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sexta-feira, 29 de março de 2019

O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA.

                                                              Foto para ilustrar o texto.

O ano de 1953 está guardado no meu cérebro e quanto mais o tempo passa, mais fermenta a dorna das minhas boas lembranças. ---- Foi o meu primeiro ano de escola, --- Eu teria feito sete anos e fora matriculado no Grupo Escolar Padre Américo, hoje Escola estadual Padre Américo.

O dia 03 de fevereiro daquele ano foi de completa euforia. Seria o meu primeiro dia de escola. --- Eu com uma calça curta, de brim azul e uma camisa branca estava me sentindo o menino mais bonito do mundo. Era o dia da chamada quando eu ficaria sabendo quem seria a minha professora e os meus colegas.

Nesse dia, a minha mãe como muitas outras mães, que havia levado os seus filhos no primeiro dia, foi também, me esperar à porta da escola e me deu um grande abraço e quase chorava de felicidade. Pena que eu nesse tempo ainda não entendia desse tipo de alegria materna.

Nos primeiros dias o uniforme escolar seria dispensado até que fossem confeccionados. As costureiras da cidade, nesse tempo, eram muitas e ficavam todas com acumulo de serviço.

O uniforme para os meninos era uma blusa de fustão e calça curta azul. Para as meninas era a blusa e a saia. --- No peito da blusa não havia escrito o nome da escola e sim um distintivo em forma de “V”, como da polícia Militar. Primeiro ano, um Vê, segundo dois vês, terceiro ano três vês e quarto e ultimo ano seriam quatro vês, um sobre o outro. Posteriormente, o uniforme foi modificado e o distintivo substituído pelo nome da escola no bolso da blusa. ---

A minha primeira diretora foi Dona Estela Marques da Silva, esposa do Dr. Zoroastro. E a minha primeira professora foi Dona Maria do Carmo Alvarenga, esposa do Sr. Alberto Virgílio, irmão do João Virgílio. O Grupo Escolar Padre Américo, contava apenas três anos, e a sua primeira turma viria completar o curso no próximo ano de 1954.

Os meus primeiros colegas foram: Ana Maria Bonaccorsi; Antônio Francisco da silva; Elza Pimenta da Silva; Getúlio Lopes da Trindade; Ione Salatiel; Ivanilda Vilela; João de Sousa Guimarães; José Alencar Salviano dos Santos; José Marques da Silva; Longuinho Martins Ferreira; Márcio Miguel Teixeira; Maria Aparecida Ferreira Barbosa; Maria do Carmo Fernandes; Maria Morais Neta; Marina Edna Salviano; Marli dos Reis Alves; Odete Lopes da Trindade; Sebastiana Neusa Maartins; Sebastiana dos Santos; Sebastião Cândido da Costa; Silvio José Rodrigues; Terezinha Lopes da Trindade e Vicente Luiz da Mata, o meu companheiro de carteira.

O porteiro da escola era o Sr. Erasto de Barros, que por ter em seu quintal diversos pés de marmelo, tinha o maior prazer de fornecer para as professoras as varas de marmelo, as quais choravam nas costas dos alunos nos atos de indisciplina.

As cantineiras eram três filhas do Sr. João do Ibraim, então fiscal da prefeitura que feitorava os capinadores de rua. --- Candeias, nesse tempo, não tinha ruas calçadas, portanto havia constantemente um grupo de capinadores de rua.  ---- As três irmãs cantineiras eram Toninha, Aparecida e Tereza. --- Cinquenta anos depois, durante um velório na Vila Vicentina, eu me encontrei com a Tereza e fiquei muito emocionado com aquele encontro.

A maioria dos alunos era pobre. Mas aqueles que estavam abaixo da linha da pobreza, como órfãos de pais; famílias numerosas e sem renda, esses recebiam o uniforme, material escolar e merenda, fornecidos pela Caixa Escolar. Tanto o uniforme quanto o material didático eram de péssima qualidade o que distinguia esses alunos beneficiados. Isso era triste porque se tratava de uma distinção vilipendiosa, e eram diminuídos por alunos de condição superior.

Antes de entrar para as salas os alunos se enfileiravam no pátio ao pé das escadas que davam acesso às salas; onde comumente havia alguma recomendação da diretora, e a entrada só se fazia após o canto de um dos hinos do Brasil, Nacional, da Bandeira, da Independência e da Proclamação da República.

O pátio da escola era imenso e dividido em duas partes. Dos meninos e das meninas. --- Durante o recreio uma professora era designada e responsável pela disciplina. ---- O menino que entrasse na área das meninas seria como um país invadir o outro. ---- A vara comia solta nas costas do infrator.

O corpo docente do Grupo Escolar Padre Américo, da parte da tarde, no ano de 1953, era: Diretora, Dona Estela Marques da Silva; professoras: Maria do Carmo Alvarenga; Ieda Bonaccorsi; Ione Bonaccorsi; Nené Eleutério; Carmelita Albanez; Maria do Carmo Teixeira; Eliza Paiva e Ninita Alvarenga.
Nesse tempo eu ainda não convivia com a saudade. Eu nem sabia o que era isso. --- 
A saudade é uma dor que não sufoca, mas “dói pra daná”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.








terça-feira, 26 de março de 2019

O DINHEIRO.


Eu trabalhei por mais de trinta anos tendo em minhas mãos o dinheiro alheio e conclui que o dinheiro não é apenas um poder de compra, ele é também um conceito. Além disso, é uma grande preocupação para quem o possui com abundância. ---- Podemos concluir, todavia que não temos como viver sem dinheiro numa sociedade tão complicada.

O dinheiro abre espaço para tudo em nossas vidas. ---- Espaço para hipóteses e sonhos. A chance de trocar de mundo e mudar de vida é em grande parte o que se passa na cabeça de quem troca o couro pelo ouro, ou seja, os mais pobres.

Isso porque a nossa sociedade impõe diversos tipos de mundos; o mundo dos ricos é o menor e é nele que todos gostariam de ter nascido. Haja vista as portas das lotéricas lotadas quando o sorteio da Tele Sena está acumulado. ----

Hoje em dia, o dinheiro nem precisa mais do metal e nem do papel moeda para circular. Ele passeia através dos cartões e das transferências bancárias. O dinheiro é aquilo que dá, nega e tira. O meu saudoso amigo Mozart Sidney sempre dizia que o dinheiro não aceita desaforos.

Aqui no Brasil o vil metal precioso tem aprontado em alta escala. Vejamos os políticos presos, os chamados ladrões do colarinho branco. ---- E para uma nação, ver dois de seus ex- presidentes tão humilhados pelo dinheiro, como no caso Lula e Temer... Políticos do alto escalão do governo vendo o sol nascer quadrado... Deputados, prefeitos e vereadores... -----

Pessoas liquidadas violentamente, sendo assassinadas e deixando para trás todas as suas ambições!... ---- E eu fico pensando: será que paga a pena ficar durante a vida toda correndo atrás do dinheiro? Será que paga a pena ser rico? 

Esta pergunta eu a faço quando me lembro de certa vez, na cidade de Governador Valadares, quando fui gerente da agência bancária do Bemge, um cidadão rico, muito rico e de porte grosseiro, talvez fosse um dos clientes mais ricos da agência, seu dinheiro era todo aplicado conforme orientação de seu filho. De quando em vez aparecia na agência, ajudado por uma bengala e aproximava de minha mesa e dizia quase nos meus ouvidos: 
------------------- “Sô Armano, dá pu sinhô abri o cofre pra mim dá uma oiadinha nos meus cobres”?  ---- Eu o levava até à tesouraria, abria o cofre e mostrava-lhe o dinheiro ele dava aquele sorriso e dizia: “Tá bem guardadinho”! ----

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.



sábado, 16 de março de 2019

OS APOSENTADOS.



A vida de um aposentado por mais planejada que possa ter sido, durante a sua atividade profissional, dificilmente pode conferir com aquilo que foi pensado. --- Viver é caminhar numa estrada cheia de curvas e trevos. Às vezes é uma estrada larga que parece nos levar a verdadeira felicidade onde viver o ócio com dignidade, acaba terminando abruptamente em precipícios. Quem idealiza a vida na aposentadoria, não percebe que ela é um sonho e que podemos acordar durante esse sonho.

- Nesse momento da vida, o trabalhador quase sempre se esquece de que aposentadoria é sinônimo de velhice, ou como um cachorro que correu atrás de um carro e ao apanhá-lo ficou sem ação. --- Eu julgo por mim que fiz uma porção de planos e acabei indo por outro caminho muito diferente, felizmente sem me causar prejuízos. --- Eu que imaginava criar galinhas numa chácara e poder comer, com arroz, aquele ovo da gema amarelinha, vi o tiro sair pela culatra.Eu até cheguei a ter a chácara, mas não pude usufruir dela, pois vivia me mudando de cidade em cidade por causa do meu trabalho. Enfim, aposentadoria é uma incógnita.

- Aqui na rua onde moro, em Juiz de Fora, conheci um vizinho com o nome de Paulo. Estatura mediana, 72 anos, careca, semblante fechado e voz mansa. Nós sempre nos encontrávamos num barzinho da esquina quando ele sempre me fazia acompanhar numa cervejinha. Tínhamos uma coisa em comum, fomos bancários durante mais de trinta anos e mais ou menos no mesmo período; ele um ex-caixa do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, cuja matriz era aqui em Juiz de Fora, Banco que teria sido vendido ao Bradesco.

 - Paulo sempre me dizia que não teria chegado a gerente do Banco porque não fora puxa-saco. Era uma pessoa bastante revoltada. Afinal tudo que teria planejado na vida teria dado errado. ----- Eu o ouvia, mas não me sentia ofendido uma vez que essa pecha de puxa-saco não teria me feito chegar a gerente bem classificado do Bemge, posteriormente vendido ao Itaú. -----

Eu entendia que Paulo tinha lá os seus problemas incomparáveis. Os nossos patrões eram Bancos coirmãos, mas a filosofia de cada um, talvez fosse diferente.  --- Sua aposentadoria como caixa do Banco não lhe proporcionava uma qualidade de vida tranquila, a que ele planejou. ---- Já teria cancelado o seu plano de saúde, morava de favor numa edícula de sua cunhada e, da sua aposentadoria, teria que ajudar os seus dois filhos casados e sem um emprego fixo. ----

Lá no barzinho o seu papo não era dos mais agradáveis porque se tratava de uma pessoa pessimista e que na caminhada de sua vida, teve que voltar ao princípio da estrada na hora de sua aposentadoria.  

Não sei. Parece-me que eu sentia muita pena do Paulo ao vê-lo tão desencontrado com a vida de aposentado. Chegou até a prestar serviço como bico em portarias de prédios aqui em Juiz de Fora.

- Eu como um aposentado disponível ao meu aposento fico da janela do quarto andar apreciando o que se passa na rua. Uma coisa assim mais ou menos como num camarote de teatro ao vivo. Não é bem isso que eu queria, como disse, mas consigo me entender bem com a vida que tenho.

- Na ponta final da rua onde eu moro, lá no alto, fica a residência do Paulo e eu o via todas as manhãs descer à rua caminhando e levando a sua cadelinha. --- Lá de baixo ele acenando para mim e eu cá de cima apreciando a sua peleja com a cachorrinha rebelde.

Defronte o prédio onde eu moro tem uma sede da filial dos elevadores Atlas. ---- Na semana passada vi quando Paulo parou sobre um latão de lixo, à porta da empresa de elevadores e retirou lá de dentro um laptop usado e jogado fora. ---- Paulo parecia uma criança que ganhou um chocolate grande ou um brinquedo de Papai Noel. ---- Lá de baixo acenou para mim e me mostrou o achado, como se tivesse ganhado na loteria ---- A empresa Atlas como estava revigorando os seus equipamentos, estava jogando coisas fora.

Ontem me chegou à notícia que Paulo faleceu de repente. Morreu sem sofrer, mas levou consigo a vontade de ter vivido a vida que não viveu. A tranquilidade de uma aposentadoria que ele sonhou, mas acordou no meio do sonho.

Foi a ultima vez que vi Paulo, talvez a única vez que o vi alegre. Uma alegria encontrada numa lata de lixo.  --- Que Deus o tenha! --

Armando Melo de Castro.

terça-feira, 12 de março de 2019

ASSIM ERA O CARNAVAL DE CANDEIAS.



Lembro-me, e com saudade, do carnaval de Candeias no meu tempo. Era muito diferente! Diferente, simples, alegre e feliz. As mães levavam as crianças durante o dia na matinê e a noite era a vez de levar às filhas adolescentes para brincar, durante as quatro noites.  A quarta feira de cinzas era um dia triste, os visitantes partiam deixando a  saudade e a cidade vazia, e o próximo carnaval estaria agora, muito distante. 

Nos dias que antecediam o carnaval, as pessoas, principalmente os jovens, ficavam de ouvido atento nos rádios para decorar as musicas novas. --- Eram marchinhas e sambas. ---- Musicas essas, sempre incluídas com as mais antigas e sempre eram executadas aquelas de maior sucesso. ---- As musicas antigas e de sucessos anteriores, nunca eram esquecidas e podem ser lembradas até hoje depois de várias décadas, como, ---- a Jardineira, Mamãe eu quero, Chiquita Bacana, Aurora, Me dá um dinheiro Ai, Saca Rolha, Abre Alas e muitas outras. ----

O carnaval em Candeias contava com a presença de pessoas idosas também. Lembro-me de alguns como Zé Pacheco, com a sua filha Salete, Nestor Lamounier, Tonico furtado, José Ribeiro, e muitos outros, que mesmo sem entrar no salão marcava presença.

Muito tempo antes dos dias da festa, o Jaz do Sr. Américo Bonaccorsi, já começava os ensaios com as músicas novas, com as partituras recebidas do Rio de janeiro. Esses ensaios, executados, então, no interior do Candeense Hotel, chamavam a atenção de muitas pessoas. ---- O tempo de carnaval em Candeias era um tempo alegre e festivo. ----

Houve outro tempo em que o carnaval de Candeias incluía musicas feitas por autores candeenses, como me faz lembrar o meu amigo Domiciano Pacheco, quando ensaiava entre a rapaziada a sua marchinha do ano, no reservado do Bar do Sebastião Cassiano, (Hoje restaurante da Cidinha) --- Lembro-me de uma dessas músicas que se chamava “Dalila de Candeias”. --- Uma marchinha que inclusive retratava a pureza das jovens de Candeias. ----

O carnaval era abrilhantado pelo nosso querido Jaz Tiro e Queda, do maestro, Américo Bonaccorsi, composto pelos músicos: Américo Bonaccorsi, Saxofone, --- Zinho Borges, Trombone, ---- João Virgílio, Pistom --- Violão ou banjo, Zé Delminda (meu pai) ---- Cavaquinho, Pedrinho do Candola ---- Bateria, Luizinho do Américo,

Suponho que esteja gravada na memória da criançada candeense daquele tempo, a figura do Sr. “Dequeche”. (Não sei se a grafia está correta, mas assim era pronunciado o nome dele.) --- Esse senhor, uma figura muito simpática, era um engenheiro que morava em Belo Horizonte, e era casado em Candeias, com a senhora Terezinha, da família Teixeira, cujos pais moravam ao lado da Casa Melo. ---- O Sr. Dequeche que passava o carnaval todos os anos em Candeias, nas matinês, liquidava com o estoque de refrigerantes e balas do barzinho do Clube, quando oferecia a bebida para toda a meninada. Era uma alegria total.

Já residindo fora vivi outros carnavais, mas nunca mais senti a mesma alegria, que aquele carnaval familiar de Candeias me proporcionara durante a minha infância e adolescência. ---- Ainda como adulto pude aproveitar um resto. Mas o tempo se incumbiu de acabar com aquela festa tão boa, que distinguia Candeias de outros carnavais. --- Pessoas de Campo Belo e Formiga e outras cidades apareciam; viajantes em transito paravam em Candeias para aproveitar do nosso carnaval. --- E houve até quem se casou em Candeias.

Após muitos anos, quando esta festa para mim já teria perdido o brilho, passei um carnaval em Candeias, e este serviu apenas para que eu pudesse fermentar em meu cérebro uma saudade profunda. -----Eu não teria visto nada que pudesse comparar. ------ Nas ruas uma verdadeira falta de respeito. --- Moças seminuas --- rapazes completamente bêbados, urinando pela rua sem o menor cuidado. Jovens drogados. ---- Conclui que para mim o carnaval de Candeias teria se transformado radicalmente e que nada do passado havia sido preservado. ----- Era eu de cara com o conflito de gerações... Lamentei! Hoje para mim o carnaval tem outro sentido e não é mais o meu carnaval.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A LÍNGUA DE DONA ESTER.

                                                               Foto para ilustração do texto.
ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

AS PRIMEIRAS DENTADURAS.



Existe um ditado antigo que diz: “Fazer com os dentes para comer com as gengivas”. E o que quer dizer isso? ---- É que antigamente não existia tratamento de dentes e nem próteses. A pessoa ia perdendo os dentes com o tempo e passava a mastigar com as gengivas. ---- 

As primeiras dentaduras foram feitas por um farmacêutico francês, chamado Alexis Duchêteau e aprimoradas pelo americano Claudius Ash, no século XIX. Era usado como material, prata, chumbo ou ágata, uma rocha muito dura. E os dentes poderiam ser também, de animais, humanos de pessoas pobres que os vendiam. ----- 

Dizem que o ex-presidente George Washington, quando assumiu a presidência dos Estados Unidos em 1789 --- tinha apenas um dente, o pré-molar, e que ao longo de sua vida usou diversos tipos de dentaduras feitas com dentes de animais montados em gomos de chumbo.  ------------ 

Aqui em Juiz de Fora existe uma feira aos domingos que contém mais de 600 barracas. E ali pode ser encontrado de tudo. Até alças de caixão de defunto já foram encontradas. Certa vez, eu vi sobre o plástico espalhado no chão, algumas dentaduras. ---- Perguntei ao sucateiro se seria possível encontrar comprador para aquilo e ele todo sorridente me disse: “Hoje memo eu vindi uma”. --- E ainda explicou: “Eles vai rapando, rapando até incachá”. ----- 

Diante disso, veio à tona de minha memória quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, disse que a dentadura seria o novo símbolo do Real e que os brasileiros estavam sorrindo mais. ----Eu acho que isso foi uma mentira dele. ----- 

 Há uma coisa que eu não entendo: Formam-se milhares de dentistas todos os anos. E um tratamento de dentes continua custando “o olho da cara” e continuamos vendo pessoas desdentadas por ai e eu pergunto: Eu estarei enganado ou isso é apenas pelo medo do dentista? Sabemos que esta fobia ainda se faz presente no comportamento de muita gente que prefere ficar desdentada, ao ter que enfrentar o motorzinho do dentista.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O MEU AMIGO LULU.


Hoje, de manhã, ao mexer nos meus guardados defrontei-me com a foto de meu amigo, do meu grande amigo Lulu, um candeense polêmico, que tinha a língua solta, xingava os amigos sem fazer inimigos.

Lulu era aquela pessoa dessas abençoadas sem ser muito rezador. Lembro-me de tê-lo visto duas vezes na igreja; no dia do seu casamento, de terno marrom e gravata borboleta, quando eu ainda era menino e na sua morte durante a recomendação do seu corpo. ------ Mas com certeza Lulu foi um grande cumpridor dos desígnios de Deus. Bom filho, bom pai, bom marido, bom amigo e muito caridoso. ---- Falo sobre o Lulu com muita convicção porque convivi com ele durante uma boa temporada quando, aos 16 anos, trabalhei no seu Bar e Restaurante Pinguim, numa velha casa onde hoje esta estabelecida a Casa do Vaqueiro.

Anos depois, Lulu se transferiu para onde se encontra hoje o Restaurante da Cidinha. Ali ele trocou o nome de seu restaurante, de Pinguim para Bifão. ---- Nesse tempo eu já não trabalhava mais com ele, pois já me residia fora. Mas sempre estive presente quando me via em Candeias. 

Estar perto do Lulu era registrar um fato interessante ou engraçado todos os dias. Figura polêmica que não se engasgava com as palavras. Palavrão na sua boca era doce quando ficava nervoso. E principalmente no tempo quando, ainda bebia uns goles.

Com a morte do Monsenhor Castro, a paroquia de Candeias ficou totalmente desorganizada. Uma hora era padre de Oliveira, outra era padre de Campo Belo, de Cana Verdade etc. Não havia um pároco responsável. 

Nessa época a Diocese de Oliveira recebeu alguns sacerdotes vindos da Holanda, dos quais um deles foi designado para Candeias, era o Padre João. ---- Estatura alta, muito branco, meio careca, com um palavreado misturado de português e holandês. Esse padre resolveu fazer um curso de "não sei o quê" em Divinópolis, e como a renda da igreja pouco lhe dava, ele vivia numa lona danada. Almoçava no restaurante do Lulu, e quando lhe faltava dinheiro, falava abertamente com algum fiel: “Eu está com fome” e aquele fiel normalmente o levava a tomar a refeição daquele dia em sua casa.

Certa vez ele falou assim para o amigo Biribico: “Sr. Birabica: eu está com muita fome”. --- E como Biribico era um gozador disse brincando: “Pois eu vou levar o senhor para comer lá em casa”. E deu aquela gargalhada, ---- e o padre se esforçando para rir sem saber da graça, disse: “Eu vai achar muita bom”. E foi ai que o Biribico riu pra valer.

Certo dia, um freguês do Lulu, desses que vindo de fora e parecendo nunca ter entrado num restaurante, pediu um almoço e quando acabou de almoçar começou a chupar dentes. Era cada sugada que parecia até que ia sair dente voando de sua boca.

 Lulu detestava gente que chupava dentes e ficava limpando as panelas de seus dentes com palito depois de comer. ---- De repente o saco do Lulu começou a se entornar e ele se apróxima daquele cidadão e diz: “Olha aqui rapaz, cê qué chupá dente vá chupá na cozinha da sua casa. Isso aqui é um restaurante e chupá dente aqui num dá não”.
E o cara, levantou-se e ao pagar a comida, numa forma de revanche, pediu desconto, pois teria achado a comida não muito boa. Isso deixou o Lulu ainda mais irritado quando disse ao freguês: “Não precisa pagar merda nenhuma não, mas não volte aqui mais não seu chupadô de dente”.

Nisso vem entrando Padre João, com aquele seu jeitão tímido, falando tudo enrolado, e pediu para que lhe fosse providenciado um prato de comida: “Sior Lólu, favor arumá comida para mim, eu querer comida pouco sal, comida muito sagada faz mal. Na minha teurá eu comer comida pouco sal”.

Lulu que já se encontrava com uns goles na cabeça, puto da vida com o freguês que acabara de sair, disse: --- “Por que então o senhor não manda vir comida de lá”? "Ora essa! Quem vem de lá, tem que acustumá com o rango daqui, se lá come sem sal vai vê é porque num tem sal... É cada coisa que me aparece!!!!!".

Diante daquela tempestade o reverendo, sem entender direito aquele falatório do Lulu, assentou, aguardando a comida.

Lulu que tinha um coração de ouro veio logo beirar o padre e disse-lhe, a partir de amanhã vou temperar a comida do senhor separada. E o padre quase que assustado disse: “nô, nô, nô, eu acostuma... eu acostuma”... 

No final, ao pagar a conta Lulu disse: “Não é nada não padre...”. E o padre: " óh nô, nô, nô senhor Lólu!”“. 
---  E o Lulu: “Eu já falei que não quero o seu dinheiro padre, isso é para dar um alivio na sua pitimba. (já estava nervoso de novo)

E o padre João saiu um pouco sem entender. Mas no outro dia estava lá aguardando o seu prato novamente.

Armando Melo de Castro.

Candeias MG Casos e Acasos

sábado, 24 de novembro de 2018

ANTES DO VIAGRA CHEGAR.


Eu tenho a impressão que antigamente não havia tanta hipocondria entre as pessoas. Parece que o povo tinha mais saúde ou era menos preocupado. A medicina, por sua vez era bem atrasada, não existiam tantos remédios nas prateleiras de farmácias e a grande parte das receitas médicas eram aviadas pelos donos das farmácias e os preços não eram esses verdadeiros assaltos ao bolso do doente, como se verifica nos dias atuais depois que transformaram os nome de farmácias em drogarias.

Eu pertenço à era do chá. No meu tempo de criança era difícil tomar um remédio de farmácia. Às vezes, um comprimido de cibalena ou cibazol; fortificante; lombrigueiro feito de semente de abóbora ou bucha. Lombrigueiro do tipo sal de Glauber, sal amargo ou óleo de rícino. Esses purgantes eram tão fortes e ruins que os pais botavam boca-a-baixo nos seus filhos, no que deu o termo “goela a baixo” ---. Não sei, mas parece que o povo tinha mais saúde... Nesse tempo o ditado de que “De médico e louco, todo mundo tem um pouco” era bastante exercido.

No mais eram chás de folha de laranja;  chá de casca de lima de bico; chá de canela;  chá da casca de limão; chá de picão;  chá de hortelã; chá de gengibre;  chá de macela; chá de losna, chá de jalapa... Vejam que eu guardo ainda em minha memória uma verdadeira farmácia fitoterápica.  Eram tantos os  chás que o espaço aqui seria curto para expô-los. Antigamente a fitoterapia caseira é o que falava a verdade. Para cada problema existiam diversos tipos de medicamentos caseiros. Hoje em dia, por qualquer coisinha procura-se uma farmácia ou um médico. Toma-se um medicamento para um mal e cria-se outro, os chamados efeitos colaterais.

Não se conhecia o câncer. Dizia-se “doença ruim” ou então ulcera no estômago. Não existia essa quantidade de exames que os médicos pedem hoje e nem o corpo humano era tão loteado como nos dias atuais. Um médico especialista, praticamente só se encontrava em Belo Horizonte, ou em cidades maiores. No mais, era clinico geral. E mesmo quando o médico tinha uma especialidade, acabava exercendo o ramo da Clinica Geral.

Antes de existir o Viagra os homens viviam buscando fitoterápicos a fim de restabelecer a disfunção erétil.  Eles tinham as suas terapias para não negar o fogo às mulheres fogosas. --- Os afrodisíacos naturais em forma de frutas e raízes eram procurados. ----- Entre eles o jatobá, a casca da fruta ou do tronco em infusão ----  Era o chamado vinho de jatobá, uma fruta silvestre muito comum no cerrado. ----- Uma segunda opção era uma raiz de uma planta rasteira chamada “piãozinho”, colocado na pinga deixava esta vermelha. Muitos faziam uma garrafada das duas. Alguns homens que já não estavam “dando no couro” usavam e abusavam desse tipo de coisa

No sítio do Sr. Américo Bonaccorsi existia uma árvore com o nome de “Quentalha” diziam ser um “tiro” de boa para fazer o homem levantar a moral com a patroa. Certa vez eu perguntei ao Wandinho do Américo se essa árvore ainda existia e ele disse: “Mataram-na de tanto tirar lascas no tronco”.

Às mulheres um medicamento fitoterápico muito usado por elas para uma vida sexual saudável e os problemas ginecológicos, era a casca de barbatimão, principalmente para banhos de assento e banho íntimo. -----

Chico do Viriço, o curador, que falava muito alto, ---- cá de fora se ouvia o que ele dizia com os seus pacientes num quartinho do interior de sua casa, ----- disse, certa vez, a um casal de consulentes: “Se a muié fica muito tempo no banho de barbatimão, ela fica virge de novo”. E deu aquela gaitada... --- E o povo lá de fora, na sala ouvindo tudo. Imaginem a cara deles quando saíram lá fora hem?!

Quando a gente andava pelos matos, as árvores de barbatimão eram vistas com os troncos lascados. As lenheiras recebiam sempre essas encomendas de forma reservada, mas como língua de lenheira não tinha compromisso com o silêncio, elas davam sempre com a língua nos dentes, quem eram usuárias do produto. E ai a língua comia: fulana é larga...

Sendo visto um homem lascando o tronco de uma árvore de barbatimão, --- coitada da mulher dele ---- já o boato corria. A mulher do fulano é usuária da casca de barbatimão. ---- Portanto, isso era sempre feito às escondidas ou de forma astuciosa.

Eu era menino, mas tinha os ouvidos muito afinados e afiados. Lica do João Passatempo era uma lenheira que fornecia por encomenda as cascas de barbatimão. O feixe de lenha custava cinco cruzeiro e o chá de barbatimão era 3. E língua de lenheira não dava nó e nem cabia dentro da boca, as usuárias do barbatimão eram sempre comentadas.

Certa vez eu ouvi a Lica do João Passatempo, que era lenheira e atendia encomendas de casca de barbatimão, falar para Dona Ester, minha amiga, que a Aparecida Pitanga, irmã do Pedro Pitanga, dizia que num tinha um trem mais bão do que casca de barba timão para deixa-las apertadas.

 Eu que nunca tinha ouvido essa palavra guardei-a e muito tempo depois eu pude vir, a saber, o que seria buc... Tite. Pode ser entendido como algum problema de saúde, mas quem explica melhor é a etimologia da palavra de onde vem. --- Bem! Eu sei, mas não conto!...

 A mulher que não se engravidava, ou vivia brigando com o marido; se queria arrumar namorado... Essas gostavam era de um banho de rosas brancas.

 Armando Melo de Castro.





terça-feira, 20 de novembro de 2018

OS VIZINHOS.


Os bons costumes estão ligados a moral. Mas nas residências nem sempre está o morador ligado a moralidade. Seria necessário, por exemplo, que um morador, principalmente de um apartamento, entendesse que não é apenas ele que habita a morada; a morada também o habita apesar de não ser isso uma questão determinada. 

 É uma questão de consciência para discernir o que é moral e o que é moralidade. ---- A meu ver os bons costumes têm que estar de acordo com a moral ----- Saber se comportar a uma mesa; respeitar idosos: evitar barulhos, enfim por em prática os princípios da boa educação são os bons costumes que se juntam a moral como não roubar; ser honesto; ser honrado etc. ----.

 Meu pai sempre dizia que a política da boa vizinhança tem que ser bem administrada, porque o vizinho é o parente mais próximo. 

 Eu como gerente de Banco morei em diversas cidades, e convivi com diversas pessoas e nunca tive problemas com vizinhos, porque dizem que quando um não quer dois não brigam.  E, eu sempre procurei me enquadrar nos conceitos da moralidade. ---- Quando eu tinha alguma coisa que me incomodava, eu procurava um jeito amigável de resolver, como foi na cidade de Patrocínio, MG uma médica vizinha com um baita cachorro que latia debaixo das janelas do meu quarto e da minha gerência. Ali se localizava o canil há dois metros de distância da divisa. ----  O latido do seu cão perturbava-me durante o trabalho e durante à noite no meu sono.

 Eu conversei com ela a primeira vez, educadamente, porém ela não me atendeu. ---- Conversei a segunda vez e ela também não me atendeu. ---- A terceira vez eu bati pesado, e disse-lhe que daria a ela três dias para retirar o cão de debaixo da minha janela, pois caso contrário ele amanheceria morto e depois a gente iria resolver o problema na justiça. ----– porque na prefeitura não adiantaria minha queixa dada a sua amizade como médica da prefeitura e parentesco com o prefeito. -------

 No outro dia o cão sumiu. Ela mandou fazer, às pressas, um canil bem nos fundos do seu quintal, e eu passei a ter sossego. ---- Quero ressalvar, contudo, que jamais eu mataria o seu cão, isso seria contra o meu princípio de amor aos animais, principalmente aos cães. A ameaça foi apenas uma estratégia de guerra de um inimigo mais fraco. ----- Este foi, portanto, o meu único problema com vizinhos durante quase vinte anos de vida de cigano. 

 Já depois de aposentado, vim morar em Juiz de Fora, trazendo a minha filha para estudar.  ---- Aluguei um apartamento bem no centro da cidade, à Rua Barbosa Lima.  Escolhi com carinho o local, e o apartamento. Fiquei conhecendo logo no primeiro dia da mudança o vizinho dos fundos cuja divisa era um vão que separava as nossas janelas da sala e do banheiro. ---- Era ele um aposentado da Rede Ferroviária Central do Brasil, chamava-se Plínio, careca, estatura média, dentes bem tratados, camisa esporte e bermuda coloridas; sandálias de boa qualidade e um relógio de chamar a atenção. Era, o vizinho, realmente um tipo gente fina. ----- 

 E eu fiquei entusiasmado com ele. Perguntei-lhe pelos seus gostos e vi tratar-se de um contemporâneo amante da cervejinha, da pinguinha e do bolero e ainda completou dizendo que gostava de violão, cantar principalmente aqueles boleros de Gregório Barrios e Anísio Silva... Pensei: o cara é dos meus...  

 Diante da simpatia daquele vizinho e das parecenças de nossos costumes eu fiquei entusiasmado. ----- Mas o meu entusiasmo durou pouco. ---- Logo no segundo dia em que me mudei o porteiro já me disse: “Tomara que o senhor demore aqui Sô Armando. Naquele apartamento do senhor num para ninguém”.  ----  Pronto! Com isso eu já fiquei “cabreiro” O que será isso meu Deus!? ------------- 

 Como eu disse, havia apenas um vão que separava os nossos apartamentos – E todo o som do apartamento dele era como se estivesse acontecendo dentro do meu. --- No outro dia, já de manhã, quando ele estava no banheiro dava nojo à barulhada. Raspava a garganta como se estivesse raspando uma lama numa área cimentada. E aquilo não era rápido... --------

 Com uma semana de moradia, já vi que seria difícil aguentar aquele ritual de “raspação” de garganta, “escarração” no banheiro. E o pior: a “soltação” de flatos... Quer dizer de puns... ou melhor dizendo, para ser bem claro. A “peidação” daquele homem.  Eu nunca pensei que houvesse no mundo alguém tão peidorreiro. Ele peidava em todos os tons e em todos os sons. Na hora do almoço na hora da janta e na hora do café. Sua esposa era acamada há mais de dois anos. E pouco ligava pelos seus peidos. Era ele que cuidava da faina da casa.

 Sabe-se que um homem entre duas mulheres acaba sendo dominado. Minha mulher e minha filha, falando na minha cabeça dia e noite que não aguentaria mais quando havia pouco mais que uma semana naquela moradia... Eu saí logo procurando outro apartamento. Paguei multa contratual; não tomei cerveja; não ouvi boleros de Gregório Barrios, não pude ouvi-lo tocar violão... Ora o que eu queria era sumir daquele local.

 A.M.Castro.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

APAGUE A LUZ GERALDO!



Nós mineiros temos o hábito de pronunciar muitas palavras pela metade; ---- ki de feijão; li de leite; pedá de carne; belezz! Cumpá Zé; cumá Maria e assim vai.  ----

 Até certo tempo eu não sabia que “li” era litro; que ki era quilo; pedá era pedaço; belezz era beleza; e cumpá era compadre. ---- Eu era, então, do tipo de uma anta; ou um tatu de galocha. ------ E o pior: eu não sabia disso. ------ Quando cheguei à capital de são Paulo em 1965, um danado dum paulista, a fim de me encher o sado, quando eu chegava à cantina dele, dizia: “Uai, vai cumê um trem mineiro?”.

 Geraldo do Orcilino e Dona Chiquinha era um casal muito amigo de meus pais, fato que os fizera ser levados para padrinhos de minha irmã Maria Amélia. ---- Dai então era cumpá Geraldo e cumá Chiquinha de lá e cumá Luca e cumpá Zé de Cá. Portanto, até certo ponto, aquele dialeto teria feito parte da minha vida.

 Geraldo era um cabritão alto, fala mansa, sempre usando camisas com mangas compridas e colarinho preso. Chapéu de lebre e bigode pirâmide. Era comerciante da Rua Professor Portugal, estabelecido com o comercio e residência onde hoje está o Bar do Marcelo. ---- Conhecido como Geraldo do Orcilino, mas o seu nome real era Geraldo Cândido da Costa. Pessoa de muitos amigos, que viera da roça ainda jovem, não sabia ler e nem escrever e aprendeu fazer isso sozinho trabalhando no comercio.

 Sua amizade com meu pai começou quando ele foi desertor do exercito. Sendo então uma pessoa recém chegada da roça, não entendia da gravidade de se negar ao chamado do exercito, foi considerado como desertor e preso em Juiz de Fora. --- Meu pai foi quem o apoiou e o acompanhou durante o tempo em que esteve preso. Dai nasceu uma grande amizade.

 Talvez fosse ele o homem que mais afilhados tinha em Candeias, tendo em vista a sua facilidade de fazer amizade e ser bom vendeiro. ------ Foi vereador em mais de uma gestão e foi homenageado com o seu nome na praça que fica no final da Rua Pedro Vieira de Azevedo.  Ele era tio do atual vereador, Jésus do açougue.

 A sabedoria do silêncio diz que devemos falar menos e ouvir mais. Mas meninos daquele tempo; --- do meu tempo --- só ouviam, não falavam nada. Porque se falassem eram repreendidos. E eu como menino silencioso e sempre em companhia do meu pai, ouvia os seus assuntos, em profundo silêncio, enquanto meu pai, naturalmente, imaginava que eu não os entendia. E muitos desses assuntos estão bem guardados até hoje em minha memória no que faço abri-la agora, para relembrar um pequeno diálogo entre meu pai e o seu tão amigo compadre Geraldo, numa tarde assentados num banco à porta da sua venda:

 

Meu pai: Eu fico bobo de vê como ocê combina tanto com a cumá Chiquinha cumpá Gerardo, o que cê arruma qui ocêis tá sempre rino?”. --- E o Geraldo dando aquela sua risadinha sorrateira de boca sem dentes, (não conseguiu se acostumar com a dentadura) --  começa:

 Cumpá Gerardo:  Muié cumpá Zé é um trem danado. Cê tem qui sabe cutuca nela. Se ocê cutuca no lugá errado ela num dá. --- A Chica é uma casquinha de ovo qui ocê num imagina. Mais cumo eu já sei as mania dela tudo, eu faço de jeito. ------ Na hora de nois deitá, se eu quero dá uma cruzadinha, eu vô divagá. Invento um assuntinho ou conto arguma coisa que eu sei qui ela vai gosta. Dai, vira e mexe eu pergunto se ela tá cum dor de cabeça. Ai ela já sabe que eu tô quereno fuçá, Ai intão ela já pega a baciinha e já vai pá latrina lavá as parte. ----- Ai eu tamém dô uma lavada nas parte, e já vejo que eu Tô no jeito de cumeça o sirviço ---- Se dá num dia que eu tô frôxo, ai intão eu é que tenho que me ajeitá e falo: hoje eu trabaei dimais, tô numa cancera danada! -----Nesse dia, intão, cada um vira pá parede. Ai, cumpá zé, é bunda cum bunda. ---- ôta coisa: As vêis dá num dia que eu cumi uma vitela, e o butão fica assanhado quereno sopra, eu saio dipressa e vô pá latrina e fico lá até isvaziá a caxa de vento.  Ôta coisa é o paquete. Muié quando tá de paquete cê num pode dá sinal qui tá quereno fuçá não, sinão elas fica danada da vida. A Chica dana a dá indireta que só veno.

 Meu pai: Ocêis fais isso é com a luiz acessa ou no escuro cumpá Gerardo?

E Geraldo,  dando aquela risadinha sorrateira de boca sem dentes de novo aremata:

 Cumpá Zé cê ficô doido! Se eu acendê a luis a Chica nunca mais me dá.

 Armando Melo de Castro