quem mora em apartamento e em cidade grande, como no meu caso, esse luxo torna-se difícil e só acontece em raras oportunidades.

Eu já criei muita galinha em fundo de quintal; mato e preparo um frango em 40 minutos em condições apropriadas. Piso com o pé direito nos pés da ave e com o esquerdo nas asas. Com a mão esquerda, pego a cabeça, e com uma faca bem afiada, com a mão direita raspo o pescoço, dou uma batidinha para o sangue subir, dou um corte certeiro, e vejo o sangue cair sobre um prato e o bicho esmorecer. Eu sinto um pouco de pena, mas já que o frango existe com o objetivo apenas de alimentar o homem, isso faz com que me sinta perdoado. O meu corte é tão preciso que parece até corte de médico numa cirurgia.

Esta semana eu fui até à feira e vi lá uma gaiola cheia de frangos caipiras, bastante apetitosos. Nesse caso resolvi fazer uma proeza. Pensei: Vou experimentar ajeitar um bicho desses lá no apartamento. Comprei um frango que foi colocado dentro de um saco e vim para casa, satisfeito da vida, porque era o frango no saco e os planos na cabeça. Vou comer primeiro o sangue, depois o fígado, depois a moela, depois as costelas tomando uma cervejinha etc. e tal.  Toda essa empolgação, com a minha mulher, do lado, feito ave agourenta, tentando me tirar de cabeça. “Olha que isso não vai dar certo! Compra um de granja!” --- O negócio é que eu não gosto de molho de frango de granja e ela não gosta de frango caipira.

Assim que cheguei a casa preparei o ambiente para sangrar o bicho, escaldar, depenar, sapecar, lavar com sabão e limão, abrir, destrinchar, colocar na panela, esperar e começar a saborear.

Só que deu tudo errado. O diabo do frango quando eu pensei que estava morto saiu feito um danado pelo apartamento afora, espalhando sangue para todos os lados, Assim que o tive nas mãos, era hora de enfia-lo numa panela cheia de água fervente e ai foi outra tragédia. O danado do frango ainda não tinha morrido direito e deu aquela rabanada.

Foi uma lambança total e o pior: ter que ouvir a minha mulher o tempo todo dizendo: “Eu falei que isso não ia dar certo! Eu bem que falei... Mas você é teimoso! Podia ter comprado um frango de granja era muito mais fácil...”

Mulher fique quieta!!! Se eu gostasse de coisa fácil eu não teria me casado com você!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos








segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

NA FILA DO SUPERMERCADO.



Uma coisa eu devo admitir: no meu time de aposentados tem “nego” manso. Essas filas prioritárias, às vezes, me leva a pensar que não foram criadas porque o idoso não aguenta ficar muito tempo de pé numa fila, mas sim, porque quando ele chega ao caixa do supermercado, ou do Banco, numa bilheteria ou em qualquer outro lugar onde tenha uma fila, ele não olha para trás e como aposentado, está sempre procurando uma chance de puxar conversa, especular, interrogar, bisbilhotar, tendo em vista a sua disponibilidade de tempo; ai ele está sempre congestionando as filas.

Ontem eu estava na fila prioritária do supermercado e havia três idosos na minha frente que monopolizaram o processo em mais ou menos meia hora. O primeiro queria saber o nome da funcionária do caixa, de quem  ela era filha, se era solteira ou se casada. Depois tirou um cartão fornecido pelo próprio supermercado e não se lembrava do número da senha e ai foi um custo. E eu ali, com uma cesta na mão --- atrás de mim um velho não muito velho, resmungava: But that fucking!

Veio o segundo e já começou perguntando à moça se era parenta do Clemente funcionário do antigo Credireal. Estava lhe achando parecida com uma filha de um amigo seu. Ainda lhe perguntou se era casada ou tinha filhos. Pagou um pacotinho de caixas de fósforos com uma nota de 100 e ficou o tempo todo justificando porque não teria trazido o dinheiro mais miúdo. E eu ali com uma cesta na mão, ficando, cada vez, mais pesada e o cara atrás de mim resmungando: But that fucking!

Depois veio o terceiro. Esse então deixou o saco bem cheio, principalmente pelo fato de estar na minha frente. Primeiro, ele reclamou de estar muito tempo na fila. Alegava que o supermercado não tinha consideração com os velhos; tinha que por mais caixas; tinha que ter mais respeito com os idosos... E eu ali com uma cesta na mão, agora resolvo coloca-la no chão... E atrás de mim o chato resmungando: More that fucking! E o cidadão da minha frente continuava dizendo que o custo de vida está muito caro, que o dinheiro dele só a farmácia come a metade... Dai elogiou os dentes da moça, dizendo que ela tem um sorriso muito bonito... Não contente, falou do calor e da falta de chuva... E eu ali com a cesta no chão e o  chato atrás de mim, resmungando: But that fucking. O velho, para ser mais chato, ainda queria, porque queria ter informações técnicas sobre um produto, e a moça do caixa mais perdida do que cego em tiroteio... E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking! E para finalizar o velho arrumou um banzé sobre esta questão dos “99”. Dizia que os supermercados inventam esses preços de 99 centavos, mas nunca lhes devolvem esse danado desse 1 centavo. Isso é propaganda enganosa dizia ele. Depois saiu.

Agora era a minha vez...  A moça do caixa com uma cara de quem estava indo para um cadafalso, naturalmente, também, com a capanga cheia, pediu licença e chamou uma coordenadora  e saiu apressada. E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking!

A coordenadora vem, pede um minutinho e alega que a moça volta já.  Mas, voltou num minutinho? Deve ter descarregado toda a sua produção de excremento do mês inteiro. Veio de lá com uma cara de quem fez um cocô muito duro, ou então muito mole. Felizmente agora era de novo a minha vez... Olhei para trás e disse para o cara, vou ser prático... E ele com uma cara de merda diz: But that fucking... Essa frase, também, já estava  enchendo o saco, quando uma senhora com perfil de curiosa, atrás dele, perguntou: “ o senhor esta falando se tivesse uma faca?” O cara riu, se divertiu à custa da pobre velha e se negou a traduzir.

A moça do caixa parecia ter tido uma baixa de pressão de tão mole, um rosto meio desbotado de mulher que vai ser mãe. Na sua camiseta estava escrito nas costas: “Funcionária em Treinamento.”

Fui rápido e em silêncio fui atendido.


Agora era a vez do cidadão que vinha atrás, quando a moça do caixa de novo, pediu licença e chamou a coordenadora que veio e pediu mais um minutinho... Ai o cara avermelhou-se e alto e em bom som, traduziu a frase:  “MAS QUE PORRA!”

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

LEVANDO A VIDA COMO ELA QUER.


Hoje, 16 de janeiro, completo 69 pés de couve na horta da vida. Não tem mais espaço para velas no meu bolo. Diante disso eu agradeço a Deus por já estar vivendo de sobra. Afinal, humanos ao passar dos 65 anos, já estarão nadando contra a correnteza em obediência a ordem natural da vida.

Queira ou não, os contemporâneos têm que aceitar essa realidade, vez que a sociedade está sempre do lado do tempo. Não adianta passar tinta no cabelo; tomar viagra; fazer plástica; fazer aplicações faciais, nada disso vai esconder a mala de anos que o idoso carrega nas suas costas, fazendo  com que o seu corpo vai arqueando com o passar do tempo. O rosto vai enrugando, o cabelo branqueando e o sorriso se modificando. Não dá nem para dizer ex-jovem.

A partir dos 65 anos de vida, o jovem de outrora passa ter uma nova nomenclatura: idoso, ancião, anoso, longevo, maduro, experimentado. Até ai tudo bem, mas e quando passa para, velho, caduco, antigo, esclerosado, quadrado, carunchoso, matusalém, antiquado, gagá, e por aí afora?...  ---Não faltará um sinônimo pejorativo para classificar uma pessoa que carrega nas costas um punhado de anos...

Feliz do idoso que têm uma família consciente e que sabe reconhecer o seu idoso no seu âmago.

Os idosos, do nosso país, infelizmente, apesar do Estatuto do Idoso, são tratados como sucata humana. Os reajustes salariais já não são feitos sobre a pressão da força do trabalho. A saúde que o Estado lhes oferece chega a ser humilhante. E apesar de viver uma ociosidade com dignidade, o aposentado é visto pelos governantes como um peso no orçamento da nação, a qual foi sustentada durante anos com a força dos seus braços.

Os idosos são os viajantes da parte mais perigosa da estrada da vida, cujo ponto de chegada está a cargo do destino.

Hoje, 16 de janeiro, é dia dos meus anos. Não sei se mereço os parabéns por ser tão insistente com a vida, mas naturalmente alguém me dirá feliz aniversário Armando! Que esta data se repita por muitos e muitos anos!... “Se Deus quiser e ele há de querer” assim direi! 

Mesmo sentindo a sutileza na frase junto à ironia da realidade eu direi que quero viver mais. Mesmo cônscio de que sou um idoso vivendo sem previsão de futuro, permito-me ser egoísta... E quero viver mais! Mesmo sabendo que os idosos são as grandes vitimas do tempo, esse fenômeno impiedoso que mede o espaço entre a vida e a morte; que massacra e corrói feito ácido a  carne, ferindo frontalmente a beleza e a saúde que alimenta a vida! Mesmo assim, eu quero viver mais, muito mais!

Quero ainda enfrentar esse tempo que mata virtudes, ironiza os destinos e transforma a matéria deixando-a sem futuro! Eu quero sim, eu quero viver mais, quero os “muitos e muitos anos” que alguém me desejar porque sei que sou parte da Obra da Criação de Deus, e em sendo assim, serei útil simplesmente existindo e persistindo com a vida, graças a vontade de viver!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A PERERECA DA VIZINHA.


Eu como devoto de Santo Antônio, já pela terceira vez na minha vida, nessas minhas mudanças de domicílio, sou levado a morar perto de uma igreja do meu querido Santo Toinzinho, a quem me refiro com muito carinho. Agora, estou morando próximo da sua catedral aqui em Juiz de Fora, onde ele é o padroeiro.

Na Rua Santo Antônio, que passa pelo fundo da catedral tem um barzinho onde eu costumo ir encontrar com uma pequena confraria de amigos da mesma faixa de idade, onde discutimos o futebol antigo, as músicas antigas, os costumes antigos, enfim tudo antigo como nós somos. A maioria da turma come é banha de porco, ovos caipira, gosta de cachaça, pé de porco, não pensa em se separar da mulher e quem ainda tem pai ou mãe, tios ou padrinhos, tomam a bênção. Não vou contar o que eles falam do viagra porque senão fica feio. Mas nas trocas de ideias cada um acaba sendo representante de uma doencinha. Contudo, estão ali reunidos e tomando uma cervejinha, uma pinguinha e comendo um rebatizinho. Parece que as coisas no sufixo diminuitivo “inho” ficam mais leves.

Para chegar nesse local eu tenho que passar pelo adro da Catedral, que representa uma grande área onde existem um estacionamento para automóveis, dois velários onde os fieis colocam velas para queimar; uma gruta de orações e um tipo de chafariz de cimento onde as pessoas lavam as mãos; moradores de rua fazem uso para encher as suas garrafas etc. Enfim, trata-se de uma área que fica bem movimentada com a chegada da noite, com pessoas transitando e visitando a catedral.

Ontem, ao anoitecer eu passava de volta pelo local e deparei-me com um quadro inusitado. E como meus olhos não são cercados, eu dei uma paradinha para apreciar a tranquilidade de uma pequena família que se banhava naquela bica. Um homem, uma mulher e uma criança de uns oito ou dez anos, com características de nordestinos recentemente chegados à cidade. O pai da família de média estatura, contando uns trinta anos mais ou menos, cabelo e barba bem aparados, camisa azul claro e calça jeans. A mulher com uma bermuda azul; blusa amarela, cabelos curtos, corpo chamativo e olhar reservado. A menina com aparência de ter sido modelada na mãe; bastante parecidas. --- Que Deus me perdoe, mas quando vi aquilo eu fiquei parado a uma média distância para observar a tranquilidade humana.

O homem com uma marmita vazia colhia a água na bica do chafariz e no corpo sem camisa se banhava como se banham os passarinhos. Via-se que a sua preocupação maior era com os sovacos peludos; fazia isso enquanto era aguardado pela mulher e a filha. Depois abaixou as calças e com um pano molhado o fez passear por dentro de uma cueca tipo ceroulas. Terminado o seu banho foi a vez da criança. A mãe veio com um pano molhado enfiava por dentro do vestido da menina atingindo todas as partes. --- Finalmente chegou a vez da mulher. Ai foi a melhor parte, porque a assistência teria aumentado, já não era só eu, e eles não estavam nem um pouco preocupados. Estavam como atores numa filmagem muito séria.

A mulher esticando o cós da bermuda enquanto o marido vinha com a marmita cheia de água e jogava nas suas partes íntimas e assim ela as esfregava como se estivesse passando por uma coceira. Parece que a genitália da patroa estava carente de asseio. Logo ela tirou a blusa e ficou só de sutiã e por dentro deste, passava a mão molhada.
Finalmente os três banhados, rostos lavados, roupas molhadas, cabelos molhados e penteados, fresquinhos, colocaram a marmita no saco e desceram tranquilamente a via dentro do adro da catedral, como se estivessem saído da piscina de um hotel 5 estrelas, quando se ouvia o homem dizer: “Agorinha mesmo nois tá tudo inxutinho”.

--- Nisso, dois rapazes que haviam presenciado tudo de dentro de um carro estacionado pouco acima, cantarolavam numa alusão a música de carnaval de Dercy Gonçalves:
"A perereca da vizinha agora ficou lavadinha, bem lavadinha, bem lavadinha"!

E eu descia a via e refletia: Viver é uma arte!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos