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quinta-feira, 24 de março de 2011

O TERNO MARROM


Cenas da peça teatral Matter Dolorosa, Lia Langsdoff, Gabriel Carlos, Armando Melo e Willlian Ferreira, 

Entre o final da década de 50 e principio de 60 em Candeias existiu um grêmio teatral amador que tinha o nome de “Grêmio Teatral Monsenhor Castro” idealizado pelos amigos, Gabriel Carlos, João de Sousa Filho e Antônio Macêdo. ---- Neste mesmo tempo, havia outro grupo, do Sebastião Quirino, cujas peças eram de sua autoria. Antes, porém, bem antes, já teriam existido diversos grupos teatrais que vinham desde os tempos do Sr. Bernardo Bonaccorsi e sua Esposa Dona Nica. ----

O Grêmio Teatral Monsenhor Castro quando apresentava uma peça tinha a renda convertida para a Sociedade São Vicente de Paula; e posteriormente para as obras de construção da nova Matriz. --- Os idealizadores do grêmio formavam a trupe efetiva de atores. Porém a cada peça surgiam novos atores tendo em vista a afinidade da pessoa com o papel a ser atuado.

Entre os participantes das diversas peças levadas ao palco, podemos citar os seguintes atores protagonistas e secundários, exceto figurantes: Gabriel Carlos, o diretor, Antônio Macêdo, João de Sousa Filho, Lia Langsdorff, Maria Amélia de Castro, Ivanilda Vilela, Claudete Freire, Willian Ferreira, Zé Delminda, Cristovão Teixeira, Zé Mori, Wanderley Alvarenga, Edson Chagas, Armando Melo de Castro, Antônio Sidney de Sousa (Titoco) Hilton Vilela, Darlene Alves, Luiz Bonaccorsi Neto, Joãozinho Cassiano e muitos outros. --- Na peça Os “Transviados” atuou num papel de destaque a professora Marli Pacheco, de Campo Belo, nesse tempo residente em Candeias, esposa do amigo Alceu Pacheco. Foi uma atuação brilhante.  

Infelizmente a maioria das peças assim como “A Escrava Isaura” “O Louco da Aldeia” “Os Transviados” “Rosa do Adro” e outras não ficaram nenhum registro nem escrito e nem fotográfico, lamentavelmente.

Tenho muito bem guardados em minha memória até alguns trechos dos textos decorados em todas as minhas participações. É uma boa lembrança que qualquer um que tenha participado disso, com certeza, terá sentido uma saudade boa de sentir. Afinal, o teatro é uma mentira e viver fora da nossa realidade é como uma viagem a um mundo desconhecido. Principalmente no meu caso que só fiz papéis de bonzinho. ----

Gabriel Carlos era o diretor. E muito se orgulhava disso. Fazia sempre o papel central da peça, ou seja, quase sempre o mau-caráter. Se alguém lhe perguntasse o seu nome, ele dizia: Meu nome é Gabriel Carlos da Costa, mas eu não uso o Costa. E depois Gabriel Carlos é o meu nome artístico... De quando em vez, aparecia no ensaio meio turbinado de “João Marques” e dizia: “Eu aqui não sou diretor, sou um lava-cachorro. Ninguém me respeita.” Mas os goles nunca atrapalhavam os seus ensaios, apesar de deixa-lo demasiadamente eufórico e falador.

Tinha ele dois ternos bons que só eram vistos quando por ocasião de representar uma peça teatral. Era um terno marrom e um azul. Ele sempre dava um jeito de usar os dois ternos em dois atos. Dizia sempre que o terno marrom era de uma casimira superior e que se lhe tinha custado uma nota preta. O outro, conseguido num consórcio do Chiquinho Alfaiate, teria sido mais barato.

Naquele tempo era obrigação de cada cidadão ter pelo menos um terno, ou seja, paletó, calças e colete. Esse era o traje que as pessoas reservavam para quando fosse ser enterrado. Hoje uma cultura dispensada.

Lembrando-me da peça “A Ré Misteriosa” não me foge a memória a protagonista, amiga Lia Langsdorff irmã do Jesus Langsdorff, uma moça muito bonita, excelente atriz e inteligente como todo Langsdorff. Foi uma atuação brilhante dessa amiga que logo se mudou para Goiás e eu nunca mais eu a vi. ---- E o Gabriel Carlos o mau-caráter da peça, que indiscutivelmente entendia do assunto. O personagem de Gabriel era assassinado e teria que cair no palco. E com isso foi a sua maior preocupação, estar neste ato, com o terno azul. --- Nas discussões sobre o vestuário, durante os preparativos da peça, era infalível este comentário: “Ai eu estarei com o meu terno marrom”.

Um dia ele me disse:

“Ninguém nunca me viu com o meu terno marrom fora do palco. Ele é reservado, exclusivamente, para o teatro.” E fazia questão de realçar: “São poucas as pessoas que têm um terno igual àquele” dissera isso por mais de uma vez para mim. Parece que a sua adrenalina subia quando se via dentro daquele terno.

O fim da vida de Gabriel foi dramático. Vitimado pelo câncer, faleceu antes de completar sessenta anos. O final de sua vida foi marcado pela pobreza e apenas com a ajuda dos parentes e amigos. Não teve uma aposentadoria, não tinha nenhum tipo de recurso financeiro e, já velho e doente, não tinha mais forças para trabalhar. Naquele tempo, o serviço social ainda deixava muito a desejar e não era como nos dias atuais.

Estive presente no seu sepultamento. Foi muito triste vê-lo morto e sendo enterrado numa cova rasa. Eu que o vi morrer por duas vezes nas peças teatrais, agora não era teatro... Agora, ele estava morto de verdade, um dos meus maiores amigos, com quem eu tanto aprendi quando com ele trabalhei de pintor de paredes. Agora morto, dentro de um caixão sem flores, vestido com o seu tão querido terno marrom o qual estava perfeito no seu corpo, graças o emagrecimento que a doença lhe proporcionou.

Conclui naquele momento que o meu amigo, o meu grande amigo Gabriel Carlos, viera a esse mundo, apenas buscar um caixão e aquele terno marrom.

Finalizando o meu texto, fecho os meus olhos, concentro-me e busco na minha memória o meu amigo Gabriel alegre, sorridente e bem vivo, falando do seu terno marrom.

Que Deus o tenha meu bom amigo!

 

Armando Melo de Castro
Candeias MG. Casos e Acasos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A LIMA-DE-BICO

ESTE TEXTO FROI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MEUS COLEGAS DE ESCOLA


                              Escola Estadual Padre Américo

  Este texto foi transferido para o livro Candeias MG  casos e acasos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DOCE DE BICHO DE GOIABA






Por volta do ano de 1957, quando eu contava com meus onze anos de idade, minha família teve uma residência provisória, na Rua José Furtado, que liga a Rua Coronel João Afonso à Praça Ilídia Cardoso Freire, no Bairro da Gruta. Naquela oportunidade, eu convivi com um grande pé de goiaba que ficava na divisa entre a nossa morada e a de um vizinho, chamado Balbino.

Balbino, natural da cidade de Formiga, teria vindo para Candeias a fim de trabalhar como cortador de pedras para as obras de calçamento que se iniciavam, então, por ocasião da gestão do Prefeito José Pinto de Resende.

Viera acompanhado de sua família: sua esposa Dica, seu filho Idelfonso e suas filhas, Rosa e Maria do Carmo e a netinha Ingred. ----- Contava uns cinquenta e poucos anos de idade, mais ou menos. Moreno escuro, alto, cabelo ruim, mal barbeado, sorridente a mostrar uma falha de dente, no maxilar superior. Falava alto. Aliás, na sua casa, todos falavam alto. A vizinhança tinha conhecimento de tudo o que se passava no seio da sua família.

A mulher gorda, cabelos embaraçados, trajando sempre um vestido cor de terra “bate-e-enxuga” tinha um problema na visão e estava sempre usando uns óculos escuros. Um dia, eu a vi sem os óculos e observei que era caolha.

O filho mais velho, o Idelfonso, era viúvo, tinha perdido a mulher no parto da filha Ingrid. (Não sei onde arrumaram este nome – Talvez tenha sido uma alusão à Ingrid Bergman...). Essa netinha era criada pelos avós.

Rosa era gordona. Cabelo curto, seios enormes, achava graça de tudo e ria alto chamando a atenção dos outros. Não tinha namorado e já contava a idade das balzaquianas. Dizia sempre que não era chegada na fruta, chamada homem.

Maria do Carmo, a caçula, era a mais silenciosa e a de melhor aparência. Tinha um namorado metido a cantor sertanejo que, de quando em vez, aparecia por lá com um violão e o seu prefixo musical era a moda de viola “Ciganinha”. A sua voz de taquara rachada, sem nenhuma tessitura, já andava ferindo os ouvidos de toda a vizinhança, principalmente, nos dias de bebedeira. Chamava-se Otávio, tinha cara de otário e era tratado de Tavinho. 

Tavinho era uma figura chocha, sem sal. Gostava de uma camisa vermelha e tinha o cabelo longo coisa, então, da moda jovem da época. Aos domingos, sempre chegava com uma garrafa de pinga, algumas de cerveja e um pedaço de carne. Aquilo era como que uma isca para ganhar o sogro que era demasiadamente avarento, mas gostava de molhar o gogó com uma pinguinha e estercar-se com um pedaço de carne regado à cerveja. Mas, isso, naturalmente, quando de graça, porque o velho parecia que mantinha um escorpião nos bolsos. 

E não só ele gostava da cangibrina, como, também, toda a prole apreciava o bochecho. E quando todos ficavam embriagados, o velho se danava a falar palavrão e a velha a cantar desafinada com o genro. ------ A Rosa a dar risada e o Idelfonso a bater no fundo de uma panela. A única a falar pouco, era a Maria do Carmo, a pretendida do patrocinador daquele banquete romano.

Balbino era notável pela sua avareza. Comprava tudo de meio em meio quilo e quando lhe pedia algum dinheiro estava sempre reclamando:

---“Oceis tá gastano dimais gente! Os trem tá muito caro sô. É priciso incunumiza muncado, sinão nóis vai é passá fome. Ocêis tá cumeno fora das midida”.

O velho era bravo e, quando a mulher arriscava a lhe dizer para deixar de jogar no bicho, ele quase lhe batia e dizia:

--- Jogo sim! E ninguém tem nada quisso. Os cobre é meu e pronto...

Voltando ao pé de goiaba, na divisa entre o nosso quintal e o deles, havia um grande pé de goiaba cuja carga, naquele ano, teria sido bastante carregada. O cheiro da goiabeira ia longe e era goiaba para todos os lados. Porém, cheia de bichos.

Certo dia, como as portas das nossas cozinhas ficavam próximas, ouvi quando a Dica disse para a netinha Ingrid:

--Hoje eu vou fazê um poquinho de doce de goiaba procê... Só que ocê vai tê qui me ajudá a catá os bicho...

Daí a pouco, vem chegando a Rosa:

--- Que qué isso mamãe, vai fazê o quê quessas goiaba?
--- Um docinho pá Ingrid...
--- O quê? A siôra ficô doida? Isso nem é goiaba, é bicho puro...
--- A Ingrid vai me ajudá a catá os bicho...

Logo depois, vem chegando o Idelfonso, pai da Ingrid: 

---O que é isso mamãe, vai fazê o quê quessas goiaba, cheia de bicho?
--- Um docinho pá Ingrid... 
---Mas mamãe, isso não é goiaba. Isso é o puro bicho. É mais fácil comprar um pacotinho de doce pronto... Quem vai comer isso?
---A Ingrid vai me ajuda a catá os bicho...

Daí a pouco, vem chegando a Maria do Carmo:

--Que é isso mãe? Vai fazê o quê quessas goiaba bichenta?
--- Vou fazê um docinho pra Ingrid, ela vai gostar...
---Mãe, que ideia ruim, Issso num é goiaba, Isso é o puro bicho e a senhora não enxerga bem...
---A Ingrid vai me ajuda a catá os bicho...
---Eu não como isso, nem se me matá...

Finalmente, chega o Balbino:

---Qué isso Dica? Ocê num tá pensando em fazê doce de bicho de goiaba não, né?
---É só um poquinho, Bino. É pra Ingrid... 
---De jeito ninhum! Açuca tá custano muito caro e quem compra é eu...
---Tadinha Bino, ela nunca cumeu e vai gostá...
---E ocê vai dá doce de bicho pra minina, muié? E dispois isso aí nem é goiaba. É mais bicho do quê goiaba.
---Tadinha Bino, ela nunca cumeu e vai gostá...
---Tadinha Bino... Tadinho do meu borso, com açuca caro pra doce de bicho... E ocê quessa vista ruim, nem vê os bicho. E quem é qui vai cume, isso?... Eu num como...
---A Ingrid vai me ajudá a catá os bicho...
---Cunversa fiada. A minina tem quato ano e vai catá bicho?!... Deixa de enrolo...
---Eu vou fazé sim, Bino. Mas, é com o dinherinho que ela ganhô do padrinho dela...

Alguns dias depois:

---Uai, Dica, a Ingrid num cumeu o doce não?
-- Cumeu só um poquinho, a falazada dos bicho ispantô ela.
--- E ninguém quis cume, não?
---Não, ninguém quis não...
---Intão eu vô cumê, pra num perdê...

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.






























quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O MERCENARISMO RELIGIOSO

No princípio da década de 50, apareceu aqui, em Candeias, um cidadão protestante pregando o evangelho, nas proximidades do chafariz, que fica localizado nos jardins que fronteiam a Igreja do Senhor Bom Jesus.
Não havia, nesse tempo, em Candeias, praças e nem calçamentos. A Avenida 17 de Dezembro era chamada de Largo. E os três chafarizes que ainda existem (hoje inoperantes), eram pontos de referências para esse tipo de coisa: encontro de namorados pose para fotos, etc.

Um pregador protestante, naquele tempo, era visto pelos católicos como se fosse o diabo. E ao iniciar, a sua pregação, ajuntaram-se, ao seu redor, algumas pessoas, talvez, por curiosidade. ----- Logo que correu a notícia de que alguém de outra religião pregava na cidade, o pároco, então, Padre Joaquim, posteriormente Monsenhor Castro, mandou badalar os sinos e convocou os fieis através do microfone para uma procissão de desagravo. À bem da verdade, esta procissão seria para dar início ao processo de expulsão daquele estranho no ninho.

De forma muito humilhante, o cidadão foi escorraçado da cidade por um grupo de pessoas, incitado, pelo padre, que pretendia expulsar o intruso do seu território religioso.
Os manifestantes agrediram o pobre homem com cusparadas no rosto, chutes, pernadas e, por fim, ao se darem conta de um monte de pedras, nos fundos da Igreja do Senhor Bom Jesus, a criatura indefesa passou a ser ameaçada de ser apedrejada.

Não fosse a iniciativa do Sr. Willian Viglioni, que num gesto de afoiteza, tomou-se de uma faca de cortar salame no bar que existia junto à sua residência, (antigo casarão do Sr. Torquato Viglioni) acredito que a situação teria tomado proporções dramáticas diante da fúria do povo católico.
Auxiliado pelo seu amigo, Edgar do Conde, Willian amparou o pregador e o levou até o antigo Hotel do Bitu que ficava localizado onde hoje esta situada a Loja dos Colchões. Dali, o homem seguiu para a estação ferroviária, de onde partiu levando consigo as mais contristadoras lembranças de nossa terra. ------ Sem dúvida, esse comportamento fanático deixou-nos uma mácula para a história de Candeias. Teria sido como a vergonha da inquisição presente aqui na nossa pacata cidade.
Jiddu Krishnamurti, o grande pensador inidiano, dizia que o falatório e a estrutura das religiões organizadas tendem a separar os homens. Eis que ai está. As religiões estão se tornando, a cada dia, mais organizadas, mais cheias de falatórios e mais estrategistas nessa tomada de espaço por parte dessas igrejas que se intitulam evangélicas ou crentes, principalmente voltadas para a chamada “Teologia da Prosperidade”.
Pelo bem da verdade, não se trata de evangélicos e nem crentes. Podemos garantir que nenhuma igreja está apenas com a intenção de orientar o ser humano simplesmente para ensinar o caminho de Deus. Vivem buscando seus estratagemas no Velho Testamento e o verdadeiro Deus de suas crenças é o dízimo.

Crentes ou evangélicos católicos, ou seja, lá quem for, estão buscando o dinheiro que materializa todas essas igrejas. A caridade cristã está muito longe das igrejas que pregam o nome de Jesus Cristo, como se Cristo fosse um produto de venda. São titularidades criadas apenas para confundir pessoas humildes, sofridas, passando por dificuldades, carentes de atenção e de amor. Pensam que com isso podem passar uma imagem de que são mais puros e mais privilegiados perante Deus. Como se fossem diferentes.

A grande parte das igrejas evangélicas, principalmente, dizem que são religiões, mas, na verdade, são seitas desprovidas de senso moral e que abusam vergonhosamente da fragilidade humana. Não precedem de nenhuma ramificação cristã, pois não se definem como oriundas do catolicismo e nem do protestantismo. Auto se intitulam e saem por ai pregando e pedindo dinheiro e acumulando riquezas.

Talvez, os engambelados seguidores dessas igrejas que pagam caro por ser delas um fiel, sejam verdadeiramente crentes. E como a fé remove montanhas, os “donos” dessas “igrejas” roubam-lhes até a fé. Igrejas que não têm filosofia própria e o tema de suas pregações é uma paçoca teológica de luteranismo, calvinismo, anglicanismo, bramanismo, catolicismo, pentecostalismo, kardecismo, umbandismo, e o principal: o “dizimismo”. 


Ser um crente não significa propriamente ser evangélico. Evangélico é aquele que se orienta através do Novo Testamento. Os católicos, os pentecostais, etc. Os verdadeiros evangélicos não se confundem com o velho testamento. Tomam do seu conhecimento apenas para se orientarem. O verdadeiro cristão está inserido no Novo Testamento, ou seja, no Evangelho de Jesus Cristo. Portanto, quem cobra dízimo, em percentuais, não é evangélico. 

Estamos vendo, por aí, titulares dessas igrejas nadando em dinheiro em detrimento da pobreza de seus seguidores. Prometendo milagres com hora marcada e abusando da fragilidade de pessoas moralmente debilitadas. Postam-se como inimigos do diabo e privilegiados de Deus. E nesse paradoxo, vão fazendo dos seus adeptos um enleado pronto para ser escravo. Executam um curandeirismo sem o propósito ideal como propaganda da venda de milagres. Criam-se meios astuciosos e fazem de suas denominações religiosas, verdadeiros partidos políticos e usam os seus altares como comitês para se elegerem. Haja vista que, dentro do poder constituído, o conceito político é sempre ressaltado: “Bancada Evangélica”.

Nada impede um religioso de se candidatar a um cargo eletivo, mas, por que bancada “evangélica”!? Isso avilta ainda mais a política brasileira. Igrejas que cobram 10% de dízimo de seus fieis e se dizem evangélicas são verdadeiras empresas que só visam o lucro e o materialismo. Pastores que não têm nada a ver com o principio religioso são os verdadeiros mercenários.

A Igreja Católica, detentora da maior fatia do poder religioso, aqui no Brasil, parece-me um tanto perdida nesta guerra com os “evangélicos”. E com isso, vai tomando rumos bem parecidos. Não somente no púlpito, mas, no meio político-partidário, no meio social e em meio aos veículos de comunicação que são objetos favoráveis para a busca de condições no sentido de atingir o alvo dominante. E isso faz com que os católicos usem das mesmas armas para defenderem o seu território. Apropriam-se de estações de rádio e televisão tendo padres em suas direções. Padres artistas cobrando altos cachês pelas suas apresentações, em espetáculos pouco atinentes à verdadeira objetividade de uma igreja.

Estão se transformando com o firme propósito de assegurar o espaço que vem sendo tomado por essas empresas denominadas “Igrejas Evangélicas”. Mas, o faz de maneira opaca. Criam-se tantos estorvos, tantas exigências que vão, cada vez mais, perdendo os fieis para os seus concorrentes (Infelizmente este é o termo certo: concorrentes)Os padres vão se tornando, a cada dia, quase que uma figura simbólica dentro da Igreja Católica. Os fieis vem tomando conta da maioria das tarefas, de forma pouco orientada. 

O padre católico está se transformando em uma figura que perfuma a pedofilia enquanto ela fede para as famílias de bem. E, com certeza, a culpa maior desses desvios, entre os representantes da Igreja Católica, é devido a um celibato que não mais se justifica diante de um mundo em que o sexo vem ocupando lugar de destaque nas relações. E por que a Igreja Católica não acaba com essa tempestade humana chamada celibato? Esta é uma pergunta que muitos formulam e sem resposta. Por quê? Porque envolve dinheiro, patrimônio etc. e tal...

A celebração da missa tornou-se um ritual monótono. A pregação dos padres, longas e enfadonhas, quase não consegue tomar a atenção do fiel.
A maioria dos padres não tem o dom da eloqüência e são anti-sociais.

O ritual de um sepultamento vem se tornando tão fastidioso que, boa parte dos fieis, ficam do lado de fora da Igreja aguardando aquele falatório sem um tema próprio, para cada caso. Os leigos chamados ministros, apesar da boa vontade, são despreparados e não sabem, na maioria das vezes, presidirem um ritual onde seriam necessárias algumas palavras soltas diante de uma circunstância específica. Lêem aquele texto maçante e demorado que não diz nada para ninguém, que não conforta ninguém e, talvez, até o defunto se cansa!...

Como católico, isento de fanatismo, estou sentindo que a Igreja Católica está aceitando a sua própria rendição principalmente com essa pedofilia no âmago da Igreja. Enquanto essas casas comerciais, chamadas “igrejas evangélicas”, vão avançando em busca de dinheiro e, consequentemente, de poder.


São os líderes religiosos usando dos mais diversos estratagemas para vencer uma competição onde o princípio essencial deveria ser o amor alimentando as três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

E não há dúvida de que a arma principal para qualquer tipo de guerra é o poder do dinheiro. E aí entra o “pé de coelho” do mercenarismo religioso: o dízimo.

Esse antagonismo já chegou aqui em Candeias. Já se vê igrejas com diversas denominações correndo atrás dos “cobres”.

A Igreja Católica alega que não estabelece contribuição percentual para o dízimo sobre a renda do seu fiel. Mas, são tantas as frações da Igreja a pedir que se o cristão for atender todos os pedidos, dez por cento da sua renda, será pouco. E ninguém vê caridade. E para onde vai esse dinheiro?

Uma fração da Igreja Católica, chamada “Os Carismáticos”, pedem tanto que se alguém for escutá-los acaba dando cinqüenta por cento de dízimo. E ainda se dizem evangelizadores, mas, não fazem nada de graça. Aliás, todos se dizem evangelizadores, mas, claro, a custa de dinheiro. Eu tinha uma vizinha, que sempre dizia: “Religião é dinheiro”. E é mesmo!...

Algumas, muito poucas, instituições “evangélicas” não estabelecem os dez por cento de dízimo, mas, ao pregarem, usam textos do Antigo Testamento, como por exemplo: “Repreenderei o devorador... Roubais ao Senhor nos Dízimos” etc.etc.etc. Termos que nada tem a ver com o Cristianismo.

Já a maioria dos “crentes evangélicos” é obrigada a dar a contribuição de dez por cento da sua renda para a sua igreja. É de se saber que as igrejas não pagam imposto. E quem não paga o dízimo é enquadrado no “Malaquias 3.8. como ladrão”. (?)

Não somente em Candeias, mas em todo o Brasil, qualquer um pode montar uma igreja. Aliás, fundar uma igreja tornou-se um grande negócio. Pessoas, semi-analfabetas, desprovidas de qualquer princípio teológico, tomam-se do cargo de pastor, amedrontando pessoas humildes através de um diabo violento e forte. É tão forte que, em suas pregações, às vezes, esses equivocados pastores se fazem entender que o diabo seja mais forte do que o próprio Deus... Do que o próprio Jesus Cristo! Aliás, existem igrejas que mencionam tanto a figura do diabo que se acaso amanhã ficar provada a sua inexistência, ficarão todas vazias.
Igrejas montadas em garagens de automóveis, galpões, cinemas, lugares desprovidos de quaisquer princípios sacros.
Ali se discute princípios ausentes da Bíblia Sagrada sendo que o principio básico daquela igreja nem sempre é a fé em Deus e sim no dízimo.

Certa vez, conversando com um pastor de uma Igreja Evangélica, ele me disse que de acordo com o livro de Malaquias (O ultimo livro do Velho Testamento) aquele que se negar a dar o dízimo é ladrão do Senhor.

Durma-se com um barulho desses...

Ora, o livro de Malaquias contém apenas quatro capítulos e, no entanto, está sempre na boca dos “cata-dízimos”. O líder religioso que usar deste livro para ameaçar um cristão sobre o dízimo será ele o legítimo ladrão. Isto porque, nenhum cristão tem a obrigação de pagar o dízimo e quem diz isso é a própria Bíblia.

Eu não tenho aqui a intenção de contrapor o dízimo, mas, simplesmente, responder àquele que disse que baseado no livro de Malaquias, quem não der o dízimo é ladrão.
O dízimo foi estabelecido para os sacerdotes judeus, filhos de Levi e não para a Igreja de Jesus Cristo. Hebreus 7:5
 - Devemos entender a diferença que existe entre contribuir em Lei e contribuir em Graça.
Na Lei, o dízimo era a causa principal da bênção do povo judeu. Portanto, a bênção referida deste dízimo do Malaquias 3:10; refere-se ao povo judeu que contribuía conforme a Lei dando o dízimo para ser abençoado.
Na Graça, o sacrifício de Jesus Cristo é a causa principal da bênção do povo cristão. Jesus morreu para nos salvar e para que fôssemos abençoados. Por isso, a maneira correta de o povo cristão contribuir em Graça é através de Coríntios II 9:7: Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.
Em Romanos 8:1 está escrito: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus
.E por que vêm os senhores pastores usar do livro de Malaquias para dizer que quem não paga o dízimo é ladrão?
Jesus condenou quem dizimava até a hortelã e o cominho e não ofertava o seu amor ao próximo. Por ai nota-se que mesmo o dízimo do Velho Testamento, era um dízimo agrícola e não em dinheiro.

Ao invés de incentivar os cristãos, principalmente os mais humildes, a contribuírem espontaneamente com amor, certos “pastores” procuram causar medo de maldição visando somente o dinheiro do dízimo.
A forma com que a maioria das igrejas trabalha o dízimo é desonesta e não tem a ver com a Bíblia.

Eu acho que as pessoas deveriam confrontar sempre o que dizem por aí, pelo rádio, pela televisão e pelos púlpitos dessas igrejas, com o que, verdadeiramente, se encontra no livro sagrado. A maioria desses pastores de rádio e de televisão vive fazendo proselitismo de igrejas que cujo Deus é o dinheiro. Abusam da fragilidade humana para persuadir pessoas humildes. Montam uma programação como se armam uma arapuca, dizendo que são missionários do Cristo, quando na verdade são os mercenários do Cristo. Auto se intitulam com poder de cura, de salvação e outras baboseiras mais quando, na verdade, são eméritos exploradores e pecadores que não curam coisa nenhuma.
Infelizmente, muitas igrejas tornaram-se bem parecidas com a antiga Igreja Romana que usava das indulgências como fonte de lucro induzindo fieis a contribuírem por medo da maldição, a comprarem a sua salvação do inferno e do purgatório.

O cristão não é obrigado a dar o dízimo. Mas ele deve sim, contribuir feliz por saber que pode fazê-lo por amor a Deus e do jeito que propuser o seu coração. Contribuir pela graça e não pela coação psicológica e doutrinária, utilizadas por líderes de igrejas, através de versículos da lei judaica. Portanto, não existe nenhum versículo, no Novo Testamento, que registra a obrigatoriedade do cristão dizimar.
.

Fazem uma lavagem cerebral religiosa porque o dízimo é a galinha dos ovos de ouro que proporciona aos inescrupulosos, estabilidade financeira e poder como se fossem os donos da fé vendida a altos preços para os fieis. Deus de nada necessita, pois é o dono de todas as coisas. Nem é servido por mãos de humanos.

A cruz, símbolo maior da cristandade, pouco a pouco, vai se afastando de Cristo e já se torna objeto de decoração ou de enfeite. O estar ou não estar exposta, numa repartição, seja pública ou privada, não está mais fazendo o efeito de outrora. Infelizmente, trata-se de uma cruz desprovida do sentimento cristão. Uma cruz que já não atinge quase ninguém.

Concluindo a minha reflexão: eu sinto que a lição que Jesus Cristo nos deixou está deturpada. E eu pergunto: Por que essas pessoas que se dizem portadoras de poder para curar querem fazê-lo diante das câmaras de uma televisão? Ou no púlpito de suas igrejas?
Se essas pessoas que se dizem munidas do poder de cura, curassem realmente ou se fossem, verdadeiramente, seguidores do Evangelho de Cristo, naturalmente, iriam lembrar que Jesus disse em Mateus 10.8: Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; dai de graça o que de graça recebestes.
É lamentável esta exploração que estamos vendo por todos os cantos...

Armando Melo de Castro.
Candeias MG casos e Acasos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cronica transportada para https://candeiasmg.blogspot.com/

    • Esta crônica O PINTO DO GALO, foi transportada para outra págiana 

                         CLIQUE AQUI

    •                   Armando Melo de Castro.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

UM TEMPO ABANDONADO

A partir daí o meu convívio com os trens se tornou rotineiro। A estação de Candeias era bastante movimentada. Quase nada entrava na cidade ou saia a não ser via trem de ferro. O meio de transporte rodoviário era então, muito atrasado. Os ônibus se limitavam em pequenas jardineiras e era um transporte caro. E os caminhões em número muito reduzido. Comumente ouvia-se dizer: viajar de trem é bom... É confortável... Parece que o povo daquele tempo não tinha muita pressa para chegar ao destino... Era um povo mais calmo e não se irritava com os atrasos constantes dos trens. Não criticavam com veemência, as deficiências da ferrovia... E as viagens, mesmo de negócios, eram transformadas em passeios... ---- Estarei certo ou fortuitamente enganado? Ou quem sabe a ingenuidade de criança ainda perdura em mim?

Junto à estação localizava-se a máquina de limpar café e um grande armazém de depósito. Muitos trabalhadores circulavam por lá trabalhando o café। Uma sirena de som estridente levava a todos os cantos da cidade a marca dos horários de trabalho. Um motor a óleo bastante barulhento quebrava o silêncio do largo da estação. Havia, sempre, vagões estacionados no pátio da estação carregando ou descarregando. Agentes, conferentes, guarda-chaves, pra lá e pra cá, trajados com o fardamento da ferrovia, davam vida naquele ambiente hoje morto. De frente, estava a máquina de limpar arroz, bastante movimentada, beneficiando o arroz produzido no município. Manipulando esta máquina estava o amigo João do Sô Nico, músico sempre ativo, da Banda de Música.

A chegada do trem de passageiros dá um clima de festa। A estação era ponto turístico onde até casais de namorados iam ver o trem chegar e sair. Os carroceiros apostos, entre eles, Juca Cordeiro, Arlindo Barrilinho, Serafim e outros, se movimentavam para pegar as mercadorias que chegavam. Os carregadores de malas abordavam os passageiros e principalmente os caixeiros-viajantes, cujas gorjetas eram polpudas. Logo após, a Rua Coronel Marques, ou melhor, a Rua da Estação, aliás, a primeira Rua de Candeias a receber calçamento; parecia uma maratona... Pessoas que desciam e depois subiam para ganhar o centro da cidade. Subindo o morro ia o Joaquim Estafeta com aquele baita saco cheio de cartas sendo levado para a agencia do correio. Os telegramas eram recebidos e transmitidos através da Estação Ferroviária. O correio não tinha telegrafo nessa época.

Posteriormente as marias-fumaça foram substituídas pelas grandes locomotivas movidas a óleo diesel; e os comboios agora maiores ficaram restritos em seus horários. Pois apenas uma locomotiva levava a carga de três marias-fumaça...

Há um tempo passado, eu estive lá remoendo esses quadros de minha infância। Vendo aquele local deserto, sem uma pessoa, ali, naquele momento, senti uma saudade danada daquele dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia. E ao me retirar daquele local avistei a única fonte remanescente do ruído de outrora. Afrontando o tempo, apenas um pouco arredada do seu antigo lugar, está à máquina de beneficiar arroz. Um pouco mais preguiçosa, mas ainda tendo ao seu derredor a figura do amigo, João do Sô Nico*, que, talvez, como eu, guardando dentro de si os quadros veneráveis daquela estação e os apitos da Maria-fumaça, subindo e descendo... Buscando e levando a vida da cidade. Seria inútil tentar arrancar de mim essas lembranças doloridas. Elas entraram pelo cérebro, desceram ao coração e lá se acomodaram.

 Armando Melo de Castro

 

sábado, 20 de novembro de 2010

O JILÓ


   Hoje de manhã, ouvi minha mãe pedir para a empregada ir ao supermercado e comprar jiló, “de preferência, bem verdinho”. Ainda disse: “É bom fazê-lo com a casca para que fique um pouco mais amargo. Esses jilós, de hoje, não amargam como os de antigamente.”.

Minha mãe, aos oitenta e seis anos de idade, é consciente de que o tempo, que marca a nossa vida, vai-nos tirando, aos poucos, os cinco sentidos, mas  se esquece sempre do paladar.E é por isso que dificilmente vemos um jovem se queixar de que algo está sem gosto.
Aos ouvidos de muita gente essa observação da minha mãe, sobre o jiló, poderia parecer estranha. Afinal, não é comum, alguém gostar de coisas amargas.

Diante deste comentário sucinto sobre o jiló, remexeu nas células do meu cérebro um fato que já se encontrava, meio perdido dentre as gavetas da minha memória:

Encontro-me na Vila Isa, às margens da rodovia Rio/ Bahia, na periferia da cidade de Governador Valadares MG; onde havia um posto avançado de prestação de serviços bancários. Tratava-se de uma extensão da agência central do Banco do Estado de Minas Gerais S.A. O BEMGE, situada no centro da cidade, onde eu exercia as funções de Gerente Geral.

Fazia parte da rotina da minha tarefa diária, visitar aquele posto todas as manhãs.
Logo no início dos meus afazeres, naquele local, observei que, na esquina próxima dali, havia um salão de cabeleireiro bem montado e com um anúncio cravado acima da porta de entrada, num formato muito estranho:
“Jilozinho Cabeleireiro”.

Lembro-me de que, quando da primeira vez que bati os meus olhos naquele anúncio, o tribunal da minha consciência deu uma sentença para aquele que seria à razão daquela placa e pensei, cá com os meus botões: Esse jilozinho deve ser leitor de Oscar Wilde; admirador da obra de Leonardo da Vinci; fã de Elton John e telespectador do Leão Lobo e Fã do Felix e do Niko, da Novela das 9.

Diante de uma tabuleta tão estrambótica, eu não tinha mais o que pensar. Que me perdoe a turma da parada gay, mas fiquei por entender alguém denominar um salão de beleza com um nome tão esdrúxulo. Era um salão aparentemente muito bem montado, num dos melhores prédios do bairro; o que fazia o ponto ser bem-conceituado.

Alguns dias depois, defrontei-me com um jovem, de mais ou menos vinte e cinco anos, muito bem vestido, trajando-se com bastante feminilidade e que somando a sua boa aparência física e o seu comportamento pude ataviar a impressão que tive, quando teria visto a placa do cabeleireiro jilozinho.

Daí a pouco, aquele jovem me foi apresentado pelo encarregado do posto:

-Armando, esse é o nosso cliente Jilozinho...

-Olha, senhor Armando, é um prazer conhecê-lo, sou seu cliente aqui e quero tê-lo como meu cliente também. Sou o Jilozinho. Tenho um salão de beleza, só para homens. Sou especialista em depilação masculina. Peito, axilas, limpeza de pele e tudo mais que o cliente desejar. Fiz curso de especialização na Argentina. O meu primeiro trabalho para o senhor será uma oferta da casa.

Olhei, atentamente para os lados, para ver se não havia ninguém ouvindo aquele papo. Se fosse eu um adepto do conceito religioso evangélico, eu iria imaginar que aquele moço precisaria de uma conversão. Mas como sou católico pensei de outro jeito.

Estar ali, ao redor de uma porção de gente, ouvindo aquela oferta, tão extravagante, fazia-me encalistrado, encafifado e muito desarrumado. Jiló é uma fruta que não consta do meu cardápio. E agora, vem um jiló falando que corta cabelo, raspa peito, sovaco, e sei lá mais o quê?... E só de homens!? E depois, ainda, na maior descontração do mundo, falou alto e em bom som: “Sô Armando, eu sou o único jiló do mundo que não amarga.”. Depois, saiu.
E eu lá queria saber se ele era doce ou amargo? Durma-se com um barulho desses!...

A bem da verdade, eu fiquei parecendo um menino de quinze anos sendo cortejado por uma rameira experiente.


O amargo do jiló, realmente, faz com que esse fruto seja pouco considerado. Vejamos, por exemplo:

É um fruto sem pai. Ninguém sabe ao certo de onde ele é natural. Há quem
 o considera da África; outros dizem que é das Antilhas; outros ainda afirmam sê-lo da América do Sul, especialmente, do Brasil. Portanto, o jiló é realmente um filho sem pai certo.
Coitado! Apesar de ser da família das solanáceas, ou seja, parente próximo do tomate, não se vê os dois juntos. O tomate é um fruto de boa fama. Quando verde ninguém abusa; ninguém quer comê-lo. Já o jiló, quanto mais verde mais corre o risco de ser picado. Ninguém quer saber de jiló maduro.
O jiló é um fruto de pouca moral. Eu nunca fui a um almoço ou jantar festivo que ele estivesse à mesa. Além disso, vive na boca dos desbocados.
Seu sabor amargo ficou sendo sinônimo de momentos difíceis da vida... Tudo que amarga faz lembrar o pobre do jiló e a criança o detesta.
Lembro-me de um baião do Luiz Gonzaga que dizia: “Saudade amarga que nem jiló”.

Antigamente, era comum ver alguém vindo da roça, rodar a cidade de Candeias para baixo e para cima com um balaio de jiló. E, nem sempre, voltava para casa após ter feito bons negócios.
Candido Alves Vilela, mais conhecido por Candola, pessoa respeitada; membro da família Vilela, tendo como filhos, Mariquita, Balofo, Geralda, João, Pedrinho, Aldinha e Samina.
Candola morava onde hoje está estabelecido o Bar do Bola.
Certa feita passa à porta de sua casa, uma senhora que já havia rodado a cidade toda com o seu balaio de jiló e, já vencida pelo desânimo, pergunta-lhe:
“Sô Jiló, quer comprar Candola?”
E o Sr. Candola, que não era muito sorridente, responde, sorrindo diante do trocadilho da pobre regateira: “Não! Já me bastam os amargos da vida. E depois o meu nome não é jiló não...”.

E a roceira, após observar que teria cometido uma infeliz troca de nomes, já estava a ponto de pegar aqueles malditos frutos amargos e jogá-los no primeiro buraco que lhe aparecesse. Vai se retirando desalentada, quando o Candola lhe chama de volta e lhe compra todo o jiló do jacá.

Aquela criatura deu um sorriso doce e disse, olhando para os céus:
-Graças a Deus! Nossa Senhora vai ajudar o senhor, Sô Jiló. E muito, muito mesmo.

-Menina, por acaso eu tenho cara de Jiló?
-Não! Não sinhô. O sinhô não tem cara de jiló não. O Senhor tem cara é de candola. Oh! Meu Deus me ajuda!
- E o que é candola, você sabe?
-Uai, Sô Candola... Candola, eu acho que é candola, né?...


E o Candola, vendo contar os litros e enchendo um grande balde do solanum amargo, já devia estar pensando: “O que vou fazer com tudo isso meu Deus”?
É! A vida é assim: Uns gostam da fruta; outros preferem o caroço.


Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias-MG

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RUA CORONEL JOÃO AFONSO


Rua Coronel João Afonso na década de 40


ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O MEU PRIMO CRENTE.


                                                          Vicente de Castro.
E
u tenho um primo que recebeu o nome de Vicente na pia batismal da antiga Igreja Matriz de Candeias. Vicente, como eu, nasceu na Rua Coronel João Afonso, praticamente sob o mesmo teto, pois, nossos pais moravam numa casa de parede-meia e os quartos em que nascemos tinham localização contígua.

Tínhamos quase a mesma idade. Eu, apenas um ano mais velho, fazia dele o meu maior amigo. Brincávamos no mesmo terreiro. Chupávamos frutas do mesmo pé, dependurados no mesmo galho. E por vezes, tomávamos varadas de marmelo, nas pernas, no mesmo momento; cada um de seu pai, por estarmos agarrados de unha e dente por causa de algum capricho disputado.

O tempo, esse aspecto sempre em vigília e incumbido de alterar o destino das pessoas, separou-nos na adolescência. E durante anos, poucas foram às vezes que nos vimos. Mas, o destino, que nem sempre obedece ao que o tempo determina, nos fez reencontrarmos na mesma cidade, trinta anos depois, ou seja, na cidade de Lagoa da Prata: Eu, gerente de uma agência bancária, e ele, como operador de máquinas da Usina de Açúcar.

Vicente, agora, não era o mesmo. Tornou-se bem diferente daquele Vicente de outrora. Aquele não aceitava acompanhar-me ao catecismo porque não gostava de igrejas; que só levava vantagem nas nossas brigas; que fumava escondido. Que me contava das reações do seu corpo adolescente e sorria, maldosamente, enquanto eu, com cara de bobo, nada entendia. 

Depois de muitos anos fui encontrar um Vicente diferente. Um Vicente crente falando do céu como se fosse um hotel de luxo para onde os privilegiados de Deus ficarão hospedados, após a morte. 

Vicente, agora, está sempre dizendo que encontrou Jesus, como se Jesus estivesse perdido dele. Vicente um conhecedor dos capítulos e versículos da Bíblia mais do que as linhas de suas próprias mãos. 


O comentário que faço a respeito do primo crente é, todavia, isento de critica maldosa. Muito pelo contrário, eu tenho muito respeito por ele, pela forma de ser e pelo fato de que a nossa amizade vem desde a infância, em Candeias.

O primo é “cabeça de área” da Igreja, Assembleia de Deus. Se lhe fornecer o número do capítulo e ou versículo da Bíblia Sagrada, ele será capaz de dar o texto de cor e salteado. --- Os seus problemas são debitados integralmente a Deus e a Jesus Cristo. Se um filho for acometido de um faniquito qualquer ou coisa mais séria, o primo não se aperta: “O Senhor não me faltará” É crente com todas as letras. Não perde nem para os líderes crentes do Brasil. 

Vicente estudou pouco e, no entanto, é o tesoureiro da igreja e, em caráter emergente, sobe ao púlpito e faz uma sermoa. É o famoso irmão Vicente! Estimado por toda a confraria. E é “peixinho” dos pastores.

Às vezes, quando me proponho a visitá-lo, comumente o encontro reunido com algum irmão de fé. Em sua casa, quase sempre está ele, no maior papo, com o seu irmão em Cristo, o irmão Tonho, famoso pela sua teimosia.

Irmão Tonho daqui, irmão Vicente dali e, assim, comem o papo no mesmo prato. O irmão Tonho, também, tem a Bíblia na pontinha da língua.
Eu acho muito bonito aquela irmandade, aquele respeito, aquela devoção, aquela fé incontestável que deixa aqueles corações tão candidizados.

Os dois irmãos em Cristo são muito amigos, mas, certa vez, tiveram uma altercação ferrenha:

Certa vez eu cheguei à sua residência quando lá estavam os dois se preparando para uma pescadinha, próximo à cidade. O Vicente com um chapéu de palha em listras vermelhas e azuis, tipo festa junina; e o irmão Tonho com um casquete, modelo militar, e uma calça amarela, bastante usada, parecendo um capataz de coronel aposentado usando resto de farda faltando-lhe, apenas, as estrelas. As camisetas eram iguais, com os dizeres: “O Senhor é o meu pastor”.

Cumbuca de iscas, matula, varas na mão e pé na estrada. Ou melhor, bicicletas na estrada, e lá se foram.

Uma hora depois, estavam os dois, à beira do rio, pescando e cavaqueando, animadamente e naturalmente, sobre os livros sagrados. Posso, sem dúvida, imaginar que estivessem discutindo a genealogia de Jesus Cristo e quem sabe? De forma supositiva, estariam tentando descobrir quem teria sido a bisavó de Abraão... Talvez estivessem comentando, também, onde estivera Jesus Cristo dos 12 aos 30 anos de idade... Pode ser, também, que naquele papo santo procurassem decifrar o que Jesus discutiu com os doutores quando ele tinha os 12 anos. Talvez isso não estivesse bem claro para o primo Vicente e seu amigo Tonho. Outra coisa que eu acho, também, deve ter sido discutido enquanto pescavam foi quem teria assinado a carta aos Hebreus. Afinal, nada prova que foi o Apóstolo Paulo.

De repente, um sobressalto! O inesperado acontece: Uma grande cobra, enrolada, bem pertinho do Irmão Tonho.

Ao ver a peçonhenta venenosa fitando-lhes os olhos, Irmão Tonho quase morreu de susto. Foi um deus-nos-acuda. Com um pedaço de pau conseguiram matar o bicho e joga-lo no rio. Daí começou o debate ofídico:

--Cê viu que baita de jararacuçu, irmão Vicente?

--Aquilo nunca foi jararacuçu, irmão Tonho...

--Como não foi irmão Vicente! Jararacuçu e dos grandes...

--Ce num viu o chocalho, na ponta do rabo dela? Era Cascavel, irmão Tonho...

--Que mané cascavel, irmão Vicente! Ocê parece que não entende de cobra 

(Rindo) ---Entender de cobra não é o meu fraco não, Irmão Tonho...

--Eu nasci na roça e conheço tudo quanto é cobra...

-Ôa.Ôa! Ôa, irmãoTonho! Oia, eu cumêdo docê. Negócio de cobra, tô fora...

--Ô irmão Vicente, ôcê ta me adisrespeitano! Eu sô home sério e de respeito...

--Que isso, irmão Tonho...!? Eu to é brincano!

-Mas, isso é brincadêra maldosa, irmão Vicente! Um crente num brinca disso!

--Que isso irmao Tonho?

Ali, acabou a pescaria e a amizade também. Por mais que os amigos tentassem não conseguiram fazer com que os dois reatassem a amizade. Até que um dia chegou para a igreja deles um novo pastor. Rapaz dinâmico, bem falante, convincente e que ficou sabendo da historia. Fez a eles um convite para uma reunião de reconciliação, no que foi atendido prontamente pelos dois. Após o abraço de fim da contenda, e terem recebido uma bênção especial do pastor, o irmão Tonho brada alto e em bom som:

---Agora tá tudo bem entre nós dois né irmão Vicente? Mas que aquela cobra era jararacuçu, isso eu tenho certeza!...

Diante disso o irmão Vicente responde:

---Não... Não... Irmão Vicente... Assim tamem não!

Fanatismo religioso temperado com teimosia nem Jesus Cristo aguenta.

Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casose Acasos