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quarta-feira, 3 de abril de 2013

COMENDO CARANGUEJO.

 

 ----Eu faço parte de um grupo de blogueiros amadores que, na maioria das postagens, mostra histórias verídicas. Um idoso contando histórias o faz com casos e fatos ocorridos no passado e nesses casos ele sempre faz parte do elenco quando se sente como se estivesse pintando um quadro em cores misturadas, retratando uma arte híbrida do naturalismo e do realismo. Contudo, a fonte inspiradora não se encontrará mais sob os olhos, mas sim, entre o cérebro e o coração. É assim que me sinto neste momento.

----Hoje, ao abrir uma gaveta do armário das minhas lembranças, veio à tona de minha memória, o nome de um dos meus grandes amigos: o candeense, Elvécio Melo Silva. Ele era o filho mais velho do Dé Cassiano. Elvécio se encontra em um quadro apenso às paredes do meu coração.

----Ao recorda-lo foi como encontrá-lo no antigo Bar do Lulu. Eu, com meu violão mal tocado, cantando com ele as canções de Claudio de Barros, um cantor que fazia muito sucesso naquele momento. Tínhamos muita coisa em comum. Sempre nos entendemos. Gostávamos das mesmas músicas e fazíamos serenata quando não havia, ainda, as vitrolinhas portáteis.

----Elvécio foi, durante muitos anos, viajante. Vendia as famosas balas Santa Rita, da cidade de Oliveira. Posteriormente, veio a ser motorista de taxi, profissão esta que exerceu durante muitos anos fazendo a praça de nossa cidade.

----Era o locutor oficial das barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias e de São Sebastião. Empolgado que era, colocava sempre o seu prefixo musical, a famosa polca: Barril de Chope e, -----conforme o link abaixo-----; assim, iniciava a sua locução:

----“---Senhoras e senhores”! Ao som deste prefixo musical, vai para o céu de Candeias o serviço de alto falante das barraquinhas de N.S. das Candeias e de São Sebastião.

Na técnica de som está, Sebastião Salviano;

Recepção do estúdio, Marina Salviano;

Discoteca e seleção musical, Santinha Salviano; ao microfone, este amigo de vocês: Elvécio Melo Silva.

 ----Nas barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias, o ouvinte encontra um quentão caprichado, um delicioso tira-gosto, um jogo de víspora, o coelhinho da sorte, além do leilão das prendas. E não se esqueçam de que a renda arrecadada será toda destinada para o aumento e reforma da nossa matriz.

 ----Assim, dando sequencia a nossa parte musical, vamos ouvir na voz de Duo Guarujá, o bolero: Só nós dois. Esta gravação Sueli do Dondico, oferece ao Armando do Zé Delminda, com muito amor e carinho.”

----Na nossa juventude, tudo tem uma conotação mais alegre. Portanto, eu sinto muita saudade das quermesses daquele tempo. Parece que eram mais animadas, mais alegres.

----Casado com a professora, Marta Santos, Elvécio vivia na antiga casa da nossa saudosa professora, Dona Elisa Paiva, bem próximo à Igreja do Senhor Bom Jesus.

----Certa vez, quando eu morava na cidade de São Paulo, recebi a visita do meu amigo, Elvécio. Dali, fomos para Santos a convite de nosso amigo, Ronaldo Oliveira. Ao chegar à cidade da Baixada, fomos à praia. Ronaldo, como bom anfitrião, levou-nos a um barzinho onde nos foi oferecido um prato de caranguejos. Eu e o Elvécio havíamos ouvido falar que se tratava de uma iguaria deliciosa, um produto do mangue. E nós, que não sabíamos nem o que era mangue e nem o que era comer caranguejo, ficamos assustados e calados.

----Aguardamos curiosos e receosos. Afinal, comer caranguejo não estava em nossa programação. Mas sendo caranguejos do mar, naturalmente não teria nada a ver com os nossos caranguejos venenosos e asquerosos. Até que o famoso prato fosse servido, enchemos a cara de conhaque uma vez que não podíamos ser covardes diante de um convite tão gentil. Quando o garçom colocou aqueles enormes crustáceos à mesa, acompanhados de um martelo de madeira, farinha, limão e molho de pimenta, eu e o Elvécio nos entreolhamos como se quiséssemos dizer: E, agora, José?!

----Ronaldo, com o fito de nos intimidar, não nos ensinou como comer o bicho. Disse apenas: isso é igual a peixe, sirvam-se. Ficou enrolando, e eu iniciei olhando para os lados para ver se tinha alguém comendo aquele bicho, deveras, esquisito.  Contudo, nós, com o cérebro já turbinado, pegamos o martelo demos uma martelada naquilo e chupamos como se chupa um osso de suã e o que menos nos interessou foi as "perninhas" do bicho. O que era, realmente, para ser apreciado. Para quem conhece a iguaria, sabe o fora que demos.

-----Que mancada! Dois caipiras comendo caranguejos aos olhos do garçom com os olhos fixos em nós e o Ronaldo como se estivesse sentindo um orgasmo. Foi um dia inesquecível. Durante anos eu e Elvécio comentamos sobre isso.

----O tempo ficou incumbido de lhe roubar a saúde. Anos depois, vitimado por um cruel diabetes, o meu bom amigo ficou resguardado no seu habitat, fora dos contatos com os amigos. A falta de visão o colocou em um mundo escuro e, em uma última visita que lhe fiz Elvécio não me reconheceu. Poucos dias depois, chegava-me a notícia de sua morte.

----Retratar uma passagem da vida é, sem dúvida, reviver aquele momento, seja ele feliz ou infeliz. Se feliz, é como se estivesse buscando revivê-lo; se infeliz, é demonstrar a felicidade por tê-lo vencido. Entretanto, de qualquer forma, o brilho desse quadro será a saudade que jamais se apagará enquanto existir vida em uma caixa de lembranças. Uma caixa de lembranças na qual se encontram a infância e a juventude guardadas em um canto do sótão da vida. Relembrar o passado é reviver uma viagem pela estrada da existência. Uma existência que, com certeza, é cheia de tropeços, de risos e lágrimas.

---- Onde quer que esteja meu bom amigo, Elvécio Melo Silva, receba o meu forte e saudoso abraço.

 ----Clique para ouvir o Barril de Chope

http://www.youtube.com/watch?v=b41CK_xEbeE

 Armando Melo de Castro


quinta-feira, 28 de março de 2013

DORMINDO E SONHANDO

Existem pessoas que dormem muito e outras que dormem pouco são os casos de quem tem insônia. Geralmente, desconsiderando as exceções, quanto mais velho uma pessoa vai ficando dorme menos. A cama é um móvel muito apreciado pelos dorminhocos. Além de dormir, a cama serve para descansar, para se amar e transar; --- ter filhos e sonhar. ----- Com certeza, as pessoas só não gostam de lembrar que a cama é também um lugar de partida para a eternidade.

Há pessoas que só de verem uma cama quase sentem um orgasmo, não para o prazer carnal, mas para dormir um belo sono e sonhar com um mundo que não lhe pertence.

Há quem goste de contar, em detalhes, os sonhos que teve durante o sono. Pessoas que escolhem com o que sonhar e, às vezes, tentam sonham até com o futuro de alguém. Pratica muito comum entre aqueles que apreciam um joguinho do bicho.

O sonho está associado ao sono. O sonho acordado não tem nada a ver com o sonho de quem dorme. Aqui, em Candeias, havia um rapaz, chamado Dimas. Era viciado em jogo do bicho. Dormia mais cedo para sonhar com os bichos e, assim, no outro dia, ter um belo palpite para arriscar a sorte. Quando perdia o sono, ficava chateado, pois estaria perdendo tempo em não sonhar. Isso pode até parecer piada, mas não é. Dimas vivia em torno do jogo do bicho.

No meu tempo de bancário, eu tive um colega e amigo, o Antônio Torres. Ele possuía o hábito de sonhar com atrizes famosas em situações eróticas. A coisa foi ficando tão séria que ele chegou a se casar com a Sonia Braga com direito a uma prazerosa lua de mel. A Vera Fischer, quando ainda nova e famosa, era o seu cacho. Vivia contando, na maior tranquilidade, como se real fosse, as suas noitadas.

Certa vez, o exagero foi tanto que, durante um desses sonhos, ele começou a sussurrar, em alto som, como se estivesse sentindo alguma dor fazendo com que o sono de sua esposa fosse interrompido. ----- Diante desta situação, ela, já acordada, lhe perguntou: “O que é que foi, Toninho? O que é que você está sentindo? Onde está doendo?" E ele, acordando assustado, disse: "Não é nada, não, mulher". Quando, então, ela o interpelou, como um aviso: "Olha lá, hein, Toninho”! “Olha lá, seu safado”. “Quem cê tá cumeno ai”?

Outras pessoas fazem as mais estrambóticas análises dos seus sonhos. Dona Ester, minha antiga vizinha da Rua Coronel João Afonso, ficava toda feliz quando sonhava com merda. Dizia que o sonho é o contrário da realidade. Para completar a sua convicção sobre esse tema, espalhou para a cidade inteira que sonhara com monsenhor Castro, as vésperas de sua morte causada por um câncer, de que o mesmo estaria vendendo saúde e que teria se curado do câncer.

E para que a bola dela ficasse ainda mais cheia, o seu marido, Joãozinho de Paiva, tinha um problema de incontinência fecal; portanto, não usava cuecas curtas. Preferia as ceroulas. Gostava de ter as partes bem protegidas. Certo dia, Dona Ester sonhou que ele teria se borrado todo e enchido a ceroula. ----- Como para ela merda no sono significava sorte e dinheiro, jogou no porco. Acertou para azar do banqueiro. ----- Agora, o pior foi ela contar para a cidade inteira como teria tido um palpite tão certeiro graças à incontinência fecal do marido. Coitado do Joãozinho! Todo mundo ficou sabendo que ele havia enchido as calças.

Portanto, suponho que o dorminhoco vive em dois mundos. O mundo real e um mundo fictício. Contudo, não vamos exagerar. Viver o que sonhamos é sempre um susto quando acordamos.

Mas, de todos os casos, o mais pitoresco de todos, aconteceu com o Chico Sinhana. ------ Chico Sinhana era irmão do Joanico, pai do Barroso. Ele dormia dia e noite. Naturalmente deveria ter alguma debilidade para dormir daquele tanto. ----- Certa vez, a sua casa ficou fechada por três dias e, em uma cidade pequena, aquela situação acabou chamando a atenção das pessoas. A casa, então, foi arrombada e, ao acordarem o dorminhoco, ouviram dele a seguinte bronca:

PUXA GENTE! MAS VOCÊS, PELO AMOR DE DEUS, QUE COISA!!! SERÁ QUE A GENTE NÃO PODE NEM TIRAR UM COCHILO SOSSEGADO!?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A ESCADA ROLANTE.

Foto para ilustração do texto.
Semana passada, quando eu circulava pelo interior de um grande shopping em Belo Horizonte, borbulhou, em minha mente, a primeira vez que fui a nossa capital. Eu devia estar com, mais ou menos, dezessete anos. Em meio àquela selva de pedra, eu me senti muito pequeno e, com isso, cheguei a ter medo, sem exageros, de um prédio daqueles cair sobre a minha cabeça.

Eu, como já disse, era um garoto muito bobo. Naquele tempo, não havia essa locomoção de hoje. Não existiam os ônibus. Aqui, em Candeias, passava uma pequena jardineira que demorava um dia para ir de Campo Belo a Formiga e permanecia, por lá, poucas horas. Era uma pequena estrada de terra que vinha pela comunidade dos Arrudas, atravessava a cidade, indo rumo à usina velha, depois os Baiões e, finalmente, Formiga. Essa jardineira que conduzia apenas vinte e cinco passageiros, quase sempre, transportava meia carga. Era de propriedade dos irmãos Antônio e Brás que eram irmãos, também, do Euridinho da Lucy.

O outro meio de transporte da época era o trem de ferro. Existia o misto (carga e passageiro) e, ainda, o noturno que transitava, obviamente, à noite. Nesse tipo de trem havia leitos e um restaurante. O trecho, sem conexão para os candeenses, era de Ribeirão Vermelho a Garças onde se faziam conexões com muitas locomotivas para outras bandas. Era esse o caminho que nos levava até Belo Horizonte que consumia, ao final, um dia de viagem.

Mas, voltando ao início, minha primeira ida a Belo Horizonte foi a viagem mais emocionante que eu fiz na minha vida. Além de Candeias, eu conhecia poucas cidades, como Formiga e Campo Belo. Conhecer Belo Horizonte seria um feito dos mais importantes para satisfazer a minha vontade de conhecer outras terras. E conhecer a capital, então?! Nossa! Esse dia sempre foi esperado por mim como uma bomba a explodir dentro do meu peito.

Em Candeias, havia somente um táxi. Aliás, antigamente, não se falava táxi. Era carro de praça e o motorista era chofer de praça. Esse táxi era do Edson Cordeiro, pai do Ailton Cordeiro. Edson era filho único. Seu pai, bem aquinhoado, teria lhe ajudado a se dar o luxo de dispensar o seu emprego na ferrovia, onde era o mais competente de todos os telegrafistas, pelo fato de ter sido transferido para a cidade de Lavras. Edson comprou um automóvel da marca norte-americana Ford e o colocou na praça. Ter um carro, naquele tempo, era um verdadeiro luxo. Logo, em Candeias, existia apenas um carro de praça que era coisa raríssima nas pequenas cidades.

Edson Cordeiro gostava muito de mim. Apesar de ser uma pessoa extremamente sistemática, eu não sei o porquê, mas, os nossos anjos da guarda se deram muito bem. Assim, em uma viagem que ele contratou para Belo Horizonte, quando foi levar um técnico que teria vindo a Candeias a fim de arrumar o transmissor de radio que existia na Igreja Matriz, ele me levou como caroneiro para lhe servir de companhia.

Esse convite foi o maior presente que eu poderia ter recebido de um amigo. Tomei um banho com sabonete Gessi, usei desodorante até no sovaco das pernas, lambuzei os cabelos de brilhantina Glostora e ensopei o pescoço com perfume Lancaster.

Na hora que entrei no carro, foi um cheiro só e já comecei a bancar o meu mico porque não sabia usar nem Glostora e nem Lancaster. Todavia, como o Edson e o passageiro não possuíam alergia, foram sentindo aquele cheiro misturado que não era nem de brilhantina e nem de perfume.

Eu nunca havia visto asfalto. Quando eu vi aquela rodovia asfaltada, eu já expressei a minha grande admiração como que podia existir uma estrada cimentada. Como se houvesse cimento! E quando eu admirava alguma coisa, eles riam e achavam bom. E eu pensava que estava abafando! Que ingenuidade!

Mais à frente, nós estacionamos em uma parada, à beira da estrada, para tomarmos um café. Em um canto do restaurante, havia uma mulher fritando pastel e todo mundo dando preferência aos seus pasteis quentinhos que estavam sendo feitos na hora. Eu acho que eu nunca havia comido um pastel quente porque quando dei a primeira dentada aquele vapor me fez queimar a boca deixando-me de sentir o gosto de qualquer coisa que viesse a comer posteriormente.

Chegamos a Belo Horizonte. Eu parecia um frango de granja em um galinheiro de galinha índia. Tudo para mim era novidade. Como estava assustado! Após deixar o passageiro no seu destino, o Edson estacionou o carro, no centro da cidade, e fomos até a Galeria do Ouvidor. Aí, então, foi o meu martírio. Depois que desci do carro, em meio aquele movimento todo, eu fiquei transtornado. Na hora de atravessar a rua, o Edson ficava de olho em mim até que entramos na tal Galeria do Ouvidor e paramos em frente a uma escada rolante. Então, ele me disse: você vai à frente porque pode ser perigoso. E eu, meio tonto, consegui agarrar no corre mão. Afinal, eu estava mais assustado do que antes. Ver uma escada subir!? Isso seria coisa de outro mundo! Onde eu poderia ter visto ou, simplesmente, ter pensado nisso antes. Aquilo seria assunto para um mês quando eu voltasse para Candeias. Um corre mão onde a mão não corre. Um degrau que sobe ao invés das pernas. Nem meus pais teriam visto uma coisa tão estranha.

Lá em cima, rodamos as lojas e, logo, voltamos. Na hora de descer a escada, como na subida, teria sido bem sucedida. Como não houve, por parte do Edson, a preocupação em me proteger eu fui afoito, querendo aparecer. Meti o pé entre os dois degraus, dei uma derrapada pela escada abaixo, no que fui socorrido pelos demais usuários que, após verem que nada me tinha acontecido de grave (exceto umas pancadas), riram. Acharam graça do caipira que, depois disso, saiu escalavrado. E essa viagem, que seria um assunto amplo na minha volta, foi silenciosa. Graças a Deus, o Edson nunca contou para ninguém e, até pouco antes de sua morte, eu comentava. “Como eu era bobo, hein, Edson?!”– E ele rindo, dizia: “Toda primeira vez tem um desajeito, Armando.” E eu, cá comigo, pensava:

Ainda bem que eu tenho outras primeiras vezes que ninguém viu.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 3 de março de 2013

UM CANDEENSE MALOGRADO.


Vista parcial de Candeias - Minha terra querida.
É lamentável que existam pessoas que não saibam assumir os seus problemas, os seus defeitos, as suas fragilidades ou, ainda, as suas incompetências. Essas pessoas acham que é mais fácil culpar alguém, até mesmo a sociedade, omitindo, assim, os seus erros quando seria muito mais elegante, comprovando maturidade, elas admitirem as suas responsabilidades diante dos seus fracassos. É sinal crasso de imaturidade buscar subterfúgios na ânsia em se defender do indefensável. Um exemplo emblemático disso, encontramos naquela conhecida alegação de quem diz que não melhorou de vida porque nunca soube puxar o saco de ninguém. As vítimas dessas perturbações morais causadas por indignação, aversão, por vezes, até repulsa se tornam pessoas chatas e pedantes diante do seu egocentrismo. Neste contexto, temos que admitir que se tratam, na realidade, de vítimas de um conflito social.

Há alguns dias, quando eu estacionava o carro na praça, defronte ao Banco do Brasil, encontrei-me com um conterrâneo e amigo meu que há muito não o via. Fazia tanto tempo que a gente não se encontrava que já éramos quase que desconhecidos, tendo em vista as alterações que o tempo promoveu em nossos físicos. Desconfiados, nós nos identificamos e nos vimos abraçados depois de uns quarenta anos, mais ou menos. Após alguns minutos, próximos da Igreja do Bom Jesus, a igreja na qual frequentamos as aulas de catecismo, nós trouxemos, à tona, a nossa infância e a nossa juventude. Dado ao desenrolar da sua história eu não direi o seu nome e o tratarei aqui apenas por meu amigo.

 Meu amigo que tem a idade caminhando junto a minha, dizia, em uma constante exaltação, que hoje se encontra, financeiramente, muito bem de vida. Todavia, em crescente lamúria, ressalvava que para isso não devia nada a “esta terra”, na qual passou até fome, nunca tendo lhe acolhido como um filho. Parece que me escolhera para um desabafo ao denegrir, desnudar e desmoralizar o local no qual nasceu. Trazendo, no fundo da sua alma, insistente mágoa de quem um dia foi ludibriado pela sorte diante de uma vida que ofereceu muito a uns e quase nada para outros.

 Eu, ao contrário dele, amo a minha terra. Se Deus me colocou aqui, não foi por acaso. E se tive de sair para ganhar a vida fora, isso jamais foi e será motivo para que eu venha a desnudar, denegrir ou desfazer daquilo que o Criador me deu o direito de falar: MINHA TERRA. É como dizia o meu amigo, Rômulo Nardi: “A palavra minha é uma grita ao olho.”. Entendo que devemos florescer o lugar em que Deus tenha nos colocado, mesmo que venha a ser sobre uma pedra, um rochedo. Quantas pessoas nasceram ricas aqui em Candeias e hoje estão pobres? E, contrariamente, quantos nasceram pobres e que agora estão ricos? Se fizermos a nossa parte, não precisaremos ficar em um autêntico vale de lágrimas para justificarmos aquilo que não conseguimos fazer. Aquele que planta, colhe. Falar mal do lugar em que nascemos é repudiar aquilo que Deus nos determinou. É, também, desconhecer os critérios lógicos da Obra da Criação de Deus. Eu sempre vivi e ainda vivo fora de Candeias. Entretanto, estou sempre aqui comungando a mesma hóstia com a minha mãe em seus oitenta e cinco anos de idade.

 Dizia, o meu amigo, de uma forma pouco elegante, que aqui é terra de um povo atrasado, de cabeça fechada e que só estaria aqui em visita a um amigo doente que lhe teria matado a fome, algumas vezes, durante a sua infância. Exaltava que é uma cidade que não favorece ninguém, que não há emprego, é sem cultura, enfim, sem nada.

 Diante daquela postura, que, sob os meus olhos de bairrista, já me deixava um tanto desconfortável, eu fiz questão de ouvi-lo, atentamente, para depois me manifestar, emitindo minha opinião e fazendo meus comentários. E , assim, ele continuava: “Eu nunca entrei naquele clube ali (indicando o atual Fórum, sede do antigo Clube Recreativo Candeense). Emprego aqui para mim só foi de servente de pedreiro ou de ajudante de caminhão. Hoje, eu tenho um apartamento muito bom em São Paulo. Tenho duas casas de aluguel na Vila Sabrina e ainda tenho uma mercearia que me dá uma renda muito boa e serviço para os meus dois enteados. Minha mulher é enfermeira aposentada e ganha uma nota. Eu não sou ainda aposentado porque o tempo que eu fiquei aqui, nesta merda, eu o perdi.”

 Com essa última informação, eu pude sentir que o meu interlocutor papudo começava a declinar perante os meus ouvidos aquilo que me fazia compreendê-lo. Entre mim e ele, a diferença de idade é muito pequena e, então, porque ele ainda não teria se aposentado? Ele foi para São Paulo na mesma época em que eu fui. Lembro-me, enquanto tínhamos contado, sei que fora cobrador de ônibus em São Paulo. Entretanto, eu já me encontro aposentado há dezessete anos!...

 E como já se encontrava um tanto cansado de esnobar os seus méritos, culpando Candeias por seus fracassos, resolveu, num estalo, demonstrar a sua capacidade financeira quando me convida para ir com ele até ao Bar Piloto para tomarmos Uísque. Eu notara que ele já havia ingerido bebida alcoólica, dado ao forte cheiro que exalava sobre o meu rosto enquanto falava. Dispensei o convite e, neste comenos, eu me preparava para me despedir, contudo, ele teria dado um nó em minha garganta que necessitava de ser desatado. E, assim, comecei:

 A vida é assim, meu amigo:

 Às vezes, as pessoas se revoltam com a vida, com o meio em que nasceu, todavia, sem maiores motivos. Mas, isso é compreensível. Procure colocar a sua cabeça no lugar. Você cobra de Candeias o fato de ser filho de um conflito. Parece que está aqui para se vingar. Porém, enfim, o que você fez por Candeias? Parece que você nunca amou a sua terra, nem mesmo quando criança. Você já falou de uma porção de gente, inclusive alguns mortos e que a meu ver eram boas pessoas.

 Lembra-se quando fomos colegas de escola? Você era muito revoltado e um dia que a professora pediu o nome de seus pais você disse que era filho de uma puta. A turma fez um olé e você saiu rogando praga em todo mundo.

 Você era criado por sua avó. Certa vez, deu de querer saber quem era o seu pai e, como a sua avó não sabia nem do paradeiro de sua mãe, você ameaçou a pobre velha com um disparate de palavrões.

 Você se lembra do engenheiro espanhol que construiu a praça central de Candeias, o Dr. Juan Fabra Romero? Eu e você éramos serventes de pedreiro na construção da praça central. Você, por muitas vezes, faltava do serviço sem mais e sem menos. O engenheiro lhe dispensou dos serviços e você o mandou tomar não sei aonde, na frente de todo mundo!?

 Lembra-se, também, daquela vez que você roubou umas garrafas vazias e as vendeu para comprar cigarros. E, por falar em cigarros, você ainda menino fumava. Você deve ainda se lembrar de quando enfiou um cigarro aceso no braço do Marcio da Quinha do Dedé, somente porque ele comentou que você estava fumando no banheiro da escola? Nossa! Aquela, talvez, seja a pior de todas as suas...

 Olha, meu amigo, eu me recordo muito bem de você. Fomos, no mesmo tempo, meninos e também colegas. Você não era flor que se cheirasse. Chamava as professoras de puta. Era levado, quase sempre, ao gabinete da diretora e, só não foi expulso da escola, porque o sistema daquela época era muito contemplativo, em termos de expulsão. Entretanto, como naquele tempo permitia-se às professoras baterem nos alunos, você vivia debaixo de vara.

 Eu sei que você melhorou de vida porque herdou da sua mulher, em São Paulo, uma pequena mercearia. Mas, quem manda por lá é ela e os filhos de seu primeiro casamento, os seus enteados. Sei que você não tem filhos. Eu conheço a sua história porque assim me disse o seu primo, Toninho. Você teve a sorte de se casar com uma mulher afortunada. Dessa maneira, o patrimônio que você diz lhe pertencer não foi resultado de seu trabalho. O seu parente que você maldiz me disse que você ganhou na loteria ao ter casado com uma viúva e que você a obedece por se tratar da sua galinha dos ovos de ouro. Causa-me, contudo, estranheza o fato de você não ter, ainda, se aposentado.

 Eu quero lhe dizer, meu amigo, que as pedras que nos atiram pela vida a fora merecem uma reflexão se a merecemos ou não. Uma autocrítica, de quando em vez, nos faz bem. No meu modesto entendimento, essas dores que dormem dentro de você, durante tantos anos, são dores de uma doença que só você pode curar. Você não perdoa nem a sua mãe que foi uma sofredora. O que ela fez hoje é comum. Foi uma mãe solteira que acreditou em um rapaz sem fibra e que sumiu e a abandonou na rua da amargura. Seu avô, muito ignorante, como a época em que vivia, a expulsou de casa. Tão logo ela deu a luz a você, ela sumiu e, também, nunca mais foi vista por aqui. Você sabe disso porque já lhe foi contado. Esse ódio que você transporta dentro de seu peito e de sua alma, o faz pobre, muito pobre. O torna mais pobre do que quando saiu daqui porque agora você é um homem maduro e tem o dever de pensar melhor...

 E, com um sorriso amarelo, me disse:

“É, Armando! Você não sabe o que está falando!”

 Desencantados, um com o outro, despedimo-nos. Eu entrei no Banco do Brasil e ele seguiu para o Bar Piloto.

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida (Vinícius de Morais).

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Ac

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O GALINHO GARNIZÉ.

Rua Coronel João Afonso no princípio da década de 50.
A galinha caipira surgiu de uma mistura de raças introduzidas no Brasil, desde a época do seu descobrimento. Veio de pontos diferentes do mundo, por isso, apresenta cores das penas diversificadas, o porte e o comportamento distintos. A verdadeira galinha caipira, além de ter estas características, é criada solta, nos quintais, ciscando à procura de alimento, ou seja, de insetos, minhocas, etc. É mais resistente às intempéries e às doenças. Seus ovos e sua carne são muito mais saborosos que os produtos de granja. As pessoas mais velhas dão inteira preferência à galinha caipira porque foram criadas comendo esse tipo de ave. Isso porque o surgimento das granjas, produzindo galinhas, em alta escala, não faz muitos anos. A galinha caipira, devido a sua baixa produtividade, tem o seu custo bem mais alto.

As primeiras galinhas chegaram ao Brasil por volta de 1530 e foram trazidas por Martim Afonso de Souza para a Capitania de São Vicente.
Consta, na história do Brasil, que os índios morriam de medo desses animais.

E por falar em galinha caipira, dou uma remexida nos guardados da minha memória e encontro a Rua Coronel João Afonso, na década de 50. A minha rua era um verdadeiro galinheiro coletivo de quatro moradores, nossos vizinhos do quarteirão entre a Rua Professor Portugal e a Rua Belmiro Costa. Eram eles: Henrique Sotero, Dona Joana Gorda, Dona Joana do Galdino e Dona Marica e como naquele tempo não existiam essas aposentadorias e nem os empregos de hoje, muita gente criava galinha, nos quintais, para que, com a venda de ovos e frangos, pudessem complementar os seus orçamentos. A vida, naquele tempo, era mais difícil do que nos dias atuais.

Logo pela manhã, já soltavam os seus bandos para a rua, através de um buraco que ligava o quintal à rua. E aí, elas se misturavam, cruzavam, os galos brigavam e, vez por outra, sumia uma ave. Diante dessa farra das galinhas, os seus proprietários viviam sempre encrencados.

Naquele tempo, o lixo doméstico não era como hoje, cheio de vidros, de latas, de plásticos, etc. Quase nada era embalado nas fábricas. O lixo se limitava a papel de embrulho que era queimado no fogão à lenha, ao desembalar os produtos comprados a granel. Plástico não existia e nem produtos de geladeira. As pessoas tinham, por hábito, levarem as suas sacolas às compras. De outra forma, o que se comia era o chamado “basicão”. Arroz, feijão, gordura de porco, macarrão, etc. O freguês comprava o quanto queria. Meio quilo, duzentos gramas, etc. Os fazendeiros produziam grande parte dos seus produtos. Além disso, muita coisa era comprada às portas como o leite, a farinha, frangos, ovos, arroz, feijão, verdura, etc. Os roceiros traziam de tudo para vender na cidade, aos fins de semana. Hoje é o contrário: eles levam tudo e não trazem nada.

Se para os ricos não havia essa chusma de produtos que existem hoje, imaginem para os pobres?! Às vezes, a pessoa tinha o dinheiro, entretanto, não tinha o que comprar. O pior é que existem pessoas que ainda tem coragem de dizer que o mundo antigo era melhor... Isso é o que se pode chamar de masoquismo.

Assim sendo, o lixo era pouco. Não havia nenhum tipo de coleta de lixo pela Prefeitura local e os restos de comida, quando não se tinha uma lata de lavagem encomendada por algum criador de porco, eram jogados, tranquilamente, na rua para serem aproveitados pelas galinhas dos vizinhos. Afinal, aí estava uma forma de diminuir o custo de manutenção das aves. Além disso, a rua era cheia de mato e a pastagem para as galinhas, também, favorecia. Apenas para galinhas presas é que seria difícil. Não podemos deixar de contar que essas galinhas comiam muita porcaria também. Mas nesse tempo parece que o povo não era tão preocupado com isso.

Em certas épocas do ano, esse mato crescia tanto que dava para as galinhas fazerem os seus ninhos por ali mesmo ou nos lotes vagos que existiam por perto. Aí, então, era aquela malquerença. Vi, por muitas vezes, brigas por causa de um ninho de galinha. Dona Marica saía sempre à porta, às pressas, quando via uma galinha fazendo aquele escândalo cacarejante por ter botado um ovo. Galinhas de donos diferentes botavam no mesmo ninho. Não havia transito de veículos na rua Coronel João Afonso nesse tempo.

Dona Marica, a mais bem de vida, dos vizinhos criadores, conseguiu, não sei de onde, um casal de galinha leghorn. Uma galinha branca que diziam ser boa poedeira. Isso aconteceu logo quando essa raça chegou ao Brasil. Ela resolveu acabar com as galinhas misturadas e criar apenas essa nova raça. Fez empada do seu velho galo e deixou o frangão leghorn para assumir o comando das suas frangas. Assim, soltava o casal promitente pela rua apenas na parte da manhã, na hora em que pudesse vigiá-lo para que não fosse enfadado pelos irmãos de raças impuras. Posteriormente, ficava pastorando o seu casal de branquinhos e, se algum mestiço aproximasse, já era atacado com uma pedra, previamente, preparada para espantá-lo. Caso o dono daquele galináceo visse aquela agressão, já fazia desencadear uma grande discussão.

Henrique Sotero criava a raça de galinha índia. Ficava macho quando via um galo vizinho cruzar com as suas galinhas. Dizia ele, no seu termo, que aquilo “despurava” a raça de suas galinhas. Todavia, o pau comeu feio e a língua rolou solta foi quando o Donizete, um neto de dona Joana Gorda, vizinha de porta do Henrique Sotero, ganhou um casal de galinha garnizé e o soltou em meio aos demais. O galinho era um verdadeiro diabinho. Brigava com os marmanjos, e passava a galinhada toda na cara. Estava sempre em cima de uma. E aquilo foi o suficiente para o Henrique ficar intrigado com o galinho. Ficava brabo e dizia que aquele maldito galinho ia “despurar” as suas galinhas de raça índia e que ia matar aquele capeta que acabou com o sossego das galinhas da rua.

  Certo dia, quando o galinho dava uma deliciada sobre uma de suas índias, com as suas esporas bem engalfinhadas, as asas bem centradas, o bico bem atracado e algo mais ajuntado o que lhe fazia sentir um orgasmo duplo, o bichinho foi surpreendido com uma vassourada sendo atirado longe, o que lhe fez soltar um cacarejado triste e desesperado. Salvo por alguém que ia passando no momento, em um estado de morre ou não morre, o galo mirim foi acudido pelos seus donos com uma poção açucarada e uma mistura de arnica com pinga para desinfetar os ferimentos.
O galinho não morreu, contudo, ficou quebrado. Tereza que era separada do marido e já era famosa na rua por suas implicâncias e metida a moralista com os vizinhos, vendo o seu filho chorar por causa do garnizé, foi até a porta do Henrique no momento em que ele, calmamente, consertava uma bicicleta. E ela, armada de uma vassoura, começou a insultá-lo:

---Vagabundo! Ocê bate é num coitadinho dum galinho. Eu quero vê é ocê batê nimim, seu cachorro!

---Sorta ele de novo que agora eu vô é matá de verdade! Galinho nojento! Inchertano as minha galinha índia.

----Só pur causa de uma cruzadinha atôa, nessas galinha preta e feia....

----Igual aquelas que o açogueiro te dá de madrugada, ali no fundo do quintal, né, sua galinha, sem vergonha! Ou cê pensa que eu num vejo ocê abri o portão pra ele?? Hein!

E Tereza tirou seu time de campo na hora. Acontece que, na realidade, ela tinha um caso com um açogueiro das proximidades que adentrava o quintal de sua casa na calada da noite. E o Henrique estava com essa carta na manga porque sabia que a parceira era dura.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O MEU PÉ DE TANGERINA.

Eu e ao fundo o meu pé de Tangerina.
 A vida é uma estrada cheia de obstáculos. Nascemos, vivemos e morremos. Somos enganados logo que chegamos ao mundo no momento em que nos colocam na boca um bico seco no sentido de nos castrar o choro. Crescemos em um mundo negativo onde os mais velhos mentem e os políticos roubam quando deveriam ser modelos sociais omitindo, assim, sua condição de seres exemplares.
Chegamos à vida adulta por um caminho no qual a tristeza vai lado a lado com a alegria que é sempre menor. A Obra da Criação de Deus é perfeita, entretanto, é constituída de linhas tortas que nem sempre são respeitadas. Com isso, toma conta de grande parte das pessoas o sentimento de inveja, de vingança e maldade.

A verdade é que vivemos enganando e iludindo a nós mesmos. Isso se deve ao fato de sermos frágeis. Nascemos sem pedir, vivemos entre a cruz e a espada e morremos contra a vontade. Obviamente, queremos ir para o céu, todavia, sem a necessidade de morrermos para isso.

O sentimento humano deveria ser trabalhado desde o dia do nascimento, todavia, não o é. Vivemos em um mundo viciado e o vício é contaminante. Os pais que deveriam ser os responsáveis, na realidade, são vítimas de um modelo social deturpado. E, com isso, somos dominados por sentimentos que retratam um sofrimento íntimo que vive corroendo o ser humano em sua grande maioria e destruindo o mundo encantado das crianças.

Contudo, falando em sentimento, despertei, no dia de hoje, pensando em uma mudança de domicílio que farei dentro de alguns dias. Completarei vinte e seis mudanças de tetos sob os quais eu tenho vivido incluindo cidades, pensões e casas, no decorrer da minha vida como bancário durante trinta e dois anos.

Em cada mudança que a gente faz, parece que fica um pedaço da gente para trás. E nessa meditação, eu me lembro da primeira mudança que fiz na vida, quando mudamos da casa onde nasci na Rua Coronel João Afonso, atinando-me com a primeira tristeza que entrou pelos meus olhos, registrou-se no meu cérebro e se acomodou no meu coração permanecendo até hoje.

Eu estava com meus doze anos de idade e ainda não tinha me deparado com a essência da vida. Naquele tempo, o céu era mais azul e as nuvens mais brancas. A velhice não era vista, nem de longe! As minhas esperanças eram tão limitadas! Eu não tinha expectativa para me formar em nada, eu não tinha uma televisão para me mostrar a ostentação da vida. Não tinha um rádio para ouvir uma canção que fosse alegre ou degradante. Não tinha um brinquedo de loja. O meu mundo era pobre e muito pequeno, porém, era imensamente feliz. E os limites deste mundo estavam no quintal da nossa casa que, em função daquela mudança, ficava para trás. Assim, eram os meus amigos: o pé de lima da Pérsia, o pé de laranja, o pé de pêssego, o abacateiro e a minha preferida, a querida árvore na qual tantas vezes eu brinquei sob a sua sombra com o meu caminhãozinho construído pelo meu pai. Era o meu pé de tangerina pura sem mutação, hoje muito rara e que possuía frutos doces e saborosos dos quais eu nunca mais pude apreciar. A minha tangerineira era como a minha árvore de natal e os seus frutos eram os presentes vindos de
Deus.

Despedi-me da minha árvore querida como um noivo que se despede da noiva ao ir para a guerra, em um banho de lágrimas. Foi, se não me engano, a primeira vez que chorei com o coração. E sempre, quando estou para me mudar de casa, ou vejo algum tipo de tangerina, paira sobre mim esta agressão emocional desencadeando uma dor incurável na forma de um rastro de saudade.

"No amor de uma criança tem tanta canção pra nascer, carinho e confiança, vontade e razão de viver."
( Cláudio Nucci )

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sábado, 26 de janeiro de 2013

BARROSO UM CAMPEÃO DA VIDA.

Joao Caetano de Faria Filho, o Barroso.

Eu me encontrava em uma festa, na cidade de Uberlândia, quando me chegou a notícia de que acabara de partir, para os domínios celestes, o meu amigo Barroso. Após essa triste notícia, o meu coração fluiu-se do mais puro sentimento de respeito e consideração. Assim, a minha memória, imediatamente, me transportou para Candeias através de uma prece para que eu pudesse, desta forma precária, sentir-me presente na despedida deste candeense cujo comportamento de cidadão, de pai de família e de amigo estará registrado como exemplo nos anais da história de nossa sociedade, da história de Candeias.

João Caetano de Faria Filho, o Barroso, era um homem humilde que, graças a sua capacidade moral, construiu um legado para a sua família e, ao mesmo tempo, beneficiando a população candeense de forma direta e indireta através de seu comércio, a rede de supermercados Faria que, apesar de ser iniciada em tamanho diminuto, expandiu-se à custa de muito trabalho e compromisso social, envolvendo toda a sua família.

Ainda jovem, tornou-se órfão de mãe após um acidente doméstico. Ele era o mais velho de uma turma de sete irmãos: Joãozinho, Zezé, Binho, Jofre, Guido, Vavá e Carlota, a caçula.

Com a morte da mãe, Joãozinho assumiu o comando da casa na lida doméstica e na criação dos irmãos. Arrumava a casa, lavava e cozinhava para a família.

Passado esse período crítico do dever familiar, Joãozinho do Joanico, como era chamado, começou a fazer a sua vida. Casou-se com Maria Aparecida Faria com quem teve sete filhos: Débora, Mariângela, Jucão, Ricardo, João Elcio, Paulo Roberto e Paulo Henrique, os gêmeos.

A morte do meu amigo Barroso cisma em mim, no entanto, a contemplação de Deus. Isso porque para ele a morte, jamais, seria um castigo. Viajo pelas asas da minha memória para rever um Barroso jovem, na força do trabalho, na prática do esporte e na dedicação aos amigos e familiares. E nessa sua entrega do bastão a Deus pelo dever cumprido com dignidade, aqui, entre nós, eu quero e preciso, nesta sua partida, lhe dizer:

Você, Barroso, deixará entre os seus familiares, os seus amigos e os seus conterrâneos, com certeza, uma grande saudade. Nesse sentimento que zomba da própria morte, com certeza, meu amigo, você não será lembrado como um homem doente apenso a uma cama de hospital. Você não será lembrado como um homem inerte diante dos deveres determinados pela boa conduta.

Você, Barroso, será lembrado como um homem que trabalhou durante toda uma vida e que apenas o tempo lhe fez pesar às costas e lhe interromper a caminhada; será lembrado como um pai de família que soube orientar os seus filhos através de exemplos e atitudes; será lembrado como o atleta dedicado que você foi do nosso esporte.

Lembrado será, ainda, com respeito, pelos eleitores que obtiveram em você um vereador sem mácula;

Será lembrado, principalmente, pela sua velha caminhonete Ford. Dia, após dia e anos, após anos, transportando creme e leite, aves, coisas e gente, sempre com a sua maneira gentil de ser e com o sorriso sempre a mostra, a bela forma com a qual iniciou a construção do legado que ora premia os seus filhos aos quais, além dos meus pêsames, eu quero dar os parabéns por terem tido, como patriarca, um pai, extraordinariamente, exemplar.

Você, Barroso, com toda a certeza, é o cara, é um campeão da vida  que todos gostariam de ser. Receba, portanto, onde quer que esteja, neste momento, o meu forte e saudoso abraço. 

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos




sábado, 12 de janeiro de 2013

O REI DE UM OLHO SÓ.

                           Foto para ilustração do texto.
Vadinho da Sota foi um grande amigo meu. Gordo, nariz e boca delicados, queixo redondo engastado entre a boca e as papadas. Tinha uma barba rala, o cabelo liso e olhos miúdos. Aliás, com um rosto tão gordinho e traços miúdos seria jus o seu nome de Vadinho, caso contrário teria que ser Vadão.

O seu porte lhe deu a ventura de ser, por muitos anos, o Rei Momo do carnaval candeense. Lembro-me de vê-lo balançando aquela enorme pança no meio do salão no carnaval, tanto à noite como nas matinês. ----- Era jovem e resistente. --- O seu porte físico não atrapalhava o seu desempenho como Rei Momo nos quatro dias de carnaval. Contudo, o seu apetite voraz acabava com a reserva das bebidas. ---

 Martine e Cinzano, duas marcas de vermute muito conhecidas como bebida de mulher pelo baixo teor alcoólico.  Eram as bebidas preferidas de Vadinho.  Todavia, ele tomava diversas copadas daqueles tragos que eram somente aperitivos. Afundava a reserva do barzinho e quase meava o estoque das saborosas empadas da Tereza do Candinho. Eu falo isso porque eu era o responsável do bar do Clube.

João de Souza Filho tinha um cargo quase que vitalício como presidente do Clube Recreativo Candeense. Todo ano, pensava em arrumar outro Rei Momo dado ao alto custo do Vadinho, isso porque como norma, o Rei Momo não pagava nada, era livre de tudo. Contudo Vadinho era insuperável e não tinha como arrumar outro. ---- Se no final do baile ele procurasse o que comer ou beber e se havia acabado ele roncava grosso e dizia: “Poxa mas que pobreza gente”!

Candeias nunca teve um Rei Momo tão animado como Vadinho da Sota.

Gostava de mentir para causar suspense. E eu gostava muito de ouvir as suas mentirinhas inofensivas. Certa vez, ele me disse que teria beijado, maliciosamente, uma professora. Mas, nunca me disse quem foi essa professora colocando, dessa maneira, todas as docentes em suspeição. Beijar uma professora, naquele tempo, não era tomar mel, era comer a própria abelha.

Como a maioria das pessoas gordas, Vadinho da Sota era um cara camarada, bom de prosa e humilde. Fez de tudo na vida. Foi sapateiro, servente de pedreiro, pedreiro meia-colher, cavouqueiro de pedreira e outras profissões, porém, nem assim emagrecia. Parecia que engordava até mesmo tomando água. Era um gordo que ninguém nunca o viu reclamar de ser gordo. A gordura não o atrapalhava.

Casou-se mais tarde com uma moça da cidade de Formiga. Não teve pressa para isso, pois lhe faltavam condições. Daí em diante, formou a sua família.

Depois de muita peleja na vida, foi trabalhar com o seu irmão dentista, Dr. Osmar Soares Alves, cuja história está registrada neste blog: Candeias Casos e acasos - A boca e a Vagina.

Desde então, parece que as coisas melhoraram para o Vadinho. Tomou noções de odontologia e saiu trabalhando pelas roças de outros municípios porque no município de Candeias era perseguido.

Como dentista magarefe, como diziam, conseguiu fazer o seu pezinho de meia. Terminou os seus dias morando na Rua Nicodemos Salviano, esquina com o Cemitério São Francisco.

Assim era o meu amigo Vadinho.

Certo dia me convidou para ir com ele visitar o seu gabinete de trabalho nas proximidades da estação ferroviária dos Paneleiros, uma comunidade que fica abaixo de Bugios, já no município de Formiga, onde ele atendia em dois dias da semana. Assim, fomos juntos. Naquele tempo, em que havia trem de passageiro, tomamos o noturno, ao amanhecer do dia, levamos o rango e anzóis para pescar em uma lagoa nas proximidades.

Finalmente, chegamos ao fim da linha. Era uma casinha, tipo tapera, com três cômodos nas proximidades da estação do trem. Ganhara aquilo emprestado de um fazendeiro e ele mesmo foi quem deu uma barreada para melhorar o ambiente. Da sala ele fez a salinha de espera; do quarto, o gabinete e a cozinha foi uma cozinha mesmo. E para dormir, tomava pousada oferecida pelo agente da estação, um rapaz solteiro e que tinha em seu apartamento, anexo à estação, um quarto vago. ----

Eu que tenho sérios traumas e medo de dentistas, tão logo bati os olhos no gabinete do meu amigo, me senti asfixiado e me bateu uma vontade danada de voltar, imediatamente para a minha casa. O ambiente era o retrato do desespero. A sala de espera consistia, unicamente, em um banco grosseiro. O gabinete tinha uma cadeira de dentista daquelas mais antigas do mundo. Ao vê-la tive a impressão ter sido a cadeira elétrica que matou Caryl Chessman. ----

Os petrechos ficavam em um tabuleiro de assar biscoitos sobre uma mesinha tosca. ----- Lembro-me do seu boticão que parecia um verdadeiro alicate de ferrar cavalos. ---- Os vidros, talvez com algum tipo de medicamento ou material de dentista, estavam em uma caixa de madeira pregada na parede e, em um canto, uma bacia pequena com um jarro esmaltado cheio d’água para abluções. ---

Eu envolvido nos meus traumas de medo de dentista, não podia falar nada, contudo, podia pensar o que bem quisesse. E pensei. Como aquela gente tinha coragem de assentar em uma cadeira daquelas e deixar o Vadinho mexer em suas bocas? Como aquela gente não temia ficar sem a língua, sem os dentes ou ficar sangrando até à morte? E por um risco daqueles, ainda pagavam! Ele que já havia trabalhado em pedreiras, mexendo ali com dentes, obturações, etc. Era, com toda a certeza, uma total incompatibilidade artesanal. ----

Os clientes que apareceram, naquele dia, foram atendidos e saíam todos cuspindo sangue como se tivessem tomado um murro na boca e levavam, ainda na mão, um comprimido de Cibazol. Era o medicamento que Vadinho indicava e o fornecia junto ao tratamento por ser, naquela época, o mais barato. ---

Alguns o chamavam de doutor e ele ficava todo inchado e, assim, me dizia: “Veja, Armando!? Na terra de cego, quem tem um olho é rei. Aqui, eu sou até doutor...Vê só”?! ---

Pousamos no quarto de hóspede do agente da estação Paneleiros e pela manhã, tão logo tomamos o café, fomos para o gabinete. ------ Aquilo para mim não passava de um fundo de martírio. Ali, já o esperava uma senhora gorda, da sua confraria, e que se queixava de uma tremenda dor de dentes e demonstrava isso devido ao grande inchaço do seu rosto. Vadinho, para ficar mais chique, colocou um avental branco, lembrando um autêntico pai de santo, começou a examinar a boca da infeliz e diz: ---

---Olha, Dona Maria! O seu caso é extração, não tem outro jeito.
 ---E o que é tração, Sô Doutore?
 ---Teremos que arrancar o seu dente.
 ---Pode rancá.
 ---Mas, a anestesia costuma não pegar o com o rosto tão inchado, Dona Maria!
 ---Intão, comé qui eu faço?
 ---Acredito que vai doer muito...
 ---Mais do que já tá?
 ---Um pouco mais.
 ---Num tem portança, não, a dor tá dimais...
 ----Bem, já que ele está bambo, pode ser que saia fácil.

E o Vadinho pegando o boticão, deu-lhe uma desinfetada com álcool frio e já foi enfiando aquilo na boca da mulher que, de repente, soltou um grito e logo começou a vomitar. Queira Deus, não estivesse fazendo outras coisas que nem consegui ver. ---- E o meu amigo Rei de um olho só, desesperado e todo labreado, olha para mim e pergunta:

---O que é que eu faço, Armando?!
    
---E eu, muito mais apavorado, respondo: E eu sei lá, Vadinho???!!!

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A CARTEIRA PERDIDA.

Semana passada eu contei aqui  o caso de uma carteira que foi encontrada debaixo da poltrona de uma jardineira quando eu fui cobrador dessa. Hoje será um caso diferente, quando muitos anos depois, eu perdi uma carteira em pleno ultimo dia do ano.

 No último dia do ano de 2012, eu residia na cidade de Lagoa da Prata, eu me preparava para ir ao Banco Itaú sacar algum dinheiro para me abastecer na noite de 31 de dezembro junto de minha família, no sentido de buscar receber uma suposta influência misteriosa que emanaria dos astros e das coisas que tentam explicar aos nossos corações um tipo de energia, às vezes, inexplicáveis nessas datas de mudanças.

 

Ao passar em frente à casa lotérica, consultei a carteira e vi que ainda tinha uma quantia em dinheiro para participar do sorteio da mega da virada, sobrando-me poucos reais disponíveis. Com o advento do cartão de crédito/débito tornou-se desnecessário portar grandes importâncias em dinheiro na carteira. Por ali, me encontrei com alguns amigos, assentei-me na praça, entrei e sai do carro e ao chegar à referida agência bancária, dei pela falta de minha carteira contendo documentos e cartão de crédito.

E como a situação requer uma ocorrência policial, fui questionado onde eu teria perdido o objeto, o que seria muito fácil se eu soubesse. Tomei as providências junto ao Banco, no sentido de sustar quaisquer pagamentos indevidos e providenciei uma nova via de documentos.

Quem já perdeu algum dia, uma bolsa de documentos, naturalmente, saberá o que senti diante do ocorrido.

Um ano após o ocorrido, já em 2013, esta carteira chega as minhas mãos, através do Banco, enviada por um anônimo sem os poucos reais e com um bilhete:

“Toma a sua carteira seu filho da puta. Vê se da próxima vez que perdê-la perca com algum dinheiro seu pobretão duma figa.”

A vida é uma escola que, por muitas vezes, nos ensina lições dolorosas.

Armando Melo de Castro