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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A LIMA-DE-BICO



     Eu morava na cidade de São Paulo e nas minhas visitas à Candeias eu tinha um hábito: quando chegava aqui, tão logo acomodava a mala e abraçava os familiares, corria a ver minha avó, Olinda Gomide, que morava, então, numa velha casa onde, hoje, está edificada a residência do Pedro Misael, defronte à máquina de café do Joãozinho, na Rua Francisco Bernardino de Sena.

Em uma dessas vezes, eu tive uma surpresa. Uma grande surpresa e não muito agradável. Tão logo cheguei, minha mãe me disse que na casa de minha avó estava acontecendo uma coisa muito esquisita. A sua casa teria virado um ponto de curiosidade, de gozação, e de atrevimento sobre um pé de lima-de-bico que havia, junto à porta da cozinha sendo que, há dois dias, o povo, por volta do meio dia, por lá aparecia para ver uma chuva cair sobre a limeira.

Ao chegar naquele local, me senti totalmente desapontado ao ver a fragilidade humana, principalmente, por parte da minha avó, como também, a curiosidade das pessoas diante do misticismo.

Minha avó, totalmente envolvida naquele clima, como se ali fosse descer a Santíssima Trindade a lhe fazer uma visita privilegiada. Dizia que, ao meio dia em ponto, a chuva cairia sobre o pé de lima, sob o sol escaldante. Falara isso, também, pelas ruas e nas casas, com tanta convicção, que, por pouco, o Bispo da Diocese, também, não iria querer ver essa chuva.

Mas, que chuva é essa minha avó? Eu perguntei. E a resposta foi direta, sem titubear:

---É uma graça, meu filho! É uma graça que estou recebendo.
---Mas que graça, vó? Eu não estou vendo nada engraçado aqui.
---Não! Não, meu filho, vai para a sua casa. Você não acredita. Você não pode falar assim.

O respeito que eu tinha pela minha a vó impôs o meu silêncio. Pensei: vou ver. Quero ver também.

Deu meio-dia e nada. Todo mundo com os olhos no pé de lima-de-bico, inclusive eu. Deu meio-dia e meia e nada de chuva. Nada de graça e nada de milagre... Aí, eu comecei a ficar com vergonha para a minha avó que não tinha nenhum sintoma do mal de Alzheimer, de caduquice, demência etc. Nada mais era do que um fanatismo religioso.

Os comentários já surgiam maliciosos, cheios de críticas e gozações. Uns diziam: essa velha está doida! Outros: ela deve ser biruta, coitada! Um cidadão, bem afeiçoado, disse: Será que a família dela não olha isso? E assim, foram os mais sucintos comentários que eu tive que engolir à frente das pessoas que não sabiam do meu parentesco com aquela mulher visionária.

Aparece, neste momento, um amigo. O Guido Bonaccorsi que, diante da sua experiência e inteligência, diz: Armando, isso aí é mandorová. Eu já vi isso. Só que eles já se foram. Pode ser que sua avó tenha recebido respingos do bicho e, dependendo do tanto deles, possa ter parecido uma chuvinha.

Diante disso, pedi desculpas ao povo presente, numa forma de dispensá-los. E com a ajuda do meu amigo, Guido Bonaccorsi, expliquei o fenômeno que estava acontecendo ali dando desfecho ao vexame.

Agora, difícil foi convencer a minha avó de que aquilo era urina de mandorová.

Mas, dando outro rumo ao assunto, a lima-de-bico é uma variedade das frutas cítricas. Tem um paladar meio amargo. Seu nome científico é “citrus limettioides tanaka”. Trata-se de uma árvore de porte médio e frutos, também, de tamanho médio, com um bico. Rica em vitamina C e combate, ainda, a falta de vitamina B2 e B5. Os adeptos da fitoterapia dizem que a lima-de-bico é um santo remédio, pois tem um largo poder de ação no tratamento de labirintite, zumbido nos ouvidos e sinusite. Coloca-se a casca em maceração no álcool de cereais e se toma o cheiro. A fruta, in natura, combate os males dos rins, da gota e de outras doenças mais. Por ser útil no combate ao colesterol, o chá das folhas ou da casca auxilia no tratamento dos males do coração. Além disso, evita o sangramento das gengivas.

Conheci um médico que dizia sempre que ter um pé de lima-de-bico, ou qualquer outra, no seu quintal, é ter uma verdadeira farmácia.


Minha avó dissera que teria recebido uma graça através da limeira. No caso dela, teria sido uma utopia, mas graça, com lima-de-bico, aconteceu foi comigo, bem antes disso, na mais pura realidade.

Certa vez, eu contava com os meus dezoito anos, após o fracasso contado aqui nas “Memórias de um adolescente”, continuava desejando usar o meu tato em um recheio de sutiã. E mais uma vez, o cenário se deu atrás de uma igreja. Só que, desta vez, foi nos fundos da Igreja do Senhor Bom Jesus.

Atrás da Igreja, bem próximo à sacristia, havia um pequeno prédio, tipo um sobradinho onde ficavam os transformadores, distribuidores de energia elétrica da usina do Bonaccorsi. Era a chamada, Distribuidora.

Instalada de forma contígua à igreja, porém, entre os dois prédios, havia um permeio cujos raios da luz de rua não conseguiam alcançar. E eu, um pouco mais experiente, observei que aquele local seria o ideal para que eu pudesse por em ação o meu desejo de apreciar o recheio de um sutiã. Ah! Como eu queria isso!...

Era Semana Santa e a cidade se movimentava. As casas do pessoal do campo eram abertas, o comercio vendia mais, o barulho era maior e, tirando a sexta feira santa, era só alegria.

A rapaziada da cidade aproveitava essas vindas do povo da roça para arrumar as namoradas, as paqueras. Isso ao que os jovens de hoje chamam “Ficar”.

Naquele tempo, a sociedade era muito diferente. As mocinhas de roça não tinham liberdade de namorar rapazes da cidade. Isso era para elas uma grande dificuldade. E, quando tinham uma oportunidade, não deixavam passar. Os pais eram muito rígidos. Virgindade, inocência, acanhamento, isso as caracterizava. Eram “santas”. (Hoje Deus está vendo).

Conheci uma mocinha, mais ou menos da minha idade, vinda da comunidade dos Vieiras, doidinha para arrumar um namorado e levar um trato. Chamava-se Maria do Carmo. Era magra, alta, rosto miúdo, cabeleira ampla e mal escovada, axilas apenas aparadas e suadas, um buço saliente e descuidado, parecendo cerdas de taturana amarelada, o que levaria a se imaginar como seriam as partes pudendas.

Mas, como naquele tempo era tudo uma lambança só e a juventude nem sempre tem olhos para essas coisas, eu nem liguei para esses detalhes e tratei de por a mão na minha caça que parecia não temer o perigo da espingarda. E depois, o que eu queria mesmo era apalpar o recheio de um sutiã. E ela tinha um sutiã recheado, com os mamilos bem apontados e deliciosos. Além disso, usava uma anágua engomada que fazia realçar um par de pernas, meio peludas, mas muito gostosas.

Lembro-me que, enquanto o Monsenhor Joaquim de Castro, e um Padre, chamado Nereu, pregavam a santidade eu queria mesmo era pecar.

A garota não mostrou nenhuma resistência em ir para o permeio escuro do fundo da igreja. E quando lá chegamos, lembro-me que já havia um amigo meu pecando também. Era o Zé Orlando Vilela, meu contemporâneo e companheiro de trabalho no Clube Recreativo Candeense.

Eu não perdi tempo. Bati de boca igual àquele negão da novela das oito, Insensato Coração. Fui com tudo para cima da menina já procurando o recheio de sutiã, quando a minha mão deparou-se com um corpo estranho. E o que seria aquilo? Puxei e estranhei! Tratava-se de um instrumento feito de meia e algodão com uma tampa com a casca de uma lima-de-bico como forma de modelar os seios pequenos e sem mamilos.

Fiquei meio danado da vida, mas mesmo assim, continuei na minha aventura de colher a fruta.

No outro dia, resolvi ir até ao local ver às claras os rastros do evento e lá estavam as duas tampas de lima-de-bico e duas espécies de ninhos de passarinhos forrados em algodão.

Eu me senti, neste momento, como que um rato de sacristia...

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias/Minas Gerais


CRÔNICA RELACIONADA
 -Memórias de um adolescente.
-Um frango pra galo
http://candeiasmg.blogspot.com/2010/09/memorias-de-um-adolescente.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2010/04/um-frango-pra-galo.html

8 comentários:

Anônimo disse...

Eu quero saber onde encontrar lima de bico, em Goiania- Go

bernadetebarata@hotmail.com

Anônimo disse...

Resposta ao primeiro depoimento: no mercado do centro vc encontra.

Anônimo disse...

Minha mãe tem Esclerose Lateral Amiotrofica, e ela perdeu a fala, uma senhora de 80 anos que tinha perdido a fala também, mas não tinha (E.L.A) me ensinou fazer um remédio com a lima de bico e pinga de engenho,ela voltou a falar.Vamos ver ser vai dá certo com a minha mãe.

Leider Lincoln disse...

Estou fazendo umas mudas. Em alguns meses as terei... =]

Anônimo disse...

Adorei a estória.

wellington dos santos disse...

Olá vc tem a Lima de bico

Michelle.oliveira Oliveira disse...

bom dia gostaria de comprar a lima de bico alguem vende por favor.

Michelle.oliveira Oliveira disse...

preciso da fruta lima de bico alguem de vcs pode me vender por favor