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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

NO TEMPO DO SARAPATEL E O MOCOTÓ.


Hoje, nós vamos recordar os açougues e seus proprietários candeenses. Sabemos que o açougue é o tipo de comercio que faz parte de todas as famílias porque ninguém fica sem provar um pedacinho de carne. Seja de boi ou de vaca, seja de porca ou de porco. 

O sarapatel e o mocotó eram pratos muito apreciados pelos candeenses. Nas festas do Rosário, eram comuns esses pratos oferecidos pelos festeiros. As fressuras de porco eram de baixo custo e, às vezes, doadas e isso dava um prato farto. Saborear um sarapatel nos dias de hoje ficou muito difícil porque não se encontra mais as fressuras em açougues ou supermercados.

Muita gente não sabe diferenciar, mas existe diferença da carne bovina e suína entre o macho e a fêmea. A carne de vaca, por exemplo, não é encontrada em supermercados, porque eles negociam com os produtores apenas o boi.  ----- Nos açougues nós encontramos com mais facilidade a carne de vaca, sendo que ela tem a gordura amarelada que encontramos entremeada na carne. Isso é devido à lactose em seu organismo pela produção do leite. ---- A carne de vaca é mais dura em comparação à carne de boi tendo em vista o seu tempo de vida em virtude da produção de leite. O boi já é criado para o consumo o que se dá após a passagem de carne verde para carne vermelha.

Lembro-me quando menino eu trabalhei num açougue em Candeias. A minha tarefa era sair com um tabuleiro entregando as encomendas. E tinha freguesa, como a Dona Julita Lamounier, irmã do Sr. Nestor Lamounier que a sua primeira pergunta era se a carne era de porco ou de porca. Se fosse de porca e a gente falasse que era de porco, na próxima encomenda teríamos que ouvir um belo de um sermão.

Outra freguesa que não comia carne de porca era Dona Ester de Paiva. Dizia ela que a carne de porca fedia, tinha cheiro de urina porque eram mal castradas.  --- Mas já existiam aqueles fregueses que beberiam até a urina da porca ou do porco sem reclamar. Meu tio João Delminda era um desses.

Na década de 50 e 60 existiam diversos açougues em Candeias: Na Rua Professor Portugal havia dois, os proprietários eram dois irmãos: Um do Geraldo do Orcilino, e o outro do Antônio do Orcilino. --- Este o único que vem resistindo ao tempo, hoje como Açougue São Judas Tadeu, de propriedade do Jesus do Açougue, filho do seu antigo proprietário. Naquele tempo servia carne bovina e suína e hoje se limita em apenas carne suína.

Outros açougues eram do Zé Chorão, na Rua Expedicionário Jorge, posteriormente levado pelo Sr. Expedito Cordeiro que funcionou ali durante muitos anos. --- Também servia carne bovina e suína.

Logo adiante o açougue do Estevão, que só abatia suínos. --- O interessante é que Estevão era um açougueiro que trabalhava de gravata e com as mangas da camisa branca arregaçadas. --- Dava vontade de comer a carne do açougue dele até mesmo crua, de tão limpo que era. Este açougue ficava junto da sua residência, onde hoje está situada uma clinica. Ao lado o Armazém, também de sua propriedade, posteriormente repassado para o Sr. Sebastião Redondo e ultimamente para o Divino Machado que ali também funcionou por muitos anos. 

No Beco Belmiro Costa, onde hoje está a Sorveteria do Magno Machado, existia um açougue que foi movimentado por muitos proprietários. Entre eles o Chico do Sudário e o Juquita de Assis e seu filho Nilo.

Ao lado da Loja do Carlinhos do Emílio, havia outro açougue do Sr. Emílio Gianasi, ali também só abatia suínos. E como o preço era o melhor, fazia fila o dia que matava um porco, normalmente aos sábados.

Na Praça da Bandeira, onde hoje está a Papelaria Candeias, era o açougue do Zé Canarinho, pai do Zé Canarinho filho.

Mais recentemente surgiram outros açougues, entre eles o Ermino na Praça Antônio Furtado, e Domingão na Praça da Bandeira.

O Matadouro ficava na Rua Expedicionário Moncef.  ---- Meu pai, Zé Delminda, quando jovem foi admitido como empregado no matadouro. Mas não deu conta do recado na profissão de magarefe. --- Ele seria o responsável por matar os porcos e o outro seu colega seria o carrasco das vacas. ---- Meu pai no primeiro porco que foi abater deu cinco facadas e esse animal saiu correndo pelo quintal do matadouro até ao córrego que ficava nos fundos. ----- Foi uma mão de obra terrível para leva-lo de volta até ao ponto de abate. ---- No mesmo dia ele saiu à procura de alguém que quisesse ficar em seu lugar e encontrou o Lico da Sinhana, que lá ficou por mais de quarenta anos pelo resto de sua vida.

Uma saudade eu tenho desse tempo. Era do sarapatel e do caldo de mocotó, pratos comuns naquele tempo e que hoje estão se tornando desconhecidos em Candeias,

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

UM DIA DE CÃO.

                                                          Foto para ilustrar o texto.

Quando eu contava com os meus dezoito anos, era magro feito um danado e tinha uma grande vontade de ser gordo. Comia, comia e, quanto mais comia, mais magro ficava. Quando eu me entendi com a minha magreza, entrei na onda de ser gordo. Agora, que estou velho, não posso ter preguiça de andar, preciso passar fome e, ainda, ser alvo de comentários aborrecíveis.

Estou fazendo dieta. O excesso de peso me incomoda. As roupas começam a “enfiar”... ---- As banhas começam a pegar debaixo do ombro, a gente começa a andar com os braços abertos... Parece até que vai voar!  A barriga cresce e vem logo as dificuldades para aparar uma unha; para calçar um sapato... Meu Deus que horror!

Ficar sem beber uma cervejinha é um grande sacrifício. ---- Passar de frente a uma lanchonete com fome, com o dinheiro disponível no bolso para gastar e não poder entrar e comer; ----- Deixar de comer o meu feijão com arroz à vontade e saborear  os meus torresminhos...  O meu bife mal passado, o meu churrasco dois pelos, isso para mim é um castigo...  

Ficar andando sem destino! Ah! Meu Deus do Céu!... Eu não sei como existem pessoas que dizem gostar de fazer caminhada! Isso para mim é terrível! -----

Bem, afinal eu tenho que me submeter a tudo isso. Enfim, é uma questão de razão. Eu devo fazer esse sacrifício, mas que é difícil... Ah! Como é difícil...

Primeiro dia de caminhada. Ao passar em uma das ruas do meu mapa que fora cuidadosamente traçado, passo defronte à casa de um amigo meu assentado em um banco à sua porta. Como há tempos eu não o via, não me foi possível evitar uma parada. ------ O Pedro mais parecia um Buda gigante, todo esparramado. Suponho que oitenta por cento do seu corpo foi tomado pela barriga que parecia um fole de ferraria. As pernas abertas. Camisa de fora das calças. Ponta da língua fora da boca e respiração ofegante. Contudo, sorridente como sempre.

---Olá Pedro, como vai?

---Bão e gordo!

---Você está gordinho mesmo!

---Gordinho não. Eu tô gordão! --- E riu gostoso.

---Você, então, gosta de ser gordo?

---Num é que eu gosto. É qui eu fico muito preso dentro de casa e preso come muito.

---Você já tentou fazer dieta?

---Num dô conta não. Nem penso nisso. Cumê é bão dimais, Armando!

---E você come muito? ---Perguntei.

---Uma latinha dessas de doce eu abro ela e logo, logo, meia vai imbora. ----- Ovo é meia dúzia frito cum farinha. Pão de queijo uns cinco cum carne. Cedo é meio bolo. Carne eu gosto é bem mantegosa. Gosto de cumê até iscorrê mantega no canto da boca. Uma custela de boi assada e um pedaço de toicinho de barriga, ah, num tem coisa mió não. Frango tá teno qui sê dois. Um vai quais só pra mim. Agora, o que me ingorda é o arrôis. Esse é qui é danado. Eu como quais uma caçarola de arrôis duma veis. É o qui tá me engordano. Mais eu num dô conta de dexá de cumê não. Quero morrê de barriga cheia... E deu aquela risada gostosa.

---E você não sente nada?

---Sinto umas parpitação. Eu até tô quereno ir no médico mais é que a gente chega lá e ele inventa tanto remédio que eu até vô ficano.

---Você não tem medo?

---Medo de quê? De cumê? (Riu satisfeito) Eu num tenho medo nem de morrê qui dirá de cumê? Um dia eu iscutei, num sei quem falá, qui a baleia só bebe água e come peixe e é gordona.----- Ah! Tamém quando eu morrê de todo jeito eu vou virá ossada memo. Tá bão! O maió disajeito é quando eu vô no banheiro. Aí a patroa tem que me ajudá!

---Ajudar? Como assim?

---Eu num dô conta de limpá não...

---Quer dizer que...

---É ela que me limpa!

---Ela que limpa você!? Não!!!

E eu depois disso, saí assustado, andando feito um louco e naquela ânsia de emagrecer fui pensando sem parar: ----- Puta que pariu a mulher ter que limpar a bunda dele?!!!!! ----- Meu Deus me acode!!! Eu preciso de ajuda enquanto há tempo... Perto do Pedro, eu estou magro! Afinal, eu quero é ser livre como um lobo e não quero ficar preso às minhas banhas, como preso fica o cão na corrente.

À frente, encontro-me com uma antiga vizinha sorridente e diz:

---Olá, Sr. Armando! Andando para se emagrecer? Isso é bobagem. Gente velha cansa as pernas e a barriga continua. Meu pai nunca andou, nunca fez nada. Viveu 96 anos. Vou falar para o senhor: andar para emagrecer é querer ir para o céu sem morrer. Eu tenho um primo que é carteiro. Ele anda o dia inteiro e está gordo feito um balão.

---Bem, só que eu faço dieta, também, Dona Lia!

---Poupando a boca, Sr. Armando? Não faça isso não! Cuidado com a anemia. O senhor gordo está bonito. Larga disso!

E nessa confusão mental, vem em mim a vontade de falar um nome bem feio, daqueles bem cabeludos, tipo pedra 90. Um palavrão que esvazia a gente por dentro de uma só vez. Porém, acabou ficando apenas na vontade. Só em pensar, eu devo ter perdido mais de mil calorias.

Gordo! Gordo! Saber que um dia eu fui magro e pensei que ser gordo era bom. O tempo é que era bom. Eu pensava e não sabia o que pensava.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.



terça-feira, 17 de julho de 2018

MAU HALITO, UM MAU TERRÍVEL.

     
                                                  Avenida 17 de Dezembro - Candeias MG

Antigamente, principalmente aos sábados e domingos, a praça de frente o Bar Piloto, era muito movimentada, principalmente aos sábados e domingos. ---- A pracinha tinha um lago iluminado e uma estátua de pescador. --- À noite, antes da sessão do cinema, ali as moças ficavam rodando, como diziam, “fazendo avenida” uma de braços dados com a outra, e a rapaziada de pé vendo quem passava num gesto de paquera. --- 

Os rapazes mexiam com as moças e se fossem correspondidos havia a aproximação, e normalmente um convite para o cinema. ---- Se aceito era o início de um namoro. Isso acontecia sempre antes da sessão de cinema, que quando dava o segundo sinal o povo subia.

Parece até que a praça simbolizava a pescaria. Isso porque a moça era o peixe, o rapaz o pescador, e o convite para o cinema seria a isca.

Nessa época, quando eu contava os meus 17 anos eu era um tatu de galocha muito tímido o que poderia ser resumido numa só palavra: um bobão. --- Alias naquele tempo a timidez era uma coisa comum, não como hoje, tendo em vista à forma com que os filhos eram educados. Não havia televisão e nem filmes pornográficos. ---- Se um filme mexicano mostrasse as pernas lindas da Sara Montiel, era censurado pelo Monsenhor Castro --- Havia muita festa religiosa e tudo era pecado. Portanto, eu acho que fui me tornar num pecador quando conheci a Boate Mil Beijos, do Pedro Pitanga. Lá se perdia a timidez. 

As moças daquele tempo eram muito vigiadas pelos pais. O flerte era uma coisa muito discreta um beijo era muito escondido. --- Muitos casamentos aconteciam sem ambos se conhecerem direito.  --- 

Aos jovens de hoje, talvez fique difícil até imaginar como era naquele tempo. E é por isso que as gerações antigas, às vezes, ficam assustadas com a liberdade de hoje.  ------

Nesse tempo, havia em Candeias duas moças oriundas da zona rural e que tinham residência no Alto do Cruzeiro, e como eu morava do outro lado da cidade, não fazia ideia de quem pudesse ser as suas familias. De quando em quando estavam presentes naquele giro do flerte. ----- Uma delas era uma verdadeira flor, linda de morrer como se diziam; educada, bem trajada e boa postura. ------ A outra já não tinha tantos dotes. Tinha um buço avantajado, um nariz pronto para cheirar o mundo; um andar trôpego como se estivesse com as cadeiras podres e as pernas tortas. -----

Para não citar os nomes dessas donzelas, vou trata-las de “bonita” e “feia”.

A “bonita”, era sempre vista com algum rapaz, enquanto a “feia” ficava sozinha. E quando alguém saia em companha da “bonita”, a rapaziada ficava morrendo de inveja da sorte daquele novo namorado. ---- Mas tinha uma questão: ninguém seguia o namoro com aquela donzela apesar dos seus dotes. Eram dois ou três encontros e pronto.

Lembro-me de certo dia, era véspera de natal, eu estava por ali de pé junto a um daqueles postes da pracinha, com o meu paletó de brim, estreando sapatos e meias novas, uma camisa nova e com um bolso cheio de balas e o outro com algum dinheiro. ---- Afinal era natal ------ Atrás da minha timidez conseguia imaginar-me ser o jovem mais feliz do mundo, dentro da minha alma de adolescente, se por ventura aparecesse alguém me querendo para ir ao cinema.  ----- De repente, chega junto de mim à feia e disse-me: “Alguém ali quer falar com você”. ---- Eu imaginei que fosse a bonita e era. ---- Quando me aproximei daquela prenda, eu quase perdi a voz, e pensei: Não é possível. Mas sim, estava sendo possível. ------

Mas eu era realmente um bobão e sabia disso, só não sabia puxar conversa, não sabia agradar, não sabia conquistar e nem paquerar. 
Com a voz entrelaçada convidei-a para irmos ao cinema, e o convite foi aceito de pronto. ----- Sem pegar na mão, nem nada, afinal não podia. Os primeiros encontros eram como se fossem dois irmãos. ---- No cinema é que poderia rolar alguma coisa. ---- E a minha esperança seria se ela tivesse a iniciativa e me desse um trato. ----- Para falar a verdade eu não sei que filme era, mas lá dentro do cinema, eu muito receoso comecei dar uma de atrevido, tive coragem de começar e ela cuidou do resto. ---- Só que eu custei a esperar a terminar o filme. O mau hálito daquela moça era uma coisa indescritível. Eu jamais teria visto coisa igual. 

Estava explicado porque não fixava com nenhum namorado. Esta questão confere preconceitos até mesmo em família. Fala-se ou não se fala. 

Afinal, dizer “Você está com um mau hálito terrível” é complicado porque seja lá de quem for o aviso à pessoa não gostará de ouvir. --- 

É importante saber ouvir isso – Mesmo porque se trata de um incômodo que transforma uma pessoa de forma lamentável. E nem sempre o portador do problema consegue saber. E as causas podem ser as mais diversas.

E o interessante é que aquela menina além dos dotes que possuía tinha os dentes lindos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.




quinta-feira, 28 de junho de 2018

A CANDEIAS DE DONA MARIA DO ESTEVÃO.



Lembro-me, muito bem e sempre hei de lembrar, de como a pobreza rondava às portas dos candeenses que não eram comerciantes legalizados; não tinham emprego com carteira assinada; não tinham emprego público e os lavradores rurais que eram em grande número agregados dos fazendeiros, e muitos viviam como verdadeiros escravos sem nenhum vínculo empregatício e nem representatividade governamental. 

----- A CLT - Consolidação da Leis do Trabalho, já existia, mas isso em cidade pequena era como não existisse. As leis do trabalho não funcionavam ------ Sindicato era uma palavra desconhecida. Aposentados eram apenas os comerciantes legalizados, funcionários públicos e empregados registrados com carteira de trabalho. Mas esses eram raros e mínimos na nossa comunidade candeense.

As famílias eram numerosas, às vezes um trabalhador sem nenhum ofício, sem nenhuma garantia de renda, tinha meia dúzia de filhos ou mais. Os métodos contraceptivos eram poucos e desconhecidos. Além disso, a Igreja os condenava. Os padres mais conservadores chegavam a dizer que isso era um crime.

O comercio limitava-se em pequenos empórios de secos e molhados onde as mercadorias não eram embaladas; era vendido praticamente tudo a granel e em qualquer quantidade. Muitas famílias compravam o suficiente para fazer uma só refeição tendo em vista a falta de recursos.

A saúde era precária. Candeias contava com dois médicos. O Dr. Zoroastro Marques da Silva e o Dr. Renato Vieira. --- O Dr. Zoroastro era mais dedicado ao Posto de Saúde, que naquele tempo era Posto de Higiene. ----- Era um atendimento precário e os medicamentos fornecidos eram poucos na maioria dos casos purgantes e lombrigueiros. ---- O médico não tinha nenhum recurso e o posto era sempre lotado; e os doentes eram sempre da camada mais pobre que não podia, às vezes, nem comprar os remédios. ---- Ainda bem que o nosso querido Dr. Zoroastro era um médico muito experiente e coordenava isso muito bem através de meias receitas ou curando doentes até mesmo à base de chá. ----- 

O Dr. Renato Vieira era um bom clinico geral, contudo, médico apenas para atendimento particular ou para aqueles que tinham assistência médica de acordo com o seu Instituto. --- Não Havia o INPS. Cada categoria de trabalhador tinha o seu Instituto. Alguns por exemplo: IAPC – Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários. ---- IAPB-  dos Bancários ---- IAPTEC de transportes e cargas; ----IAPI da indústria e outros mais que em 1966 foram unificados formando apenas o INPS. ----- Mas quem não tinha um “Instituto” continuou desprotegido pelas leis. ---- A vila Vicentina amparava aqueles trabalhadores a partir do momento em que eles não davam mais conta de trabalhar. Não havia aposentadoria como nos dias atuais.

Câncer, nesse tempo, era doença mais rara. ---- Aliás, as pessoas não gostavam de pronunciar esse nome e diziam-se “doença ruim”. --------Se fosse uma doença mais grave, fosse qual fosse a doença, se tivesse que pagar um médico e o seu problema não fosse resolvido com precariedade pelo  Dr. Zoroastro, o seu futuro era o cemitério.  ---- Nos casos mais graves quando o doente podia pagar, às vezes, era levado para o Hospital São Vicente, de Campo Belo, que também não tinha grandes recursos. ----- 

Resumindo, a saúde era precária não só pela falta de médicos como também pela falta de poder aquisitivo para os produtos farmacêuticos. “Muitas pessoas morriam através do “chamado “ à míngua”. 

As pessoas se curavam em grande parte com remédios fitoterápicos. Em Candeias havia muitos raizeiros sendo o mais importante deles o Sr. Chico do Viriço, ele talvez tivesse mais clientes do que os dois médicos que havia na cidade. Afinal a pobreza era grande e de todo o Brasil.

A segurança era lamentável. Os policiais não eram bem orientados como hoje. O município contava com um destacamento de 1 cabo e 2 soltados. E os delegados eram indicados pela politica, os chamados “Calças Curtas” ---- Os amigos dos delegados faziam e desfaziam porque não iam presos. ---- O destacamento policial não tinha uma formação adequada como hoje. Naquele tempo se exigia muito pouco de cultura para um policial. E o cabo pensava que era um coronel enquanto o soldado pensava que era um tenente coronel, Muitos bebiam bebidas alcoólicas fardados; ----- eram arbitrários e faziam muito o uso do cassetete indevidamente. ----

Em épocas de festas não vinham reforços policiais e eram convocados os chamados “Bate pau”, nomeado pelo Delegado. Ai a coisa era triste porque esses indicados eram pessoas que não tinham nenhum tipo de preparo e queriam aparecer. E ao substituírem os policiais fardados pensavam que eram os tais e parece que pensavam que eram filhos do delegado.--- Esses elementos se tornavam  as pessoas mais antipáticas da cidade. 

-----A segurança em Candeias melhorou muito a partir de quando o destacamento passou a ter o comando de um sargento. É claro que isso não se generalizava, havia também os bons policiais como temos um exemplo em Candeias, ainda de parte desse tempo,  o nosso amigo Romeu hoje aposentado, que merece ser mais reconhecido pelos candeenses, dado ao excelente trabalho policial que exerceu em Candeias.

A Educação era boa. O Grupo Escolar Padre Américo, onde eu estudei de 1953 a 1958 era o único e muito bom. Muita disciplina e muito empenho das professoras. --- Naquele tempo se o aluno não fosse aprovado era a chamada “bomba”. Eu repeti o 3° ano em 1955 e 1956. No primeiro porque tive um problema de saúde e o segundo por causa da troca de professoras durante três vezes no mesmo ano, e a turma quase toda foi reprovada, apenas quatro alunos foram classificados. Não porque eram gênios, mas porque eram demasiadamente disciplinados e muito ligados às professoras, além de já serem repetentes anteriores. ----- Mas isso não denigre de forma alguma a qualidade do ensino e nem das professoras do Padre Américo daquele tempo. Trata-se de um caso isolado que não deve ser comentado aqui.

Nesse cenário que pode ser visto até mesmo com certa angústia por quem viveu nesse tempo das “vacas magras” da nossa cidade;  -----  tempo quando a pobreza não era apenas a falta de dinheiro; quando rico era rico e pobre era pobre  de verdade, eu remexo nos cofres da minha memória e encontro o nome de uma pessoa que participou da vida de muitos candeenses já falecidos e muitos ainda vivos assim como eu.

Trata-se de uma senhora cujo nome era MARIA DO ESTEVÃO.  Eu tenho muito pouco para falar da vida de dessa senhora. Mas o pouco que falo, o faço do fundo do meu coração.  Sei apenas que era uma mulher já idosa, esposa de um senhor que trabalhava nas roças, e se chamava Estevão  ----  e de seus dois filhos Messias e Altivo. Morava pelas bandas da Chácara do Hamilton Marques. ----  Era magra e trazia os cabelos presos e cobertos por um lenço branco, vestido rústico com a barra meia canela e calçado tipo alpercata. ----- Estava sempre de posse de um grande cigarro de palha.

Dona Maria do Estevão era parteira. Foi a minha parteira e de todos os meus irmãos. Foi parteira de muitos candeenses inclusive, nas roças quando era levada pelo marido da parturiente com antecedência, onde estaria aguardando a chegada do filho ao mundo. 

Era uma mulher pobre que atendia a pobreza. Com dinheiro ou sem dinheiro; nunca deixou de atender alguém.  Ela permanecia dias assistindo à parturiente, dedicando toda a sua atenção. O seu nome hoje é um nome praticamente esquecido quando não deveria ser.  -----

Assim Dona Maria do Estevão,  receba o meu carinho. ----- Que Deus lhe pague por ter me recebido com tanto carinho e cuidado, quando cheguei a este mundo através de suas mãos ----- assim como conta a minha mãe durante toda a minha vida. ----- Muito obrigado, eu lhe serei sempre muito agradecido. Eu tenho a certeza de que a senhora está com Deus.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

WANTUIL DE CASTRO


                                                 Wantuil de Castro

Um nome que não pode ficar e não tem como ficar fora da História de Candeias, é o nome de Wantuil de Castro, mais conhecido como Wantuil Delminda. ---- Nascido no dia 28 de abril de 1927 em Candeias. ---- Filho do segundo casamento de João José de Castro, (João Delminda, meu avô) e Maria Rita de Jesus. Foi casado com a Sra. Nice Sidney com quem teve quatro filhos: Magali, Magda, Marília e Santos. –

Irmão paterno de meu pai, José Delminda, portanto, meu tio e padrinho de crisma. ----- Wantuil era um homem extremamente versátil. Exerceu durante a sua vida diversas atividades: Herdou de seu pai o ofício de curtumeiro e celeiro, profissões que exerceu por muitos anos. ---- Foi também balconista da Casa Celestino Bonaccorsi. Foi construtor tendo construído diversas casas, principalmente na Rua Coronel João Afonso; funcionário da antiga fábrica de manteiga do grupo de Celestino Bornaccorsi, existente na Rua André Pulhez, antigo Beco do Botafogo. ---- Trabalhou, também, como mecânico na oficina do Zé do Anjo. Motorista profissional de uma linha de ônibus que ligava Candeias a Itapecerica. Quando, ainda, jovem residiu por uma temporada em São Paulo onde foi funcionário de um laticínio.

Afora todas essas atividades, Wantuil ocupou um lugar de destaque na História de Candeias, através da política e no exercício de cargos públicos, tendo sido vereador e Presidente da Câmara Municipal de Candeias, num tempo em que os vereadores não eram remunerados e não existiam essas mamatas de hoje e o exercício desses parlamentares era louvável.

Foi Juiz de Paz do tempo em que esse cargo, em Candeias, era eleito pelo povo através do voto direto junto às eleições municipais. O Juiz de Paz era o substituto do Juiz de Direito nas suas ausências. ---- Foi também representante do Ministério Público, e delegado de polícia do município. Finalmente agraciado com a Medalha “DESEMBARGADOR HELIO COSTA”, uma grande honra cedida aos mineiros que prestaram relevantes serviços à Justiça.

Wantuil era um homem polêmico e, às vezes, não media as palavras, mas era dono de um bom coração e muito amigo dos pobres que precisavam de seus favores. Sua casa era um verdadeiro entra-e-sai de pessoas buscando orientação.

Autodidata, mas tinha um conhecimento amplo da Constituição Nacional e das leis de direito. Portanto, as pessoas mais humildes gostavam de consulta-lo, pois, sendo um leitor assíduo, tinha um grande conhecimento de todas às áreas da cidadania. Não havia assunto que o embaraçasse.

Wantuil de Castro foi um homem bom, caridoso, sem rancor e muito inteligente. Mas viveu num mundo psicologicamente conflitante a partir do seu berço e, por isso, tornou-se vitima de uma desconexão emocional, o que lhe fez dar a entender que viveu desenvolvendo um vínculo pouco saudável com a melhor parte do seu “eu”. ------ E assim não lhe era difícil expressar os sentimentos de essência oposta quando que na verdade o tumulto emocional, o conflito verbal que lhe tomava, seria dele, para com ele mesmo. ---- Assim, foi ele o ator principal no teatro da história de sua vida... Às vezes no palco, às vezes na plateia.

Foi um homem de muitos amigos --- e perdoado pelos inimigos.

Onde quer que esteja meu padrinho Wantuil, continue escrevendo o seu “caderno-diário” com a filosofia que o retratava como um homem bom, caridoso e sem rancor, completamente diferente da realidade em que viveu. E como eu sempre lhe pedi, me dê a sua bênção.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

ABELINO SALVIANO.

                                                    Abelino Salviano e seu conjunto.

Dando uma olhada no retrovisor da minha juventude, encontro-me com um conterrâneo dos mais queridos da nossa comunidade. Um descendente da família Salviano, ----- uma das mais tradicionais famílias candeenses, de cuja gema nasceu Abelino Salviano.

Abelino Salviano nascido no dia 19 de maio de 1912, e falecido em 2009 aos 97 anos, na capital de São Paulo, onde se encontra sepultado. ----- Portanto, Abelino estaria completando, neste mês, 106 anos. ----

Filho de João Batista Salviano e Leonina Maria Lúcia. ---- Logo após o seu nascimento sua mãe faleceu. À vista disso, foi entregue aos cuidados de suas tias beatas, Sebastiana e Domitila, irmãs de seu pai. ---- Elas moravam na Casa Paroquial, quando pároco era o Padre Américo Brasileiro. ---- Sendo assim, Abelino foi criado por duas tias e tendo o Padre Américo como um verdadeiro pai que lhe transmitiu grande parte da sua cultura didática e musical.

Homem simples, muito religioso, congregado Mariano, honesto, trabalhador, reservado e muito correto com os seus compromissos. ---- Casou-se com a senhora Luzia Trindade Salviano, com a qual teve quatro filhos, sendo eles: Angélica, residente em São Paulo ---- Ângelo, (meu condiscípulo do Grupo Escolar Padre Américo) Ângela e Hailton, o único residente em Candeias, casado com a Delma, filha do já falecido e amigo Vicente Teixeira.   

Pai de família exemplar, não permitia palavrões na família o que se lhe dava motivo para enérgicas repreensões aos filhos.
Aprendeu o ofício de alfaiate o qual exerceu por grande parte de sua vida. Tinha a sua alfaiataria junto a sua residência, que ficava num velho casarão centenário, construído com Pau Brasil, onde se mantinha rastros do tempo da escravidão. Esse casarão situava-se ao lado da Igreja Matriz onde atualmente se encontra instalada a COPASA.

Abelino Salviano amava o seu trabalho, mas a sua paixão verdadeira estava na música. O seu instrumento especial era o clarinete. ---- Assim, ensinou a vários companheiros esta arte adquirida com o Padre Américo; tendo sido também, membro e um dos fundadores da primeira Banda Musical de Candeias, ----- Um de seus constantes companheiros até o fim, foi o seu irmão José Urias Salviano, o José Leque. ----- Abelino ganhou vários troféus como músico e pela sua dedicação a musica.

Teve o seu Conjunto Musical, “Conjunto Salviano” que por muitas vezes abrilhantou bailes e as chamadas “horas dançantes” em Candeias e cidades vizinhas, entretenimento muito importante num tempo em que não existia a televisão e os rádios eram raros em Candeias.

Mas, infelizmente, Candeias era uma cidade sem recursos. À medida que a indústria de confecções foi crescendo foi decrescendo a profissão de Alfaiate. Assim, esses profissionais tiveram que buscar alternativas. ----- No caso de Abelino a opção foi partir para uma cidade maior que lhe fosse mais conveniente. ---- Em 1960 mudou-se para a cidade de Formiga onde, também, participou da sociedade musical durante dois anos. ----- Dali partiu para São Paulo, naturalmente, na busca da sua sobrevivência juntamente com a sua família onde residiu por 47 anos, vindo a falecer aos 97.

Meu pai Zé Delminda, era muito amigo de Abelino. Lembro-me da minha infância acompanhando-lhe para assistir os ensaios da Banda no interior da sua alfaiataria. ---- 

Lembro-me, também, de Abelino no “Jaz Tiro e Queda”, quando foram seus companheiros, Américo Bonaccorsi, ao saxofone, --- Luiz Bonaccorsi, na bateria, --- João do Sô Nico, no pistão, --- Antônio Jacinto ao cavaquinho, ---- Meu pai ao violão; --- Dino Guimarães (Tio do Tibau do Lulu) e Abelino Salviano, juntos numa dupla de clarinetistas. ---

----- Como era bom esse tempo!!!

A nossa mente é um baú onde guardamos tudo: ----- tristezas, alegrias, e tudo mais que mexe com as entranhas do ser humano. Mas entre todos os sentimentos que abordam a nossa mente, a meu ver, estão em destaque a saudade e nostalgia, ----- A saudade como disse Lu Oliveira: ----- “Saudade tem cheiro, tem gosto; é a vontade que não passa. É a ausência que incomoda. Saudade é a conclusão de que o que fizemos valeu a pena. --------- Sobre a nostalgia disse Mestre Arievis:” A nostalgia pode gerar um comportamento anormal em indivíduos que foram afastados da sua terra natal ou separados da sua família. É um sentimento semelhante à saudade, mas tende sempre a aumentar.

Onde quer que esteja amigo Abelino Salviano, saiba que você deu uma grande contribuição a nossa História de Candeias, portanto, receba o meu respeito e o meu abraço.

Armando Melo de Castro


Candeias MG Casos e Acasos.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

BAZAR TALITA.


                                                                         Antigo Bazar Talita.
Eu suponho que o primeiro bazar que existiu em Candeias tenha sido o Bazar Talita, que foi estabelecido na esquina da Rua João Caetano de Faria com a Rua Vereador Sidney Galdino.

Quem passar por ali pode observar até hoje, cravado na marquise do prédio, o nome BAZAR TALITA.

Fundado no final da década de 50. Porém, não teve vida longa. Talvez pela fragilidade do mercado candeense... Ou pela mudança de ramo de vendas exercida pelo seu fundador, ----- Sr. Afonso Ferreira de Oliveira, ---- possa, quem sabe, lhe ter faltado adaptação no ramo?...

O nome de Bazar Talita foi uma homenagem do seu fundador  à sua filha Talita, a caçula à época. ----Afonso Ferreira de Oliveira pelo que representou, é um nome que merece ser registrado nos anais da História de Candeias.

Afonso foi funcionário, durante anos, do Sr. Mário Rigali, proprietário do Bar Piloto, onde foi o gerente e posteriormente veio a ser o proprietário. ----- O Bar Piloto nesse tempo era um cartão de visitas de nossa cidade ---- Não se servia bebidas no balcão. Apenas nos reservados ou nas mesas. --- Uma referência de conforto e bem estar. ---- Um requinte que hoje não existe mais em nossa cidade.

Após muitos anos naquele bar, Afonso resolveu mudar de ramo.

----Bazar é uma loja onde se vendem vários tipos de objetos, como brinquedos, bijuterias, antiguidades, roupas, brinquedos, objetos de decoração ou colecionadores. --- Existem, também, bazares de roupas usadas.

Enfim, subentende-se que Bazar é uma mistura de produtos à venda. Aquele tipo de loja que tem de tudo, e às vezes bagunçado. Não era o caso do Bazar Talita, que ao contrário do que registra a literatura, era até muito bem organizado.

Antes de se aposentar, Sr. Afonso funcionou como gerente de uma indústria de peças de gesso em Candeias, e posteriormente veio a participar da administração municipal, junto ao Prefeito Francisco Coletor.

Afonso da Alvarina, como era mais conhecido, foi sempre merecedor do respeito de todo o povo candeense. Todos os capítulos de sua história foram escritos aqui onde nasceu, viveu e morreu. ---- Aqui trabalhou honestamente, viveu honradamente e criou a sua família a quem lhe deu o exemplo emanado por Deus. São seus filhos: Terezinha, Túlio, Tarley, Talita, Taísa, Tonio e Telmo.

Um homem correto. Todos os adjetivos que possam qualificar um cidadão na sua plenitude podem ser dedicados ao Sr. Afonso Ferreira de Oliveira,----filho do Sr. J. de Assis e de Dona Alvarina. ---- Portanto, foi muito conhecido por Afonso da Alvarina. -----  Pai de família respeitado e amigo requintado. Jamais teria sido ouvido criticas que pudessem denegrir o seu comportamento lícito e admirável.

Casou-se com Dona Iolanda Teixeira, filha do Casal Sr. Vico Teixeira e Dona Laura Barreto. Esta foi uma união de duas famílias das mais tradicionais de Candeias e que muito colaboraram na construção da nossa história; cresceu e se multiplicou com honra e dignidade. 

Onde quer que esteja Sr. Afonso, receba o meu abraço. Eu o tenho de boa memória, principalmente na data 16 de janeiro de 1952, quando completava seis anos de idade. O presente a mim oferecido por meu pai foi um belo chocolate comprado no seu querido Bar Piloto, e foi de suas mãos que recebi aquele presente em forma de troféu: Era o primeiro chocolate que eu experimentava quando me encontrava no crepúsculo matutino da minha vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

Comentário da Sra. Talita a quem deu o nome ao Bazar.

Obrigada Armando por essa bela lembrança do meu querido pai. Verdadeiro tudo que vc falou. Meu pai sempre foi um exemplo de honestidade, nós temos muito orgulho de ser seus filhos! Sabe Armando a história que eu sei sobre esse nome do Bazar Talita é que meu pai estava em dúvida qual nome daria ao bazar, aí um viajante muito conhecido por todos nós Canadenses, o Sr. Pedro Vieira de Azevedo, meu pai falava que ele era vendedor das Lojas da China e numa dessas visitas ao Bazar ele sugeriu ao meu pai colocar o meu nome pois na época eu era a caçulinha e por sinal bem bonitinha. Há pouco tempo atrás um caminhão danificou o nome, quando eu vi fiquei muito triste pensando que ia acabar aquela tradição, mas qual não foi minha alegria quando o Marquinho e o Sr. Biribico mandaram restaurar o escrito com meu nome. Fiquei muito feliz, até tiramos uma foto em frente ao bazar. Agradeço de coração a vc que lembrou do meu pai com tantas palavras bonitas sobre ele e ao Marquinho e seu pai que não deixaram acabar essa o marca do meu pai. Obrigada de coração a vocês. Deus os abençoe!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

PADRE AMÉRICO BRASILEIRO.

                                                             Padre Américo Cristiano Brasileiro.

Meus amigos: Esse texto não pode ser editado no nosso Grupo "SOU DAS CANDEIAS COM MUITO ORGULHO", por envolver um tema religioso o que viria contraria as regras do Grupo. Portanto, está sendo editado no meu Facebook numa reedição do Blog Candeias MG Casos e Acasos.

Entendo que o tribunal da minha consciência não me condena por ser radicalmente contra o celibato. Portanto àqueles que não concordarem comigo perdoem-me. Afinal eu  sou católico, batizado, crismado e representado, mas não congrego em igrejas. Se exponho o meu pensamento naturalmente esse estará sendo apenas para aqueles que pensam como eu. Não significa, portanto que eu esteja tentando persuadir alguém com esse texto.

Não há nada que promete a Igreja Católica rever essa abstração que gera uma grande vergonha para a igreja. Por ocasião da posse do Papa Francisco teria sido dito que isso se encontrava na sua agenda, mas até hoje o celibato continua, e os padres continuam pecando, e a igreja fazendo vista grossa. ---- O Papa teria mostrado proposta para debater e rever as regras do celibato. Inclusive disse que o celibato não é um dogma de fé e sim um regulamento da igreja; e prometeu tolerância zero contra os abusos sexuais a crianças.  No entanto, parece que o Papa tem mudado  de conversa, pois vive se preocupando demasiadamente com a Amazônia, quando deveria estar preocupado com a vergonha do celibato no mundo inteiro. Já anda até dizendo que o celibato é uma regra de vida e que  muito o admira. É... Ele o Papa andou dizendo que admira o celibato!

Parece-me que na atualidade quem não quer acabar com o celibato são os próprios padres na sua maioria, apoiados pelo Papa. Afinal está parecendo que aquele que quer ser padre, quer na verdade é o celibato e fazê-lo de armário para esconder a sua vergonha. Essa coisa é um adjetivo que qualifica quem não tem intenções sexuais claras e nem quer estar casado do jeito que a própria igreja recomenda.  

Recentemente, quando eu navegava pela internet, deparei-me com um vídeo onde um jovem padre, bastante conhecido na mídia, fazia a apologia do celibato dando ênfase ao assunto de maneira confusa e com certa agressividade. Aquele ministro de Deus, falava alto e parecia até que estava tirando as palavras do estômago, quando dizia que o celibato foi feito para eles, padres, e não para os outros --- e que ninguém teria nada com isso.  --- Dava a entender como se a Igreja Católica fosse uma propriedade particular dos padres. ----- Acrescentou ainda, que às pessoas deveriam estar mais preocupadas com as suas próprias vidas e menos com a deles, os padres. --- Esse padre não estava se referindo a outras igrejas...

Diante daquela pregação excêntrica, onde se via uma questão mais pessoal do que coletiva, fermentou em minha mente o nome de uma pessoa, que Candeias, acolhera como filho adotivo e que dorme o seu sono eterno sepultado no santuário do Senhor Bom Jesus: Trata-se do Padre AMERICO CRISTIANO BRASILEIRO.

Natural da cidade de Lavras ordenou-se padre em agosto de 1876. --- Antes de vir para Candeias já teria servido as paróquias de Perdões e Cana Verde. --- Apesar de ter sido um personagem importante na construção da História de Candeias, pouco se tem registrado de sua vida, graças ao preconceito e a crueldade dessa coisa chamada celibato, instituída pela Igreja Católica e que a meu ver, isso passa da hora de ter um fim..

Pecado, é privar o homem de constituir a sua família, é furta-lo de um direito que Deus lhe deu. --- Ter filhos é desígnio de Deus. É estar comprometido com as obrigações impostas pela vida; é sofrer diante da responsabilidade emanada pelo Criador... Enfim, é participar das Obras da Criação. ---- Não os ter é viver dentro de si; é deixar de crescer e não se multiplicar... É não deixar pai e mãe para seguir a sua mulher e se tornar numa só carne; ---- uma recomendação bem lastreada pela Bíblia. ----

Lembro-me de certo dia, no princípio da década de 50, quando meu pai me chamou para irmos a um enterro. Eu sempre acompanhava ao meu pai nos enterros. ----- De repente me vi na porta de uma capela que existia antigamente na entrada do cemitério São Francisco, onde hoje existe uma pracinha.

Dali o enterro subiu a Rua Francisco Bernardino e foram rumo a Avenida 17 de Dezembro. E eu achando aquilo muito esquisito porque afinal um enterro normal, por costume, saia da casa do morto, passava pela igreja e o ponto final seria o cemitério. ---- Aquele estava ao contrário --- Foi quando fiquei sabendo que se tratava da transladação dos ossos do Padre Américo para a Igreja do Senhor Bom Jesus, após estar sepultado por muitos anos no Cemitério São Francisco.

Foi nesse dia que comecei a entender sobre o que era o celibato e saber um pouco sobre a vida do Padre Américo Cristiano Brasileiro.

Pobre Padre Américo teria violado as leis da Igreja faltando com a vida celibatária por ter sido pai; por ter amado uma mulher. Por causa disso foi punido severamente sendo afastado das suas funções na Igreja de forma humilhante. – –----- Numa visita a Candeias, do Bispo Dom Silvério, Padre Américo, já afastado das suas funções há muito tempo, bem a porta da do santuário, caiu de joelhos aos pés do Bispo e lhe pediu perdão a frente de todo mundo ali presente. E o Bispo lhe fez levantar-se diante daquele cenário tão humilhante. Mas o povo não deixou de amar Padre Américo. É triste ter conhecimento de um fato histórico onde a minha igreja  tenha agredido a própria natureza humana.

Naquele tempo os padres eram sepultados nas igrejas e os bispos nas catedrais. Padre Américo foi humilhado até depois da morte tendo sido enterrado no Cemitério São Francisco. E só após muitos anos que a igreja autorizou a transferi-lo do cemitério para o santuário do Senhor Bom Jesus diante dos clamores constantes do povo candeense.

O Santuário do Senhor Bom Jesus guarda os restos mortais do Padre Américo Brasileiro, como também uma das cenas mais emocionantes de sua vida, quando de joelhos pediu perdão ao Bispo seu superior Dom Silvério Gomes Pimenta. Mas  subentende-se que o Bispo não o tenha perdoado naquele momento porque o seu sepultamento se deu contra as regras da época, no cemitério municipal e não numa das naves do santuário.

Talvez a Igreja tenha autorizado mais tarde a transladação dos seus restos mortais do Cemitério são Francisco para o Santuário do Senhor Bom Jesus, numa tentativa de buscar o seu próprio perdão. Afinal, se a Igreja tem os padres que podem perdoar em nome de Deus, porque não perdoar um padre, antes ou depois da morte?

Um homem de profunda cultura era o Padre Américo. Ele que muito colaborou com a história de Candeias, num tempo quando  Candeias não era ainda cidade. O afastamento do Padre Américo e a sua substituição, não impediu que muitos fiéis continuassem a tê-lo como o pároco, pois era procurado em sua casa para bênçãos e batizados e até casamentos.

O nome do Padre Américo foi ligado injustamente ao preconceito; ao pecado e ao delito em forma de crime. Ele foi humilhado e massacrado. --- A mãe, e os filhos dele foram como se  a razão do seu pecado  e de um crime, ---- o que Deus jamais lhe teria atribuído-----. Isso porque um padre ser pai e amar uma mulher pode ser violar as leis da igreja, mas não as leis de Deus!

Ainda bem que as autoridades políticas lhe deram o nome de uma Escola, para que o seu nome não se tornasse esquecido. ---- Seus filhos foram um pecado escolhido pela Igreja------- O amor que trazia consigo pela mulher e filhos nunca pode ser exposto e nem exaltado. --- João do Padre e Zé do Padre. ---- 

Lembro-me muito do Zé do Padre (Zé Cristiano) Era professor rural. E um homem de cultura admirável. Não foi casado e não teve filhos. ---- João do Padre sim foi casado e teve filhos, entre eles, Maria Brasileira, que foi minha catequista.

Fazer nascer talvez seja um pecado maior para a igreja; matar talvez nem tanto. A Igreja que através dos padres pode absolver os pecados não pensou nisso quando inventou o celibato. Foi conhecendo a história de Padre Américo que comecei a repudiar o celibato.

-----E vendo aquele jovem padre dizer que nós não temos nada com isso... Que o celibato foi feito para eles... Eu fico pensando: E nos registros históricos de irmãs de caridade que já abortaram e enterraram os seus filhos nos fundos dos conventos?... E os filhos de padres abortados na clandestinidade? Filhos que nunca viram os seus pais e que jamais o souberam... Afilhados de padres quando que na verdade eram seus filhos... --- E agora vem aquele padre dizer que nós não temos nada com isso?! Que deveríamos cuidar de nossas vidas?! Histórias essas que sempre serviram de temas para muitos livros e grandes escritores como a história de Eça de Queiroz, no seu livro: “O Crime do Padre Amaro.”

Infelizmente o ser humano tem sim uma tendência arraigada de defender aquilo que lhe interessa. Comumente estamos vendo padres defendendo o celibato. Contudo, eu insisto em dizer que a defesa que eles apresentam não me convence de modo algum.  Principalmente quando dizem que Jesus era celibatário. Sim, Jesus era celibatário, mas não foi ele que instituiu o celibato. ---- Quando comentam ou se defendem com o escatológico, o eclesiológico de forma generalizada. Que não seja pecador e nem infringente das leis da igreja aquele que desejar amar uma mulher e ter um filho e que seja celibatário aquele que o desejar.

Onde quer que esteja Padre Américo mande-nos a sua bênção. Para mim você nunca pecou contra Deus. E se violou as leis da igreja não terá violado as leis de Deus.

Armando Melo de Castro.

 

 

 

UM INVENTOR CANDEENSE

                                                                              Belmiro Costa


Muitas são as invenções brasileiras, assim como o avião, o relógio de pulso, o balão a ar, o orelhão, o cartão telefônico, a urna eletrônica, a abreugrafia e muitas outras coisas, que no momento me falta à memória, e estão no rol das grandes invenções mundiais.
Infelizmente as invenções brasileiras são pouco divulgadas e muitas são roubadas tendo em vista a falta de condições dos seus inventores de enfrentarem a burocracia do registro do invento.

 Muita gente não sabe que antes do italiano Marconi e o canadense Reginald Fessenden, por exemplo, o rádio já teria sido inventado por um brasileiro, o gaúcho, Padre Roberto Landell de Moura, foi ele o pioneiro a transmitir a voz humana num aparelho sem fio. Mas a igreja católica o proibiu de divulgar o seu invento sugerindo que os católicos poderiam achar que aquilo fosse coisa do diabo. ---

As invenções brasileiras são pouco divulgadas como brasileiras. Uma invenção brasileira e que pouca gente sabe é o soro antiofídico. Ele foi criado pelo médico mineiro Vital Brasil, nascido em Três Corações, no sul de Minas. ---- Esse soro tem salvado muitas vidas. Trata-se de um medicamento para tratar mordidas de cobras venenosas e é obtido de anticorpos do sangue do cavalo. ----  

A fazenda onde Vital Brasil desenvolvia seus experimentos é onde está hoje o Instituto Butantã, um dos centros mais importantes de produção de vacinas do país. A descoberta do soro aconteceu no início do século XX

Em Candeias tivemos um grande inventor, o Sr. Belmiro Costa que na sua profissão de pirotécnico desenvolveu um antimônio para a fabricação de pólvora, o qual até então era importado da China.

Orgulhoso de si, Belmiro que já usava o produto do seu invento como um similar do produto chinês, tinha o sonho de vê-lo registrado e fabricado em Candeias. Mas para isso, se fazia necessário procurar um centro de pesquisas. Nas suas buscas através de informações, tomou conhecimento de que na cidade de Jacareí, no estado de São Paulo, havia esse centro.


Infelizmente, no nosso país os governantes apoiam muito pouco às pessoas necessitadas de recursos para pesquisas. Belmiro não conseguiu nenhum apoio governamental. O único apoio conseguido foi, então, do Sr. Mário Rigali, o Piloto, dono do Bar Piloto na época, que o levou a Jacarei. -----Mas, como o Sr. Mário, também, não se dispunha de recursos financeiros para ajuda-lo, ----- a fórmula preciosa de Belmiro Costa, caiu nas mãos de pessoas inescrupulosas com a promessa de um retorno sobre o assunto; e nunca mais foi vista e nem devolvida. Essa conversa eu tive pessoalmente com o Sr. Belmiro.

Belmiro levou para o túmulo o desejo de ver a formula do seu produto fabricado em candeias.  ---- Ele não dizia, fabricado por mim... Ele dizia: O meu invento vai ser fabricado aqui em Candeias.  

---- Candeias, representada por seus políticos, às vezes, é cruel com alguns de seus filhos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.