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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ÉBRIO E O ABSTÊMIO


Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

Hoje caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

UMA CARTA MEDIÚNICA



CARTA MEDIÚNICA  AO MEU AMIGO E COMPADRE WANDERLEY ALVARENGA.

Prezado compadre:

Como a gente não conhece os lugares para onde nós vamos depois da morte, eu suponho que você esteja no céu. ----- Eu sei que você andou brigando e falando bobagens com Jesus Cristo, quando estava aqui na terra, mas sei também que Jesus perdoa e já deve tê-lo perdoado.  ------ Esta é uma carta espiritual que você vai lê-la à medida que a escrevo em estado mediúnico. Não é uma carta postal daquelas usadas nos nossos tempos, quando entregava ao correio e já começava a esperar a resposta demorada.

Vamos, portanto, recordar um pouco do nosso tempo, quando você saiu quase chorando para ir procurar trabalho em Brasília; lembrar do barzinho no prédio do cinema e das suas namoradas das quais você não firmava com nenhuma, pois todas tinha um defeito, até que você conquistou a comadre Aparecida e tiveram o primeiro filho, Christian, para o qual eu honrosamente fui convidado para padrinho, para quem peço as bênçãos de Deus.

Você se lembra querido Ley de quando você foi para Brasília. Eu morrendo de inveja de ver você partir e você invejado de me ver ficar. Eu com os meus 17 anos e você lá com os seus 27. Tínhamos uma diferença de dez anos, mas éramos dois adolescentes. Naquele tempo a adolescência em Candeias durava mais.

Você me escreveu aquela carta dramática? Aquela carta que você começou assim:
“Parece Armando, que a distância se compraz em judiar com a gente. Atravesso a avenida com o coração espedaçado pela angústia e pela saudade de minha querida terra a minha amada, Candeias!” --- Lembro-me que fui correndo olhar no dicionário o que era a palavra “compraz” e ainda fiquei pensando: o meu amigo Ley está ouvindo muito discurso de deputado lá em Brasília.

Como você gostava de Candeias Ley... Nas suas diversas saídas na busca do futuro lá fora, não conseguiu se fixar em lugar nenhum fora de Candeias, e a nossa terra naquele tempo fazia penar quem ficava e chorar quem saia.

Anos depois você com um pequeno capital abriu um barzinho na lojinha da entrada do cinema.  Hoje, quando eu dava uma volta pelas gavetas das minhas memórias, eu estive assentado num banco da praça, bem defronte ao cinema onde você teria recentemente inaugurado o barzinho. Naquele lugar que, por tantas vezes juntos, em uma época tão remota, mas, tão doce, tão presente, eu contando os meus vinte anos já morando fora e você com os seus trinta, você me disse todo feliz numa alusão à abertura do boteco:
 “Armando, as mulheres são muito interesseiras! Só por causa dessa meia dúzia de garrafas na prateleira, já estou cheio de pretendentes.”

Você gostava de palavras diferentes, gostava de fazer versos e frases; adorava ler dicionários. Quando você via uma palavra diferente, já a tomava para incluir no seu vocabulário. Às vezes as empregava mal, mas isso não vinha ao caso, porque quem as ouvia nem sempre também as entendia.

 E uma coisa que você gostava era quando alguém lhe perguntava o significado de certa palavra. Você explicava tal qual um professor. ---- Aconchegar, olvidar, marital, admoestação, píncaro, âmago, são algumas das palavras que me lembro, entre outras, que você estava sempre arrumando um jeitinho de emprega-las na sua conversa.

Certa vez, o Zé Moreira discutindo com você lhe disse que você vivia iscrafunchando a vida dos outros e você para lhe dar o troco disse:
“Não! Eu não “iscrafuncho”, eu escarafuncho.”.

Outra coisa que eu nunca me esqueci, foi o dia que o Ênio Bonaccorsi comeu todos os pedaços de doce que existiam em um prato na vitrina do seu boteco. Quando ele saiu, você deu com a língua nos dentes e disse para nós, os outros fregueses:
“O Ênio está se transformando num grande glutã.” Foi quando alguém lhe disse: não é glutã Ley, é glutão. E você, meu amigo, como sempre cavando um empate quando perdia uma disse: “Com certeza o meu dicionário está errado”.

Você se lembra de quando nós trabalhamos no teatro? Você tinha uma memória privilegiada, incomparável e decorava o seu e os papéis dos demais atores. Tratando-se de uma peça antiga tinha muitas palavras diferentes e você nadou e rolou esnobando as palavras chamadas difíceis.  ---- Certa vez você disse que estivera aconchegado no sansão, foi uma piada para a turma. Às vezes você facilitava quando empregava uma palavra diferente.

 Não tenho como me esquecer das suas paixões quando arrumava uma namorada nova. Aliás, você se apaixonava e desapaixonava com tanta facilidade meu querido Ley! Na mesma hora que você estava naquele entusiasmo, fazendo poesias, fazendo frases para a garota, muito beijinho, muita balinha de hortelã para apurar o hálito, você já estava desgostoso. ----- Uma vez você começou a namorar uma moça da roça chamada Antônia; nos primeiros encontros você só a teria visto à noite. Contudo, tendo chegado à festa do Rosário, você a viu durante o dia, isso foi o bastante para você terminar o namoro.  ------- 

Eu lhe perguntei: o que houve Ley? e você disse prontamente:
“Sabe, Armando, não suporto mulher com o calcanhar rachado. Dá-me a impressão de que ela é toda rachada, descuidada. Não suporto também  aquelas rodelas de suor debaixo das axilas... Não dá, o que me dá é a impressão de que ela é toda fedorenta!”

Esteja com Deus meu querido compadre. A nossa Candeias não existe mais e os candeenses de hoje não iriam querê-la, garanto.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.




sábado, 1 de outubro de 2011

OS GATOS DO TELHADO (Segunda Parte)


Certa vez, chegou para ser armado, na Praça Antonio Furtado, um parquinho desses bem fuleiro. Chamava-se “Parque Estrela do Sul”. O proprietário era um mulato alto, cabeleira cheia, sem bigode, rosto muito bem barbeado. Dentes brancos como leite, Pescoço grosso e cara boa como se estivesse satisfeito com aquela vida miserável de viver de cidade em cidade. Morava em uma barraca junto ao parque. Falava baixo e mansamente como se fosse um padre aconselhando uma ovelha. Usava camisas coloridas e soltas pra fora das calças da marca Lee, quando o jeans começou a aparecer aqui, em Candeias. Botinas de pelica tipo “Beatles”. Fumante charmoso. Naquele tempo, não havia cigarros de filtro. Ele usava sempre uma boquilha na qual colocava um pequeno chumaço de algodão. Dizia ser para amenizar o malefício do fumo. Chamava-se André, mas, gostava de ser chamado de Dezinho. Dizia ser natural da cidade mineira de São João Nepomuceno.
Sua esposa era uma mulher bonita do tipo “perua”. Não se sabe se eram casados ou amancebados. Tinha um sorriso atraente e desembaraçado. Cabelos longos, castanhos bem claros. Brincos argolados, bem grandes. Bem maquiada. Não era gorda e nem magra. Era um meio termo que dava para ver carne e toucinho. Comunicativa ao extremo. Conversava e brincava com todo mundo. Eram pessoas bem afeiçoadas e bem vestidas para quem pertencia a um parque daquele padrão. Naquele tempo, em que as mulheres, praticamente, não usavam calças compridas ela desfilava meio ao parque salientando as suas nádegas volumosas e que chamava a atenção da meninada, da rapaziada e dos velhos. E ainda causava despeito nas mulheres que sempre comentavam:
---Essa mulher! Num sei não. Esse trem num deve que presta!
---Será que ela respeita aquele homem?
---Mulher de calça comprida e ainda vermelha... Sei lá!
A meninada, também, não ficava alheia. O João Índio, o sapeca da turma, andou comentando:
---Logo, na hora de deitá, eu vou rezá e pedir a Deus pra mim sonhá com aquela muié do jeitinho que eu tô pensando. De vagarzinho, sem pressa. Começando pela boca e indo desenvolvendo.
Vicente Fumeiro, um acanhado da turma, ousou falar:
---Eu sou um pobre coitado, mas, tô aqui só pensando!
Dos homens, os comentários eram outros:
---Que trenhão, hein, sô? Ela tem cara de quem dá...
---Será? Uai, se ela quisesse uns milinho eu até que dava...
---Dificil é cantá ela. Com aquele baita negão por perto...
---Eu vi ela dando bola pro Zé Caria, --- comentou o Vicetinho Vilela...
---Cê ta brincano! Será que ele vai cacifar a banca? Num acridito! ---- Disse o  Sebastião do Arlindo...


Zacarias, cujo nome se transformou em Zé Caria, era o gostosão da paróquia. Parecia um artista de circo de touradas. Não tinha um palmo de terra, mas era metido a fazendeiro. Comprava uma vaquinha aqui outra ali, Ora vendia para açougueiros, outras vezes matava em sua própria casa, salgava e ia vendendo na sua porta aquela lambança robusta. Vendia galinha, carneiro, cabrito, que ficavam presos num cercado, ao lado de sua casa e que causava um tremendo mau cheiro. A vizinhança vivia reclamando. Às vezes, eu penso que o povo antigo tinha mais anticorpos.


Zé Caria era um bobo alegre. Todo circo, parque e barraca de cigano que chegava à cidade ele já arranjava um jeito de chegar e fazer amizade. Nos circos, era para entrar de graça. Com os ciganos, era para trocar cavalos e nos parques, era para aparecer. Ele achava chique ter amizade com os donos desses itinerantes. Às vezes, até arrumava um jeito de trabalhar numa barraca.


Era barganhista. Vivia trocando cavalo velho por outro mais novo ou vice-versa. Quando tinha cigano na cidade, ele ficava junto a eles o tempo todo. Na hora de examinar o animal, arreganhava a boca do bicho e olhava dente por dente para saber a idade.

 Estatura média, bunda caída, um bigode chinês e os dentes amarelados pelo fumo. Gostava de contar vantagens. A mulher que olhasse para ele já saia falando que a fulana tava lhe querendo. Vivia sempre com um chapéu de lebre de abas, bem largas. Um lenço no pescoço. Botas de sola branca e camisas estampadas. Às vezes, dava para pensar que gostava de se calcar em uma imagem de algum “cawboy” americano. Postava-se como John Waine, montava feito Allan Ladd e fumava no estilo Antony Steffen. Mas, coitado! Estava muito longe disso. Enfim, era uma figura ridícula, principalmente, quando se falava em mulheres. Seus comentários se tornavam risíveis.


Começou a espalhar, por ali, um boato de que Zé Caria estaria fornicando a dona do parque. E, se alguém fizesse com ele o comentário, sustentava que sim. E ainda acrescia de que o marido dela ficava preso no estúdio, no serviço de alto-falante e era, nesses momentos, que aproveitava e dava uma entradinha, às escondidas, na barraca e lhe atracava com beijos e abraços. Zé Caria era considerado o homem mais bobo e atrevido pelas mulheres. Havia quem dissesse que um dia morreria vítima de uma bala de chumbo ou por uma faca afiada. Corria, a boca livre, o boato de que aquela safadeza poderia ter um desfecho dramático, cedo ou tarde.

Passado alguns dias, o dono do parque, o Dezinho, saiu falando que ia fazer uma viagem a Formiga para comprar discos. A viagem, nesse tempo, demorava um dia. Era feita de trem que passava em Candeias às 11 horas da manhã e voltava às seis da tarde.


Zé Caria ficou afoito. Com certeza, deve ter passado pela sua mente safada, muitos pensamentos bizarros. Por exemplo, de que iria comer um sanduíche de calça vermelha. Naturalmente, iria comer a maçã da Isabel com a sua banana maçã a exemplo de Adão e Eva. A cabeça do Zé Caria estava mais assanhada do que urubu aguardando o seu rei para furar o couro.


Três horas da tarde, Zé Caria entra na barraca onde estaria a alcova alheia. Lá dentro o amor gritava alto sem nem um pingo de preocupação com que se alguém passasse por perto. A porta da barraca estava fechada e o casal agia como dois gatos no telhado. Nessas alturas do campeonato, João Índio, o sapeca, e Ratinho, o bom de bola, com certeza, já estariam atrás da barraca escutando toda aquela farra o que lhes fez sair contando para Deus e o mundo:
---Eu quero 20 mil!
---Cê ficou doida?
---Doida não! É 20 mil!
---Cê ficou louca?
---Louca não, é vinte mil.
---Cê ficou biruta?
---Biruta não, é 20 mil.
---Eu não tenho isso!
---Azá seu, é 20 mil.
---Mas tá muito caro!
---Por que não perguntou o preço?É 20 mil...
---Eu pensei que era na base do amor!
---Agora você é que ficou doido!
---Uai, eu num sabia que ocê cobrava não!
---Ah! Você pensou que eu era uma santa ou uma boba?
---Sem o dinheiro você não sai daqui.
---E ocê sua doida me vai prendê aqui? E se o cabrito chegá?
---Deixa chegá!
---O quê? Cê ficou doida?
---Você é que vai ficar doido.
Naquela mexida, o tempo passa e o Dezinho chega. Bate na porta da barraca e o Zé Caria quase sujando as calças diz:
---Sô Dezinho! Foi ela qui me chamou aqui. Eu num tenho curpa de nada. Eu até num quiria vim não, mas ela qui insistiu...
--- Foi ocê qui chamou o Sô Zé Caria aqui Isabel?
--- Fui eu sim.
--- E ele brincou de gatinho?.
---Brincou e ainda queria mais.
---Pagou?
--- Não. Não quer me pagar. Eu quero 20 mil...
--- Fica carma muié. Ele vai pagá... Num vai Sô Zé?
E, naquele desespero, Zé Caria pergunta:
---Num dá pra fazê um diferencinha não, Sô Dezinho?É muito dinheiro.
---Dá meu bem, seu fofo, se ocê for camarada comigo cai pra 10...
---O quê?O sinhor é disso Sô Dezinho? Eu num acredio! Não! Eu pago os vinte. Do sinhor eu num dou conta, não.

O boato correu na cidade. Zé Caria vendeu suas coisas e pagou os vigaristas. Sumiu de Candeias e nunca mais foi visto.

Esse negócio de brincar de gatinho em alcova alheia!... Sei não!...


Armando Melo de Castro
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Candeias - Minas

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Maria do Firmino

terça-feira, 27 de setembro de 2011

OS GATOS NO TELHADO (Primeira Parte)


Primeira parte:


  A Praça Antonio Furtado, situada na zona leste da nossa cidade, já foi palco de grandes concentrações nos tempos em que não havia um banco e nem uma árvore. Na época das chuvas, o mato crescia e servia de pasto para os animais dos carroceiros. Uma enorme área na qual eram armados os chamados circos de cavalinhos, touradas, barracas de ciganos, camelôs e caminhões vendendo produtos de todos os tipos. Ali, estacionavam os mais variados itinerantes. Além disso, era onde a meninada concentrava os diversos times de futebol de rua. Era muito gostoso assistir a uma partida de futebol entre aqueles times de várzea que, inclusive, tinham torcidas, cartolas e muita briga. Eu, por exemplo, não jogava bola, mas, torcia pelo time do Antônio do Arlindo Barrilinho, o sacristão do Monsenhor Castro. Tinha um jogador, Ratinho, seu irmão, que era tão bom que se o Neymar o visse jogar iria ficar meio acanhado. Ratinho era um corrupio entre os meninos maiores e o seu time tinha a maior torcida por causa dele.
Interessante que hoje, com essas escolinhas de futebol, parece que a descoberta de grandes jogadores diminuiu-se. Subentende-se que a várzea vai se acabando e com ela a facilidade de descobrir grandes talentos. Isso porque a criança, ao desenvolver o seu futebol, não tem liberdade. Bem, isso é apenas uma opinião minha. Digo isso porque Candeias, como outras cidades, teve jogadores de futebol que se estivessem hoje, no cenário futebolístico, estariam ricos. Aliás, no passado, tivemos grandes jogadores profissionais que não tiveram interesse em continuar porque não ganhavam quase nada e era comum o jogador profissional acabar na miséria. Não havia essa conotação existente nos dias de hoje sobre o futebol.


Dos jogadores profissionais candeenses de que tenho conhecimento teve o Bigode, um barbeiro falecido que jogou no Rio de Janeiro, no time do Flamengo. Passou no teste, mas, não quis continuar. Abandonou o seu contrato e perdeu o direito de jogar em quaisquer outros times profissionais. O Evérton do Alonso foi um goleiro com capacidade e perfil para qualquer grande time do Brasil. Não me lembro em que localidade jogou, mas, com toda a certeza, foi jogador profissional. Tivemos, também, o Nenzinho do Torquato. Talvez, um dos maiores jogadores nascidos em Candeias e que poderia ter sido um grande ídolo do futebol brasileiro. Outro grande jogador foi o Passarinho, do meu querido Rio Branco, que ganhava para enxertar times nas diversas cidades da região. Ele ganhava por cachê. Já mais recentemente, e ainda entre nós, o Danilo do João Surdo, grande goleiro que jogou muito tempo no Formiga E.C., quando este clube ainda se encontrava no seu apogeu. Danilo foi um grande goleiro e viveu do futebol durante muito tempo. Esses são os exemplos que me vêem à memória e que marcaram presença no futebol candeense. Portanto, considero que a Praça Antonio Furtado foi um recanto de completo lazer e que atendia toda a cidade.
Eu não sei o que se passa na cabeça dos prefeitos de Candeias. Sai um, entra outro e parece que esses representantes do nosso povo nunca saíram de Candeias para ver o que existe de bom e que pode ser trazido para a nossa cidade. A Praça Antônio Furtado, no passado, serviu muito mais do que nos dias atuais. Encheram-na de bancos e árvores. Silenciaram-na, pois, é uma praça morta cujos bancos ficam vazios sem nenhum filho de Deus a usá-los. Ali, poderia ter sido edificado um centro de convenções, o que seria mais barato do que a construção de uma praça que não atende a ninguém. Isso poderia ter sido feito ou ainda pode ser feito, sem prejuízo ao meio ambiente. Até parece que existe uma lei para construção obrigatória de praças em Candeias. Certa vez, eu as contei e, se não me falha a memória, existem umas trinta praças para uma cidade de 15.000 habitantes, onde, durante a semana, essa população durante o dia está trabalhando e durante à noite está assistindo às novelas. Nos fins de semana, ficam pelas roças ou assistindo aos programas do Faustão ou do Gugu. Portanto, quase ninguém para usufruir de tantas praças. Para um evento qualquer, não existe uma área específica. Na praça principal da cidade, furam-se buracos, por toda parte. Fazem até curral de gado, palanque de carnaval, quase todos dentro das igrejas. Parece que acham bonita essa bagunça de frente à Prefeitura ou no adro da igreja Matriz. Isso é falta de sensibilidade ou, então, é apoio a uma política populista para fomentar a popularidade pessoal.


Acho que os próximos candidatos à Prefeitura de Candeias poderiam pensar na construção de um centro de convenções na cidade, como também, na definição de um local adequado e decente para a armação dos itinerantes. Afinal, um parque de diversões e um circo fazem parte da cultura do nosso país e se tornaram tão minguados, com o advento da televisão, que seria um despropósito, diante dos interesses comuns, colaborarmos com a extinção dessas visitas em nossa cidade.


Continua na próxima edição.




Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NA ESCURIDÃO DA RIBALTA




Wilsa Carla, atriz, teve uma carreira ativa na década de 50, 60 e 70. Sua trajetória artística foi cheia de altos e baixos. Nasceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Foi rainha do carnaval carioca, vedete das mais famosas do teatro rebolado quando este era uma grande atração nacional. Atriz de cinema que pnaarticipou de mais de cinquenta filmes. Fez teatro e novela. Atuou na Rede Manchete, Rede Record e Rede Globo de Televisão. Participante, no SBT, do Programa Sílvio Santos, por muito tempo. Era neta de um dos governadores do Rio de Janeiro e teve uma relação íntima com o Presidente Getúlio Vargas. Foi uma mulher linda quando jovem e atriz respeitada quando levada a sério pela sua cultura e o seu meio aristocrático. Infelizmente, Wilsa Carla deu um rumo diferente em sua carreira, passando a fazer uma arte deturpada.

Wilsa Carla morreu, aos 75 anos, esquecida, amargurada e pobre. Morando de favor e vivendo com a quantia de um salário mínimo. A última vez que a vi no programa da Rede TVfoi em um quadro estarrecedor. Jamais a teria conhecido se não tivesse sido anunciada. Ela, em uma cadeira de rodas, dizia que o seu único desejo era voltar a trabalhar e ser querida pelo público como fora outrora. Mas, infelizmente isso não lhe foi possível.

Geisa Celeste , outra cantora brasileira famosa, natural da cidade de Sacramento/MG, teve uma carreira de sucesso formando dupla com sua irmã Diva. O Duo Irmãs Celeste foi um grande sucesso nacional com os seus boleros apaixonados, na década de 60. Lembro-me de que, nos parques de diversões, as suas músicas tocavam repetidamente. Com o casamento de Diva, Geysa prosseguiu na sua carreira fazendo grande sucesso, todavia, no exterior, mais precisamente, na Europa e na América do Sul, em especial na Argentina e no Chile, países em que era muito conhecida. Tinha uma voz singular que atraía os espectadores mais exigentes.

Geysa Celeste morreu, aos 72 anos, na cidade de Sorocaba, interior do Estado de São Paulo, de forma muito melancólica. Doente, totalmente esquecida, vivendo com a sua ínfima aposentadoria. Às vezes, era vista, de porta em porta, vendendo CDs caseiros extraídos dos seus diversos discos gravados por grandes gravadoras como Chantecler e RCA Victor e ainda sendo ajudada pelos seus pouquissimos amigos.




Geisa Celeste, uma das mais belas vozes do cancioneiro brasileiro.





Tinoco, da dupla caipira Tonico e Tinoco, fez sucesso por mais de meio século. Tonico faleceu depois de um tombo que levou à porta de seu apartamento em São Paulo. Não se sabe como estava a sua situação financeira. Tinoco, entretanto, chegou a colocar seu carro, um gol 1998, numa rifa para tratar da saúde de sua mulher. Pobre, idoso e doente, já com mais de noventa anos de idade e ainda cantava para ganhar a vida. Contudo, nesta idade, Tinoco não tinha mais como trabalhar. Seu corpo já não resistia a viagens e sua voz já não ajudava. Sua arte já não atraia a maioria do público.

                                            Tinoco                                                        

Pouco tempo antes de falecer recebeu ajuda de outros artistas sertanejos, inclusive de Roberto Carlos, para remediar a sua situação financeira.                 

Nelson Ned, figura anã do cenário artístico brasileiro, com apenas 1,12 m de altura, contudo, considerado o “O Pequeno Gigante da Canção”, natural da cidade de Ubá/MG, começou a fazer sucesso na década de 60. Teve grande cartaz como cantor e compositor, no Brasil e no exterior. Único cantor latino a vender mais de um milhão de discos nos Estados Unidos com apenas uma música. (Feliz Aniversário Amor). Foi, também, o latino a lotar, por quatro vezes, o Carnegie Hall de Nova York uma das mais famosas salas de espetáculos do mundo.  

Nelson Ned
  Sua música, “Tudo passará”, lhe rendeu muito dinheiro no Brasil e em outros países além de um vasto repertório romântico. Muitos cantores brasileiros e internacionais gravaram as suas músicas.

 Doente, pobre foi levado para o esquecimento, após ter se envolvido com drogas e uma vida irregular. Ganhou muito dinheiro, mas, quanto mais ganhava mais gastava. Já não suportando mais o peso do corpo sobre as pernas e cheio de problemas de saúde já não conseguia mais cantar. Sem dinheiro para um tratamento, teve que contar com a ajuda de seu amigo e condiscípulo, Agnaldo Timóteo, que junto aos seus amigos, recolheu dinheiro para ajudá-lo. Até a igreja evangélica que o acolheu, talvez, com a intenção de tê-lo como fonte de renda, o abandonou quando mais precisava. 

É muito difícil imaginar como será o fim da vida de um artista. Apesar de viver diante das emoções de uma ribalta ou de um palco iluminado, o artista é, na maioria dos casos, aquele cuja carreira está cheia de altos e baixos. Vive cantando a tristeza para uns e a alegria para outros. Encenando as mentiras e as verdades da vida humana. Sem dúvida vive, naturalmente, quase sempre, enganando a si mesmo.

O artista, outrora famoso e agora velho, doente e sem trabalho é uma pessoa que foi alegre e que ficou triste. Tornou-se desiludida e para o público que um dia o aplaudiu ele é, agora, um pobre coitado. Acaba sendo digno de piedade e, com certeza, ele percebe essa piedade como um dia percebeu os aplausos. Os artistas em baixa na mídia seguem dois rumos: um que alimenta a chance de voltar ao sucesso e o outro que sabe que jamais voltará. Um se torna infeliz e o outro acaba desmerecido porque não reconhece que o seu sucesso acabou. Mas, ambos vivem a mesma esperança; a esperança de um dia voltar a ser aplaudido mesmo sem saber como, mas, espera. O artista não desiste do aplauso porque sabe que, sem ele, é uma planta que se esturrica em um sol escaldante.

O artista, sem mercado de trabalho, se considera uma vítima dos injustos critérios que lhes tiraram de uma seleção, onde se lhe faz derrotado diante de alguém sem qualidade que atrai o público através do seu dinheiro dando o poder de comprar influências e chegar ao público. É como se lhe roubassem a fama e devolvessem-no para a platéia na qual não encontra mais lugar. Um artista sem trabalho chora às escuras, lágrimas de verdade porque não tem como chorar as lágrimas da ilusão diante das luzes do proscênio.

Não devemos nunca vaiar um artista sem platéia. Como também não devemos aplaudi-lo como esmola. Um artista fora de mercado é uma pessoa que sofre o castigo dos pecados que a fama lhe proporcionou. Sofre a solidão que lhe faz recordar e reviver todos os seus momentos de glória.

Infelizmente, há o artista que se esquece que um dia as luzes da ribalta que o ilumina vão se apagar e as cortinas que lhe abre, agora, serão fechadas para sempre e a sua platéia irá embora. É que será o início de um espetáculo real para o artista sem platéia, sem cortinas e sem ribalta. – Salvo as exceções.


Clique aqui para conhecer ou recordar Geisa Celeste


Armando Melo de Castro
Candeias mg Casos e Acasos








sábado, 17 de setembro de 2011

DIMAS, E O JOGO DO BICHO.






 O Bairro da Gruta é um dos bairros mais antigos de Candeias. Lá foi estabelecido, por muitos anos, o cabaré do Zé Bolinha, transformado posteriormente por “Boate Mil Beijos”, do Pedro Pitanga.  Diante disso, tornou-se um bairro ligado ao preconceito de cidade pequena, principalmente naquele tempo, quando o mundo era muito diferente. ---- Preconceito injusto, porque naquele bairro sempre residiram famílias de respeito cuja zona boêmia ali instalada, não lhes mudaria o comportamento.

Dimas, o personagem desta nossa história, nasceu e viveu nesse bairro. --- Era um rapaz simples, humilde, silencioso; contava mais ou menos trinta e cinco anos de idade. ----- Estatura média trazendo sempre a cabeça coberta por um chapéu de palha; fala baixa; pouca barba; dentes parecendo uma serra articulada mostrando uma falha no maxilar superior que realçava quando dava o seu sorriso triste. ---- Era, o nosso protagonista, viciado no jogo de bicho... Viciadíssimo!

Lavrador, mas talvez fosse um molenga na sua atividade, pois era mole até para falar. Assentava-se e ficava segurando o rosto com a mão e com o braço suportado na mesa. --- Vestia sempre uma camisa de riscado e calças de brim grosso surrado. ----

Eu trabalhava, nesse tempo da minha adolescência, no Bar e Restaurante Pinguim, do Lulu, ---- estabelecido numa velha casa onde hoje encontra-se a Casa do Vaqueiro. --- O bar era bastante frequentado e os cambistas de jogo do bicho estavam sempre por lá. Relembrando alguns deles, --- Edmundo Simões, Orosimbo Cachimbo e João Passatempo. ---- A maioria dos cambistas do jogo do bicho se reunia no Pinguim antes de descerem para a banca do bicho do Sr. Arquimedes Viglioni, (Sr. Midinho) na Rua João Sidney de Sousa, quando a extração acontecia às 19 horas.

Dimas tinha presença infalível em meio aquela confraria do bicho. Chegava mais cedo e ali ficava. O seu assunto não era outro; só jogo do bicho.  ----- Chegava todos os dias, por volta das cinco horas da tarde, e já me pedia para trocar uma nota em moedas miúdas para fazer os seus jogos em quantias pequenas. ----- A sua presença era tão notória que o dia que ele não aparecia à turma sentia a sua falta.

Quando se comentava em jogo do bicho ele se descontraía, falava, dava palpite, pedia palpite... Parece até que iria sentir um orgasmo. Sabia o grupo, dezena, centena e milhar de qualquer bicho de forma instantânea. --- Fazia as mais engraçadas análises de sonhos. ---- E as pessoas, para vê-lo falar, consultavam-no com o sentido de apreciar o seu jeito diferenciado e hilariante de dar o palpite. E os frequentadores do Pinguim se deleitavam com a presença do inocente:

Um já perguntava:

---O que você está esperando para hoje, Dimas?

---Hoje, eu tô esperando um cavalo com 44 sô. Vô pô tudo nele.

Vinha outro querendo saber:

---O que você espera para amanhã, Dimas?

---Pra manhã, eu quero uma cobra com 36.

---E o veado?

---Taí. Um bichinho que eu num dô parpite. Ele num dá na banca do Sô Midinho, só dá na loteria... Esse danado eu nem lembro dele.

Dimas analisava, também, os sonhos que lhe apresentavam:

---Sonhei com um tatu o que vai dá, Dimas?

---Pode pô tudo na cobra.

---Por que cobra?

---Cobra é chegada num buraco de tatu...

---Sonhei com um homem gordo o que vai dá hoje, Dimas?

--Pode pó tudo no porco?

---Por que porco?

---Porque ele é gordo uai…

Lembro-me que o Domiciano Pacheco era um dos admiradores do Dimas e sempre tinha uma pergunta para ele. E certo diz  lhe fez essa pergunta bem própria para a época:

----Dimas Se eu sonho que estou agarrando uma mulher no escuro, qual o bicho que eu jogo?

----Cê pode pô tudo no cavalo.

----Por que cavalo?

----Porque cê tava lavano a égua uai!

E assim, Dimas ia respondendo a cada um com todo respeito e atenção, divertindo a freguesia do Bar do Lulu. Não se ofendia com o sarcasmo da turma e sempre dava aquele seu sorriso tristonho o que lhe era peculiar. 

Muitos ali pensavam que Dimas era um casto, era o símbolo da pureza, um tipo imaculado que jamais teria se encostado a uma mulher. Muitos seriam capazes de jurar que ele era “virgem” tendo em vista o seu jeito inocente de falar sobre o jogo do bicho e tratar as pessoas.

Edmundo Simões era cambista e frequentador do Pinguim. Certo dia ele chegou dizendo que iria preparar uma brincadeira com o Dimas, contando-lhe um sonho para o qual ele não teria um palpite.

Assim que Dimas chegou ao bar, num momento que ali estava uma porção de fregueses, Edmundo Simões lhe fez o seguinte questionamento:

---Dimas, eu tive um sonho muito estranho com você. Sonhei que você estava nu, peladinho da Silva, numa cama com uma mulher nua também. Agora me fala, que bicho vai dar hoje?

--- Pela primeira vez todos puderam ver Dimas dar aquela risadinha safada, mostrando a sua falha de dente e já providenciando a resposta:

--- E bastante admirado pergunta: Uai, Dimundo, qui dia qui ocê sonhô isso?  Perguntou descontraído e deu uma rizadinha sorrateira.

---  Foi na noite passada...

--- Oia então, hoje é cavalo e porco. Pode fazê um duplo...  Cavalo e porco... 

--- Mas por que esses dois bichos? Perguntou o Edmundo...

--- E qui onti eu ajeitei uma cabritinha lá do Zé Bulinha, e eu brinquei de cachaço e lavei a égua até ficá cansado.

Cara de bobo, casto, imaculado?! Bobo é quem pensava isso dele. --- Deus tá vendo!

 Armando Melo de Castro

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A VISITA DE UM PORCO





Este texto foi transferido para o livro, Candeias Casos e acasos.