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quinta-feira, 5 de março de 2020

ERA UMA FLOR, ERA UMA CACHORRINHA!


 Todas as manhãs por volta das sete horas, após me levantar e tomar o meu café, abro a janela da minha sala que dá para a rua e cá de cima do quarto andar, fico olhando o que se passa na rua, como se tivesse num camarote assistindo um teatro da vida real.

Vejo o sobe e desce de alunos e professores da escola que existe lá em cima na ponta da rua; também vejo os operários assentados na entrada de uma grande construção ao lado do prédio onde eu moro, aguardando o momento de entrar para o serviço; vejo a mexida dos porteiros e faxineiros do chamado prédio do Itamar Franco (Prédio onde morou o ex-presidente da República) tomou esse nome por ter sido a morada do politico famoso.

Afinal a minha falta de compromisso me faz com que eu passe a conhecer cá de longe quem sobe e desce apenas de vista. Enquanto tomo o meu solzinho daqui da janela vou apreciando o movimento da rua e convivendo com ele. Enfim, fazendo daqui da janela do meu aposento o que um aposentado sempre faz: Nada!

O que sempre me atraiu neste convívio matinal com a rua onde eu moro, é um senhor de estatura média, meio careca e com cara de quem conta os seus oitenta e tantos anos. ---- Ele todos os dias subindo a rua acompanhando uma cachorrinha que vinha sempre à sua frente uns três ou quatro passos. ---- A cadelinha, naturalmente adestrada não adiantava os passos, considerando os passos trôpegos do velho à medida que o nível da rua fosse ganhando elevação. E se ele parasse para conversar com alguém ela voltava e se acomodava ao seu lado.

A pontualidade desse senhor para passar diariamente pelos meus olhos era tão grande que eu passei a ter hora marcada para abrir a janela e apreciar o convívio dele com o animalzinho. O fato levou-me um dia descer à rua e puxar conversa com aquele senhor e saber o seu nome: Antenor, o nome dele. E a cachorrinha uma poodle branca, pequenina, muito bem cuidada e nome “Flor”, ---- Flor era conhecida por todos os moradores da rua. 

Até que um dia do mês de janeiro, ambos sumiram das minhas vistas. Eu abria a janela na esperança de vê-los passar, mas não os via. Mês passado eu o vi passar sozinho. --- Desci quase correndo até a rua no intuito de perguntar aquele senhor onde estava a sua cachorrinha. E ele com lagrima nos olhos, contara-me a história:

Eu fui à praia em Cabo Frio em janeiro com a minha família. Levamos a flor. Lá ela adoeceu. Já era idosa e tinha um probleminha de coração. Foi levada para o hospital onde ficou internada. Assim que teve uma melhora, o veterinário a liberou para a viagem, viemos embora.

Chegando aqui em Juiz de Fora, imediatamente eu a levei ao hospital veterinário ela fez exames e foi liberada. Assim, que cheguei a Casa, ela morreu. Morreu como um passarinho.

Deu dó ver os olhos de o velho Antenor lacrimejar. Não lágrimas propriamente dos olhos, mas sim lágrimas do coração. Parecia que havia perdido um filho. ---- Diante daquele cenário, os meus olhos também reclamaram pela ausência daquela flor em forma de um animal. Eu sentira, naquele momento um grande pesar.

Posteriormente, por poucas vezes pude ver o velho Antenor subir a rua, agora sem a sua “Flor” daqui de cima eu lhe acenava com a mão no que era correspondido. Um aceno triste de quem está fustigado pelas chicotadas do tempo.

Ontem, quando passava pela barraca de frutas existente na esquina, perguntei ao fruteiro, se não teria visto passar por ali o Sr. Antenor, e a resposta foi chocante: “Ele morreu! Você não soube?! A filha dele disse que desde que a cachorrinha dele morreu nunca mais ele esteve bem... Coitado"

Finalizando, concluo que ter um animal de estimação é ter uma fonte de amor bem viva dentro de nós. Os animais não se cansam de amar os seus donos e não pedem nada em troca. E se a morte busca esse animal a fonte de amor continua plantada dentro da gente. É o mesmo que criar um filho dependendo do nosso carinho e do nosso amor.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

domingo, 1 de março de 2020

EU FUI UM TREM CHATO!


Viajando pela estrada de minha vida, fiz uma parada num ponto do qual eu guardo vivas lembranças de um fato que me ocorreu no principio dos anos 60, quando ainda eu era um adolescente.

Na década de 50 o correio brasileiro chegou a ser considerado o pior do mundo. Na década de 90 chegou a ser o melhor do mundo, segundo a Revista Forbes. ------- A partir da era PT, as roubalheiras nos correios foram tantas que hoje se pode dizer que os Correios brasileiros estão falidos, à vista do que foram.

  Naquele tempo o transporte das postagens era feito de trem. Os jornais chegavam às mãos dos leitores com até dez dias de atraso. Eles vinham com vagar, de trem, do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Eram poucos os assinantes.

As cartas e outras correspondências eram, comumente, extraviadas. Uma carta, por exemplo, para São Paulo, se não fosse aviada através de porte registrado, constantemente era consumida pela viagem. Remessas de dinheiro extraviavam-se, para onde? Só Deus sabe. E o pior, a responsabilidade não era arcada pelo correio. Não adiantava reclamar. Se reclamasse, ai então, a coisa piorava: os funcionários do correio detestavam reclamações.

Naquela busca de adolescente, querendo se firmar numa vocação ou numa profissão, eu, envolvido nas fortes propagandas que circulavam, resolvi fazer um curso de rádio por correspondência. ----- Matriculei-me, portanto, no até hoje, existente, “Instituto de Rádio Técnico Monitor”, de São Paulo. Pagava por mês CR$ 15, 00 e o quanto me era difícil o dinheiro para esse meu projeto!

Bastara-me uma só vez para que o meu dinheiro sumisse e eu desistisse de continuar estudando rádio. Foi uma frustração. Mas o que mais me chamava à atenção eram os funcionários da agência dos correios de Candeias. Eu não sei quantos funcionários têm hoje aquela agência, mas imagino que não se compara com o quadro daquele tempo.

Com o fato de incrementar o telégrafo na Agência de Candeias, teria vindo o telegrafista, Sr. Nelson e Chefe da casa. O governo teria criado diversos benefícios para os soldados da Força Expedicionária, na II Guerra Mundial. Os chamados pracinhas. Nada mais justo. Eram pessoas com problemas financeiros... Problemas psicológicos, etc. Mas, o governo os colocou nos interstícios dos correios; tivesse ou não vagas, lá entraram. Haviam também os apadrinhados políticos. E nessa leva a agência dos correios de Candeias, tornou-se num verdadeiro trem da alegria.

Os guerreiros beneficiados foram os Srs. Clovis Cambraia Alvarenga, e Humberto Pulhez. Teriam, com certeza, merecimento para receber um benefício do governo, tendo em vista trazerem consigo a maldição da guerra, ou seja, os traumas involuntários. Justo se vê, todavia, tratar-se de duas pessoas totalmente despreparadas para o cargo a que foram submetidos; apesar de louváveis e merecedores.

De outra forma, um remanejamento da ferrovia, foi levado para os correios o Sr. Ovídio Ferreira. Um cidadão, então, visto pelos jovens como esquisito, mal-humorado e excêntrico... 

Um carteiro fardado tal qual um soldado, teria ganhado o cargo como um presente político.  Para ter uma ideia, apenas o carteiro, naquele tempo, tinha um salário de vinte e quatro mil cruzeiros mensais e causava admiração em todo o mundo, como diziam, para entregar uma meia dúzia de cartas. Na época, lembro-me de vê-lo comentar que o seu salário era de dois mínimos e meio. E raramente ele era visto pela rua entregando alguma carta.

Grita-me aos olhos aquele quadro de funcionários da agência dos correios de Candeias quando eu lá chegava e perguntava humildemente:- -- Tem carta para mim Sr. Ovídio? “E uma seca resposta.” Não! Você já esteve aqui ontem!...” “Dá um tempo ai uai"!... Vejam só a incoerência daquele servidor, porque se a carta não chegasse ontem, poderia chegar hoje. Mas...

No outro dia, eu empanado na minha timidez, na minha vergonha e no medo da resposta perguntava de novo: Tem carta para mim Sr. Ovídio: "Não! Esse trem de rádio demora mesmo... Você vem aqui todo dia, vai ser chato trem"!

Vi que falava sério. Para o Sr. Ovídio que trabalhou muitos anos de sua vida na ferrovia, era um homem que morava sozinho, sem descendentes familiares, solteirão, não era de se estranhar o seu habito de tratar a tudo e a todos como trem.

Senti-me humilhado e para completar o dinheiro enviado pelo correio para pagar a prestação teria sido extraviado. Abandonei a ideia. E as raras vezes em que voltei ao correio, nunca mais me dirigi ao Sr. Ovídio. ---- Mas hoje agradeço a ele  uma lição de vida. Do lado de dentro de um balcão, fiz tudo para não ser um trem chato. A sua falta de jeito fez-me mais precavido. Foi um limão do qual eu fiz uma limonada.

Armando Melo de Castro

Candeias MG casos e acasos
















segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O MEU GRANDE AMIGO HELVÉCIO MELO SILVA.

                                          https://www.youtube.com/watch?v=b41CK_xE
                                           PARA OUVIR A MUSICA BARRIL DE CHOPP CLIQUE AQUI

Hoje, quando eu navegava no lago das minhas memórias, eu fui longe. Lembrei-me das barraquinhas ao lado da Matriz de Candeias. Como eram boas aquelas quermesses orientadas pelo Monsenhor Joaquim de Castro.

Eu e meu pai, todos os anos éramos convidados a ajudar. No final das festas tinha sempre uma ceia na casa paroquial. E o monsenhor, como era super organizado já dizia antes, quando que iria dar para cada um o rateio da ceia.

Neste texto, vou focalizar apenas o serviço de auto falante das barraquinhas. O locutor era o meu grande amigo, Helvécio do Dé Cassiano. Ele colocava a musica o "Barril de Chopp" que era o prefixo e sufixo do serviço de auto falante.

E já começava: "Ao som desdete prefixo musical, vai para o céu de Candeias o serviço de auto falante das barraquinhas de São Sebastião e Nossa Senhora das Candeias." ----- Na discoteca encontram-se Santinha Salviano e Marina Salviano. Ao microfone esse amigo de vocês: Helvécio Melo Silva.

É uma pena que hoje em dia, são poucas as pessoas que podem se lembrar disso. 

Para ouvir a música Barril de Chopp, excutada pela Orquestra Sanfônica de São Paulo, clique na imagem. 

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


COMENTÁRIOS:
Onofra Ferreira Vilela Que saudades das Barraquinhas do Monsenhor. Tudo acaba aqui em Candeias, Carnaval era uma maravilha, as Barraquinhas então como eram boas, porque tudo acaba , que triste. ---- Meu pai era muito severo, muito rígido e não era sempre que deixava minhas irmãs e eu irmos às Barraquinhas, meu Deus como a gente chorava e o recurso era sentarmos do lado de fora de nossa casa e ficar ouvindo as músicas com um aperto no coração de tanta vontade de estar lá, mas em nossa época a gente era muito obediente e não teimava com os pais, não era como hoje que filhos saem quando querem e voltam quando querem. Ah meu Deus mesmo assim tenho uma saudade que chega a apertar o peito.

Clara Salviano Borges Arantes Ô tempo bom!

Zita Salviano Boa recordação. Ficava encantada com as bonecas de papelão vestidas pela D. Regina e D. Cecília. Meu sonho era ganhar uma boneca daquelas.

Franz S Borges Saudades.

Edna Meloriana Pois é, não perdia nada, morava num ponto estratégico, se não ia, ficava vendo do alpendre lá de casa. “ Lá de casa” ah, saudades!

Marco Antonio Albanez Ainda peguei uma berada boa das barraquinhas, era muito gostoso e divertido.

Ely Ferreira Da Cunha Ely A gente vinha da roça a pé e voltava só quando fechava as barraquinhas. A gente ia a loucura quando começava o barril de chope. É muita

Luci Vilela Bela recordação era bom de mais EU lembro e me emociono muito
Dalva Sousa Tempo bom. Saudade.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

UM CANDEENSE ILUSTRE - MAESTRO SILVIO BARBATO.


                                        Maestro Silvio Barbato.

Conheci o maestro Silvio barbato, quando este era uma criança e era pajeado juntamente com uma de suas irmãs pelas suas babás, uma delas prima de minha mãe, chamada Nica e a outra, Francisca, filha do Zé Pega Pão e sua esposa Lourdes. Elas ficavam ali na praça frente à Casa Celestino Bonaccorsi, pajeando essas crianças. O maestro Silvio Barbato nasceu em Candeias no dia 11 de maio de 1959 e faleceu no Oceano Atlântico num acidente de avião, em 01 de junho de 2009, com 50 anos de idade.


Talvez tenha sido o candeense mais ilustre em termos de arte. Morreu quando viajava para uma missão no exterior

Seus pais, Dr. Daniel Barbato e Dra. Rosalba Bonaccorsi Barbato, ambos eram médicos em Candeias. Para cá vieram ainda recém-formados. Dr. Daniel, Já falecido, foi também professor de história no Ginásio de Candeias, oportunidade em que fui seu aluno. Faleceu em Brasília, vitima de um infarto fulminante, na década de 90, quando era professor na Universidade de Brasília. Dra. Rosalba neta de Celestino Bonaccorsi, filha de Silvio Bonaccorsi e Dona Alvarina Bonaccorsi, irmã do nosso querido Américo Bonaccorsi, então tio tio-avô do Maestro Silvio Barbato.

Foi ele, o Dr. Daniel, quem iniciou a construção da casa, hoje do Wandinho Bonaccorsi, primo da Dra. Rosalba.
Com a sua volta repentina para o Rio de Janeiro, Dr. Daniel vendeu a casa inacabada para o Wandinho que terminou a sua construção.

Eram três os filhos do casal Bonaccorsi Barbato:
------Silviane Bonaccorsi Barbato, psicóloga de renome, com diversos cursos no Brasil e no exterior; professora universitária, residente em Brasília.
------Sandra Bonaccorsi Barbato, diplomada em engenharia; residente também em Brasília.
 
--Sílvio Sérgio Bonaccorsi Barbato, residente no Rio de janeiro, formado na Universidade de Chicago; maestro da Orquestra Sinfônica do Brasil, professor, doutor em filosofia, compositor clássico; maestro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro; e dono de um currículo extenso e admirável. Foi o mais jovem maestro de uma orquestra sinfônica.

Por ocasião da morte do maestro, tive um contato com as suas irmãs, em Brasília, através da internet, onde eu quis saber do pai delas e fui informado de que havia falecido. Na oportunidade Sandra se me revelou a mágoa que a família Barbato levou de Candeias, tendo em vista uma agressão física que seu pai teria tido aqui, por motivos inexplicáveis para os filhos. Na época foi uma grande perca para Candeias, pois a cidade que já era carente perdeu dois médicos atuantes.

 O maestro Silvio Barbato estava no avião francês que caiu no Oceano Atlântico na madrugada do dia 01 de junho de 2009. ----- É uma pena! A musica brasileira perdeu com a morte de Silvio Barbato, grande parte do seu patrimônio; pois ele era muito jovem e ainda tinha muito para proporcionar ao nosso Brasil.  
Veja parte do seu currículo:

Maestro Silvio Barbato - Diretor Musical e Regente Titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro em Brasília e Regente Titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Silvio Barbato estudou composição e regência com Claudio Santoro.

No Conservatório Giuseppe Verdi, em Milão, recebeu o Diploma de Alta Composição na classe de Azio Corghi. Ainda na Itália frequentou a classe de Franco Ferrara, colaborando com o maestro Romano Gandolfi no Teatro Alla Scala. Em Chicago, realizou seu PhD em Ópera Italiana sob a orientação de Philip Gossett.No Teatro Nacional Claudio Santoro está na sua nona temporada como Diretor Musical.

Com a Orquestra do Teatro regeu concertos em Roma (Piazza Navona), Lisboa (Mosteiro dos Jerônimos), nos Teatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro e em diversas capitais brasileiras. Suas gravações com a Orquestra incluem as Sinfonias Brasil – 500 Anos e os Clássicos do Samba, com Jamelão, Ivone Lara e Martinho da Vila.
  

Entre seus trabalhos com artistas internacionais, destacam-se: Aprile Millo, Montserrat Caballé, e Roberto Alagna e Angela Gheorghiu. No centenário de Carlos Gomes, a convite de Placido Domingo, foi o curador da ópera “O Guarani”, que abriu a temporada da Washington Opera. Diretor musical do filme “Villa Lobos, Uma Vida de Paixão”, foi premiado com o “Grande Prêmio Brasil de Cinema 2001” , na categoria de melhor trilha musical. Em 2003 compôs o balé “Terra Brasilis” que se apresentará, ainda em 2004, na Itália.Pelo trabalho que vem realizando na área cultural, Silvio Barbato recebeu inúmeras condecorações do governo brasileiro, tendo sido promovido ao grau de Comendador da Ordem do Rio Branco, além de ter recebido a Medalha do Mérito Cultural da Presidência da República.
 
O maestro tinha vários compromisso internacionais no momento em que viajava e foi vitima dessa grande tragédia. Foi triste para Candeias, foi triste para o Brasil.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos 


5 comentários:

Unknown disse...
Armando , preciso fazer contato com Silviane ou Sandra, somos amigos do Leme e o ultimo telefone que tenho do Silvio esetá com outra pessoa há 1 ano. Vc poderia me dar o email das meninas. Atenciosamente, Raquel Abreu
Maria Inés de la Quintana B. Bandeira disse...
Armando, adorei o resumo da vida da Familia Barbato. Sou amiga de Sandra, fizemos um semestre de faculdade no Rio juntas e não foi engenharia e sim Arquitetura.
Estive em Brasilia por volta de um ano atras tentando fazer contato com ela e não consegui, poderias me enviar seu e-mail ou telefone para que possa revê-la?
Estarei passando por Brasilia em meados de julho e gostaria de visitá-la e dar minhas condolencias pessoalmente.
Conheci a familia toda, eramos novos, estavamos saindo da adolescencia e me apaixonei pelo "tio Daniel", pedi autorização dele para chamá-lo assim, isso foi em 1979, nosso primeiro semestre de faculdade. Sandra retornou no semestre seguinte para casa em Brasilia e terminou o curso por lá, mas ficamos amigas desde então. A vida nos afasta por períodos e estou aqui agora tentando retomar a amizade. Agradeço sua ajuda de antemão.
Maria Inés de la Quintana Bruggemann Bandeira
Armando Melo de Castro disse...
Raquel e Maria Inês por favor me enviem um e-mail para que possa responder seu pedido.
Blogdoarmando@gmail.com
Dada disse...
Armando, desejaria muito ter o email de Dra. Rosalba para entrar em contato com ela, pois estudamos juntas em Lavras e ela mudou-se de Candeias e terminou seus estudos fora.Agradeço-lhe muito por ajudar-me. Dâmina
Anônimo disse...
Armando, fui colega da Rosalba em Lavras e gostaria de ter o seu email, se puder me ajudar agradeço muito.
Leila (cesarpomarico@yahoo.com.br)



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O VELHO SEM VERGONHA.

                                                            Foto para  Ilustrar o texto.
Na minha adolescência, conheci um candeense cujo comportamento lhe daria o adjetivo de safado, ou melhor, de safadão. Tinha, mais ou menos, setenta anos de idade, do tipo manguarão, pescoço comprido, uma boca grande apresentando uma dentadura que exaltava os dotes profissionais do dentista, Boanerges Pacheco, feitas em uma única forma para todos os clientes.

 Possuía o cabelo branco, cortado à moda Príncipe Danilo, coberto por um chapéu de palha, além de uma voz mole que dava a aparência de pensar palavra por palavra sobre o que ia falar. Creio que seu nome deveria ser Alexandre, mas, todo mundo o tratava e o conhecia por Xande.

Quando ele vinha ao encontro de uma turma, as pessoas já se preparavam para identificá-lo: - “Lá vem o velho safado! Mas no fundo, bem no fundo, muitos o tinha por um gay incubado, preso no armário. Afinal ninguém se lembrava de sua mulher, ele teria criado uma filha que tomou o nome de Fiinha do Xande, que se tornou uma prostituta que fez a primeira vez da rapaziada da época.

 A alcova de fiinha para os rapazinhos que tinham algum dinheiro, era um quartinho alugado por Tarcíla do Mingote nos fundos de sua residência na Rua do Capão, hoje Pedro Vieira de Azevedo; e para os mais pobres era uma moita na entrada do pastinho da prefeitura, que ficava onde hoje está  localizada a indústria TEO, do Tonio Oliveira.

Xande chamava todo mundo de "bem" ou de "menino" fosse homem ou mulher. ----- As mulheres nunca conversavam com ele porque se assim fizessem, levavam na cara certos elogios que as deixavam envergonhadas ao extremo. Fosse velha ou fosse nova, fosse criança ou adolescente, o tema das suas conversas era sempre considerado atrevido com uma tonalidade educada. Além do mais tinha uma pecha de alcoviteiro.

Se a mulher fosse velha, ele, descaradamente, dizia:

 “Ocê ainda dá uma brincadeira boa, meu bem! Galinha véia dá cardo grosso! E como dá! Cê guenta muito bem uma meia sola! Ocê, minha fia, dá uma requenta de bacaiau muito boa que dá pá inchê o pandu até num querê mais.


Se era um tipo balzaquiana, ele diria com a cara mais lambida: ------ Sá sinhora, minha fia do céu! Ocê tá cuma tanajura apititosa dimais, sô! Agora que intendi purque qui o zôto fala de come tanajura. Ocê prá mim é uma janta de natal, daquelas qui a gente vai cumeno, cumeno até dá indigistão.   

Se a mulher era uma mocinha nova, uma adolescente, aí fazia um comentário sucinto: ------- Êh, minina, ocê tá do jeito que eu penso! Deve tá iguar uma ispiguinha de mio verde discascada. Cabilim marilim. Inda num pode cumê purque num granô direito.


O seu grande amigo de conversa e de safadeza era o Dé Cassiano. Eles estavam sempre conversando. Comumente, eram vistos em um banco da praça, de frente o Bar Piloto. E para cada mulher que passava, eles tinham um comentário a fazer. Despiam-nas em pensamento, imaginavam-nas ensaboadas, tomadas e penetradas, totalmente isentas de vestes e pudor. Xande dava tanta ênfase ao assunto e parecia até que iria sentir um orgasmo imaginário. O que fazia muita gente crer se tratar de um tarado. ----- Mas, nunca passou de pura conversa. Nunca se teve notícia de que tivesse tido algum caso com alguma mulher.


Dentre os poucos homossexuais que havia em Candeias, naquele tempo, pelo menos fora do armário, Renê nunca escondeu isso de ninguém. Todo mundo sabia disso e o aceitava em virtude da sua lealdade consigo mesmo. Isso porque, desde criança, expunha não uma opção sexual como muitos dizem, mas sim, a sua condição sexual. Ele dizia que era homossexual porque se sentia assim e não porque teria optado para isso. Afinal, essa condição lhe custava certos problemas, inclusive, dentro da própria família e ele sempre as encarou sem escândalos, sem brigas e com muita dignidade.


Estávamos no carnaval de 1961 e Renê era um grande animador da folia em Candeias. Sempre inventava uma fantasia inteligente. Naquele ano, ele retratou o cosmonauta russo, Iuri Gagarin o primeiro homem a viajar pelo universo em uma espaçonave. Era o assunto do momento. O mundo se preparava para assistir à primeira missão espacial tripulada da história.


Renê fez a sua fantasia demonstrando, sucintamente, as vestes de Gagarin: um macacão de astronauta. E para uma ênfase maior, usou um capacete como uma pequena réplica da espaçonave com as suas antenas o que lhe dava uma aparência de quem portava enormes cornos.


Empanado naquela alegoria, Renê desce a avenida e, ao passar em frente ao Bar Piloto, cai sobre os olhos da dupla de comentaristas indiscretos: Xande e Dé Cassiano:

Sabendo que iria temperar o angu daquela panela que fermentava a vida alheia, Renê parou de repente, deu uma rabanada feito um pavão enfeitado ou de um ganso que saiu da água e seguiu o seu caminho ficando a mercê do julgamento daqueles juízes carnavalescos.

---Minino do céu!? Cê viu, Dé? O que qui é isso, criatura?


---Esse é aquele fio do Chico de Assis, o Renê.


---O que qui é aquilo na cabeça dele? Tá pareceno chifre! Tá doido, sô?! Tá iscambado dimais da conta, uai!


----Uai, Xande, com esse trem na cabeça, tá pareceno que ele reganhô de veis.


----Ocê parece, Dé, que porva dessas  fruta encaroçada?


----Cê é doido, Xande! Fruta que dá no esgôto é veneno. No meu cardápio, eu prifiro um den de aio, ou intão, um pastilinho.


Armando Melo de Castro

Candeias Casos e Acasos

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

TUDO É UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO.


No Japão os japoneses peidam naturalmente em qualquer lugar onde estejam. O comerciante de uma loja, por exemplo, atende um freguês soltando os seus peidos tranquilamente como se aquilo fosse um suspiro. --- Os gases intestinais fazem parte de nossas vidas. No entanto, grande parte das pessoas, talvez a maioria, sente vergonha de falar sobre isso, pelo fato de serem barulhentos, fedorentos, transformando ambientes desagradáveis. ----- 

O normal que uma pessoa peida por dia é de 15 a 20 vezes. Peidar é um bom sinal de que o organismo está funcionando bem. A ciência tem dado atenção ao cheiro do peido apesar do tabu que envolve o hábito de peidar tranquilamente. 

O ser humano mantem certos hábitos que de povo para povo muda completamente os conceitos. Às vezes uma palavra muda à noção ou ideia e uma concepção de moral completamente contrária aos princípios sociais. Comumente podemos observar palavras que ditas cientificamente são ouvidas naturalmente, tornando a causa vulgar quando pronunciadas popularmente. Por exemplo, o acumulo de gases no intestino são ditos, como, peido, pum ou estrondo, palavras consideradas como chulismo, mas na verdade são elas as mais pronunciadas e que mais se identificam com esse acumulo que toma o nome de flatulência. ---- 

Uma novidade é que os cientistas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, descobriram que o cheiro do peido traz benefícios para a saúde, e, por isso, o assunto tem virado comemoração. Eles alegam que apesar do gás do pum ter um cheiro tanto desagradável, os pesquisadores responsáveis pelo estudo afirmam que o mau cheiro pode ser preventivo para evitar (AVC) artrite, ataques cardíacos, demência e até câncer. Segundo eles, os gases intestinais contêm pequenas doses de ácido sulfídrico de grande importância para o corpo humano e que são responsáveis pela respiração celular. 
Concluíram, portanto, que o cheiro do peido preserva a mitocôndria afetada que previne o surgimento de muitas doenças. 

Eu não sei se devo acreditar nisso não. Sei que em Candeias tinha um barbeiro, aliás, muito conhecido na cidade, e, que quando soltava um peido aspirava o cheiro com ímpeto, com força como se estivesse cheirando o perfume das flores e dizia com ênfase quase  sentindo um orgasmo: “Ai como catinga de peido da gente é bão”. --

Eu não vou dizer o nome dele porque era meu amigo e isso pode não pegar bem, falar de um hábito tão exótico do meu amigo e com isso denegrir a sua imagem depois de morto, não me ficaria bem. Sei dizer que ele morreu com uma dessas doenças que estão dizendo ai que o cheiro de peido previne. Sei não... Tô fora!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

PULANDO O MURO PARA COÇAR O INHAME.


Dona Zica era uma senhora de meia idade que morava na Rua José Furtado, no Bairro da Gruta, em Candeias, na época em que fomos vizinhos, no final da década de 50, quando minha família residiu naquela rua até que meu pai construísse a nossa nova casa na minha querida Rua Coronel João Afonso Lamounier.

De estatura média, rosto bem traçado, cabelo castanho claro, ela gostava de uma saia de brim grosso na cor marrom. Dizia que essa cor sujava pouco, portanto, era a sua preferida e na parte superior do traje usava sempre uma blusa de algodão encardida. Tinha uma falha no dente da arcada superior que jamais lhe intimidou na hora de dar uma de suas boas gargalhadas. Possuía, ainda, os traços bem feitos, contudo, faltava-lhe um bom trato.

Seu marido era um desses chamados “brancão”. Olhos esbranquiçados, cabelos amarelados, sujos, mal cuidados e a barba por fazer. Parecia ser bem devagar ou bem pachorrento. Não parecia ser um homem do padrão agradável para uma mulher. Quando passava perto da gente, exalava um forte cheiro de gambá morto. Dava a impressão que fazia uso da água somente para beber. Eu suponho que ele nunca teria usado um desodorante na vida.

Suely, a filha caçula do casal, tinha 17 anos de idade. Era uma donzela de encher os olhos de qualquer adolescente. Tinha a bundinha estufada, a cintura fina, com pernas grossas e gostosas, o cabelo liso, os dentes perfeitos e uma voz doce. Tudo na Suely era de tirar o chapéu. Era uma cabritinha pra ninguém botar defeito. Safadinha como ela só.

Raimundo, o filho mais velho, era a cara do pai. Os dois viviam pelas roças e, somente nos fins de semana, estavam em casa. Dona Zica, que mandava e desmandava na família, dizia que aqueles dois homens que Deus lhe pusera na vida eram dois pamonhas e que seriam capazes de pedir tempo a Deus para morrer de repente.

Eu gostava muito de dona Zica. Eu, com os meus 15 anos, era um adolescente bobo feito um tatu de galocha e respondia, quase sempre, somente as perguntas que me faziam. Sentia-me muito inibido para puxar um papo com alguém, dando a aparência que tinha vergonha, inclusive, da minha voz. Mas eu tinha uma coisa comigo: pensava mais do que todo mundo. Aliás, como diz o provérbio árabe: “Alá fez o homem com dois ouvidos e uma só boca para que este falasse menos e ouvisse mais”. Consequentemente, dado ao meu jeito de ser, eu falava pouco e ouvia muito, muito mais.

Além disso, eu via muita coisa boa lá na casa da dona Zica. Como eu estava entrando na adolescência e apesar de ser mais novo do que a sua filha Suely e como ela era muito fresca, dada feito uma franga de galinheiro se enfeitando pra botar o primeiro ovo, começava a brotar em mim aquela sensação de um frango querendo virar um galo. Ela, com certeza, pressentia que eu gostava de encarar as suas belas pernas desnudas, assim, salientava-as sem muito pudor para mim.

Logo, a minha vergonha era incubada e os meus instintos obedeciam aos meus olhos que catavam toda a safadeza da Suely.
Mas, como eu ia dizendo, eu gostava muito de dona Zica. Talvez, por eu ser um menino tímido, ela me dava muita atenção e eu acabei ficando cativo dela. Ela ria, contava caso e xingava ao mesmo tempo. Brigava todos os dias com a sua filha e, aos fins de semana, com a família toda.

Certo dia, por volta da meia noite, quando a rua estava silenciosa, deu-se a impressão que uma bomba havia caído na casa de dona Zica. A Suely passou mal, teve enjoo e foi chamado, imediatamente, o médico da cidade, o Dr. Daniel Barbato. Ele, após medicá-la, comunicou aos familiares que a menina estava grávida. O médico saiu corrido da casa de dona Zica imaginando, naturalmente, que o mundo estava acabando.

O rol de palavrões saiu quase que num tempo só da boca de dona Zica, referindo-se ao suposto pai da criança, Roberto, filho de um empregado da Ferrovia. O rapaz andava manso, bem solto dentro da casa de dona Zica, prometia casamento e agora se descobria que ele estava, silenciosamente, era coçando o inhame bem devagarzinho e, com isso, vinha ao mundo, agora, mais um candeense, um mineiro e um brasileiro sem ser chamado.

Dona Zica ficou tão furiosa que ordenou ao seu marido que matasse o garanhão, pai da criança, no caso dele não assumir o casamento. Afinal, ela não queria ter um neto posto no mundo através de uma filha, tipo mosca varejeira. E o seu marido, coitado, que estava acostumado a obedecê-la em tudo, ficou bravo pela primeira vez na vida:

“Cê tá doida, Zica! Onde já se viu matá um home! Eu nunca matei nem uma galinha, vô, agora, matá um home!? Sô cê quizé cê mata, eu não! Dijeito nium!...”

E o rapaz, irmão da moça, chamado Raimundo, parecia ser filho de pai e mãe só do pai. Para não dizer que não opinava, gritou do canto da sala, em apoio ao pai: ---Quem mandou ela reganhá o rabo! Agora, tem qui guentá!

E assim, o rapaz, pai da criança, logo que soube da notícia que o seu nome estava debaixo daquele frege todo devido à gravidez da moça, sumiu, escafedeu-se, cascou fora como diziam os comentaristas do alheio.

A casa de dona Zica era uma bagunça danada. Parece que via vassoura uma vez por semana. Os utensílios de cozinha eram mal lavados em uma bacia no terreiro sobre um pequeno estaleiro feito por ela mesma, não havia água corrente em casa, o urinol ficava sempre cheio debaixo da cama, existia um gato no canto do fogão, era cachorro apostando comida e a água usada na casa era colhida na cisterna do vizinho.

Naquele tempo, nem todas as casas possuíam água corrente e nem luz elétrica. Todo mundo que passava pela rua escutava, naturalmente, a falazada de dona Zica no interior da sua casa:
---Se eu morrê, oceis tá é  frito, cambada de pamonha! Aqui, tudo puxou a lesma do pai. Aquele já nasceu com a bunda caída e os óio branco. Eu bem que divia era de tê arrumado  pá casá um criolo com mais sustância.

Diziam as más línguas que dona Zica era bem chegada a um negão das bandas do Juca do Nico. Muitas pessoas já o teriam visto pular o muro do fundo do quintal para sangrar a coruja às altas horas da noite. Outras vezes, viam-no em visita durante o dia, quando dona Zica dizia que se tratava de um primo por parte de mãe. Todavia, ninguém acreditava nesse suposto parentesco.

 A verdade é que os dois coçavam o inhame, tranquilamente, quando o marido e o filho estavam para as roças e a filha ausente.

Certo dia, dona Zica que já falava alto, começou o dia falando mais alto ainda. O motivo era que o pai do rapaz que engravidara sua filha apareceu em sua casa tentando fazer um acordo com ela, uma vez que o filho ainda estava foragido devido àquela situação, saindo da cidade com medo que lhe acontecesse algo de ruim, pelo fato de ter engravidado a moça com quem prometera casamento, mas que não estava disposto a cumprir tal promessa:

---Bom dia, dona Zica!
---Bom dia, mas, se o sinhor tá vino aqui pá pidi pinico, pode é tirá o cavalo da chuva e dipindurá os arreio.

]---Eu vim aqui, dona Zica, é porque nós precisamos entrar num acordo. Vamos esperar o menino nascer para tomarmos um decisão. Se ele for parecido com o meu fio, eu serei o primeiro a fazê-lo casar.

Quando o pai do rapaz acabou de falar isso, quase tomou uma paulada na cabeça.

----Some daqui, seu disgraçado! Ocê tá pensando que a minha fia é dessas vagabunda, tá?

--Eu não estou pensando nada, dona Zica! É que o meu filho disse que só deu umas pinceladas na sua filha e pincelada não faz filho.

---- Sai daqui cachorro sem dono!

----Cachorro sem dono! Eu? Cachorro sem dono é o negão que vive pulando o muro do fundo do seu quintal altas horas da noite. A senhora já viu falar num negão chamado Zico Barba? A senhora garante que a sua filha é filha do seu marido? O seu filho é um brancão e a sua filha é bem morena. A senhora já ouviu a história do tico-tico e o chopim? Falou e saiu.

Final da História:
Sueli não ficou grávida. Diziam que o médico teria errado no diagnóstico, mas diziam também, que ela teria feito aborto. ---

E eu babava com as pernas da Suely. E perguntava a mim mesmo: Será verdade que o Roberto viajou nesse avião??!! Ah! Que inveja!

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos MG


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

UM QUEBRA-PAU FAMILIAR.


ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O QUE OS NOSSOS OLHOS NÃO DEVERIAM VER.



A televisão, apesar de ser um invento de grande utilidade para a evolução do mundo, participando das vidas das pessoas, vem, aos poucos, causando grandes transtornos à formação de uma sociedade saudável. Quem viveu como vivi, antes do advento da televisão, sabe o quanto esse veículo de comunicação, de informação e de entretenimento veio colaborar com o caos social.

Há situações criadas por ela que poderiam ser evitadas. Infelizmente, como formadora de opinião ela altera o pensamento das pessoas; inventa histórias fantásticas e inexistentes; deturpa os fatos ao confundir a cabeça dos seus telespectadores com a mesma força e persuasão de pastores safados e desonestos. Divulga notícias falsas; prevalece-se da humildade, da simplicidade e da inocência das crianças.

A própria televisão propaga a barbárie quando incita os jovens e preocupa os idosos com os seus noticiários sensacionalistas, dramáticos, sempre na busca desvairada e na exploração incessante pela audiência. E não venham me dizer que se trata de uma atitude democrática sob o argumento de que um canal pode ser trocado a qualquer momento. Sabe-se que a televisão trabalha arduamente, no sentido de atrair as pessoas e sendo esta de fácil alcance, não encontra dificuldades para atingir os seus objetivos.

Quem liga a sua televisão, nas primeiras horas do dia, já vai assistir a um verdadeiro espetáculo de crimes descritos e narrados nos seus mínimos detalhes. Parece que a televisão vai se especializando em notícias ruins para atender ao interesse maligno e perverso que ocupa, cada vez mais, grande espaço dentro do homem. Durante o dia, apenas programas que envolvem problemas sem solução. À tarde e à noite, mais notícias que não trazem nenhuma alegria a qualquer telespectador. As novelas, os filmes e os clipes musicais nem sempre trazem bons exemplos para uma sociedade saudável. 

O sensacionalismo barato tomou conta de todas as emissoras de televisão aberta que, para vencerem a audiência, fazem qualquer negócio, qualquer coisa com a sua força de comunicação e vai cobrando dos governantes, coniventes com o esquema, a liberação de expressão, fazendo assim uma sociedade sem regras pela qual o homem vai, pouco a pouco, voltando ao seu estado primitivo. --- A televisão conta tudo, mostra tudo e sem reservas.

É muito importante enfatizar que nem todos são conscientes do mal que estão recebendo dentro de sua própria casa. A informação desnecessária causa seriíssimos transtornos psicológicos aos seres humanos. A fragilidade humana permite que o bem se transforme diante do mal. Em síntese, a televisão é influente; demasiadamente influente e quando esta mostra maior parte de sua programação de forma viciada, mostrando, na maioria das vezes, o mal, é evidente que este se apodera como um exemplo, um exemplo negativo e prejudicial.

O comportamento de um adulto é um exemplo para uma criança. Uma criança que presencia um crime pode guardar esse quadro de horror por toda a sua vida. Digo isso porque esse fato aconteceu comigo quando eu estava com pouco mais de dez anos de idade. Eu pude presenciar uma cena que, até hoje, encontra-se guardada dentro de mim cuja lembrança fúnebre eu jamais consegui expurga-la. Foi quando aconteceu no Bairro da Lage, em Candeias, um crime terrível. O marido, que se chamava Afonso matou a facadas a sua esposa Afonsa, e logo se suicidou, ficando os dois corpos banhados em um poço de sangue no interior da residência.

 A fragilidade das autoridades da época deixou que esse quadro de horror ficasse à disposição dos curiosos, dentre eles: adultos, crianças e idosos. Todos podiam ver de perto os corpos sem vida expondo um quadro, verdadeiramente assustador. Supunha-se se tratar de um crime passional. O fato de marido e mulher terem o mesmo nome criou-se, por muitos anos, entre os candeenses, o mito de que o casamento não teria sorte.

Até hoje, após mais sessenta anos, quando vejo uma cena violenta na TV ou vejo um comentário sobre esse tipo de coisa, vem à tona de minha memória aquele quadro de horror que entrou pelos meus olhos, passou pelo meu cérebro e ficou estacionado dentro do meu coração.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e acasos.



Comentário
Ely Ferreira Da Cunha Ely Armando lembro deste fato .Meus pai foi padrinho deles de casamento e a gente foi lá para ver aquilo uma cena horrível que sendo criança não poderia jamais ter visto.Tambem nunca esquecemos aquele horror