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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

DINHEIRO, O MELHOR REMÉDIO.

Foto para ilustração do texto.


Na semana passada, eu fui à farmácia com o intuito de comprar uma pomada à base decetoconazol que inclui, entre outras, a Betricort e a Novacorte. O medicamento é, costumeiramente, indicado para as afecções de pele nas ações anti-inflamatórias. É muito usado para os pequenos cortes domésticos.

Há anos, eu uso esse remédio sem qualquer problema. Todavia, ao compra-lo, me exigiram, na farmácia, uma receita médica para a sua venda. Alegam que se trata de um antibiótico e que, de acordo com as regras vigentes, doravante, somente poderá ser vendido com tal documento. Diversos medicamentos que eram vendidos sem receita passaram a ser comercializados, atualmente, com a sua apresentação.

Eu fico pensando que as pessoas que criam as regras, as normas, as leis neste país se encontram extremamente sem ter o que fazer e, assim, passam a inventar diversas aberrações que apenas dificultam a vida da maioria sofrida e indefesa da população. Mas, é claro que na realidade, eles têm sim o que fazer: defender a classe economicamente mais forte do país evidenciando, assim, o descompasso da justiça social brasileira. 

Chego à conclusão óbvia, por sinal, que todo ato que muda a vida em geral da população, pela via legal, sempre tem o implícito desejo de favorecer a uma minoria representada por corporações, instituições e classes cada vez mais preocupadas com o próprio umbigo, ou melhor, com o próprio bolso. Parece até que uma receita médica é de graça e que nos postos de saúde estão distribuindo-as à vontade para quem delas necessita. É muito fácil exigir uma receita médica. Parece que o médico vai para a casa do doente vigiar se ele tomará o remédio. Pelo que vejo, no futuro irão exigir receita médica para vender melhoral.

A todo momento, estão aparecendo com um velho remédio que dizem fazer mal à saúde, após esse medicamento já estar no mercado há muitos anos. Isso quer dizer que aqueles que o inventaram, distribuíram e venderam no mercado foram, claramente, irresponsáveis e, agora, aqueles que o controlam, o proíbem são os competentes? Engana-me que eu gosto, dirão muitos. 

Esses cartéis que se formam no Brasil causa nojo a uma pessoa lúcida. Depois que o medicamento já foi vendido durante anos e anos, vem uma ordem proibir a venda sem uma receita. Um medicamento, além de custar os olhos da cara, deve-se prescindir de um documento burocrático para ser vendido. Em relação a alguns remédios tal exigência é até compreensível, agora, quanto a uns remédios que apenas curam pequenos ferimentos na pele, depois de já estarem sendo usados há anos, é muito, mas muito estranho. Enquanto proíbe-se o remédio sem receita, nada é feito para ser facilitada a aquisição desta.

Será que esses cidadãos parlamentares ou responsávaeis por instituições que regulam essas leis ou regras sabem o quanto custa uma receita médica? Será que eles sabem das dificuldades, neste sofrível país, para se conseguir uma consulta pelo SUS? Forma-se um médico por uma Faculdade Federal sem que esse venha a ter qualquer compromisso monetário com a sociedade que custeou os seus estudos. Cobram um preço exorbitante por uma consulta, arrancando os olhos da cara do povo. 

Medicina no Brasil, atualmente, é sinônimo de riqueza. Tenho visto, constantemente, por aí, muitos jovens comentando que vão estudar medicina porque serão ricos. E é verdade. Uma lamentável verdade. Serão mesmo ricos porque vão pertencer a um cartel sem dó e sem piedade. O SUS não funciona. Os planos de saúde não funcionam como deveriam. A única situação que funciona é o “particular” e, nesse caso, somente para os endinheirados, os poucos privilegiados desta sociedade cada vez mais desigual. E agora para comprar um medicamento de $ 20,00 querem uma receita de R$ 200,00. Esse é o nosso país. O país das contradições, das injustiças. Esse é o país administrado por ladrões que só fazem leis que protegem os ricos, os aquinhoados.

Nos plantões dos hospitais ou nos postos de saúde, o povo mal consegue uma receita para os remédios controlados. Atendimento precário. Uma sobrinha minha, em Formiga, acudida por um acidente de moto, foi levada ao hospital cujo médico plantonista costurou-lhe a ferida de sua perna com areia dentro. Por pouco a moça não perdeu a perna, contudo, ficou com sequelas. E isso acontece todo dia na classe mais humilde.

Recentemente, eu li um artigo de um médico pelo qual dizia que, hoje em dia, é muito fácil achar quem tenha problemas para evacuar ou sinta que não vai ao banheiro tantas vezes quanto deveria ou gostaria de ir.

Eu achei inusitado quando li o alerta do médico dizendo que o nosso intestino tem um ritmo que avisa o momento da evacuação e, se este aviso não for seguido, talvez, somente voltaria a acontecer no dia seguinte. "Assim, perdemos aquele dia de evacuação. No dia seguinte, as fezes estarão mais ressecadas e teremos maior dificuldade para a evacuação", afirma ele:  Nestes casos, as mulheres são as que mais sofrem, pois têm muita dificuldade em ir ao banheiro fora de casa e o referido médico recomenda aos leitores do referido artigo que evitem comidas pobres em fibras, como as vendidas em fast-foods e de produtos industrializados, pois aumentam ainda mais o problema. As fibras são essenciais para o bom funcionamento intestinal e, finalmente, teceu uma dieta que somente os ricos e bem ricos poderiam seguir.

Parece que os médicos se esquecem que nós estamos no Brasil, um país de gente pobre e de médicos ricos. É chique cobrar caro por uma receita, isso valoriza o médico no seu entender. Enquanto o SUS lhes paga menos de $15,00 por uma consulta, um particular tem que pagar por $300,00. Enquanto morrem os pobres nos corredores. E a culpa acaba somente sobre o governo. Afinal, Onde está o juramento de Hipócrates? A bem da verdade o juramento de médico chega ser de hipócrita, enquanto os pobres estão vendendo o nariz para comprar pó, vendendo o pé para comprar sapato e aí, vem um médico elitista recomendar hora para “cagar” e sugerir uma dieta com coisas que essas pessoas nem nunca ouviram falar. Custam-lhes comer macarrão.

Recentemente, eu ouvi o Valdomiro Santiago, o líder da Igreja Mundial do Poder de "Adeus", aquele que pede para os seus seguidores um dízimo de R$300,00, dizer, em uma entrevista, que muitos médicos não dão conta de curar os seus enfermos e estão o recomendando porque na sua igreja acontece milagre de toda ordem. Pelo que vejo, Valdomiro tem a procuração de Deus e de Jesus Cristo para curar. Todavia, ele cobra caro.

Eu acho que os médicos e os religiosos deveriam ser mais piedosos, mais humanos e mais complacentes. Afinal de contas, deveriam pensar menos no dinheiro e um pouco mais na missão que Deus lhes confiou.

É lamentável, deveras lamentável.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

UM HERÓI CANDEENSE.

                                                                  Sargento Leônidas Macedo Filho, 
Neste dia de finados de 2013, que se aproxima, eu quero, numa deferência especial, lembrar um ­­­­ conterrâneo e amigo dos mais ilustres filhos do nosso município.

 Trata-se do ex-combatente, integrante da FEB - Força Expedicionária Brasileira - que atuou nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial: o Sr. Leônidas Macedo Filho que faleceu no último mês de janeiro, após 92 anos de uma vida digna, vitoriosa e que muito honra os anais da história de nossa cidade.Dos 25.334 pracinhas brasileiros enviados pela FEB à Itália, treze eram de Candeias. Desses, 443 não voltaram sendo dois candeenses. Dos onze que voltaram a nossa terra, muitos deles trouxeram consigo as marcas de uma guerra que os olhos não vêem. Doença mental, traumas, depressão e dificuldade de ambientação. 

Não é difícil para ninguém imaginar que jovens humildes, nascidos no seio de famílias religiosas, se viram, de repente, no centro de uma grande guerra mundial com as suas terríveis conseqüências. Assim, essas pessoas que tiveram a maior recepção da história, durante o retorno para a casa, somam hoje em torno de 2000 mil pessoas, 2000 heróis. Em Candeias, por exemplo, resta apenas um. Trata-se do Sr. João Sidney de Sousa Filho, residente na cidade de Campos Altos, coincidentemente, primo do Sr. Leônidas. ---- 

Neste momento, em que lamento a partida de um herói candeense, Leônidas Macedo Filho, cumpre-me lamentar, também, a miopia da política social dos governantes de nossa cidade. Uma política sem calendário social, sem um pingo de preocupação com a história do município e, muito menos, com os seus vultos. E o pior que isso vem acontecendo é de pouco tempo para cá porque, no passado, demonstrava-se mais respeito, mais cuidado e mais atenção com a construção cívica da história do nosso município. Afinal, um povo sem memória é um povo sem futuro. O futuro, com certeza, será construído sobre o presente que tem por base o passado.

Os pracinhas que outrora desfilavam nas paradas do dia da cidade, eram chamados aos palanques, davam palestras para os estudantes, ainda em boa idade. Todavia, começaram a ser esquecidos pelos governantes candeenses mais recentes. O serviço social municipal de Candeias encontra-se cego para uma questão histórica tão relevante. Ressaltar o nome dos ex-combatentes da guerra seria um dever, entretanto, nenhuma homenagem, nenhuma informação, nenhum contato, nenhum respeito deram por merecer aos nossos pracinhas nos últimos anos. O que demonstra, sem dúvida, a grande falta de sensibilidade e o pior, de civismo de nossas autoridades municipais.Abaixo, está parte do currículo do Sr. Leônidas Macedo Filho. Um homem que orgulha a cidade de Campos Altos, terra que lhe acolheu como filho e que lhe dispensou todas as honras merecidas. Afinal, Leônidas não era somente um nome candeense, mas sim um nome brasileiro com representação internacional.

Resumo de uma pequena parte da história de Leônidas Macedo Filho que me fora fornecida pelo seu filho, Sr. Marcelo Macedo.

Em 20/03/1921 nasceu em Candeias/MG; Filho de Leonidas Macedo e Dona Julita Lamounier Macedo. 
 Neto do Coronel João Afonso Lamounier, figura expressiva da história de Candeias.  Teve três irmãos, dos quais dois falecidos. Felizmente, entre nós o Sr. Antonio Macedo, seu irmão caçula.

Em 1933, com apenas 12 anos de idade, mudou-se para a cidade de Patrocínio e trabalhou como comerciário na Casa Moraes;

Em 1941, apresentou-se, voluntariamente, às Forças Armadas sendo admitido no 11° RI em São João Del Rey-MG;

Em 1942, assumiu o cargo de Sargento Contador da Tesouraria;

Em 16/06/1944, embarcou, voluntariamente, para guerra em solo italiano, no 1° Escalão de Tropas da FEB;

Em 07/1944, desembarcou no porto de Nápoles, Itália;

Em 08/1944, fez parte da comitiva que entregou ao Vaticano duzentas mil sacas de café doadas pelo governo brasileiro e participou de audiência na qual os pracinhas foram recebidos e abençoados pela Sua Santidade, o Papa Pio XII;

Em 12/1944, no auge da guerra, foi promovido, por merecimento, a 2° Sargento do Exército Brasileiro;

Em julho/1945, retornou ao Brasil a bordo do “USS General Meigs”;

Em julho/1945, foi licenciado do Serviço Militar sob os cumprimentos do Cel. Floriano de Lima Brynner;

Em 1946, foi eleito Secretário do Diretório da UDN em Candeias/MG;

Em abril/1946, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Campanha por haver participado de operações de guerra na Itália sem nenhuma nota desabonadora;

Em maio/1947, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Guerra de 1ª classe por haver colaborado no esforço de guerra do Brasil na gloriosa campanha da Itália;

Em 1949, mudou-se para a cidade de Campos Altos/MG, onde constituiu a empresa Auto Peças Camposaltense Ltda e se estabeleceu, pioneiramente, no comércio de Auto Peças e Serviços;

Em 1950, casou com Maria de Lourdes Resende Macedo;

Em 1951, foi eleito vice-presidente da UDN em Campos Altos/MG;

Em 1963, foi homenageado pela Prefeitura de Candeias/MG que erigiu monumento aos expedicionários da FEB candeenses na gloriosa campanha da Itália;

Em 1964, foi eleito presidente da UDN em Campos Altos;

Em 1966, foi eleito vereador e, em duas legislaturas, presidiu a Câmara Municipal em Campos Altos/MG;

Em 1969, foi o presidente fundador e o primeiro eleito do Rotary Club de Campos Altos;

Em 1970, foi eleito e exerceu o mandato reduzido de apenas dois anos de prefeito municipal de Campos Altos/MG;

Em 1980, foi fundador e eleito, por dois períodos, presidente do PDS em Campos Altos/MG;

Em 1980, já aposentado por tempo de serviço, adquiriu gleba de terra e iniciou nova atividade no cultivo de café;

Em 1988, afastou-se, definitivamente, da política e dedicou-se ao cultivo de café recebendo, nos últimos 30 anos, dezenas de homenagens e honrarias.
(cidadão benemérito e honorário de Campos Altos/MG, recebendo Medalha de Prata pelo cinqüentenário da cidade/ cidadão honorário de Montese, na Itália/ pelo Rotary Clube: sócio honorário, presidente de honra, Comenda “Paul Harris” e nome do segundo marco rotário/ pela Maçonaria: Comenda “Ordem da Águia”/
pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais: proposição do Desembargador José Afrânio Vilela homenagem da 2ª câmara civil pelo 90º aniversário)

Em 08/09/2011, foi objeto de palestra e homenagem da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra - Delegacias Araguari e Uberlândia;

Em 26/07/2012, foi reverenciado com toques de presença (clarim) e exórdio (banda de música) nas comemorações do 50º aniversário do 36º BI Mtz. Uberlândia-MG;

Em 06/01/2013, pouco antes de completar 92 anos de idade, faleceu sendo foi velado e homenageado nos salões nobres do Rotary Club e da Câmara Municipal de Campos Altos onde foi sepultado;

Em 04/07/2013, deu nome à cadeira do presidente e a comenda instituída pelo Rotary Club de Campos Altos para reconhecer anualmente autor de relevantes serviços prestados à cidade.

Finalizando, eu tenho o dever de reiterar o quanto é lamentável o despreparo cívico dos políticos de Candeias ao deixarem de reconhecer pessoas da importância e da envergadura moral como o Sr. Leônidas Macedo Filho.

 Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.



NB) A História completa do Sr. Leonidas Macedo Filho, encontra-se AQUI: clique: leonidasmacedofilho.blogspot.com/













                                                                               

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O MENTIROSO ZÉ DO CIRINO.

Foto para ilustração do texto.

José do Cirino nasceu em algum lugar no Bairro da Gruta em Candeias. Foi considerado, em seu tempo, por seus amigos, o homem mais mentiroso do Brasil. Ninguém acreditava em uma só palavra do que ele dizia. As pessoas gostavam de conversar com ele para ver a criatividade de sua mente que gerava mentiras recheadas de detalhes as quais levavam o ouvinte novato a se parecer com uma lebre de frente a um lobo faminto ou, melhor dizendo, fazendo-lhe vítima de uma crença perversa. 

De estatura mediana, forte, meio calvo, boca grande, dentuço e, quando ria, parecia que havia uma serra articulada na boca. Portanto, ao mastigar e articular sua boca, parecia uma tremonha que transformaria uma rapadura dura em pó. Era do tipo enrolado. Como diz o jargão popular: "Mais enrolado do que pau de fumo". Não parava em serviço algum. Foi servente de pedreiro, capinador, apanhador de café, ajudante de caminhão e mais uma série de serviços. O que aparecia na frente, ele fazia. 

Apesar de ser considerado um homem trabalhador, era sem persistência. Não sabia esquentar o lugar no qual estava. E, assim, acabou sendo levado, por um de seus filhos, para a cidade de Ferraz de Vasconcelos no Estado de São Paulo. Por lá morreu e foi enterrado. 

O outro personagem de nossa história é outro Zé.   ----    Zé Barbeiro foi um barbeiro de meia tesoura, morador da Rua Coronel João Afonso. Seu salão ficava situado onde se encontra, atualmente, a residência da Marisa, filha do Milton Alves. Um solteirão desses que a gente não sabe o porquê de não ter se casado. Se, se foi por isso ou por aquilo, ou ainda, por não gostar “daquilo”. Um cidadão um tanto esquisito, desses que ao ser contrariado dá chiliques e usa e abusa de trejeitos. Possuía uma voz mole, bem preguiçosa. Cabelinho bem aparadinho, barbinha bem escanhoadinha, sapatinho bem engraxadinho, dentes bem escovadinhos, unhas bem aparadinhas, calça e camisa muito bem passadinhas e um passo bastante balangado parecido com aqueles de modelos em passarelas.

Zé Barbeiro ficava o dia todo empanado em um jaleco branco, todo alvejado, parecendo um enfermeiro de uma clínica de luxo. Gostava muito de prosear com a rapaziadinha. Para mim, particularmente, o Zé barbeiro era o Zezé daquela música carnavalesca: “Olha a cabeleira do Zezé”. Só lhe faltava à cabeleira. Eu penso até que ele teria sido um enviado para servir a sua comunidade, mas resolveu ficar escondido nos fundos do armário.

No natal de 1959, Zé Barbeiro ganhou um leitão do seu padrinho fazendeiro. Naturalmente, o porquinho lhe foi presenteado para ser comido assado durante as festas. Era um gesto comum, naquele tempo, o povo da roça dar um leitão ou um frango de presente para um amigo ou afilhado da cidade. Todavia, o barbeiro inventou de dar o porquinho à meia para ser engordado, tendo em vista a falta de espaço para um chiqueiro no seu quintal. Como regra, ele entregaria o animal a alguém para criá-lo e o criador, naturalmente, lhe devolveria metade do bicho por ocasião do abatimento.

E para tal sociedade, Zé Barbeiro convidou o seu xará Zé do Cirino, a os quais não eram bem conhecidos e nem bem indicados para um pacto porqueiro. Isso porque um era muito certinho e o outro era muito “erradão”

Para quem não se conheciam muito bem um especialista em mentiras, enrolado e grande militante na arte da enganação esse tipo de sociedade costumava dar em briga na hora da partilha, ou seja, um queria um determinado corte do porco que o outro, por sua vez, também o tinha como preferência. E o criador do porco sempre levava a vantagem na óptica do dono do animal. -----Zé do Cirino, que não enjeitava nada, aceitou de cara o que lhe seria um grande negócio.

Naquela época, era um fato normal as pessoas criarem porcos na cidade, em chiqueiros de seus quintais. Isso gerava muito problema porque o mau cheiro incomodava os vizinhos e muitos viviam em litígio por causa da criação de porcos neste estilo até que uma lei foi feita para acabar com essa prática. Contudo, até então, um chiqueiro em um quintal era coisa comum e sempre se encontrava de preferência um suíno caruncho ou piau sendo criado de forma bem doméstica.

 Era uma peleja criar um porquinho em casa, todavia, quando o matava era uma festa que começava com o choro do bicho de madrugada na hora da morte. A vizinhança que ajuntava à lavagem já ficava na expectativa da dimensão do pedaço que lhe caberia. E se o pedaço não fosse satisfatório, havia quem mudaria o rumo da lavagem para outro criador. (Lavagem, neste caso, trata-se de sobras de comida juntamente com a água da lavação dos utensílios de cozinha).

Imediatamente, Zé do Cirino foi preparado o chiqueiro no fundo do quintal de sua casa e, logo, saiu procurando fornecedor de lavagem bem como farelo de arroz na máquina do Emídio Alves que seriam pagos com carne de porco. Foi, ainda, até à Manteigueira do Bonaccorsi para pedir alguns litros de soro que lhe seriam fornecidos diariamente. Os funcionários da Manteigueira, Chico e Expedito, foram também prometidos a ganhar um bom pedaço do suíno. Os casqueiros para o chiqueiro foram conseguidos, gratuitamente, na Serraria do Dé Cassiano que, também, recebeu a promessa de ganhar um pedaço do bicho. E assim, Zé do Cirino em tudo prometia ou se comprometia com um pedaço do porco ou com uma linguiça. No fim, prometia até chouriço, um tira-gosto de sarapatel e assim por diante. Enfim, o porco do Zé do Cirino, ao que se via, quando morto não daria para saldar os compromissos. Parecia que ele teria adquirido uma manga de porcos.

O Leitãozinho foi trazido e colocado no chiqueiro. Porém, ele era tão pequeno que não foi fácil imaginar o que seria tratá-lo até vê-lo gordo ao ponto do abate. Com certeza, aquilo deu ao Zé do Cirino um desânimo danado. Ele pensou que o leitão já seria de meia ceva e, de repente, aparecem com aquele filhote.

Algum tempo depois, foi chamado o Zé Capador que, ao examinar o animal, deu a triste notícia de que o bicho era roncolho e, assim, lhe foi dito que porco roncolho é de difícil engorda. Não tem serventia para cachaço, enfim, o melhor seria matá-lo ao invés de engordá-lo. Palavra de um especialista em porcos. 

O que fazer, então? Naturalmente, esta foi a pergunta que Zé do Cirino fez a si mesmo diante da afirmação do capador. Entretanto, e os compromissos assumidos anteriormente? A situação ficou um tanto complicada. Demonstrou-se muito entusiasmo e de repente...

Numa noite, para piorar, o porco sumiu do chiqueiro do Zé do Cirino. E agora? Mais essa! A verdade é que todo mundo foi ludibriado. Todavia, o Zé Barbeiro não aceitou o argumento de que o porquinho dele foi subtraído sem mais e sem menos.

Ele que era um cidadão comportado, mas, quando ficava nervoso quase saía do armário. E, naquele tempo, para sair do armário tinha que ser muito macho. Ao receber a notícia de que o animal havia sumido, imbuiu-se em todos os seus jeitos e trejeitos e começou:

---Oia aqui Xará, ocê é um iscumunguento, sabia? Sumir com o meu leitãozinho, uai. Ganhado do meu padrinho de batismo. Ele ia virar um lindo capado se ocê tivesse tido cuidado. Eu tô achano que ocê robô o meu leitãozinho, seu danado. Eu nunca vi falá que leitão saisse de chiqueiro sem ser visto e sem gritar.

---Oia, aqui, Izé. Eu num robei leitão ninhum, viu. Se ocê perdeu a parte do leitão, eu perdi a pensão que eu dei pra ele. Pensa o qui ocê quisé e tiau e bença. E dispois tem mais: o seu leitão tinha só um grão. Leitão de um grão só num produz porque é porco viado.

---Some daqui, Izé! Senão eu te matooooooooooooo.

Era o que ele mais queria. Sair dali e dar o assunto por encerrado.

Dois dias depois, Zé do Cirino com a cara cheia de pinga, no Bar do Ermino, onde, nos dias de hoje, funciona o Bar do Vicentinho Vilela, na Rua Professor Portugal, estava convidando os seus amigos para ir à sua casa comer um pedaço de leitão que ele havia ganhado por ocasião de seu aniversário.

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos MG

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

CANDEIAS, MINHA CANDEIAS!

Bandeira de Candeias - Minas Gerais

Na segunda-feira passada, dia 24 de setembro, eu visitei a sessão plenária da Câmara Municipal de Candeias e fiz um apelo aos senhores vereadores no sentido de cobrarem da Prefeitura local uma providência sobre uma questão, aparentemente simples, todavia, de suma importância.

Ao me ser dada a palavra em um espaço da tribuna livre, eu tive a oportunidade de reclamar para os senhores vereadores como também para o senhor Vice Prefeito, então presente, sobre um desleixo imperdoável por parte da Prefeitura de Candeias a respeito das placas de ruas da nossa cidade. Atualmente, existem ruas sem placas, ruas com os nomes trocados sem alterar as placas.

É irritante procurar uma rua e não encontrá-la. Os visitantes de nossa cidade ao chegarem aqui estão tendo muita dificuldade em se situarem como os viajantes, os entregadores de mercadorias, até mesmo os carteiros dos correios etc. Toda essa gente reclama e parece que falta interesse ou, quem sabe, competência por parte dessa área da administração municipal.

Quando se tira o nome de uma pessoa para colocar o nome de outra, configura-se um ato relevante e que muitas Câmaras Municipais ousam fazer sem imaginar a extensão da ofensa moral, quase sempre sobre toda uma família descendente daquele que havia recebido o nome de uma rua.


Outro aspecto a ser levado em conta, refere-se aos transtornos que geram aos moradores, principalmente, aos comerciantes. O morador deverá atualizar seus cadastros de endereços em todos os segmentos que emitem correspondências: as instituições financeiras, companhias de telefone, de água, de energia elétrica e outros. No caso de empresas, será necessária ainda a alteração de endereço no Ministério da Fazenda e na Junta Comercial do Estado e isso, é claro, gera despesas. Na Prefeitura, deve-se alterar os dados para a emissão do carnê do IPTU, no Cartório de Registro de Imóveis, deverá ser procedida as averbações de mudança de endereço nas matrículas dos respectivos imóveis obtendo, ao final, uma nova certidão com a atualização dos dados da nova rua. Efetivamente, é como se as pessoas mudassem de endereço.



O foco maior da minha observação registrou-se sobre a Praça da Fraternidade cuja nomenclatura foi trocada pelo nome do Sr. Nestor Lamounier, ex-prefeito de Candeias, já falecido. A troca de nome, neste caso específico, não retrata a gravidade da questão porque fraternidade trata-se apenas de um conceito filosófico. E justiça seja feita pelo que representou, para Candeias, a pessoa do senhor Nestor Lamounier, não só como prefeito, mas, também, como  cidadão candeense dos mais dedicados ao bem do nosso município. Faz tempo que a praça recebeu o seu nome e até hoje não providenciaram as novas placas. A meu ver isso é o mesmo que dar um presente para a família do ilustre, embrulhado num jornal.



Assim, dado o meu recado, resolvi ficar por ali, assistindo aquela sessão quando o Sr. Enio Bonaccorsi lavanta-se e ocupa a tribuna livre fazendo sérias denúncias sobre a má administração do Fundo Previdenciário dos Funcionários da Prefeitura. Na sua narrativa, ele dissera que, com o comprometimento do fundo, poderão ficar prejudicados os funcionários e os futuros prefeitos.

Interpelado por um vereador que lhe disse que a Câmara Municipal não iria trabalhar com a faca no pescoço, o Presidente da Casa encerrou a sessão em um clima um tanto conturbado e bastante tenso, quando o Sr. Enio Bonaccorsi lhes disse que entraria com uma representação no Ministério Público.

Como é lamentável presenciar esses desencontros na administração pública de um município. O pior é presenciá-los na sua cidade natal. Candeias é uma cidade pacata, com parcos recursos financeiros. Já sofreu demasiadamente com a corrupção praticada por diversos prefeitos anteriores que foram, até mesmo, punidos pela justiça tanto na esfera cível quanto na criminal. Agora, vem à tona uma notícia dessas. É lamentável, profundamente, lamentável!

Como um bairrista de primeira linha, sendo portador do título de eleitor número 0790.7029.0299 confesso que saí de lá triste, muito triste.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos


terça-feira, 24 de setembro de 2013

PROIBIDO PARA MENORES.


Foto para ilustração do texto.

o ser humano é coisa difícil. Somos seres únicos. A singularidade humana faz a diferença nas histórias de cada um, portanto não será difíci acreditarmos que Deus o Pai Celestial tem o cadastro de cada um de nós. E é por isso que eu nunca acreditei que somos iguais para Deus. Somos diferentes e isso é a maravilha da vida humana. Somos parecidos, mas feitos em formas diferentes. Hoje vamos conversar de forma metafórica. Afinal a nossa descendência latina, nos permite falar uma coisa e entender outra.

Existe, neste mundo, gosto para tudo. Comumente, ouvimos, por aí, as pessoas dizerem que "gosto não se discute". Outros dizem "que há alguns que gostam dos olhos enquanto outros preferem as remelas".  Lembro-me de minha tia Eliza, esposa do meu tio João, que dizia sempre: "É preferível um gosto do que um carro de abóbora". E por aí vai...

Estamos vendo, atualmente, nos relacionamentos íntimos, muitos homens preferindo homens e muitas mulheres preferindo mulheres para seus pares. Na realidade, trata-se de um gosto. Todavia, com algumas exceções, é bastante comum encontrarmos pessoas que possuem tal predileção sexual acreditarem piamente que o mundo todo deveria concordar com eles. 

Às vezes, eu chego a pensar que o homem, na acepção da palavra, está em extinção e, em um futuro próximo, será denominado por "zangão" e que existirão poucos espécimes, apenas para a preservação do bicho humano por imposição da natureza. O homem macho vai, a cada dia, se tornando uma fruta rara e como diziam, antigamente, as beatas: "Homi tá cherano aio" em um tempo em que o alho era um tempero raro e caro.

Algumas vezes, ouvimos dizer que o mundo está mudado, que a pouca vergonha anda solta, entretanto, se dermos uma parada para pensarmos, veremos que todas essas coisas já se encontravam guardadas dentro do ser humano desde que o mundo é mundo e que vai, no seu dia a dia, deixando de lado as regras que disciplinam a sociedade preconceituosa. 

A bem da verdade, o homossexualismo sempre existiu, contudo, em tempos mais remotos o indivíduo homossexual não tinha a coragem de dizer: "Eu sou um pederasta", substantivo que, nos dias de hoje, foi substituído pelo vocábulo inglês "gay". Hoje, está todo mundo saindo do armário, saindo da toca, saindo de debaixo da cama, enfim, estão sentindo um enorme prazer quando dizem: "Eu sou um gay". A meu ver, pior do que a homofobia são os insultos recebidos pelos héteros que não comungam com os ideais dos homossexuais impertinentes, com seus gostos ou seus vícios.

Certa vez, ouvi numa conversa de botequim, um cidadão cuja mente já estava atordoada pelo álcool e que dizia alto e, em bom som, que preferia um "feofó" de homem ou de mulher do que um balaio de "tabaqueira". Esse cidadão era casado e muito bem casado. Portanto, coitada de sua mulher! Não se sabe, obviamente, se ela concordava com a sua preferência sexual, todavia, em virtude disso, o nome dela entrou em órbita no céu da boca do povo.

Afinal, uma mulher de aspecto sério, de família conceituada na sociedade, de práticas religiosas, caridosa, boa, amiga, apresentar-se como esposa de um "feofozeiro" rendeu um bom assunto para os patrulheiros do alheio.

(Para quem não compreendeu o termo "tabaqueira" é a caixinha de rapé. Contudo as pessoas, tratam-na, também, daquilo que difere a mulher do homem.)

Neste contexto, podemos entender e concluir que a bizarrice está vinculada ao ser humano em seus pensamentos, palavras e ações e, diante dessa temática, olho no retrovisor da minha vida e vejo, lá atrás, o Arlindo Barrilinho.

Arlindo Silva era baixo e modulado em muita banha. Portanto, era todo redondinho, ou seja, gordinho e, devido a isso, o chamavam de "Barrilinho". Foi um grande amigo de  de meu pai. Eram colegas de serviço, ou seja, os dois eram oficiais de justiça na Comarca de Candeias, pelas décadas de 50 e 60. Consequentemente, ele nos visitava.

No seu estilo caboclo macho, possuía uma filharada danada, ou seja, 7 filhos tomos homens. Era todo manso e bem ajeitado. Tinha um olhar safado daqueles que catavam tudo em uma mulher. Gostava sempre de dizer:  ---  "Se Deus tivesse feito coisa melhor do que uma mulher, com certeza, teria guardado só pra Ele." --- O seu assunto predileto era mulher. Certa vez, eu o ouvi dizer que como havia nascido de uma tabaqueira, gostaria muito de morrer enfiado em uma. Falava assim e, logo depois, dava aquela gaitada safada.

Porém, Barrilinho tinha um gosto excêntrico, um tanto esdrúxulo, meio bizarro. Gostava de mulher peluda. Veja só. Adorava uma mulher de sobrancelha grossa, do tipo tala larga. Davam-lhe arrepios de prazer ver pernas femininas mal depiladas e as axilas somente aparadas. Sentia-se excitado quando via uma mulher com um buço oxigenado, parecendo cerdas de taturana amarela. Para as pessoas de gosto comum não é fácil compreender como uma pessoa pode gostar dessas coisas. Mas, Barrilinho gostava e gostava muito. Imagina-se, então, como ficaria o Barrilinho ao presenciar uma mulher expondo, a seu gosto, as partes pudendas.

Certo dia, quando ele estava assentado no meio-fio da porta de nossa casa, ao prosear com o meu pai, passou uma moça sacudida, bastante robusta. Tinha as pernas grossas do jeito que Barrilinho gostava e possuía ainda os pelos suaves que aumentavam na região da coxa. Usava uma saia bem curta. Naquela hora, Barrilinho se encontrava em numa posição estratégica. 

Como era baixo e assentava quase que rente ao chão, ao ver vindo, em seu rumo, pelo passeio, aquilo tudo que ele chamava de "avião", os seus olhos indiscretos não perderam tempo e foram fincados nas pernas da moça, chegando a erguer o corpo para apreciar o motor do avião. Contudo, isso não foi o bastante. Logo que ela passou, Barrilinho, em um gesto "quase" involuntário, se abaixou para ver o que alimentava os seus olhos curiosos. Quando a moça olhou para trás, indignou-se e disse:

---- Você perdeu alguma coisa debaixo de mim, veio safado?

E Barrilinho numa resposta descarada fala:

---- Não bem, perdi não. Eu achei. Só que vai ficar guardadinha na minha cabeça...

E Barrilinho deu aquela risada atrevida, safada, alta, muito parecida com um rinchado de cavalo quando vê uma égua no cio.

Armando Melo de Castro

sábado, 14 de setembro de 2013

O RÁDIO DE DONA LIRA.

Foto para ilustração do texto 

O sonho de dona Lira era ter um rádio. Queria ter um rádio para escutar as músicas de Cascatinha e Inhana, Duo Guarujá, Tonico e Tinoco bem como de outros cantores de quem era fã incondicional. Quando ela ouvia a música Luar do Sertão, baixava sobre ela uma grande tristeza por se lembrar dos seus tempos de menina na comunidade rural onde foi criada, quando a vida era, então, muito feliz ao contrário de agora que está cheia de problemas de todas as ordens e sem esperança de ver alguma melhora. Com quatro filhas solteiras, um marido irresponsável pela bebida e sem uma profissão definida. Entretanto, mesmo assim, diante de tanto descrédito, dona Lira ainda alimentava um fio de esperança de um dia possuir um rádio, afinal, a esperança, como dizem, é a última que morre.

Em toda a rua, existia, no máximo, três rádios. Quem tinha um aparelho desses o ligava até ao último furo, ou seja, no ponto mais alto. E fazia-se isso por dois motivos: Primeiro, para que os vizinhos aproveitassem o som das músicas e das notícias. Naquele tempo, existia o chamado "Reporter Esso" da Rádio Nacional do Rio de Janeiro que ao tocar a sua chamada musical todo mundo ficava de orelha em pé. Era sempre uma notícia ruim. Era como, nos dias de hoje, em Candeias, quando é anunciada a morte de alguém pelo alto falante da Igreja Matriz. Se houvesse um rádio ligado, logo se aproximavam algumas pessoas. O outro motivo era por se tratar de um certo status possuir um rádio. Um rádio era um aparelho caro e não era acessível a um proletário comum. Aquele que o tinha gostava de demostrar o seu objeto. Seria como os smartphones e tablets da atualidade. Os toca-discos eram raríssimos. Os discos eram de grafite e facilmente quebráveis. Possuíam 78 rotações e apenas uma música de cada lado. Entre o rol de cantores famosos daquele tempo estavam: Anísio Silva, Silvinho, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Angela Maria, Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco e muitos outros que ainda são ouvidos até hoje, apesar de muitos já terem ido para o andar de cima há tempos.

Meu pai ainda demorou uns três anos, desde esta época, até conseguir comprar um rádio, tipo "rabo-quente" que era um aparelho antigo o qual conservo até hoje como uma bela relíquia, além de alguns discos e uma vitrola movido à corda.

Dona Lira era uma mulata miúda de cabelo liso. Tinha quatro filhas as quais ela, desde bem cedo, já colocava na lida doméstica. Aparentemente, ela era uma forte mistura de negro, índio e branco. Carregava, na cabeça, um feixe de lenha maior que ela e buscava-os nos matos para vender aos seus fregueses em um tempo em que ainda não havia os fogões a gás. Ela e suas filhas eram muito trabalhadeiras. Lavavam roupa para fora, faziam faxina pesada e, ainda, buscavam lenha e capim-membeca para a fabriqueta de colchão do Candola Vilela.

O marido não tinha um serviço certo. Era, como diziam, um ambulante, pois, a cada dia, trabalhava para um patrão diferente. Ele sempre fazia ponto na venda do sr. Zé Lara que existia no local em que se encontra, atualmente, o bar do Vicentinho Vilela na Rua Professor Portugal. Dali saía, às vezes, até carregado pela embriaguez.

Dona Lira tinha uma vida muito difícil, coitada! Nos dias de chuva, o seu trabalho não rendia e ela passava a falta de muitas coisas e, por várias vezes, precisava de contar com a bondade e ajuda dos vizinhos que lhe emprestavam sempre ou uma colher de sal, ou um pouco de gordura ou ainda um pouco de arroz que, a bem da verdade, nunca voltavam. Todavia, por se tratar de pessoa agradável e muito prestativa, ninguém ligava para isso. Naquela época, muitas pessoas comiam o que ganhavam no dia e seu marido, que era alcoólatra, se estivesse sob o efeito do álcool, costumava dizer assim: "Eu sou como uma lombriga: se eu sair da merda, eu tô morto". E quando alguém lhe perguntava o que ele fazia, dizia sem titubear: "Eu cago para jantar".

Todavia, mesmo diante desse cenário precário, dona Lira dizia: "Se Deus quiser e Nossa Mãe do Céu ajudar, eu vou ter um rádio algum dia". E ela, que não era muito rezadeira, acabou fazendo uma promessa para São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, que se acaso conseguisse um rádio, iria de joelho da porta da igreja até ao altar mor da antiga Igreja Matriz de Candeias.

Do outro lado da rua, residia um cidadão chamado Domingos que era casado com dona Jovina. Domingos era enfermeiro especializado em leprologia. Era funcionário público federal e veio do Rio de Janeiro em companhia de alguns médicos especialistas para uma frente de trabalho que foi feita, em época remota, em Candeias, visando combater um surto desta terrível doença.

Domingos era um homem bom. Lidava com os doentes sem qualquer preconceito, pois não tinha medo da doença. Era um homem prestativo e estava sempre pronto a ajudar uma pessoa. Durante o tempo em que residiu em Candeias, ganhou diversos afilhados, haja vista que todo mundo gostava dele e ele gostava muito das crianças. Como era nosso vizinho, meus pais o chamou para apadrinhar a minha irmã, Maria Amélia. O povo gostava de ouvi-lo falar naquele sotaque carioca cujo "x" estava sempre na ponta da língua.

Um dia, veio a triste notícia de que Domingos voltaria para o Rio de Janeiro e, dessa maneira, resolveu fazer um inventário de parte dos seus utensílios domésticos deixando, como lembrança, um objeto para cada vizinho mais chegado. E para dona Lira, ele deixara um pequeno rádio do tipo rabo-quente, da marca RCA Victor, arredondado e preto.

Dona Lira, ao receber o presente, ficou transpassada e começou a chorar. Ela que teria chorado pela partida de Domingos já não estaria, agora, lamentando tanto a ida do vizinho amigo, marcada para o dia seguinte. Então, seu rádio falava e cantava o dia todo. Rezava, dava hora certa  e ela dizia: tão certa quanto o relógio que batia na sala de dona Marica, uma outra vizinha próxima. De longe, a gente ouvia no último furo do volume, a fala do Totó, um músico locutor da Rádio Clube de Campo Belo que já existia naquele tempo que não havia, ainda, rádios FM (Frequencia Modulada). Assim, boa parte da vizinhança ficou morrendo de inveja de dona Lira. Afinal, ganhar um rádio de mão beijada!?

Desta maneira, era chegada a hora de pagar a promessa. Dona Joana do Galdino parecia ser a cobradora do santo e não perdia tempo em cobrar de dona Lira a promessa feita. Logo, todo mundo que soube da promessa queria vê-la pagar o mais depressa possível. Contudo, dona Lira não parecia estar com muita disposição para pagar a promessa e se esquivava dizendo que precisava fazer um vestido novo para a ocasião, pois não tinha uma roupa bonita para cumprir a promessa. E o rádio, todos os dias, amanhecia e anoitecia no último furo, cantava, chorava, rezava, dava notícia boa, notícia ruim, e assim foi até que, após uns quinze dias, ele pifou e ficou totalmente mudo para a tristeza de dona Lira e para o silêncio dos vizinhos. Parece que teve vizinho que até achou bom o rádio de dona Lira pifar porque, infelizmente, os invejosos não querem que os outros tenham aquilo que eles mesmos não possuem. 

Levado ao Sebastião Salviano, o radio-técnico da cidade, lhe foi dada a triste notícia que o rádio havia recebido uma sobrecarga elétrica e, com isso, teria queimado algumas válvulas, peças caras e que todo dono de rádio temia acontecer.

Enquanto dona Lira e alguns vizinhos diziam que o verdadeiro motivo do problema havia sido o não cumprimento da promessa por ele, o seu marido, bêbado feito um gambá, dizia para todo mundo escutar:

--- Eu falei que esse santo não prestava. Eu nunca vi falar nele. Dá e toma. É um Tadeu que deu e num deu. Santo prá mim é São José o resto é resto. E dispois tem mais: já qui ia pidi pra quê num pidiu prá Jesus Cristo, num é ele o chefe dos santos??!!! Ora só! Cumigo é no pé do pau!

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos mg

sábado, 7 de setembro de 2013

Eu, Um Menino Empata-Foda

Foto para ilustração do texto

ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O lIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.