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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

SALÃO REIS ALVES.



             Candeias, no passado, ainda antes da sua emancipação, era muito frequentada por viajantes e mascates que tropeçavam uns aos outros na busca do comercio para a venda de seus produtos.
Era vendedor de pano, de livro, de miudezas, de alimentos, confecções, enfim, de tudo. Nesse tempo os comerciantes não iam fora buscar a mercadoria; compravam dos viajantes os produtos que vinham através da ferrovia, Rede Mineira de Viação.  Existiam poucos veículos e o povo quase não viajava e se o fazia era de trem e quase sempre a passeio. Tanto é que a nossa cidade de Candeias, até antes de ser emancipada, tinha hotéis e pensões, para atender os comerciantes itinerantes.

Sabe-se que os viajantes com o convívio que mantinham com as cidades por onde passavam, registravam as suas observações e por vezes um tanto equivocadas ou exageradas. Cristais a cidade do biscoito duro; Arcos o bodoque; Oliveira a terra dos gays. E assim por diante. Afinal, ninguém apelida pejorativamente a sua terra. Para cada caso tem uma história. Oliveira, por exemplo, é porque no passado existiam três gays atendentes distribuídos em pontos estratégicos: um na estação; outro nos correios; e o terceiro no hotel. O viajante chegava, dava de cara com o da Estação; ia tomar o hotel e era atendido pelo segundo; vendia e ia até aos correios enviar os pedidos, lá estava o terceiro gay. E isso lastrava.

Tudo começou em Candeias por causa de um viajante que visitou a cidade pela primeira vez e levou um susto danado. Assim que chegou à cidade hospedou-se no antigo Hotel de Dona Amélia, e posteriormente do Sr. Manoel Alves, e que ficava localizado onde hoje está o prédio da Eletrozema.

De frente do hotel, onde hoje está localizada a “GRAZZY Modas” havia a Barbearia Reis, do Sr. Pedrinho Reis, que trabalhava com os seus filhos, Calito, o meu avô, pai da minha mãe; Antônio, João e Juquita. Este último tinha problemas mentais, mas trabalha normalmente. A sua deficiência se limitava a umas brincadeiras bobas que poderia assustar apenas a quem não o conhecia. Como barbeiro, cortava cabelo normalmente.

Jonas era um negro que sofria das faculdades mentais e vivia para cima e para baixo solfejando uma música da qual ninguém entendia nada. Outras vezes falava sozinho quando xingava alguém a quem chamava de Joaquim, do qual ele dizia: “Num gosto de Joaquim Manquitola” e repetia esta frase vezes seguida. Além disso, costumava correr atrás de quem ria do seu comportamento.

O Comerciante Celestino Bonaccorsi não tinha problemas mentais, mas era extremamente nervoso. Demonstrava isso quando ficava contrariado ou perdia alguma coisa; nessas oportunidades perdia também as “estribeiras” e rodava por dentro do balcão para lá e para cá sem que soubessem o que falava, pois o fazia no idioma italiano até que se dava com o objeto perdido. Muitas vezes procurava os óculos e depois de uma intensa procura acabava o encontrando preso na sua testa.
Na Rua Expedicionário Jorge, onde atualmente mora o Zequinha da Donate, tinha uma venda do Sr. João de Sousa, avô do Zequinha. Era uma pequena venda onde comercializava apenas produtos de primeira necessidade. João de Sousa tinha um filho que tinha problemas mentais e se chamava Brasil e que ficava sempre ali na venda.

Godinho era um baixinho, magro, miúdo e que não tirava o paletó nem para dormir. Também era deficiente mental e ficava com o olhar vidrado nas pessoas, principalmente em gente desconhecida. Ria como se o mundo fosse todo engraçado.

O Viajante novato, antes de sair a trabalhar, resolve passar na barbearia do Pedrinho e fazer a barba. Era hora de almoço e quem lá estava de plantão era o Juquita. Recebeu direitinho o freguês, amavelmente como todos os barbeiros quando recebem um freguês novo. Tão logo ensaboou o rosto do cidadão e começou a escanhoa-lo deu nele um repente, ele arregalou os olhos e falou firme colocando o corte da navalha no pescoço do freguês: “Vou dar um talho no seu pescoço” e deu aquela rizada não muito comum a uma pessoa normal. O viajante desesperado safou-se e saiu feito louco pela rua a procura de outro barbeiro para terminar de fazer a sua barba. Enquanto Juquita ficava rindo do pobre coitado.

Depois desse susto, o vendedor se dirige à Casa Celestino Bonaccorsi. Era lá o primeiro comerciante a ser procurado pelos viajantes. Bonaccorsi nesse tempo era o grande comerciante de Candeias e um dos maiores da região. Assim que o viajante adentrou o estabelecimento do italiano, ele havia perdido os seus óculos, e blasfemava no idioma italiano. Quando o vendedor viu aquilo, saiu e imaginando voltar mais tarde.

Daí ele foi parar na venda do João de Sousa. E lá ao oferecer os seus produtos que não passavam de miudezas, o Brasil, ali presente e na ausência do pai, gentilmente lhe responde: Olha meu amigo, nós não estamos comprando nada no momento. Estamos aguardando uns pedidos que vão dar mais de cinco milhões. Só de balas nós compramos mais de duzentos quilos. O viajante olhou para um lado e para o outro e saiu desconsolado.

Descendo a avenida encontra-se com o Godinho que atravessa na sua frente arregala os olhos dá uma rizada e diz: “Bobão! bobão!”. E dá uma risada mostrando uma boca  pobre de dentes e rica de baba.

E ao voltar para o hotel, encontra-se, finalmente, com o Jonas cantarolando e ao vê-lo começa: “Gosto de Joaquim não”. Joaquim é manquitola. Cê já viu Joaquim manquitola? Já? Gosto dele não!

E o viajante chegou ao hotel querendo saber qual o horário do primeiro trem que iria passar na cidade para que ele partisse no mais depressa possível. E sem perceber exclamou intimidado: “Vai ter doido assim lá no inferno!”.

Desde então quando chegava um viajante era a sua pergunta para o carregador de malas: “É verdade que aqui tem muito doido?”.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A VELHA ESTOUVADA.

                                                Parque Halfeld (Juiz de Fora MG)

Contando com uma população de fato e flutuante beirando os 600 mil habitantes, Juiz de Fora, a importante cidade mineira, tem 18% de população idosa. O idoso daqui parece que é diferente daqueles de outras praças. É comum ver pessoas com idade acima dos oitenta anos pelas ruas transitando entre os carros e correndo grande risco de acidentes.

O Parque Halfeld, localizado no centro da cidade, fica durante o dia povoado de idosos conversando, jogando damas e outros entretenimentos. E os assuntos mais evidentes são doenças, remédios, aposentadoria defasada, o peso da idade, conjugado de acordo com o verbo, ou seja, o passado que para todos tem uma medida de tempo muito grande... Um presente sem ação e um futuro sem esperanças. Aliás, o que praticamente não se fala ali é de futuro. 

À tarde, por volta das seis horas, quando as calçadas estão lotadas de pessoas apressadas, para lá e para cá, voltando do trabalho e o comercio fechando as suas portas; vemos idosos de mãozinha dada, totalmente descontraídos passeando vagarosamente em meio aquele tumulto de pessoas indo e vindo sem nenhuma preocupação. Vão com os seus passos rasteiros na maior tranquilidade de quem já cumpriu todos os seus compromissos com a vida. E se alguém lhes esbarra ou lhes aborrece eles ficam bravos e há casos de até citarem a lei 11.765, do Estatuto do Idoso.

Muitos idosos, às vezes, se tornam engraçados quando são contrariados. Parece que querem que o mundo seja vazio, pequeno e por serem de outras gerações e terem chegado primeiro aqui no planeta, julgam-se proprietários de um espaço maior, quando na dura realidade o espaço do idoso vai ficando dia após dia a cada vez menor.

Com passe livre nos ônibus coletivos por vezes agem com esnobismo. E quando detêm alguém assentado nas poltronas destinadas a eles pedem licença de forma determinada para que desocupem o lugar. Outras vezes começam a resmungar, birrar, e até denunciar ao cobrador. Parece que gostam de ser impertinentes e ranzinzas. Talvez por terem poucos problemas após uma vida problemática.

Eu que já estou jogando no time dos idosos, às vezes, detenho-me numa observação que me leva a pensar que ainda estou jovem diante dos acintes desprovidos de maldades por certos idosos cujo tempo ao invés de lhes deixar mais cautelosos os fazem impacientes em demasia.

Ontem quando eu me dirigia até ao Alto da Gloria, aqui em Juiz de Fora, a fim de comprar uma ração especial para a cachorrinha da minha filha, resolvi tomar um ônibus próximo daqui de casa, na Avenida Rio Branco. E logo que adentrei o coletivo, no segundo ponto, entrou um jovem cego, auxiliado por outro passageiro. O deficiente visual foi acomodado numa das poltronas destinadas aos passageiros de passes livre, ou seja, que não pagam passagens incluindo idosos, deficientes, gravidas etc. O rapaz ao ocupar o último acento disponível fez com que a área destinada se completasse.

Mais adiante entrou uma senhora contando uns setenta e tantos anos, baixinha, magrinha, olhos esbugalhados, boca pequena, nariz avermelhado, cabelo enrodilhados e um buço respeitável... Parece que tinha também cabelo nas ventas. Um perfil de quem vinha para criar caso. Só lhe faltava estar escrito em sua testa: “Eu sou chata”. Entrou, olhou para um lado olhou para o outro e em meio minuto, tinha-se-lhe soltado completamente a língua; e dirigindo-se ao cego disse-lhe:

----“Aqui num é procê não moço, o seu lugar é lá atráis... Eu tenho direito purque tenho quais oitenta ano.”.

Alguém tentou lhe explicar que se tratava de um deficiente e que lhe era permitido estar ali. Mas a velha insistiu:

----“Ele é novo e o que tem sê cego? Lá perto de casa tem um cego lá que é cego só na hora que sai na rua. Vive vigiano a vida dos ôto. Tem pôco tempo ele arrumou um futico danado com o nome da minha vizinha, falano que ela tava andano com o vizinho da rua de baxo. Esses cego de hoje inxerga mais do que morcego sô!. Esse memo ai foi lá em Santos Dumont vê show do Gino e Geno... O qui tem de cego bão da vista ai num dá nem pá conta... Num me ingana não purque eu num gosto!”.

Diante disso, eu me levantei a fim de ser cavalheiro e ofereci o meu assento para a velha que protestou logo:

---- “De jeito nenhum! Não sinhor meu sinhor, pode fica sentado. O sinhor parece que é mais veio do que eu!”.
 Enquanto isso o cego indignado, pediu para descer no próximo ponto, enquanto a velha assentou e se sentiu a dona do mundo.

Agora eu, tive uma vontade danada de lhe dizer: --- Velha chata, você é cega, procure olha que entre mim e você tem uma diferença de idade muito grande... Eu tenho só 69 anos e não estou na hora da morte não viu!? 
Mas preferi não ser um velho chato. Dei o sinal e desci, eu já estava chegando ao fim da viagem.

Armando Melo de Castro

Candeias Casos e Acasos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

PADARIA ANDRADE

O Blog Candeias MG Casos e Acasos fará hoje uma homenagem ao fundador de uma das mais tradicionais empresas candeenses, e a mais antiga no seu ramo de atuação, ou seja, indústria de panificação. Estamos falando do candeense amigo, Mozart de Souza Andrade, filho de José de Souza Andrade e Dona Zenóbia Lara.

Nascido no dia 11 de janeiro de 1917, na comunidade rural de Boa Vista, em Candeias, teve uma adolescência muito humilde como lavrador, contudo foi um menino muito feliz. Aos 22 anos de idade resolveu se mudar para a cidade em busca do seu espaço próprio. Foi balconista entre outras atividades. Dono de um talento empresarial explícito, já em 1950 resolveu montar o seu próprio negócio. Foi quando nasceu a Padaria Andrade, uma pequenina padaria junto à residência de sua mãe.

Tudo que é necessário para que uma pequena empresa venha a crescer, Mozart tinha com sobra: honestidade, perseverança, vontade de trabalhar, tato comercial e qualidade dos produtos.

No princípio era ele quem fazia tudo. Sabe-se que os padeiros trabalham a noite. E fica difícil saber a que horas Mozart descansava ou dormia. Amassava, assava e ainda saia vendendo. Não tinha loja nesse tempo, Dona Zenóbia sua mãe, o ajudava vendendo os produtos à porta quando ele não estava.

Um lançamento de Mozart à época foram os cartões. O freguês comprava os cartões para o mês todo. Cartões de valores diversos. Era uma forma de vender a prazo onde o freguês não tinha como duvidar do vendedor. Compra de cartões com pagamento antecipado, tinha um desconto de 10%. 
Lembro-me de ver as pessoas pagar os pães com cartões.




                                               Mozart de Souza Andrade

Durante muitos anos Mozart foi visto pelas ruas com o seu balaio de pão até que foi crescendo, ampliando o negócio e admitindo funcionários.

Nas festas da Semana Santa ou do Rosário, a Padaria Andrade funcionava dia e noite. Naquele tempo durante esses eventos a cidade dobrava a sua população, isso porque vinham os candeenses ausentes de outras cidades; mais aqueles da zona rural. Não existia o êxodo rural verificado nos dias atuais. A produção nesses dias tinha que ser aumentada. Pessoas fora do ramo procuravam Mozart e pediam um balaio de pão e saiam à procura de fregueses eventuais. Eu mesmo fiz isso certa vez. A meninada ganhava um bom dinheiro. Mozart sempre recomendava não por a mão nos pães, e fazer o uso do pegador que ele fornecia.

Entre os produtos da Padaria Andrade, há um que eu nunca me esqueço; era o pão tatu, talvez pelo nome exótico de um pão; além da famosa rosca da rainha e do pão sovado, originalmente conhecido por São José e com um incremento diferenciado, a semente de erva doce; até hoje fabricado em dias distintos.

Mozart foi sempre um grande amigo. Viveu a vida em prol da família, sua mãe, Dona Zenóbia, esposa, Maria e seus três filhos, Nilton, Zenóbia (Preta) e Cidinha, para os quais deixou um legado moral e financeiro. Seu esporte favorito era o futebol ao qual dedicava nos seus raros momentos de folga.

A Padaria Andrade encontra-se situada no mesmo local de sua fundação, na Rua Celestino Bonaccorsi, 44 onde nasceu, cresceu e se encontra até hoje.  Teve um grande desenvolvimento estrutural, inclusive com filial em Formiga. Vem sendo muito bem administrada pelo herdeiro da empresa, Sr. Nilton Andrade, um empresário que busca na modernidade o crescimento necessário imposto pelo mercado, além de seguir à risca os bons princípios morais e profissionais de seu tão querido pai. E isso, faz com que a Padaria Andrade, hoje acumulando a função de lanchonete, vem sem dúvida alguma, liderando em Candeias, o mercado de panificação.

Parabéns Nilton Andrade por dar continuidade a um trabalho que não poderia realmente ser interrompido, tendo em vista a circunstância com que foi começado. Que Deus o abençoe para que a Padaria Andrade continue fazendo história --- a História de Candeias.

E a você meu amigo Mozart Andrade, onde quer que esteja, receba o nosso abraço e parabéns pela missão cumprida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.





sábado, 7 de fevereiro de 2015

O MEU CANTO DE CORDEL.


Eu canto o horizonte de minha terra
E nesse horizonte eu canto a rua onde eu nasci.
A minha tão querida Coronel João Afonso
Agora, tão diferente daquela onde eu vivi.

Eu canto os senhores fazendeiros
E dos fazendeiros eu canto os cafezais.
Semeados por homens progressistas
Tão bem vindos desde os tempos de Tendais.

Eu canto o município de Candeias
E de Candeias eu canto o seu fundador
Zoroastro Marque da Silva,
O nosso querido e senhor doutor.

Eu canto a Prefeitura Municipal 
E da Prefeitura eu canto prefeitos honestos:
Zoroastro, João Bernardo, Raimundo e Nestor,
José Pinto e mais de uma vez o seu pai João,
Trabalharam com afinco e com louvor.

Eu quero cantar também, a Câmara de Vereadores,
E da velha Câmara eu canto vereadores sem remuneração.
Candeenses que trabalharam por amor ao mandato
Pensando apenas em contribuir com a população.

Neste cantar de exaltação à minha terra querida,
Eu sinto no meu coração bairrista uma grande emoção.
Sinto-me invadido por um sentimento de felicidade
Que sai do cérebro e acomoda no meu coração.

Portanto, comovido agradeço e registro neste cordel,
Aqueles que participaram da parte boa dessa história.
Mas também aos que fazem o capítulo negro desta terra,
Haverão de ter manchado os seus nomes na memória.

E para encerrar agora um canto triste,
Não posso deixar de ser verdadeiro.
A Câmara de Vereadores da atualidade,
Envergonha a nossa história por inteiro.

O vereador candeense não sabe, ou finge que não sabe,
O que é ser representante do povo na casa do povo.
Não honra a procuração que recebeu nas urnas
E só pensa em ganhar a eleição de novo.

E nesta ultima estrofe, do meu cantar poético,
Eu canto de Candeias o prefeito.
E do prefeito eu canto o seu salário exorbitante
Sendo omisso e sem conceito para o que foi eleito.

E para finalizar peço justiça cantando neste cordel:
Que os nomes que logram a nossa terra,
Sejam malditos cravados em cada lembrança
Como subtrator humano e infiel bozerra

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos