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quarta-feira, 3 de abril de 2013

COMENDO CARANGUEJO.

 

 
Eu faço parte de um grupo de blogueiros amadores que, na maioria das postagens, mostram histórias verídicas. Um idoso contando histórias o faz com casos e fatos ocorridos no passado. E se sente como se estivesse pintando um quadro em cores misturadas, retratando uma arte híbrida do naturalismo e do realismo. Contudo, a fonte inspiradora não se encontrará mais sob os olhos, mas sim, entre o cérebro e o coração. É assim que me sinto neste momento.

Retratar uma passagem da vida é, sem dúvida, reviver aquele momento, seja ele feliz ou infeliz. Se feliz, é como se estivesse buscando revivê-lo; se infeliz, é demonstrar a felicidade por tê-lo vencido. Entretanto, de qualquer forma, o brilho desse quadro será a saudade que jamais se apagará enquanto existir vida em uma caixa de lembranças. Uma caixa de lembranças na qual se encontram a infância e a juventude guardadas em um canto do sótão da vida. Relembrar o passado é reviver uma viagem pela estrada da existência. Uma existência que, com certeza, é cheia de tropeços, de risos e lágrimas.

Hoje, ao abrir um armário das minhas lembranças, veio à tona de minha memória, o nome de um dos meus grandes amigos: o candeense, Elvécio Melo Silva. Ele era o filho mais velho do Dé Cassiano. Elvécio se encontra em um quadro apenso às paredes do meu coração.

Ao recorda-lo foi como encontrá-lo no antigo Bar do Lulu. Eu, com meu violão mal tocado, cantando com ele as canções de Claudio de Barros, um cantor que fazia muito sucesso naquele momento. Tínhamos muita coisa em comum. Sempre nos entendemos. Gostávamos das mesmas músicas e fazer serenata era um gosto nosso.

Elvécio foi, durante muitos anos, viajante. Vendia as famosas balas Santa Rita, da cidade de Oliveira. Posteriormente, veio a ser motorista de taxi, profissão esta que exerceu durante muitos anos fazendo a praça de nossa cidade.

Era o locutor oficial das barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias e de São Sebastião. Empolgado que era, colocava sempre o seu prefixo musical, a famosa polca: Barril de Chope e, -----conforme o link abaixo-----; assim, iniciava a sua locução:

“---Senhoras e senhores! Ao som deste prefixo musical, vai para o céu de Candeias o serviço de alto falante das barraquinhas de N.S. das Candeias e de São Sebastião.
Na técnica de som está, Sebastião Salviano;
Recepção do estúdio, Marina Salviano;
Discoteca e seleção musical, Santinha Salviano; ao microfone, este amigo de vocês: Elvécio Melo Silva.

Nas barraquinhas de Nossa Senhora das Candeias, o ouvinte encontra um quentão caprichado, um delicioso tira-gosto, um jogo de víspora, o coelhinho da sorte, além do leilão das prendas. E não se esqueçam de que a renda arrecadada será toda destinada para o aumento e reforma da nossa matriz.

Assim, dando sequencia a nossa parte musical, vamos ouvir na voz de Duo Guarujá, o bolero: Só nós dois. Esta gravação Sueli do Dondico, oferece ao Armando do Zé Delminda, com muito amor e carinho.”

Na nossa juventude, tudo tem uma conotação mais alegre. Portanto, eu sinto muita saudade das quermesses daquele tempo. Parece que eram mais animadas, mais alegres.

Casado com a professora, Marta Santos, Elvécio vivia na antiga casa da nossa saudosa professora, Dona Elisa Paiva, bem próximo à Igreja do Senhor Bom Jesus.

Certa vez, quando eu morava na cidade de São Paulo, recebi a visita do meu amigo, Elvécio. Dali, fomos para Santos a convite de nosso amigo, Ronaldo Oliveira. Ao chegar à cidade da Baixada, fomos à praia. Ronaldo, como bom anfitrião, levou-nos a um barzinho onde nos foi oferecido um prato de caranguejos. Eu e o Elvécio havíamos ouvido falar que se tratava de uma iguaria deliciosa, um produto do mangue. E nós, que não sabíamos nem o que era mangue e nem o que era comer caranguejo, ficamos assustados e calados.

Aguardamos curiosos e receosos. Afinal, comer caranguejo não estava em nossa programação. Mas sendo caranguejos do mar, naturalmente não teria nada a ver com os nossos caranguejos venenosos e asquerosos. Até que o famoso prato fosse servido, enchemos a cara de conhaque uma vez que não podíamos ser covardes diante de um convite tão gentil. Quando o garçom colocou aqueles enormes crustáceos à mesa, acompanhados de um martelo de madeira, farinha, limão E molho de pimenta, eu e o Elvécio nos entreolhamos como se quiséssemos dizer: E, agora, José?

Ronaldo, com o fito de nos intimidar, não nos ensinou como comer o bicho. Disse apenas: isso é igual a peixe, sirvam-se. Ficou enrolando, e eu iniciei olhando para os lados para ver se tinha alguém comendo aquele bicho, deveras, esquisito.  Contudo, nós, com o cérebro já turbinado, pegamos o martelo demos uma martelada naquilo e chupamos como se chupa um osso de suã e o que menos nos interessou foi as "perninhas" do bicho. O que era, realmente, para ser apreciado. Para quem conhece a iguaria, sabe o fora que demos.

Que mancada! Dois caipiras comendo caranguejos aos olhos do garçom com os olhos fixos em nós e o Ronaldo como se estivesse sentindo um orgasmo. Foi um dia inesquecível. Durante anos eu e Elvécio comentamos sobre isso.

O tempo ficou incumbido de lhe roubar a saúde. Anos depois, vitimado por um cruel diabetes, o meu bom amigo ficou resguardado no seu habitat, fora dos contatos com os amigos. A falta de visão o colocou em um mundo escuro e, em uma última visita que lhe fiz Elvécio não me reconheceu. Poucos dias depois, chegava-me a notícia de sua morte.

Onde quer que esteja meu bom amigo, Elvécio Melo Silva, receba o meu forte e saudoso abraço.

Clique para ouvir o Barril de Chope

Armando Melo de Castro

Candeias MG casos e acasos.

3 comentários:

Sebastião Alves Ferreira Sobrinho disse...

Estou usando este espaço, não para tecer comentário sobre determinada(s) crônica(s), para o que, talvez haja um meio mais específico para fazê-lo, mas o que vai importar para mim, é que essas ponderações cheguem ao conhecimento do escritor Armando.
Adimiro indiscriminadamente tudo que você escreveu (embora não tenha lido ainda todas as suas crônicas, que salvo engano, deve estar perfazendo 164, postadas apenas nesse meio de comunicação).
Eu sei, Armando, que você está plenamente realizado quanto ao quesito autoral, haja vista, se compilarmos todos seus contos e crônicas, em quantos livros seriam transformados?! Dezenas, não? Porém, não lhe aguçou, em algum momento, a vontade de levar esse acervo literário a todos os rincões da sociedade?
Quem é beneficiado por poder acessar uma internete, naturalmente também o é em poder acessá-lo, mesmo com restrições, mas, convenhamos, a maioria, de poder aquisitivo mais escasso, está sendo tolhida de usufruir do deleite que sua leitura proporciona.
Confesso que as vezes sinto não contemplar justiça, embora involuntariamente, obvio, por eu estar tendo o privilegio que outros nao podem ter.
Gostaria de sua manifestação sobre essa minha curiosidade.

Juliana Alvarenga disse...

hahaha... muito boa tio! e me deu uma vontade de comer caranguejo também!! rsrss

Armando Melo de Castro disse...

Prezado Sebastião,

Seu comentário e sugestão fizeram de mim bastante lisonjeado. Contudo, meus modestos textos são extraídos da essência do meu bairrismo e do amor que tenho pela terra onde nasci. Sem que pretensões outras pairassem sobre os meus objetivos. Todavia, levada em conta a sua sugestão e dada a sua espontaneidade natural, posso dizer que isso poderá ser um caso a se pensar.

Sua opinião será sempre muito importante.
Receba o meu abraço e o meu agradecimento.

Armando