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sábado, 25 de junho de 2016

O SILÊNCIO DO PISTÃO DE JOÃO VIRGILIO RIBEIRO.


A morte se pensarmos bem, é uma recompensa e se a tememos é porque estamos contaminados pelos sentimentos de apego aos bens materiais. Pensa-se que a morte nos leva e nunca nos busca. É verdade que quando perdemos um ente querido o sentimento de perda se aflora como resíduo do amor dispensado durante o convívio. Portanto, nessas horas, podemos contar com a piedade alheia porque esse é o lenitivo para os momentos difíceis e que nunca deveria nos faltar. Assim, faço neste texto uma presença da morte sem, contudo, marcar a resignação digna de um estoico. No momento que traço essas linhas, penso nas pessoas com as quais convivi durante esta vida e que já não estão mais respirando o ar deste planeta.

 Sempre visito o cemitério São Francisco, onde grande parte das lápides me traz uma recordação de vida, ou seja, daqueles que se foram deixando o exemplo do dever cumprido perante o Criador; sobretudo, o meu pai... O meu querido pai Zé Delminda, com quem converso como se estivesse vivo ali, aguardando a minha visita. Converso, também, com os meus amigos... Quantos e quantos estão lá... Sinto uma saudade danada e procuro ludibriar a morte fazendo de conta que todos aqueles amigos guardados naquele campo santo, estejam vivos, bem vivos, porque não morreram nas minhas lembranças, me faço sentir que estão apenas encantados.

Ontem, estive assistindo a retreta de uma banda e naquele momento me fiz viajar nas minhas lembranças para muito longe quando estive presente no cemitério São Francisco no sepultamento do meu amigo João Virgílio Ribeiro, o João do Sô Nico... Era um grande amigo e gostava de ler esses casos que escrevo remexendo, como brasas, as lembranças guardadas debaixo das ­­­cinzas da minha juventude... João Virgílio Ribeiro, o João do Sô Nico foi sempre um amigo do meu pai e consequentemente de toda a minha família.

João era músico nato. Trazia no sangue o afluxo da música. Durante muitos e muitos anos foi membro importante da Banda Musical de Candeias e do Jaz do Américo Bonaccorsi. Lembro-me, quando ainda menino e acompanhava meu pai nos ensaios do “Tiro e Queda” (Jaz do Américo) Lá estava o João,  arrumando apelido para todo mundo, contando os seus casos e rindo das brigas dos colegas, porque havia os incompatíveis durante os ensaios. E o meu amigo João logo bradava: Gente! Vamos tocar... Parem com essa brigalhada cambada!...

O Jaz “Tiro e Queda” tinha como elenco: Américo no Saxofone; João no Pistão; Zinho no Trombone; Luizinho do Américo na bateria; Zé Delminda, meu pai, no violão; Pedrinho do Candola, no cavaquinho e Zé Vilela o cantor. A maior parte desse conjunto já estava no céu, porém desfalcado, até o dia seis de maio ultimo, do seu pistonista.  Agora está completo lá no céu. Chegou o seu último membro, João do Sô Nico, esperado por todos.

Meu amigo João Virgílio Ribeiro! Obrigado por sua amizade e parabéns por ter sido o cidadão exemplar que você sempre foi... Obrigado pela paciência com o meu mano Carlos, com aquela vespa velha... Obrigado pelo arroz vermelho que você tantas vezes me deu gentilmente... Obrigado pelo som do seu pistom destinado a alegrar o mundo e que doravante estará silencioso; contudo, com certeza, não sairá das nossas lembranças. Seu sepultamento terá sido um dos mais recheados de amigos.

A cidade parou para se despedir de você. Tal como que um dia de festa santa, a banda musical, que você tanto amava, marcou presença e lhe homenageava executando uma marcha triste, uma marcha lutuosa; um agradecimento por tê-la pertencido durante maior parte de sua vida dando-lhe vida às suas retretas. Mas, ali, naquele momento, parecia que a banda chorava por você... Ao acomodar-se no seio da terra mãe, o seu túmulo foi inaugurado com o silêncio determinado por um clarim... Melhor dizendo: por um pistão.

Uma festa triste, muito triste para nós, mas para você, com certeza, terá sido muito alegre. Onde quer que esteja, meu bom amigo, receba o meu abraço e o meu respeito.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A MULHER DO FOLHEIRO!

                                                                   Foto apenas para ilustrar o texto.

Deus tirou todo um dia, só para criar a mulher. Aliás, Ele primeiro criou o homem para depois cria-la. Este foi o primeiro exemplo do Pai Celestial para que saibamos que toda obra prima exige um rascunho.

A mulher é uma musa inspiradora. Na sua essência pode até ser perfeita, contudo, não devemos nos esquecer de que ela é humana. Existem mulheres desleixadas, que não estão nem ai para gerar um filho, e muito menos para assumir a responsabilidade de um casamento. Contudo, Eu não estou aqui querendo dizer como deve ser uma mulher. Estou apenas tentando diferenciar uma da outra.

Não é uma questão de machismo, mas eu tenho comigo as dúvidas de até onde a concorrência da mulher doméstica, com o homem, no mercado de trabalho seja benéfica para a formação de uma família. Eu entendo que a mulher doméstica, como geradora da família, deveria abster-se de funções que impõem horário integral, a não ser que esta tivesse um efetivo amparo pessoal do marido na criação e educação dos filhos, dividindo as tarefas domésticas e não ficando isso durante a maioria do tempo sobre os cuidados de babás e empregadas.

Tem mulher que adora a vida de casa. Gosta de cozinhar, cuidar dos filhos, arrumar a casa e esperar o marido. Contudo, existem àquelas que detestam tudo isso, preferem trabalhar fora e ter uma empregada doméstica que cuida da casa e dos filhos. 

Afinal todo mundo é livre para as suas opções. A vida é assim mesmo. É como se dizem: O que seria do amarelo se todo mundo gostasse do vermelho? Mas esta dupla atribuição, esta ausência da mulher no lar, pode ser uma das causas dos problemas que assolam as famílias.

Existe um clamor de igualdade na sociedade, por parte das mulheres, levando em conta a isonomia legal constituída. Contudo isso bate de frente com os princípios da família onde as atribuições da mulher são diferentes, e muitas vezes essas igualdades tão reclamadas não respeitam as desigualdades impostas pela natureza, tendo em vista que essas são decorrentes simplesmente do amor que incorpora um casal. 

É verdade que muitas mulheres renunciam à vida social para cuidar da família.

Mas mudando de assunto sem deixar a mulher de lado, lembrei-me agora, de uma Dona de casa que morava bem lá no final da Rua Pedro Vieira de Azevedo, ainda na década de 50.

Era o Casal Tomaz e Maria. Ele era já idoso e sua mulher bem mais jovem. Tinham um filho que regulava a idade comigo.

Tomaz tinha uma pequena tenda de folheiro no quintal de sua casa. Naquele tempo não existia com abundância as vasilhas de plástico; e Candeias tinha diversos folheiros que trabalhavam com folhas de aço novas ou aproveitadas de latas recicladas e cobre. Ganhava a vida produzindo utensílios caseiros, como canecas, canecões, gamelas e outras coisas mais.

Eu era menino e de quando em vez, adentrava a casa do Sr. Tomaz em companhia de seu filho e podia reparar a bagunça que era aquela casa. As camas todas desarrumadas; os utensílios domésticos espalhados, prato no chão onde o gato comia; panelas com resto de comida azedando; o chão parecendo não conhecer uma vassoura; um pano de prato quase da cor das panelas de ferro. Galinha dentro de casa, subindo no fogão de lenha beliscando as panelas; gato dormindo no canto do fogão e um cachorro sarnento puxando um ronco bem no meio da sala. Era um horror!

E dona Maria ficava praticamente o dia todo na janela, olhando quem subia e quem descia, mostrando o seu narigão inhato, um cabelo gaforina, e uma janela na arcada superior. As más línguas diziam que ela tinha um namorado extraconjugal que lhe fazia a corte nos fundos do quintal em altas horas da noite.

Certo dia sumiu uma galinha. Dona Maria jurava por Deus, por todos os Santos, que a esposa do Sr. Geraldo, o vizinho do lado, teria lhe roubado o galináceo. Rogava-lhe praga, dizia que mais cedo ou mais tarde aquela balofa haveria de pagar ao diabo, a galinha que lhe teria sido roubada.

Mas como Deus é justo e não aceita pragas, certo dia quando Dona Maria por menos esperava, a galinha sai de debaixo da cama de seu filho, num quartinho próximo da cozinha, com nove pintinhos lhe acompanhando.

Moral da história: A vizinha, esposa do Sr. Geraldo foi absolvida por Deus, por ser inocente e não ter comido a galinha da vizinha. Mas posteriormente, o Sr. Geraldo foi condenado por estar comendo a vizinha galinha.

E depois ainda tem gente que diz que antigamente as mulheres eram mais sérias do que hoje! Engana-me que eu gosto...

Armando Melo de Castro


Candeias MG Casos e Acasos

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O MEU AMIGO XARÁ!

                                                                  Armando José Souto

 nome de batismo que recebi na pia batismal da Matriz de Nossa Senhora das Candeias, e no Cartório de Registro Civil de Candeias MG, teria sido sorteado por minha avó após uma convenção familiar que pôs fim a um impasse: Haviam sido escolhidos três nomes: Marcelo, por tratar-se do Santo do dia de meu nascimento, 16 de janeiro; Arnaldo porque achavam bonito e Armando o qual ninguém se lembra do motivo deste nome como candidato.

 E nunca mais parei de armar, o quê eu não sei. Por estranho que pareça já fui, por diversas vezes, chamado pelos nomes de Marcelo e Arnaldo em circunstâncias inexplicáveis. 

Eram, na minha juventude, em Candeias, cinco Armandos: Armando da Quinha, Armando Bonaccorsi, Armando da Carolina, Armando da Vivi e eu, Armando do Zé Delminda. Tratávamos uns aos outros de xará e sempre fomos muito amigos. Infelizmente o Armando da Quinha, nos deixou ainda jovem após ser vitimado por um erro médico durante uma cirurgia que o deixou paraplégico e sua vida teria perdido o sentido.

Antes desse acidente, Armando da Quinha era barbeiro e antes de ser barbeiro teria trabalhado durante algum tempo em São Paulo. Voltou de lá falando num sotaque paulista, pois achava aquilo bonito. Enquanto isso, a língua dos conterrâneos comia em cima dele por causa dessa característica que teria adquirido após uma curta temporada em São Paulo.

Viera com roupas novas. Gostava muito de calças brancas e camisas estampadas; exibia sempre uma calça de linho branco do que se dizia tratar-se de um puro S, 120 um famoso linho importado, porém os entendidos diziam tratar-se de uma cambraia comum. Muita vez no período do úmido frio de Candeias, Xará da Quinha colocava uma calça branca de linho e se agasalhava com uma japona de lã bem grossa. Aí, a língua do Wanderley Alvarenga comia sem dó e sem piedade: “Veja Armando a cafonice do seu xará; veste roupa de calor com roupa de frio e ainda pensa que está abafando”.

Alguns dias após ter chegado de São Paulo, Xará da Quinha me convidou a irmos juntos arrumar emprego numa churrascaria na cidade de Oliveira, situada às margens da rodovia Fernão Dias. Ficara sabendo, não sei como, que lá havia vagas para balconistas. Ora, tanto eu quanto ele jamais teria trabalhado num lugar desses. Mas fomos assim mesmo. Fomos colocados dentro de um uniforme tipo jaleco, e determinados a trabalhar dentro do balcão. 

Havia três turnos e em cada turno seis funcionários. Fomos escalados para o mesmo turno. Eu aprenderia a coar café e ele a fazer sanduíche. O primeiro contato dele entre os colegas, que somavam uns trinta, entre quitandeiros, cozinheiros e outros mais, etc. - foi com Dona Diva; uma coroa que contava seus cinquenta anos, que trabalhava na cozinha e vendia produtos de beleza nas horas vagas. Dizia ele que amizade com cozinheiros seria indispensável para se comer bem. Tão logo ficou sabendo do comercio ambulante da sua nova amiga, já fez a encomenda de um perfume, na época muito conhecido, chamado madeira do oriente.

Morávamos num dormitório nos fundos da churrascaria. Durante as folgas os funcionários da cidade iam para as suas casas e nós, com mais dois colegas, ficávamos por ali ou íamos dar uma volta na cidade. Nessas oportunidades, Xará da Quinha, ao invés de ir para os seus aposentos ou ir passear na cidade se metia em sua calça branca; numa camisa aciganada, se banhava em perfume e ficava rodopiando por ali, dando palpites, discutindo futebol de dentro do balcão, conversando com as cozinheiras e falando num sotaque paulista: (oiteinta, noveinta, minha calça é de linho cente e vinte etc. e às vezes engolia um R como fazem os paulistas).

O dono da churrascaria, um cidadão calado que quase não falava com os funcionários, chamou o gerente e se queixou do comportamento do Xará da Quinha, que estava por ali parecendo um filho de dono. O gerente que de certa forma já se aborrecia com aquilo chamou o Xará num canto e lhe recomendou não permanecer nos recintos da casa durante as folgas. Aí o pau comeu! Deu uma arrebitada no bigode e já bateu de frente com o gerente. 

Tinha apenas três semanas que estávamos ali. E ele sem nenhum cuidado recomendou ao gerente para deixar de ser puxa-saco e que sendo ele o senhor de seu nariz não iria tolerar que um gerentinho qualquer fosse lhe determinar onde por os seus pés durante as suas folgas. E ainda ameaçou o gerente dizendo que teria uma carta em sua manga caso este viesse a lhe prejudicar. Foi um escândalo brutal. Ninguém por ali teria, jamais, visto tamanho gesto de indisciplina. Houve bate-boca e o Armando retirou-se rogando pragas e mais pragas.

No final da tarde o patrão o chamou ao escritório pagou-lhe e lhe deu bilhete azul. Xará da Quinha pegou sua malinha, despediu-se dos colegas, chegou até a porta do escritório e disse: 

Eu estou indo embora por culpa do seu gerentinho. Eu não fiz nada de errado. Agora ele sim... Ele faz. Portanto, vou lhe contar um segredinho do seu gerentinho: Ele anda beijando a boca da sua mulher... Eu vi com estes olhos que um dia a terra vai comer... E se beija a boca da mulher do patrão deve estar beijando tudo de cabo a rabo.  

O senhor está com um galho de todo tamanho na cabeça. Todo mundo já sabe só o senhor não sabe. Mas é assim mesmo, marido é o último da fila nesses casos. Saiu olhou para traz e disse: 
Armou pra mim, armei pra ele... Graças a Deus deixo esse Inferno danado...

Parece que Deus, às vezes, se diverte com o homem colocando-o diante de si mesmo. Recentemente estive junto do seu túmulo no cemitério de Candeias. E ao ver ali a sua fotografia salientando aquele baita bigode, lembrei-me das vezes que o vira nervoso, dizendo: quem tem um bigode como o meu não deve levar desaforo para casa.

Não deu pra chorar, só tive que rir. Afinal o xará era uma piada quando perdia as estribeiras. 

Meu prezado amigo Xará da Quinha: Onde quer que esteja, receba o meu abraço. Procure se acalmar e não vá brigar com São Pedro; ele pode mandá-lo de volta aqui para o inferno danado de onde você partiu.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos



domingo, 1 de maio de 2016

O FRANGO ROUBADO!

                                     Gabriel Carlos       

Gabriel Carlos foi um grande amigo meu! Tínhamos divergências, mas como havia entre nós uma diferença de trinta e cinco anos de idade, eu não tinha coragem e nem peito para lhe contrariar. E, quando eu arriscava um olho e lhe encarava ele ficava bravo. E depois ele era o meu mestre.

Gabriel era pintor de parede. Esnobava-se por ter pintado as melhores casas de Candeias: casas dos Furtados, do João Pinto, Dr. Renato, Dr. Zoroastro, ou seja, de todos os ricos de Candeias na época.

Era tido como o melhor pintor em Candeias até que um dia apareceu Paulo do Sudário, um candeense que teria sido peão de obra lá em São Paulo e aqui chegou como quem tem um olho na terra de cego. E daí, deu-se início a uma concorrência, ou melhor, uma guerra fria, onde um vigiava o serviço do outro, fazendo com que a defectibilidade de um era comentário para o outro.

Paulo era mais jovem, mais atualizado, pois teria trazido para Candeias o recém-inventado rolo para pintura de paredes e descoberto a massa plástica, até então desconhecida. Gabriel insistia com as brochas de capim e as trinchas de cabelo. Achava que o rolo seria a desgraça dos pintores, isso porque o que se gastava um dia para pintar com os seus pincéis, com o novo instrumento, poderia ser feito em duas horas.

Quando Gabriel tomava umas pingas, aí então, a língua comia solta:

----“Aquele dentadura quadrada não sabe pintar merda nenhuma. Fui eu quem pintou as melhores casas de Candeias. Ele não passou de um lavador de brocha, lá em São Paulo”.

Do outro lado, sempre vinha o rebate:

----“Coitado! Ele devia era dar uma cheirada no meu sobaco! Ele pode entender de tudo, menos de pintura. Eu aprendi na capital de São Paulo e, por isso, sou um grande profissional”.

O que os dois tinham em comum era a falsa modéstia. Como profissionais de pouca têmpera, ambos não se intimidavam em auto se elogiarem.

Tínhamos, em Candeias, um Grêmio teatral, cujo diretor cênico era o Gabriel. E eu também era participante desse grêmio.  Certa vez quando preparávamos um cenário para uma peça de teatro, e eu pintava o cenário feito de papel aproveitado de sacos de cimento, Gabriel, observou o meu tato com os pincéis, chamou-me para trabalhar como seu ajudante. E fui. Ele já tinha alguns problemas de vista. Teria feito uma cirurgia e, com isso, certos recortes da profissão ele não estava conseguindo fazer bem feito. E eu, além de jovem, tinha facilidade na execução da tarefa. Assim, tornei-me seus olhos, como ele sempre dizia. Daí, o nascimento da nossa grande amizade.

Gabriel residia com a sua irmã, Alvarina, e com a sua sobrinha, Dejanira, na Praça da Fraternidade, hoje, Nestor Lamounier.  Era solteirão. Não se casou. Alegava não ter se casado, pois nunca teve estabilidade financeira e era o filho que cuidava da mãe, enquanto viva. Mas, eu cá comigo, acho que ele tinha mesmo era uma paixão recolhida, coisas de amor antigo.

Quando a sua irmã, Alvarina, ia visitar a sua filha, “Negrinha”, residente nos Pereiras, e se fazia acompanhada da sua outra filha, Dejanira, era como as gatas viajando e o rato tomando conta do pedaço. E, assim, dizia:

“Armando, o povo lá de casa vai pra roça. É hora de nós comermos aquele franguinho que eu aprendi como se fazia a minha mãe. Primeiro, nós vamos bebendo uma pinguinha e tirando o gosto com os miúdos e bebendo um caldo do cabidela enquanto vai cozinhando”.

Numa dessas vezes, eu propus pagar o frango. Afinal, eu também estava de rato e deveria ratear no que ele contestou:

--- Não. Este será o frango mais gostoso de todos que já comemos até hoje. Nós não vamos pagar nada.

---Como assim?

---Esse frango, todo dia, pula para o quintal lá de casa, é lá do Vicente Santana. (os fundos se encontravam.) Você vai saborear um frango roubado, vai ver a diferença.

---Mas, o que é isso Gabriel? Você vai roubar um frango do Vicente!? Você ficou louco? Não acredito!

E ele, já com a língua meio enrolada pelas “biritas”, disse:

---Roubar é uma palavra muito pesada para o meu vocabulário. Eu nunca roubei nada de ninguém. Sou um homem honesto. Agora, se o frango pulou pra cá, na ausência da minha irmã, a mim cabe julgá-lo culpado ou inocente e a minha sentença é faca na goela e tampa na panela.

Eu pensei que aquilo fosse uma ideia infeliz que tivesse passando pela cabeça do meu amigo, talvez, no outro dia já teria mudado de ideia. Ou estivesse brincando.

 Aquela ideia trombava com tudo que eu teria aprendido com os meus pais e com a opinião que eu sempre tivera dele. Mesmo contrariado não faltei ao jantar com o frango roubado. Ele preparou uma grande bacia, armou como arapuca e pegou o frango. Um frango muito bonito e que poderia  vir a ser um lindo galo.

Sangrou o galináceo, depenou-o e com muita habilidade e asseio temperou, jogou na panela e logo já começamos a tomar pinga e cerveja, e se esnobando de ter  acabado com a vida do pobre frango invasor de propriedade alheia.

Cada pedaço daquele frango me fazia cheio de remorsos. Afinal, puxa vida, que ideia ruim aquela do Gabriel. Amanhã, o vicente dando falta do frango, claro, ele seria o primeiro suspeito... 

E eu pensava: quem diria, o Gabriel ladrão de galinha!

Comi aquele frango com uma boa dose de remorso, mas comi. Afinal, o pecado era só dele e ele não estava nem aí. E como estava gostoso!... Esse foi o último frango que comemos juntos. Logo ele ficou doente vindo a falecer.

Gabriel foi um amigo paternal. Como ele não teve filhos, me tratava como filho. E eu sempre vi nele, também, um pai. Sempre me aconselhando, orientando-me e com isso aprendi com ele muita coisa boa. Mas essa do frango, realmente me deixou decepcionado e silencioso.  Afinal, roubar um frango de um vizinho... Aquilo não ficava bem para o meu amigo que me pregava tanta moralidade.

Dias depois, ao passar na porta da casa do Vicente Santana, ele me perguntou:

---E o frango, Armando? Tava gostoso?

Eu gelei! Meus Deus, é agora!

---Que frango,  Sô Vicente?

---O meu frango que você e o Gabriel mataram.

E eu perdido, um rapazola bobo, sem maldade na cabeça, totalmente desorientado, envergonhado, decepcionado, naquele abismo de emoções culposas, quase desesperado, neguei:

---Eu não sei de frango não, Sô Vicente... Frango?

---Estou sabendo que você e o Gabriel mataram um frango meu e fizeram uma farra, quando a irmã dele foi para a roça...

----Eu não comi frango do Sr. não Sô Vicente! Eu não vi nenhum frango não!

E o Vicente depois de se divertir bastante, completou:

----O Gabriel queria me comprar o frango que vivia mais no seu quintal do que no meu e eu lhe disse que poderia matá-lo para vocês, no dia em que a Alvarina fosse para a roça.

Que alívio, Meu Deus! Mas quase morri de vergonha por ter negado. Corri para encontrar com o Gabriel e condená-lo pela brincadeira de mau gosto. Quando ele me disse:

----“Eu pedi ao Vicente para lhe passar um aperto. As pessoas honestas precisam sentir para ver, o mau da desonestidade.”

E eu com raiva disse: Isso é que se pode chamar de sacanagem!

Durante muito tempo Vicente sempre se recordava do susto que me passou e comentava: “E o frango Armando”? E eu quase morria de vergonha, por ter negado que não sabia de nada.

Passei a entender que os ensinamentos precisam ser colocados em prática, não basta apenas a teoria.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.