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segunda-feira, 22 de agosto de 2022

EU E A MINHA ADOLESCÊNCIA.


 A adolescência se compreende no período entre a infância  e a fase adulta. --- A meu ver, no entanto, trata-se de um meninão a beira de um rio durante uma enchente, querendo atravessa-lo a nado, mas não sabe nadar. É um trecho da vida cheio de surpresas e conhecimentos lesados pela insegurança. É um período do desenvolvimento psicológico. É um conflito diante das mudanças sociais e biológicas. Trata-se de uma transição quando o adolescente aguarda atingir a sua identidade social. Além da insegurança, inclui-se também, o medo a inexperiência, as incertezas e a falta de orientação dos pais que normalmente acontece não por descuido, mas pela questão cultural que os envolve. Um adolescente precisa muito da compreensão dos pais, e isso nem sempre acontece não por descuido, mas por uma questão cultural. É necessário, portanto, que os pais sejam mais atentos nessa fase da idade dos seus filhos.

Hoje aos 76 anos de idade posso ver o quanto o mundo está mudado.  Fico relembrando como esse coitado desse meu coração sofreu no meu tempo, pertencendo a um menino tímido, completamente inexperiente num tempo que tudo era pecado e eu criado num ambiente restrito. Afinal, o amor é como a sede ou uma secura na garganta, qualquer água pode servir. ---- Certa vez ouvi a minha mãe falar para uma amiga dela sem que não soubesse que eu ouvia: “O Armando é tão inocente!” E ao ouvir isso eu imaginei logo: o que eu sou é um bobão!  --- Aos sábados via a porta da igreja cheia de gente. Era um casamento... E eu pensava, será que eu vou me casar um dia? Amar eu amava; apaixonar eu me apaixonava, até pelas namorados dos outros rapazes. E quantas vezes a inveja invadia o coração desse menino bobo perdido no oceano da sua adolescência.

No alvorecer dos meus 15 para os 16 anos, natural seria começar a desabrochar em mim os desejos do coração. Eu sentia já uma imperiosa necessidade de amar ou de interessar por alguém. Eu começava  a observar os namorados e quando via um casal numa cena de amor no cinema, como um beijo por exemplo. --- Eu digo no cinema porque namorados se beijando pelas ruas não se via) e eu perguntava para mim mesmo: Qual será o sabor de um beijo? Qual será o sentimento de alguém quando está dando ou recebendo um beijo? Queria entender, também, quem estaria dando o beijo se era o homem ou a mulher? E quanta coisa mais alimentava a minha curiosidade, o sexo por exemplo... As mudanças do meu corpo... E quem para me responder essas perguntas ou para satisfazer as minhas curiosidades? Felizmente, eu tive a sorte de ter um pai que depois de algum tempo me chamava num canto e me dava respostas sem perguntas. Porque o mais difícil para mim era fazer as perguntas.

Olhava-me no espelho e o odiava. Não me achava robusto. Era magro com um cabelinho partido e um sorriso triste. Não tinhas roupas bonitas e nem dinheiro para bancar. No cinema eu imaginava Elvis Presley o homem mais feliz do mundo e invejava até o Grande Otelo. Parece que um espírito de inferioridade vinha apossando-se de mim. E não fosse as conversas de meu pai para comigo, talvez esses males atingidos pela adolescência estaria me acompanhando até hoje. Eu fui sem dúvida um menino muito feliz, mas na adolescência eu tive uma recaída, felizmente superada.

A minha primeira decepção durante a minha adolescência, aconteceu foi quando eu ganhei uns olhares muito graciosos de uma garota que morava ali pelos lados da Lage. Isso porque eu me apaixonava com muita facilidade. --- A minha presença na missa aos domingos era sagrada. E como a Igreja Matriz estava em reforma, as missas aconteciam na Igreja do Senhor Bom Jesus. --- Eu tinha um lugar preferido que era próximo do confessionário onde ficava mais próximo das mulheres. E certo dia eu observei que essa garota não tirava os olhos de mim. E daí passei a corresponde-la. Os nossos olhares se cruzavam o tempo todo da missa, e quanto a missa eu só me lembrava da hora da consagração. --- Três missas foram o suficiente para me apaixonar por aquela garota. Assim, aquela menina se tornou para mim a minha santa, o meu altar, o padre, e todos os santos. Ocupávamos os mesmos lugares. Eu ficava o tempo todo pedindo a Deus para me dar coragem de aborda-la lá na rua. E quando me lembrei de Santo Antônio, meu irmão desde 1947 na irmandade que minha avó  me colocou, o meu santo me atendeu, eu na quarta missa eu a segui com os olhos após a missa e quando ela entrou na rua que desce, da farmácia do Julinho, ela deu uma olhada para traz e me viu, e assim maneirou os seus passos e eu cheguei.

Eu empanado na ignorância parecia ter certeza  de que aquela garota estava apaixonada por mim. Aproximei-me dela e num acesso de euforia disse:

Eu----  Oi!

Ela---  Oi, crê tá bão?

Eu---  Tô e ocê?

Ela---  Eu tamém tô!

Eu--    vi ocê oiano prá mim...

Ela---  Eu tamém vi...

Eu---  Ocê é muito bonita!

Ela--- Ocê é mais qui eu... 

EU--- Quase desmaiei com essas palavras. E disse: ocê é mais qui eu...

Ela--- Brigado. Ocê é amigo do Caiana num é?

Eu --- Sou muito amigo dele desde o tempo de iscola.

Ela--  Quria te pidi um favor, um favor bem grande!

Eu---  Pode pidi o qui ocê quise, se eu pudé?

Ela--- Eu sou doida com ele. Pra mim é o home mais bunito das candeia.

Eu--- Mais o quê qui ocê qué qui eu faço?

Ela---Falá cum ele que a Mariquinha da Zéfa é doida quele. E qui eu quero incontrá quele...

Nessa hora eu parei e disse. Vou voltar daqui. Eu vou falar com o Caiana para você. Mas eu fermentava por dentro como uma dorna de alambique. Parecia que alguém havia vomitado em mim. Era o amor de um adolescente se transformando em ódio ---  E na igreja mudei o lugar de assistir à missa e pedia perdão a Deus, por ter amado uma diaba dentro da igreja.

Anos depois, eu numa conversa com o Caiana contei-lhe essa história E ele riu muito e disse-me: “Nossa Armando! Eu nunca vi uma pessoa tão complicada, ela pedia todo mundo para me dar recado. Eu já não aguentava mais. Eu só me vi livre dela depois que sai de Candeias. Aquela moça batia até na mãe dela.”

Na adolescência eu adorava escrever cartas de amor. E como não podia remetê-las eu as queimava. É bom lembrar que um dia habitei no mundo da adolescência, mundo em que os pais dão trabalho para os filhos.

Armando Melo de Castro.

 

NB) Caiana era filho do Sr. Gerson. Foi um grande amigo meu desde os tempos de escola no Padre Américo. Seu verdadeiro nome era José Vicente. Era muito conhecido em Candeias. Trabalhava de motorista do DER quando foi morto num acidente de estrada.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

CANDEIAS, A TERRA DO PASTEL.


 

Uma preferência alimentar dos candeenses foi sempre o pastel. O pastel faz parte da nossa cultura. Em Candeias nunca faltou pastel. Já tivemos várias pastelarias e até pastel japonês e chinês; isso sem contar as pasteleiras caseiras que foram passando de tempos em tempos desde a época de Dona Mariazinha, Quinha da Maria do Juca e depois a Dalva do Bebé e a Isaura. --- O pastel candeense é característico. Recentemente eu encontrei aqui em Juiz de Fora, uma lanchonete onde se vendem pastel igual o antigo como da Dalva do Bebé, aquele pastel que não falta e nem sobra carne. O pastel muito cheio de carne não é bom.

Hoje eu não tenho conhecimento de quem lidera o preparo caseiro dessa delícia e nem quantas pastelarias ainda existem. Mas com certeza não estará faltando pastel nas festinhas, sejam de batizados, aniversários ou casamentos. O pastel está presente, também, nos bares, lanchonetes e nos botecos.

No Brasil o pastel chegou na década de 40 em Santos SP, pela vinda de japoneses fugidos da guerra e que fizeram uma adaptação da sua guioza, com os rolinhos-primavera dos chineses. Esse resumo ficou sendo o pastel que se come hoje no Brasil.

Eu, desde menino sou louco com pastel. Não podia ver uma prata no bolso que corria ao barzinho do Miguel Simões, na Rua Professor Portugal com a Praça Antônio Furtado, para comprar um pastelzinho daqueles feitos pela Luíza sua esposa. --- Miguel Simões era um Gaúcho que se aportou em Candeias trazido por um circo. Enamorou-se da Luiza, oriunda da comunidade dos Pereiras, e com ela tiveram dois filhos: O Edmundo Simões o qual ele o chamava de Dumundo, e a Anita Simões, amiga de infância da minha mãe, que a levou no futuro para minha madrinha de representação.

Anita casou-se com o filho de um turco de Campo Belo. Ficaram então, o Miguel, a esposa, e o Edmundo que depois se casou com a Wanda, filha também de um turco. O Miguel Turco, --- Edmundo e Wanda são os pais do nosso amigo Miguelzinho Simões. Portanto, podemos ver numa só família três migueis. --- O nome Miguel sempre foi evidente em Candeias. Veja nos fregueses do Miguel.

--- A casa não era grande e dividia com o barzinho, onde o Edmundo era o balconista. --- Nos fundos havia um pequeno cômodo onde era exercido o jogo de baralho. A “Cacheta”, o conca, o 21 e o 31 rolavam soltos. A polícia pouco mexia com os jogadores, a não ser quando havia uma denúncia. –

- O forte do Miguel Simões era o seu bifão que ele fazia nas madrugadas para o qual ele tinha bons fregueses como, Miguel Pacheco, Miguel Lara, Orlando do Melão, Lulu, o gerente do Banco Mineiro da Produção; o Rômulo Narde e muitos outros.

Miguel era um excelente cozinheiro. --- Esse bifão, após a sua morte, o Edmundo passou dele a receita para o Lulu, que deu nome ao seu restaurante de Bifão. O tempero desse bife era uma receita tradicional trazida do Rio Grande do Sul pelo Miguel. --- Certa vez eu pedi ao Miguelzinho Simões Neto e ele fez para mim um litro desse tempero, que foi um sucesso.

As quitandas e salgados vendidos no barzinho eram todos feitos pela Luísa esposa do Miguel. Numa vitrine forrada com um papel de seda azul estava sempre expostos os biscoitos, os pães de queijo, broa de amendoim, um prato de doce de leite em pedaços e uma grande bandeja com pastel. Tudo isso apresentava um desencontro com os ingredientes. Isso porque em alguns sobravam e em outros faltavam: O doce de leite por exemplo, sobrava açúcar e faltava leite; o pão de queijo faltava queijo; o pão da hora faltava ovo; os biscoitos pareciam ser apenas de água, polvilho e sal; E o pastel, sobrava batata e faltava carne. Mas era tudo tão baratinho que vendia tudo. Era um tempo em que não se exigia qualidade porque o preço não deixava.

Eu acho que o pastel era o mais vendido ali no barzinho do Miguel Simões. Afinal ele era o mais macio; tinha um semblante mais jovem e pelo menos um cheiro de carne para o quê era mais próprio para tira-gosto. --- O meu amigo Lei Careta, sempre dizia: “ O pastel da Luísa se a gente morder nele e não sair vento, a carne é batata”. Eu comia aquilo e achava uma delícia. Na época da gripe asiática, eu não queria comer outra coisa a não ser pastel da Luiza. Meu pai foi lá e arrematou toda a bandeja, aí eu nadei e rolei.

Luísa gostava de um vinho. E aquela senhora trabalhadeira, quieta, silenciosa que ficava sempre na janela da rua, olhando o povo passar ou recebendo os bons dias, de quando em quando tirava um dia para acompanhar o seu marido numa garrafa de vinho. Ai ela ficava prosa e costumava ficar junto com o Edmundo por de dentro do balcão. Ora, o produto estava bem ali próximo dela e ela quando tinha tomado umas doses de vinho, ela ficava prosa e muito engraçada e brava também.

--- O Edmundo como falava baixo, dizia: “Mãe, vai lá pra dentro” e ela respondia: “Vai encher o saco da sua avó Dimundo!!!” – E o Edmundo com aquela sua voz macia e baixa dava aquele sorriso sorrateiro e dizia: “ Ela é sua mãe mãe...” Edmundo era um grande amigo, bom de bola e um dos meus craques do meu querido Rio Branco Esporte Clube, onde o seu pai era o técnico.

Certo dia chegou o Altivo, filho da Dona Maria do Estevão, a parteira. Tinha o apelido de DEDO, Também bebia, mas se mantinha calmo, tranquilo. Ele pediu uma pinga e um pastel para tirar gosto e quando ele mordeu no pastel sentiu um cheiro forte e bradou: “Esse pastel está fedendo; parece que está com cheiro de peido... Isso deve ser de onti”.

Ai então a Luísa pirou-se e abriu o verbo: “Fedorento é sua boca, ou seu rabo. Daqui onde eu tô dá pra senti a sua catinga.

E o Dedo: “Que isso Luísa, carma sô! Tá fedeno mais dá pá cumê

Ah! Que saudade daquele pastel!

Armando Melo de Castro.

 

sábado, 23 de julho de 2022

A TRISTE HISTÓRIA DE UM RELÓGIO.



 O tempo tem me levado a entender que o mau anda junto do bem. Isso me leva a crer que o bem precisa conhecer o mal e o mal precisa conhecer o bem. A própria vida nos mostra o caminho certo para viver. É lamentável que muita gente vive sem levar a vida a sério. --- O ódio, a mágoa, o rancor isso não leva ninguém a nada.  Pelo contrário isso maltrata aquele que carrega consigo esse tipo de sentimento. Mas existem fatos em nossa vida que são difíceis de serem  extirpados, esquecidos e arrancados da memória  por mais que trabalhamos isso. Parece que é uma ferida que não cicatriza no nosso cérebro; basta uma lembrança relacionada para o dolorimento se manifestar.

 --Remexendo as gavetas da minha memória, eu me encontro no ano de 1969. Eu morava e trabalhava na cidade de  são Paulo no bairro da Liberdade onde se encontra o centro da colônia japonesa. Dos 10 anos em que residi naquela capital, eu vivi o dia mais triste e mais humilhante que passei em toda a minha vida. Enfim, eu estava com uma vida toda pela frente, e não poderia me sentir vencido ou abatido. Mas Deus sabe o tamanho do meu sofrimento quando fui vítima de palavras que me feriram mais que uma ponta de faca.

 -- A agencia bancária onde eu trabalhava ficava na Praça da Liberdade. E eu fui designado para prestar serviço na FMU, Faculdades Metropolitanas Unidas que ficava num ponto da Avenida Liberdade, que ficava há uns 800 metros de distância da Agência. Era uma cliente muito importante e o Banco tinha lá dentro da Faculdade um caixa para o recebimento dos carnês do estudantes

 Nesse tempo eu morava, então, num quarto que alugara numa casa de família na Rua Tagua, no mesmo bairro onde trabalhava. ---- Em São Paulo é comum uma família alugar um quarto que sobra nas suas residências como ajuda no aluguel. A gente acaba quase que se tornando parente dessas pessoas. Eu tenho bem guardada em mim a lembrança de Dona Naná, a dona da Casa e do Sr. Osório, seu marido e da empregada, a Dona Durvalina.

 As refeições eram tomadas num restaurante,  próximo dali, mas o café da manhã era junto com os donos da casa. Mas tudo de bom e gostoso que Dona Naná fazia reservava para mim uma  porção como gesto de carinho que ela tinha comigo.  Em compensação quando eu ia a Candeias levava para ela um belo queijo ou uma garrafa de mel produzido pelo Nelo Gianasi, e às vezes até uns ovos caipira, o que a deixava muito satisfeita. ----  Eu vivia nessa casa e me sentia estar numa família aparentada. Eu gosto muito de recordar o tempo em que ali vivi e só saí quando aluguei um pequeno apartamento na Rua Santa Ifigênia onde a minha liberdade de solteiro foi acomodada.

 A minha rotina, era me levantar, ficar por ali até pelas 10 horas, depois ia almoçar e daí ia até a Agência tomava as instruções, e ao meio dia começava o trabalho na FMU, que ia até as 16 horas quando o expediente era fechado para ser reaberto às 18 quando ia até às 22 horas.

 Nesse período das 16 às 18 normalmente eu me fazia presente na Agência. Teria ido ali recolher o dinheiro recebido dos alunos da faculdade e me preparar para o período da noite. Eu tomava um lanche nesse ínterim e viria a jantar depois das 22 horas após deixar o trabalho.

 Da agência do Banco até a FMU subia a Avenida Liberdade e a distância era próxima. Nesse perímetro havia dois ou três bares e uma lanchonete. Normalmente eu parava por ali e tomava um lanche antes de chegar ao trabalho. Eu sempre parava num que fazia um churrasquinho no pão. Comia aquilo e tomava um guaraná. Pagava e chegava ao trabalho. Um desses bares, teria sido aberto recentemente e eu ainda não teria adentrado em seu recinto. E num certo dia resolvi, entrar ali e tomar o meu lanche.

 Lembro-me como se fosse hoje. Eu comi um misto quente e tomei o meu tão querido guaraná, o refrigerante que foi sempre da minha preferência e comi um doce de leite.

 Na hora de pagar a conta eu que coloquei a mão no bolso, uma desagradável surpresa. Cadê o dinheiro? Eu havia esquecido a carteira em casa. --- Disse ao proprietário que havia esquecido o dinheiro em casa, se ele me desse  15 minutos, eu estava próximo do Banco onde eu trabalhava lhe traria o dinheiro. Lembro-me que a conta era menos de CR$ 15,00 (Quinze Cruzeiros)

 Aquele senhor me olhou como se eu fosse um bandido que estaria lhe assaltando. Encheu bem o peito e disse: “Isso é malandragem... Me passe o seu relógio... Num tem papo não! Se você voltar com o dinheiro eu o devolvo.”

 Sem outra alternativa retirei o relógio do pulso e o entreguei. Foi como se eu estivesse entregando a minha alma.

 Aquele relógio era a única coisa que eu tinha de estimação. O valor estimativo dele era muito grande. --- Na minha adolescência, como em qualquer adolescência naquele tampo o sonho de pobre, era ter um relógio. Um relógio custava caro. Qualquer relógio era uma joia.

 Eu contava nesse tempo 23 anos. Aquele relógio estava no meu pulso desde o dia 16 de janeiro 1962, no dia que eu teria completado 16 anos. Foi um presente de aniversário do meu pai, que o comprou na Loja na casa do Pedro Nadi, para pagar em suaves prestações. Nenhuma joia do mundo, para mim, valia mais que aquele relógio. E eu vê-lo nas mãos daquele senhor que eu nunca teria visto na vida, e que teria me humilhado chamando-me de malandro...

 Eu não tinha tempo a perder. Sai praticamente correndo dali, não fui a casa, fui ao Banco e peguei a importância com um de meus colegas e voltei correndo. Devo ter gasto pouco mais de 15 minutos estava de volta, com o dinheiro na mão. Mas lá não estava mais aquele senhor. Aguardei um pouco, mas foi inútil, o seu substituto me dissera que ele teria ido tratar de negócios e não sabia quando ele voltaria.

  Eu não tinha alternativas. Fui trabalhar, imagine com que coração eu fui trabalhar. Só pensava no meu relógio. A noite ao sair do trabalho fui correndo. Ele ainda não estava lá. No outro dia, logo de manhã eu já estava à porta do seu estabelecimento. Ao encontra-lo lhe pedi o relógio. E ele na maior cara de pau me disse: “ Eu já o vendi, você não apareceu, eu o passei para a frente.”

Disse-lhe que teria voltado, mas ele não acreditou ou fingiu não acreditar. Quis saber dele a minha chance de recuperar o relógio e ele disse que não conhecia o comprador. Isso seria impossível. Quase chorando eu lhe disse: O senhor não podia fazer isso comigo...

E ele cinicamente deu uma risadinha e me disse: “Então por que você não vai reclamar na polícia?”

Nesse momento eu me senti como um trapo de gente. Fui vencido! As lágrimas não caíram dos meus olhos. Os meus olhos é que caíram de minhas lágrimas.

 Armando Melo de Castro.

 


sexta-feira, 22 de julho de 2022

AOS AMIGOS CANDEENSES.

                                                                             ENIO BONACCORSI

Hoje, o nosso Blog Candeias MG Casos e Acasos está apresentando um capítulo da história de Candeias muito pouco conhecido pelas novas gerações candeenses. É a história do lendário Dente de Ouro, um homem que assustou a nação candeense no seu tempo. Esta história foi resgatada cuidadosamente através de laços familiares, pelo nosso grande amigo e conterrâneo, Enio Bonaccorsi, que elaborou um projeto muito interessante em duas etapas. A  primeira trata-se do presente texto escrito por ele e o segundo, onde teremos um CD com a declamação do radialista candeense Elielcio Viana e a música de autoria de Dente de Ouro, retratando o final de sua vida, cantada pelo cantor candeense Maycon Johnny. Trata-se de um projeto bastante  curioso dentro de nossa história. 

                                                                    Armando Melo de Castro                                                          

                       O LENDÁRIO DENTE DE OURO

 O lendário Dente de Ouro, também conhecido como Zé do Didico, portanto, seu nome devia ser José e seu pai atendia por Didico. Nasceu no Município de Candeias, pelo que tudo indica, na década de 1890, onde permaneceu até talvez aproximadamente 1920, quando então se deslocou para o estado de Goiás, fixando residência no arraial da Goiabeira, hoje a cidade de Inhumas. 

     Naquela época, tinham o costume de encapar um ou mais dente de ouro, e Zé do Didico, adotou tal moda, o que lhe rendeu o apelido de “Dente de Ouro”. Segundo pessoas que viveram na época, Dente de Ouro era muito educado, muito bonito, alto, cabelo castanho para louro, de olhos verdes e de temperamento frio. 

   Seu nome se tornou lenda, por ser matador de aluguel, matava por encomenda; sua fama ultrapassou as fronteiras do município de Candeias, a tal ponto, que naquela época quando uma pessoa em viagem pedia pouso numa fazenda e dizia que era de Candeias, as vezes o pouso era negado de tão temido que era.

    Dente de Ouro. Isso porque teria sido ele o responsável por algumas mortes na região e por isso era procurado pela polícia. Contava minha vó Maria Marques da Silva, vó Sinhá, que numa semana santa, para se despistar da polícia, ele vestiu-se de mulher e acompanhou uma procissão.

   Em Goiás, hoje cidade de Inhumas, matou o pai de uma criança, a qual, quando Dente de Ouro passava em frente sua casa levando seu cavalo para um riacho, o matou com uma arma de fabricação caseira.

 ----  No final de sua vida, Dente de Ouro vivia com uma intensa angústia, decorrente do arrependimento de seus crimes, fato este retratado na letra de uma canção, que ele ou alguém a fez a seu pedido, na qual clama pela morte que não vinha, e que entendia, ser a solução para os seus sofrimentos. 

   O curioso é o fato de que uma pessoa que matou pessoas, agora arrependido e em sofrimento clama pela morte!!! 

   Essa música/letra, era conhecida pelas saudosas pessoas: José Vilela, José Delminda de Castro, Wantuir de Castro, Luiz Bonaccorsi Neto, e Wander Bonaccorsi, todos falecidos, e também pelo Candeense de coração, Armando Melo de Castro, filho de José Delminda, o qual atendendo nosso pedido, nos enviou um áudio, cantando sob os acordes de seu violão. 

   A letra da canção do Dente de Ouro, considero uma preciosidade para integrar o arquivo da memória de história de nossa querida Candeias. À você̂ conterrâneo e amigo Armando Melo de Castro, a minha eterna gratidão, por nos agraciar com esta preciosidade. Tomo a liberdade de propor a designação de “Dente de Ouro arrependido, clama pela morte”, para esta canção.


Ênio Márcio Bonaccorsi

 Candeias 22/07/2022

 

 


terça-feira, 12 de julho de 2022

UM MOMENTO COM JOÃO CAMBOTA.


O meu amigo Ley Careta, tinha um barzinho numa lojinha anexa ao cinema. Tratando-se de uma loja pequena, pouco mais de um cubículo, era fácil ver o barzinho do Ley lotado. Um dos seus fregueses era o João cambota, sempre com as suas novidades para contar, principalmente uma piada nova que trazia dos seus itinerários como viajante.

Certo dia, quando a confraria da cerveja, da cachaça e do traçado se encontrava ali reunida chega o João Cambota com a sua costumeira alegria. Conversa vai, conversa vem, quando alguém lhe pediu:

---- João conta ai uma piada...

---- Piada de quê?

---- Uma nova...

---- Já que estamos aqui junto do cinema, vou contar uma de cinema.

E começou:

Uma vez um cara ganhou uma fêmea de peru. E ficou muito entusiasmado e quis então criar esse tipo de ave. Mas para isso precisava arrumar um peru macho. E estava muito difícil de encontra-lo. Certo dia quando ele foi ao cinema a fim de assistir um filme do Gordo e o Magro, filmes do que ele não se fazia perder por nada, pois eram os seus atores preferidos, ele se encontra com um homem perto do cinema vendendo um peru. --- O filme que já estava para começar, o deixou apavorado, não sabia se assistia ao filme ou se comprava o peru. Tentou fazer com que o vendedor do peru o levasse no outro dia em sua casa, mas isso seria impossível, pois ele morava na roça e ainda iria voltar naquele mesmo dia. Perguntou-lhe se ele não tinha outros, cuja resposta foi negativa. Ele então, decidiu comprar o peru e escondê-lo dentro de sua capa, para ludibriar o porteiro. E assim fez. Conseguiu passar pelo porteiro (João ainda deu uma ênfase dizendo que o homem conseguiu tapear o Sebastião Salviano, então o porteiro do cinema em Candeias) ---

La dentro do cinema, o cidadão se assentou ao lado de uma senhora idosa que estava com um baita saquinho de pipocas. Assim que a luz se apagou o peru espichou o pescoço e deu uma bicada bem dentro do saquinho de pipoca da velha, que deu um grito de pavor, no que acenderam logo as luzes do cinema e vieram gente para acudi-la quando ela balbuciando disse: “Gente do céu!!! Eu fui prostituta durante 60 anos. Conheço todo tipo de pinto, mas “PINTO” que come pipoca eu nunca tinha visto em toda a minha vida.

Agora quem conheceu o João Cambota pode imaginar como foi esta história.

Armando Melo de Castro

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A HISTÓRIA DE UMA CANDEENSE.


N
a década de 50, em Candeias, moravam duas famílias vizinhas de porta, no final da Rua Pedro Vieira de Azevedo. A família de minha tia Elisa, casada com o meu tio João Delminda, e a família de dona Zulmira. Comumente, a gente via a tia Elisa na janela e dona Zulmira do lado de fora e as duas batendo aquele papo amigo e descontraído, na maioria das vezes, coisas de suas famílias. Eu estava sempre ali por perto porque meu primo, Vicente, era o meu melhor amigo de infância. Éramos como dois irmãos e, naquele tempo, tanto eu quanto ele, só tínhamos irmãs.

 Tia Elisa era uma boa ouvinte e como dona Zulmira era uma boa falante, estava sempre contando algo de sua vida para o conhecimento de tia Elisa. Eu era aquele menino bobo, calado, entretanto, estava sempre gravando a conversa dos outros. Achava engraçada a fala de dona Zulmira pois falava umas palavras que eram, até então, desconhecidas para mim como por exemplo: jinela, cacunda, maise, dispois, adonde, entre outras, que eram termos, normalmente, advindos da zona rural. Com o tempo, acabei aprendendo aquele linguajar.

 Dona Zulmira era uma mulher de uns 60 anos, mais ou menos, cabelos grisalhos, um rosto bem feito e tinha um corpo bem cuidado para uma mulher de meia idade. Ela tinha apenas uma filha, a Ana Maria. Até hoje, não sei qual era a sua renda, o seu ganha pão. Parece-me que vivia do aluguel de um pedaço de terra que o seu pai lhe teria deixado.

 Ana Maria era uma moça muito bonita. Um rosto harmonioso, olhos avelã, uma boca linda e um sorriso que eu como menino, imaginando-me adulto, teria ficado apaixonado. Naquela época, não era comum as mulheres usarem calças compridas, portanto, ela estava sempre trajada de saia e anágua, mostrando as mais lindas pernas do mundo. Trabalhava de empregada doméstica na residência da sua ex professora, dona Ninita Alvarenga, que tinha por ela um enorme apreço. Ana Maria já havia concluído o curso primário, porém, continuava aprendendo as boas maneiras com a patroa que era uma mulher extremamente requintada. Eu suponho que ela tivesse por volta de uns 17 anos de idade e tinha, realmente, uma beleza de parar o comércio como se dizia antigamente.

 O destino parece que se incumbiu de mudar a rota da vida de Ana Maria. O sonho dela sempre foi ir para São Paulo, pois na década de 50, em Candeias, ir para a capital paulista, era, para todos, sinônimo de prosperidade na vida. E Ana Maria parece que chegou a Candeias por um endereço errado... Além de muito bonita era também inteligente, comunicativa e agradável. Não me recordo ao certo, mas, alguém da família Bonaccorsi acabou levando-a para São Paulo a fim de trabalhar junto a membros dessa tradicional família por lá e iria ganhar muito mais dinheiro. Dona Ninita, no auge de seu discernimento, vendo que as condições em que a proposta fora feita à moça lhe seria muito favorável, acabou por aceitar dispensá-la e assim abrir-lhe o caminho para seguir um novo rumo.

 Dona Zulmira quase morreu de tristeza quando sua menina foi para São Paulo, imaginando a imensa saudade que, com toda a certeza, sentiria da querida filha. Chorava como se a mesma tivesse morrido. Ela sempre exclamava:

 ---- Pois é, dona Ilisa, a gente cria uma fia com tanto trabaio pá dispois dá ela pu zoto... Vai vê qui ela nunca mais vai morá cumigo.

 Minha tia, que era uma pessoa muito ponderada, tentava consolá-la a todo custo, contudo, era inútil. O tempo foi passando e, alguns anos depois, sua querida filha apareceu! A comunicação, naquele tempo, era muito precária e difícil, e, constantemente, as surpresas eram comuns. Em uma tarde fria de uma quinta-feira, quando o silêncio tomava conta do coração de dona Zulmira, batem a sua porta.

 Que felicidade! Era Ana Maria toda linda, muito mais bonita do que antes, bem vestida, bem falante, trazendo presentes e lhe apresentando, como namorado, um jovem rapaz que lhe acompanhava. Era, igualmente, muito simpático e atraente! E assim, logo foi dito que aquela visita era feita visando formalizar o pedido de casamento. Vieram, portanto, a fim de ficarem noivos. Dona Zulmira quase morreu de contentamento. Ela ria e chorava ao mesmo tempo...

 Logo se viu que aquele rapaz era bem aquinhoado, haja vista ter um belo carrão para época, um caro Aero Wyllys, novinho da cor de vinho.

 Permaneceram, por cera de três dias, na cidade e partiram de volta já na condição de noivos. Dona Zulmira fez apenas uma exigência: que o casamento fosse celebrado em Candeias e pelo Monsenhor Castro. E assim aconteceu... As núpcias ocorreram seis meses após o noivado. Não houve festa e nem comes e bebes. Os parentes do noivo e o noivo ficaram hospedados no Hotel da Geni (Novo Hotel) e, no mesmo dia, os noivos seguiram para a lua de mel e os parentes, do mesmo modo, retornaram para São Paulo.

 Um tempo depois, o casal volta a Candeias todo feliz. Dona Zulmira, novamente, leva aquele susto. Desta vez, vieram buscá-la para levá-la a fim de conhecer a casa da família além de fazer companhia para Ana Maria que já se encontrava grávida. Como Dona Zulmira não tinha marido, não houve qualquer dificuldade, nenhum transtorno. No outro dia, ela entrava toda alegre e contente no Aero Wyllys rumo a São Paulo, onde iria participar da chegada do seu netinho.

 E com o tempo, aquilo virou uma rotina: eles vinham buscá-la; ela ficava por lá algum tempo; voltava, ficava em Candeias um período e, depois, ia novamente para São Paulo. A última vez que a vi conversando com a minha tia, já havia passado muito tempo que não a via em Candeias. E o cenário era o mesmo: minha tia na janela e ela do lado de fora contando as coisas lá de São Paulo.

Acontece que ela estava muito mudada, tanto no jeito de falar quanto no seu jeito de vestir! Estava usando maquiagem e um batom vermelho igual sangue, coisa que ela não usava antes. Estava toda chique, vestindo uma blusa sob um sobretudo preto, calça preta e sapatos vermelhos. Vê-la de calça comprida foi uma surpresa para a minha tia que depois, discretamente, me perguntou:

 --- Você viu a calça cumprida da Dona Zulmira, Armando? E deu aquela risadinha sorrateira, própria de tia Elisa.

 Dona Zulmira estava agora toda empolgada no seu jeito de comentar:

 --- Êh, dona Elizia, (não se sabe explicar, mas, ela mudou o nome de minha tia) dessa veiz eu fiquei lá em São Paulo um tempão, viu!. Foi mais de quatro meis. Eu falava que pricisava di vimbora e meu genro falava assim: a siôra num vai dijeininum! E perguntava pra mim se eu tava massatisfeita e eu falava: não, meu fio, é qui já tô tempdimais!! Óia, dona Elizia, vô falá uma coisa pra siôra, eu nunca tive uma vida tão boa iguale lá, tá!.A siôra credita que ele feiz uma casa no bairro da casa verde, um casão, tem até lugá de nada..

 ---- E a senhora nadou lá, dona Zulmira? Perguntou, tia Elisa.

 ---- Que é isso, dona Elizia! Eu num tinha corage não, sô! Intrá de maiô com a anca tudo de fora? Nem vê! A siôra tinha que vê, dona Elízia, uma casa que é um casão. Se fais frio, tem vendo quente; se fais calor, tem vento frio. Um trem bão danado.

 --- E a família do genro da senhora, Dona Zulmira? Quis saber, tia Elisa.

 --- Óia, pai ele num tem não. Ele tem é duas irmã mais eu vi elas muito pôco. Uma era muito boazinha, mas, a outra era assim meio dengosa. A mãe dele vai muito lá e gosta muito da Aninha. Eu gostei dela tamém e da empregada da Aninha, uma baianinha que fala do jeito isturde. E ela mais a mãe do meu genro ficava rino quando eu falava umas coisa que elas num intindia. Elas ria de mim, assim de brincadeira, quando eu falava bota fejão no fogo; ela falava era: vou por fejão pá cozinhá. Ela num fala catá o fejão, dona Elizia! Ela dizia qui ia era iscoiê!. E nóis divertia quessas conversas, viu!. A mãe do meu genro falô que nóis minero fala diferente e que é muito ingraçado. Ela falava que a Aninha num me puxô pá falá não.

 --- E o genro da senhora, dona Zulmira, trabaia em quê? Continuou indagando a tia Elisa.

 --- Ele tem uma fábica de armaro imbutido. Ganha um dinheirão cuisso. A fábica era do pai dele e dispois ficô pra ele. A siôra vê nê: minha fia tirô na loteria.

 --- Então, a senhora está feliz demais, Dona Zulmira? concluiu, tia Elisa.

 --- Eu tô é nadano de alegria! Graças a Deus!

 E assim, essa foi a última vez que eu vi a dona Zulmira.

 Já havia tempo que ela andava sumida. Certo dia, a filha dela apareceu e abriu a casa. Um caminhão estava levando todos os pertences dela que seriam doados para parentes da família, conforme contou Ana Maria a tia Elisa ao lhe comunicar que sua mãe, dona Zulmira, teria morrido ao atravessar uma rua, descuidadamente, em São Paulo, sendo atropelada por um taxi.

 Foi desse modo que tia Elisa teve conhecimento do fim que o destino deu a sua estimada amiga de outrora, amizade esta que marcou muito minha infância como a primeira grande relação vivida por duas vizinhas. 

 Armando Melo de Castro.

sábado, 18 de junho de 2022

O TESOUREIRO


 Da minha meninice, vivida na Rua Coronel João Afonso Lamounier, em Candeias, eu trago na lembrança a família do Sr. Joaquim Guimarães, mais conhecido por Quinca do Martimiano. Suponho que deveria ser Quinca do Maximiano, mas antigamente era assim mesmo. As pessoas viciavam os nomes dos outros. --- Quinca era casado com Dona Marica da Melada, já comentada aqui em outros textos; tinham uma filha única, a Maria das Graças. --- Maria das Graças quase todo domingo ia com uma roupa diferente ou nova à missa, num tempo em que a grande parte das pessoas tinham uma roupa exclusiva para ver Deus; tinha velocípede comprado em Campo Belo; vestiu-se de anjo no mês de Maria, com as asas mais lindas e mais caras. Enfim, era a menina mais rica da rua. Era impossível, não sentir uma “invejinha” dela.
Vizinhos de frente. E como Dona Marica falava muito alto, a gente conseguia escutar tudo que lá se passava, afinal ela estava sempre na janela ou na sala de sua casa, contando alguma vantagem. E eu tinha os meus ouvidos muito afiados e uma mente muito curiosa, e um espírito de repórter; apesar de ser um menino muito acanhado. Eu gostava de ficar apreciando a mexida diária de Dona Marica
Os traços de sua personalidade eram confusos. Às vezes, parecia que em tudo ele era meio. Meio careca; meio surdo; meio calado; meio ignorante, parecia meio bobo; (só parecia) ---- Marica era uma pessoa singular em termos de desajeito. Falava alto, estourada por qualquer coisinha e era dona de uma ingresia danada. Mandava no marido e ele cortava um doze com ela. --- Sobrinha do Sr. Erasto de Barros, vizinho também; eles tinham o comportamento bastante parecidos, Se pisassem nos seus calos, ou fossem contrariados era como se mexesse nunca caixa de marimbondos.
Ela se esnobava por passar bem de boca e viver na fartura. Na sua porta era ouvido o chamar do Nené da Zenóbia “Ó o padeiro!” ---- O verdureiro Zé Moraes lhe trazia verduras especiais e mais bem escolhidas. Se as verduras tivessem uma pequena larva ou uma minhoquinha qualquer, já era motivo para o falatório. Eram eles os vizinhos mais próximos a possuírem rádio que ficava ligado o dia inteiro no ultimo furo. A minha mãe decorava, músicas, o meu pai ouvia o Repórter Esso, Um programa que ela não perdia era dos Batutas do Sertão, Torres, Florêncio e Castelinho.
Comia carne todos os dias, pois fazia a tal carne de lata, que no caso de não ter geladeira, e não ter carne fresca todos os dias, naquele tempo era uma solução. --- Nos dias de matança no matadouro, O Lico da Sinhana, o responsável pelo abate dos animais, já levava a sua encomenda espetada num gancho, direto para ela, sem que ela precisasse de ir ao açougue. Esse privilégio era levado em conta porque o marido era importante na prefeitura. A gente imaginava que os funcionários da prefeitura eram todos ricos porque ganhavam muito dinheiro para trabalhar lá. O povo nesse tempo entendia muito pouco e funcionário público era como um Deus.
O povo da nossa rua assistia de camarote a riqueza em que vivia o Quinca Martimiano, sendo que ele antes era um latoeiro, quando existiam uns quatro artesãos do ramo. Era uma profissão para poder levar, às gatas, a vida de pobre. Portanto, com a fundação do município em 1938, Quinca veio a ser beneficiado com um emprego na prefeitura, onde passou a exercer o cargo de tesoureiro do município.
Comer bem ou ostentar uma vida de fartura, já não era apenas o objetivo do Quinca. Sua esposa, estava sempre encrencando com o vizinho da casa cima de propriedade dos irmãos do Juca do Nico, que moravam na roça, mas sempre vinham passar uns dias na cidade. --- Um dos irmãos tinha uma deficiência mental e quando surtava vinha para a cidade. Ai então o pau comia entre ele e Dona Marica. --- Quinca fez uma excelente proposta e comprou esta casa, no cobre vivo. Afinal Dona Marica riscava e ele cortava. A gente nunca ouvia a voz dele, falava baixo, era silencioso, só era visto na prefeitura, ou indo e voltando para casa. À vezes era visto na igreja ao lado de seu irmão Chico.
Depois de algum tempo Quinca comprou um sobradinho construído pelo meu tio Wantuil Delminda, ao lado da casa do Sr. Ermino, na Rua João Caetano de Faria com a Praça Antônio Furtado. E transferiu a sua residência para lá, vindo a alugar as duas casas já existentes. Dona Marica se esnobava porque agora não teria vizinhos chatos para aborrecê-la com o cheiro do seu galinheiro.
Mas afinal, o salário de um tesoureiro da prefeitura dava para tudo isso? Afinal os demais funcionários da instituição eram pessoas humildes e simples. Eram em número de três ou quatro de não me engano... As pessoas viam, e às vezes tiravam conclusões erradas. Afinal ele era o tesoureiro, podia ser que ganhava bem mais. Os prefeitos eram ricos, não era possível fazer comparação.
Passaram-se 20 anos.
No ano de 1958 foi um ano de eleições municipais. O prefeito José Pinto de Resende passaria a prefeitura para o Sr. Raymundo Bernardino de Sena, O Raymundo do Mariano, o prefeito eleito para 1959 x 1963 --- Zé Pinto teria feito uma administração louvável. E Raymundo vinha com a mesma intenção de dar continuidade ao trabalho que mudaria todo o visual do município de Candeias. Ruas calçadas, praças ajardinadas e tudo mais que faz hoje de nossa cidade uma linda cidade.
E uma das primeiras providências do prefeito Raymundo foi fazer uma sindicância e apurar o desfalque que havia na prefeitura, que já vinha há anos, sendo promovido pelo Sr. Joaquim Guimarães, o tesoureiro da prefeitura. Mas parecia que a benevolência indevida dos prefeitos anteriores não apuraram o comportamento do Sr. Quinca, talvez por saber o diabo que iria virar a sua esposa. As pragas que iriam receber, os nomes feios que iriam tomar. Mas Raymundo do Mariano, um homem integro, consciente dos seus deveres; um cidadão cônscio do dever que assumia com o patrimônio do povo que o elegeu não se intimidou e num gesto de fiel cumpridor de seus deveres, promoveu a demissão do Tesoureiro que vinha há anos enfiando a mão no dinheiro público. E o fez sem faltar com o respeito com o meliante.
Os apuradores do processo de demissão correram a cidade indo de casa em casa, pedindo os recibos do pagamento cobrado pelos impostos. Lembro-me como se fosse hoje, quando chegaram a minha casa e minha mãe ficou procurando esse recibo do pagamento do imposto numa gaveta. O impresso do recibo não era destinado ao pagamento de imposto predial ou outras taxas e sim como se fosse pagamento feito por obrigações com o Matadouro Municipal.
O Quinca foi demitido. Dona Marica ficou meio louca. Chorava, falava alto, rogava praga no prefeito Raymundo... Meu Deus! Como rogava praga no prefeito Raymundo... Dizia que ele haveria de morrer com a boca cheia... (Imagine)
Mas parece que as pragas pegaram foi na família dela. Ela terminou os seus dias em decadência mental. O Quinca ficava o dia todo batendo o seu martelinho recordando o seu tempo de latoeiro, apenas para se destrair, conforme dizia a sua filha. Já estávamos na era da matéria plástica e ninguém queria canecão e gamela de lata. Ele dava isso de graça para as pessoas necessitadas. Não demorou, foi chamado por São Pedro. Dona Marica, também foi atrás. E Maria das Graças casou-se com um rapaz que logo depois teria cometido um crime e estava preso. Ela ainda conseguiu formar-se professora. Era uma menina muito boa. Faleceu ainda bem jovem. E o seu marido oriundo da cidade de Cristais, foi quem herdou o seu patrimônio.
E as pragas que ela rogou parece que voltaram-se todas para ela. Quinca voltou a ser latoeiro, uma profissão superada, afinal estávamos já na era da matéria plástica. Maria das Graças a filha, dizia que o pai fazia aquilo apenas para se distrair, dava de graça.
Anos depois, eu me encontrei com o Sr. Raymundo do Mariano, ex prefeito, nas proximidades do cinema, ele já bem idoso, e eu lhe perguntei:
--- O senhor não tinha medo das pragas da Dona Marica não Sr. Raymundo?
E ele numa risadinha sorrateira me respondeu:
--Você se lembra disso menino!... Coitada da Marica!
Armando Melo de Castro.

sábado, 28 de maio de 2022

A POMBA-TROCAL E O FRANGO.

                           Pomba-Trocal

Todas as quintas feiras, no Parque Halfeld, próximo daqui de casa em Juiz de Fora, tem uma feirinha onde eu gosto de me fazer presente logo de manhã a fim de encontrar coisas da roça fresquinhas e ausentes de agrotóxicos; ovos caipiras, de galinhas soltas. Produtos que a gente pode comer e lamber, cuja lambança nos inspira dizer: “Tô satisfeito!”.

Eu voltava com uma sacola cheia de variadas delícias e pensando na satisfação que eu iria dar para o meu estômago.

Vou comer um franguinho lídimo caipira, cuidadosamente preparado pela minha Carmelita, daqueles que eu sei, que foi criado comendo rato, escorpião e todas aquelas porcarias do terreiro lá do sítio, inclusive aquilo que nas roças pode ser encontrado atrás das moitas depois de ter sido frango. Carmelita e a Bruna não comem frango caipira. A então eu "lavo a égua". ---- O franguinho se fará acompanhado de um quiabinho que com esse frio tá custando dez contos o quilo, e um “anguzinho” de fubá de moinho de pedra... Sei lá se é, mas vou pensar que é... --- Enquanto eu espero o sangue e o fígado, vou deliciar uma caipirinha de lima-da-pérsia. Agora é tempo dessa fruta e eu gosto muito da caipirinha feito com ela... E assim, para o manjar dos deuses, estaria faltando apenas a sobremesa ambrosia.

 E envolvido com essa imaginação de como seria a festa dos meus intestinos, sigo debaixo daquele arvoredo do Parque Halfeld, quando de repente, eu vi cair alguma coisa à minha frente numa distância mais ou menos de dois passos. Parei, olhei para chão e pude ver o que seria. Olhei para cima e vi toda tranquila pousada num galho, uma pomba-trocal, ainda bendita, isso porque por pouco seria maldita. --- Dois passos a mais eu teria levado no topo da minha cabeça branca, aquela coisa que entra numa boa dentro da gente e depois sai sem marcar a hora. As vezes sai rasgando, outra hora sai chorando... Outras vezes fica empacado. Coisa que se transforma e  que nos faz sentir asco, fastio e nojo depois de ter sido tão bem tratada. Poderia pelo menos manter o cheiro. Mas não! --- Continuei caminhando, agora meditando:

“O meu franguinho, tão desejado hoje, tão saboroso, tão gostoso... Amanhã tão fastidioso, tão asqueroso e tão nojento... Fazer o quê? Assim é a vida! Mas eu não vou deixar de comer...

Armando Melo de Castro. 

Candeias MG Casos e Acasos

 

 

 


sábado, 21 de maio de 2022

O CANDEENSE GERALDO DA VARGEM.


                                                             GERALDO PEDRO RODRIGUES
                                                                          (Geraldo da Vargem)

     Como definir um homem de bem? Um homem de bem é aquele que procura ser bom, em todos os sentidos. Ele é realmente preocupado em fazer o bem e sempre o faz dentro das suas possibilidades. Não precisa ser como São Gregório, que era muito rico e vendeu todos os seus bens para ajudar aos pobres. Fazer o Bem não significa ser um grande doador. Uma palavra, um sorriso, o respeito, às vezes, pode ser considerados como uma grande doação.

 O homem de bem caminha sempre para o rumo certo e nunca é levado para o caminho errado; respeita e é respeitado no meio onde vive. É trabalhador e honesto, porque sabe que o trabalho é a conquista do alento, do conforto, da sobrevivência da família para a qual Deus o designou. Um homem de bem não foge disso, porque ele está sempre em sintonia com Deus. E o seu juiz é o da sua consciência, onde está sempre sendo absorvido.

 -----Hoje, nós vamos falar de um candeense muito querido. Um homem de bem cuja morte deixou saudade  de muita gente, pois o seu círculo de amigos era muito grande. Um homem que praticou todos os seus atos de benevolência no meio onde viveu e era muito amado. Estamos falando do candeense, Geraldo Pedro Rodrigues, bem conhecido por GERALDO DA VARGEM.

Geraldo nasceu em Candeias, no distrito de Vieiras  no dia 03 de fevereiro de 1912. Filho de Antônio Pedro Rodrigues Sobrinho e Maria Severina de São José. --- Ainda em Vieiras, conheceu a jovem Olívia Luiza da Trindade, com quem se casou e teve 06 filhos. São eles: Alberto Pedro Rodrigues, -- José Pedro Rodrigues, -  Divina Rodrigues, Longuinha Rodrigues (falecida), -Antônio Pedro Rodrigues (falecido - e  João Pedro Rodrigues ( o João Cambota) também falecido. Uma família muito inteligente que sempre se destacou naquilo que tomou para fazer. 

Na área de trabalho Geraldo da Vargem muito se desenvolveu quando no início de sua vida foi Caixeiro Viajante. E vindo para a sede do município, se destacou com a sua presença como comerciante e os benefícios que prestou não só ao bairro onde residia, Alto do Cruzeiro, como também para com todo o município. --- A sua casa comercial existente ao lado de sua residência, à Rua Expedicionário Monceff, não atendia apenas o Alto do Cruzeiro porque lá poderia ser encontrado algum tipo de  mercadoria com exclusividade. Geraldo era um excelente comerciante e tinha uma clientela muito grande principalmente da zona rural.

O Cemitério existente no Alto do Cruzeiro,  foi construído graças a doação do terreno que se fezia muito necessária para tal. A Prefeitura Municipal de Candeias, numa homenagem,  deu nome ao campo santo de  Cemitério São Geraldo num gesto de gratidão ao doador do terreno Geraldo Pedro Rodrigues.

O terreno onde se encontra instalada a torre de telefonia, nas proximidades da usina de lixo, indo para os Arrudas, foi, também, doado pelo nosso benfeitor Geraldo.

Era ele um homem trabalhador, honesto e muito caridoso. Sendo possuidor de um retiro onde ordenhava algumas reses, ele tanto vendia o quanto doava para pessoas necessitadas ou doentes na Vila do Senhor Bom Jesus --- Quando tinha conhecimento da fragilidade financeira que uma pessoa se encontrava, colocava algum dinheiro dentro de um envelope e colocava debaixo da porta do necessitado.

A paixão religiosa de Geraldo era a festa do folclórico do Rosário. E por isso não mediu esforços para promover a campanha para a construção da Capela de Nossa Senhora do Rosário, do Alto do Cruzeiro, bem próximo do seu habitar. Para tanto doou o terreno e através de promoções de festas, leilões e doações de amigos, a capela foi construída. Anualmente acontece ali a Festa do Rosário, num efervescente sincretismo religioso numa fusão incontestável dos conceitos africanos com o catolicismo. --- Esta festa desde o início teve o seu patrocínio, pois quando o balanço das despesas era negativo, ele fazia a cobertura financeira de forma anônima.

Geraldo foi um colaborador desinteressado para com os prefeitos do município. A Câmara Municipal lhe homenageou com o topônimo de uma rua, ainda sem as placas, mas trata-se da Rua da Caixa D’água. --- O Bairro São Geraldo, situado numa área, então que lhe pertencia, também, recebeu esse nome em sua homenagem.  Como servidor público Geraldo foi sub delegado de polícia na década de 70, quando era titular da delegacia o Sr. Manoel Alves.

Geraldo Pedro Rodrigues, o grande amigo candeense, Geraldo da Vargem, faleceu no dia 24 de dezembro de 1991 em plena véspera de natal deixando muito pesar entre o seu grande número de amigos e familiares. ----- Está sepultado no Cemitério São Geraldo, cujo nome foi dado em sua homenagem.

 --------“Seja o homem caridoso e bom. São as únicas coisas que o distinguem dos demais seres.” ----                                                                                     (Johann Goethe)

 Armando Melo de Castro.

Candeias MG Casos e acasos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


domingo, 24 de abril de 2022

UM SONHO DE ARTISTA.


 

No princípio da década de 60 nós tínhamos em Candeias o Grêmio Teatral Monsenhor Castro. A televisão nesse tempo ainda não existia em Candeias, como também em outras cidades pequenas, e o cinema, o teatro amador, os parques de diversões e os circos que visitavam a nossa cidade eram as diversões da época. A televisão ainda engatinhava no interior.

Já em outras postagens eu comentei sobre o meu grande amigo Gabriel Carlos da Costa. Ele era o pintor de paredes com quem eu trabalhei por algum tempo dos meus 17 para 18 anos. Nessa época do Grêmio Teatral Monsenhor Castro, Gabriel era o nosso diretor artístico. Quem via ele fazer os comentários, poderia imagina-lo um diretor de teatro de São Paulo ou Rio de Janeiro.--- Isso até me leva a pensar, que se num grêmio amador, a pessoa se entusiasma tanto, imaginem então um profissional famoso? ---

Lembro-me que certa vez nós levamos uma peça chamada A Escrava Isaura, e foi um sucesso total. Naquele tempo a televisão era muito ruim e não havia essas novelas que hoje prendem as pessoas em casa. A diversão do povo era ir até ao, então, chamado largo, onde havia uma “avenida” As moças normalmente de braços dados uma com a outra, passava para lá e para cá, enquanto a rapaziada ficava por ali dando bola, piscando os olhos para elas. E quando eram correspondidos, daí poderia sair um namoro. --- Esse movimento era defronte ao cinema.

Mas voltando ao Gabriel, nós estávamos pintando, nesses dias a casa do Sr. João Pinto de Miranda e quando descemos, no outro dia de manhã para o trabalho, as pessoas que nos encontrava nos davam os parabéns pelo desempenho. Gabriel que teria feito o papel de um comendador, já estava se sentindo um comendador também. ---

Ali naquelas imediações da estátua do soldado, encontramos com a professora Maria do Carmo Bonaccorsi, que nos deu os parabéns pelos nossos trabalhos artísticos. Eu pelo menos ouvi calado e agradeci, mas o Gabriel abriu a sanfona e eu comecei a ficar com vergonha para ele:

--- “Por que eu já tinha falado que num quiria morrê sem trabaia nessa peça” Eu pudia ter feito o meu papel bem melhor, mas acontece Ducarmo, que tudo era eu, eu tinha que dirigir a peça, falar como tava o som, orientar a maquiladora, enfim eu sô faltava ser a Isaura.

Nessas alturas do campeonato, a Maria do Carmo Bonaccorsi, que era uma pessoa bastante atenta, olhou para mim, deu um sorriso e disse: “ Uai Gabriel, você nunca pensou em ir para São Paulo ou Rio de Janeiro e fazer um teste num teatro, no cinema, e até mesmo na televisão que vem sendo muito desenvolvida?

“Oh Ducarmo eu vou fala procê, eu já tive essa chance, mas num quis não. Eu já morei em São Paulo, e pudia ter feito isso do jeito que ocê tá falano, mas não fiz não. O meio de artista é muito ruim. Eu prefiro atuar no teatro amador.

Maria do Carmo deu mais um sorriso e saiu se despedindo. Aguardei o comentário suscinto do Gabriel que viria com toda a certeza logo em seguida:

Eu tô pensando Armando, o cinema incheu onte, o povo tá me dando muitos parabéns, Quem sabe oceis ainda vai me vê na tela do Cinema, num filme assim do tipo dos filmes do Arfredo Riticoque --- (Alfred Hitchcock). Uma coisa eu sei, eu ia ser miò do que o Jamestil. (James Stewart), com aquela cara de tonto que ele tem. Eu num sei como o Alfredo Riticoque põe um home daquele para trabaia nos seus filmes. Vai sê rum assim...

E eu que era um bobão, sabia lá quem era Alfred Hitchcock ou James Stewart???... Achei foi o Gabriel danado de sabido.


Armando Melo de Castro.

CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.