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sábado, 6 de agosto de 2011

DESNUDANDO A VIDA

     

---- A lavagem cerebral que os líderes religiosos desenvolvem na cabeça das pessoas vem mudando o comportamento dos fiéis conscientes da necessidade da religião na vida do filho de Deus, principalmente da Igreja Católica, --- a minha igreja. ---- Enquanto isso não há debate sobre a séria questão que envolve o celibato, talvez o ponto crucial que denigre a imagem da igreja e permanece adormecido.

Recentemente, o Papa Francisco disse que o celibato não é um dogma de Igreja, apesar da claridade da frase, eu gostei muito de ouvir isso, principalmente quando ele disse que vai rever essa questão.

Parece-me que existem padres que se esquecem de que uma religião é uma tese onde se discute a própria tese. Portanto, um padre, a meu ver, deve antes de ser padre, saber ouvir, falar e calar diante de certas questões. Há sacerdotes que vivem confusos entre os palcos da vida religiosa e os palcos das canções e dos espetáculos, nem tanto religiosos.

Apesar de respeitar a profissão religiosa eu discordo quando vejo um padre defender com unhas e dentes o celibato clerical. Se ele diz, por si, sobre o celibato, tudo bem, é uma questão subjetiva. Agora, se diz por um todo, ele está, completamente equivocado.

Subentendo, todavia, que os padres falam por si como, também, manifestam as suas opiniões pluralizadas. Existem padres que se sentem indignados quando vê a sociedade se manifestar sobre o celibato como mera restrição sexual. ----- Eu acho que a sociedade está também indignada de ver um celibato descumprido e corroído pela pedofilia. Celibato que oculta tendências homossexuais para aqueles que as têm e não quer expô-las.

Acho que defender o celibato, nestas alturas do campeonato, seria um tanto arriscado para qualquer padre. Esta questão anda muito evidente na vida católica, contudo, está mais do que claro que um sacerdote que se beneficia do celibato tem mais é que defendê-lo, mesmo sabendo que estará prejudicando a igreja. 

O celibato tornou-se numa questão política; interessante e atraente àqueles cujo casamento não lhes oferece conforto e o estado de solteiro incomoda a sociedade.

O celibato não tem amparo bíblico. E se não tem amparo bíblico e perdura por tanto tempo, podemos imaginar que a escolha, por ser padre, tem sido uma conveniência isolada onde, por si, é encontrada a solução de um problema pessoal,  perante a sociedade organizada.

Bastaria à conscientização do candidato a padre sobre a necessidade de ser solteiro ou não. E para quê celibato? Portanto, está mais do que provado de que as justificativas oriundas dos defensores do celibato são vazias e sem cerne. Um homem que não alimenta o desejo de ter um filho, de ter uma esposa é, no mínimo, um conselheiro teórico e a teoria não acoplada à prática não tem consistência.

O celibato esta relacionado com o homossexualismo, com a pedofilia e até com a prostituição. A prova maior disso são os casos de padres pedófilos, homossexuais e deturpadores de famílias que povoam a Igreja Católica e que a mídia divulga, constantemente, e nem o Papa encontra uma solução para moralizar isso.

Um padre renunciar a uma família para se dedicar à evangelização?! Como se explica, então, o fato dos apóstolos de Cristo, exceto João, terem sido casados? ------- Os médicos, com o seu Juramento de Hipócrates, pela tarefa de defender a vida humana em todos os momentos de suas vidas. Juramento que, inclusive, faz prevenção sobre as concepções religiosas. Mais ainda: e essa ociosidade visível dos padres, dentro das Igrejas?

O Crime do Padre Amaro, história de Eça de Queiroz, encontra-se em evidência nos dias atuais. O celibato fez, faz e continuará fazendo as suas vítimas: filhos órfãos de pai, pedofilia e prostituição.

Se a verdade está na Bíblia Sagrada, como dizem, os que defendem o celibato estão indo de encontro aos ensinamentos bíblicos em Gênesis:

1-27: “Deus criou o homem a sua imagem. Criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: Frutificai e multiplicai-vos”.


“Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.”. 2.18

2.22: “Deus fez uma mulher e levou-a para junto do homem”. 

2.24 “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para unir-se a sua mulher”

O celibato é um armário que guarda um pecado da Igreja!

 Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

UM CHUMBO NA ASA


Wanderley Alvarenga

Há certos momentos em que somos levados a um passado distante. É como se olhássemos de repente no retrovisor de nossas vidas e lá estivesse à mostra algo quase esquecido. ----- Basta, às vezes, um pequeno fato para que se abram as cortinas de nossa mente e nos faça presente o que teria nos marcados na vida.

Ontem, quando eu saboreava um tutu de feijão daqueles para mineiro nenhum botar defeito, veio à tona de minha memória o nome de um grande amigo já falecido: Wanderley Alvarenga, conhecido por Lei Careta. ----- E naquela sintonia entre o cérebro, a boca e o estômago, eu puxo a ponta de uma meada vinda de um estímulo neurônico me fornecendo uma frequência, o que me fez experimentar um reflexo engastalhado no meu cérebro mesclado de tutu de feijão.  

 Ley Careta tinha um barzinho junto ao cinema, e no fim da noite, quando ia fechar o estabelecimento, pegava a sua marmita e fazia sob um pequeno fogareiro aquela porção de tutu, do qual me era dado algumas colheradas para tirar o gosto de uma cachaça João Marques, a pinga famosa em Candeias naquele tempo quando ainda não existia a João Cassiano.

Eu, na flor da minha juventude, diante daquelas colheradas do saboroso tutu de feijão do Ley, mais a dose de cachaça do João Marques, por pouco não sentia um orgasmo alimentar à moda, Gabi Jones, aquela americana que sentia um orgasmo quando comia os seus alimentos preferidos.

Tínhamos uma diferença de idade de quase dez anos. Portanto, fiz dele um professor na minha escola da vida. Não teria sido um bom professor se eu tivesse sido um aluno exemplar. Infelizmente o meu grande amigo Ley exagerava na bebida e não relacionava bem com a família. Tinha sérios problemas psicológicos e o final de sua vida foi dramático. Mas era um amigo que eu prezava muito e o entendia. Eu sempre fui para ele uma caixa de desabafo. Não sei porque ele confiava tanto em mim. ---- Éramos tão amigos que ele me convidou para ser seu compadre antes mesmo de se casar: “Um dia Armando, você será o padrinho do meu primogênito”. E assim fui quando nasceu o seu primeiro filho o Cristian Alvarenga. E ele nunca mais me chamou de Armando e sim de compadre.

De repente, numa evocação virtual sinto-me tomado por um transe mediúnico e volto ao passado, bem no início da nossa amizade, quando eu entrava na adolescência e o meu amigo Ley já era um rapaz adulto.
Eu um meninão inocente, muito mais bobo do que inocente. Época em que entrava para a escola do mundo e recebia algumas aulas do Ley. E numa mexida no retrovisor da minha vida vejo, lá atrás, eu e o meu amigo descendo a Avenida 17 de dezembro:

---Armando, amanhã eu vou a Campo Belo. Vamos?

---Você vai de quê?

---De carona no caminhão leiteiro do Renato do Zico.

 (Nesse tempo não havia ônibus para Campo Belo, era o trem em apenas um horário e uma jardineira, somente na parte da tarde. O caminhão leiteiro era um transporte para quem ia até Campo Belo na parte da manhã. Caso contrário tinha que dormir lá.)

 ---Vai fazer o que lá, nessa poeirada toda?

 (Ainda não havia estrada asfaltada para Campo Belo nesse tempo, era a estradinha passando pelos arrudas)

 ---Vou consultar.

---Consultar? Você está doente?

---Bem! Estou e não estou!

--- Se não está porque vai consultar?

---Eu estou com um pequeno problema.

---Se é pequeno, vai ao Posto daqui...

---Não, não posso. Eu tenho vergonha do Dr. Zoroastro.

---Vergonha de quê?

---É um negócio meio complicado.

---Complicado como?

---Eu peguei um negócio aí.

---Negócio? Que negócio?

---Olha, Armando, eu vou contar, mas não espalha tá?

---Tudo bem! Mas o que é?

---Tomei um chumbo na asa?

---Chumbo na asa? O que é isso?

---Doença!

---Você disse que não está doente!

---Bem quero dizer... Mais ou menos...

---Eu não estou entendendo. Você está ou não está doente?

---Estou com um incômodo. Bem, acaba sendo doença.

---Mas que diabo de doença é essa que é e não é?

---Doença de rua.

---Doença de rua!? E o que é doença de rua?

---Blenorragia.

---Nunca vi falar nisso?

---É o mesmo que gonorreia.

---Gonorreia? E o que é isso?

---Doença de rua...

---Mas que diabo de doença é essa? Afinal onde dói em você?

---No pênis...

---O que é pênis?

---O Pinto.

---O quê? Você está com pinto doente? Nossa!

---E onde você arrumou isso?

---No Zé Bolinha.

---Quem é Zé Bolinha?

---O dono do cabaré.

---Cabaré?!... E ele te pegou a doença?

---Não!!! Foi uma das mulheres dele!!!!! 

---O quê? A mulher dele te pegou doença no pinto?

---Ah, Armando, Assim, não dá você é bobo demais!

 (E o meu amigo Ley tinha razão, eu era bobo demais)

 Coitado do Ley. Ficou desorientado com o chumbo na asa. Afinal, pinto que leva chumbo na asa não consegue trepar no poleiro...

 Que Deus o tenha meu amigo! Onde quer que esteja receba o meu abraço.---

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

AS MÃOS DO DENTISTA




 É de todo patente que a precariedade do serviço odontológico do tempo do Brasil Colônia, se estendeu por muitos anos afora. Teria sido durante muito tempo restrito a extração de dentes. No início essa atividade teria sido exercida por pessoas ignorantes que sequer entendiam o perigo que colocavam em risco a saúde daqueles que usavam os seus serviços. Esses profissionais não viviam apenas disso. Eram barbeiros, curandeiros, enfermeiro e sangradores.

Os médicos da época se negavam a fazer esse tipo de serviço. Eles alegavam que perderiam o tato das mãos leves para a hora de uma cirurgia mais frágil. Como as pessoas que faziam esse trabalho eram vistas como corajosos astuciosos e impassíveis, subentende-se que os médicos tinham era medo de exercer a odontologia.

Com o tempo à medida que a coisa foi se desenvolvendo, foram surgindo os famigerados “práticos”. Profissionais que exerceram por longo tempo a profissão de dentista sem a mínima condição técnica ou conhecimento básico sobre aquilo que estavam fazendo. ---- Um aprendia com o outro e já abria a sua “portinha”. Não tinham sequer, o cuidado necessário contra as infecções, inclusive com a falta de higiene. É verdade que existiam alguns mais cuidadosos, mas mesmo assim, vendo os cuidados de hoje em dia, a gente pode observar que a lambança naquele tempo era generalizada.

Esses práticos, os mais organizados, tinham uma autorização governamental, mas para isso precisavam provar que já possuíam acima de dois anos de prática e essa prática eles conseguiam fazendo as maiores barbaridades. A maior parte desses profissionais trabalhava clandestinamente.

A extração de dentes era a maior função dos práticos. Parece que eles preferiam vender dentaduras. Arrancava os dentes. Isso demorava um século. Depois tinha que ficar com a boca sem dentes por muito tempo. Os práticos alegavam que a boca teria que ficar murcha para a dentadura não ficar bamba. ---- Muitos desistiam da dentadura para evitar o suplicio de ter que acostumar com aquela ferradura na boca. Os dentistas práticos recomendavam que à medida que a dentadura nova fosse pegando a gengiva, deveria ser raspada no local com o canivete. ---- O único medicamento que eles conheciam era o cibazol, um comprimido para tirar dores e que acabou tão desmoralizado que hoje além de não existir tornou-se sinônimo de coisa que não vale nada.

As obturações existiam, mas eram tratadas quando o dente já teria sido tomado quase todo. Eram feitas em ouro que os dentistas compravam dos coveiros do cemitério, verdadeiros mineradores nas covas dos defuntos. --- Os coveiros sabiam perfeitamente onde teria sido enterrado um defunto com bastante ouro na boca. ---- Quase não existiam nesse tempo, em Candeias, túmulos. As pessoas eram enterradas no chão.

Outra gambiarra dos práticos era o pino do pivô, uma colocação de um dente postiço na raiz aproveitada do dente natural. Para isso costumava-se usar para pino agulhas de radiola. E quando o paciente usava o dente de mau jeito a fusão se desfazia, soltando o dente postiço, ficando aquela ponta de pino exposta. A maior parte das pessoas não voltava ao dentista e dava o seu sorriso com aqueles pinos expostos. Era triste!

A primeira vez que fui a um dentista está bem guardada nos labirintos da minha memória. São cicatrizes psicológicas que jamais vão desaparecer de mim e que para elas dificilmente poderiam existir uma plástica mental. ---- Lembro-me de quando fui seguro na cadeira, a pedido do dentista, pelo Ximango, um negão de todo tamanho. Isso por estar inquieto com um dente tumoroso e o rosto todo inchado. Meu pai saiu de perto porque não quis ver o meu sofrimento. ----- Numa segunda vez lembro-me de que fui tocado com o "ferrinho" com todo descuido no nervo de um dente doente. Só de me lembrar disso, arrepiam-me as canelas.

Esta casa branca, situada na Rua José Hilário, em Candeias, MG, antigamente ficava num barranco quando a rua ainda não era calçada. Ali estava estabelecido o gabinete  dentário do Sr. Boanerges Pacheco, sem diploma, um dos chamados "dentistas práticos". Num tempo que a odontologia ainda engatinhava no Brasil e em Candeias estava parada. ----- No lugar da janela era a porta de entrada para o gabinete, que não possuía sala de espera; e a clientela se amontoava e aguardando a sua vez do lado de fora. 

Nesse tempo, em Candeias não havia dentistas formados. Eram apenas os chamados práticos. Profissionais sem formação nenhuma. Era um prático ensinando ao outro.

Eu não tenho vergonha de dizer que morro de medo de dentista. Tenho pavor de jaleco branco. Minha pressão sobe, ela que é 12x8 já chegou a 18, certa vez em Governador Valadares eu cheguei a pensar que ia morrer.

A imagem do dentista me apavora. Aquele barulho de seus instrumentos me deixa impotente, frágil e com medo até da morte. Eu não consigo ver o dentista como alguém que vai me ajudar, vai me enfeitar a boca, tirar as dores e cuidar do meu sorriso. Eu o vejo como um verdugo. A impressão que eu tenho é de que ele gosta de judiar de mim. Se ao mexer em minha boca, o dentista der um sorriso qualquer, eu me irrito. Se não abre a cara eu tenho medo.

Eu não queria sentir isso, mas não está em mim. Eu já rezei, pedi a Deus para me tirar isso, mas é tão difícil.

O ultimo dos dentistas que mexeu em minha boca me pareceu não ser tão carrasco. Ele notou que eu era um “cagão” e me deu papo. Entrou com uns assuntos diferentes, falou de pescaria, e eu nada. Falou de futebol e eu nada. Falou de cerveja e eu nada. Até que ele falou em música, de cantores que a mãe dele gostava e fora fã. Perguntou-me se eu os tinha conhecido, como Jackson do Pandeiro, Carlos Galhardo, Francisco Alves e Vicente Celestino. ---- Daí eu comecei a entrar na dele.

Com esse assunto eu fui transportado há um tempo distante, vendo a minha mãe lavando roupa no tanque próximo da porta da cozinha de nossa casa, e sempre com uma música desses cantores na boca. O coração materno de Vicente Celestino; a Criança Feliz de Francisco Alves, a fascinação de Carlos Galhardo e a Sebastiana do Jacson do Pandeiro. ---- Daí ele me mandou abrir a boca e lembro-me apenas, de quando ele disse: Que vergonha, um gerente de Banco com uma cárie desse tamanho. E ligou o motorzinho... ---- Nesse momento não me faltou vontade de sair voando pela janela daquele consultório.

Ele encostou o motorzinho, assentou-se de novo e perguntou-me sobre assuntos bancários, e como eu era bancário ele conseguiu me deixar mais tranquilo. ---- Notei nesse dia, que a odontologia tinha realmente melhorado em termos dos profissionais. Precisavam acabar agora, com o jaleco branco, com o ferrinho, com as agulhadas dos anestésicos e com o barulho do maldito motorzinho.

Mesmo com a evolução da odontologia, longe daquele cheiro horrível dos produtos odontológicos, daquela cadeira de Chessman, daquela broca assassina, do boticão e do ferrinho maldito, então, ferramentas prioritárias dos dentistas, essas lembranças ficaram tão bem entranhadas nos meus neurônios que a palavra dentista ainda me assusta. A demora do tratamento. Parece-me que os dentistas não dispensam clientes por falta de tempo e com isso vai dividindo o espaço com todo mundo.

Apesar do esforço que faço, durante anos, no sentido de me conscientizar sobre esta questão, posso garantir que, ao entrar num consultório odontológico, sinto que estou indo para um gabinete próprio para um suplício.

Eu contava dezesseis anos quando fiz o meu primeiro tratamento de dentes. Até então, eu não tinha consciência do que seria isso. Eu só tinha consciência que tratamento era sinônimo de sofrimento. E para mim dentista era apenas para arrancar os dentes e colocar uma dentadura no lugar.

Para esse tratamento, eu procurei o Sr. Boanerges Pacheco. Um dentista prático que tinha grande clientela por ter um preço módico. Mas essa modicidade tinha um preço também. Lembro-me que fui ao seu gabinete (os práticos davam aos consultórios o nome de gabinete) e fiz um orçamento para tratar três obturações. Isso demorou três semanas. Eu já trazia comigo a maldita lembrança da minha apresentação ao mundo dos dentistas, quando fui seguro pelo Ximango na cadeira, como se estivesse sendo castigado por algum crime. Talvez, pelo meu estado apreensivo, Boanerges evitava mexer por muito tempo na minha boca. Era um zás-trás e pronto, já me mandava voltar num outro dia. Eu nunca entendi tanta demora. Parecia que uma cárie não era uma simples corrosão e sim um esbarrancado.

Como eu já fumava nesse tempo, o serviço incluía uma limpeza geral no final do tratamento com um produto para clarear os dentes.

Assim, no último dia, minutos antes desse processo de limpeza, Boanerges me pede licença e entrou num pequeno banheiro que tinha no seu gabinete. Cá de fora, eu pude receber os estrondos que os seus intestinos forneciam aos meus ouvidos. Depois de algum tempo, ele sai, lá de dentro, sem passar as mãos por qualquer torneira e as enfia dentro de minha boca a fim de isolar com algodão a pele dos dentes onde iria usar o tal branqueador. Foi quando eu senti um cheiro horrível de fezes.

Ao fazer a aplicação daquele medicamento, nos meus dentes, comentou tranquilo: “O Vadinho da Sota me falou que esse remédio tem gosto de bosta”.

Eu não tive ânimo para achar graça do comentário. Não só pelo fato de nunca ter comido bosta para identificar o gosto, mas com certeza ficou a suspeita de que o cheiro havia sim, mas sei lá se era do remédio ou de suas mãos.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

(Cronica relacionada: A BOCA E A VAGINA -

Clique aqui: https://candeiasmg.blogspot.com/2011/08/boca-e-vagina.html

















sexta-feira, 22 de julho de 2011

DONA ESTER

                                                                               CRUZEIRO DO JOSINO
Hoje, como às vezes acontece comigo, amanheci com o desejo veemente de colocar a minha conversa em dia com os Céus. Portanto, resolvi ir até ao Cruzeiro do Josino, ponto preferido por mim para falar com Deus. Fui pedir ajuda - entregar os meus pecados e agradecer tudo aquilo que recebo diante da missão que me foi dada aqui neste mundo, no sentido de contribuir com a obra da Sua criação.

Ali, aos pés daquela cruz campal, símbolo maior da redenção cristã, onde, há sessenta anos eu faço as minhas orações e as minhas meditações, abri um dos mais queridos estojos da minha infância e me encontrei com Dona Ester. Era ela minha vizinha de quem eu guardo nítidas lembranças pelo carinho que me dedicou, quando eu me encontrava na flor da idade. Muitas foram às vezes que nos ajoelhamos aos pés daquela cruz e rezamos juntos. Agora, com certeza, estará noutra das muitas moradas da casa do Pai (São João 14/2).
Que saudade eu senti naquele momento de Dona Ester!...
Retroagindo pela estrada do tempo, volto à minha infância e sinto a presença de Dona Ester dando-me a sua melhor atenção como que alguém muito importante para ela.

Natural da cidade de Itumirim/ MG, na região de Lavras, veio trazida para Candeias através das águas do destino como uma ave aquática extraviada da sua rota. Aqui, se aportou na busca de novos ares e de algo que pudesse atender a sua vida vazia, visto que teria vivido de preencher o vazio dos outros, sem nenhuma resposta. 

Seu comportamento, involuntário, não atendia os preceitos da sociedade hipócrita e inescrupulosa.  Época em que um agouro do destino arrebatava quaisquer sentimentos louváveis. Era um tempo em que a prostituição tinha diversos segmentos e, entre esses, a fome, a miséria e o meio de onde é feito o homem como produto excluso. Dona Ester era uma vítima social julgada como ré por um tribunal sem consciência.

Seu desejo de ter um lar lhe foi concedido por Deus. Contudo, os filhos lhe foram negados. Casou-se, já idosa, com João de Paiva que lhe acolheu após a sua travessia num revolto mar da vida. Desde então, se tornou integrante da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, quando ostentava o seu vestido de tricoline preto e uma fita de seda vermelha ao pescoço como insígnia da confraria. Teria sido um presente do marido que a fez muito feliz. Aquele vestido preto, talvez, tivesse dado a Dona Ester uma emoção muito maior do que o branco vestido de noiva que jamais teria usado.

Agora, perante a Igreja Católica, parece que Dona Ester teria se tornado filha de Deus por ter se casado de acordo com as suas regras.

Era uma vida modesta. Seu marido um pedreiro do padrão: meia-colher e, às vezes, lhe faltava serviço. Dona Ester, com a sua hábil maneira de economizar, fazia com que não lhes faltassem nada. Chegou a juntar dinheiro com o qual comprou um rádio usado sendo, naquela época, um aparelho caro, mas, que lhe proporcionava acompanhar, diariamente, o terço através da Rádio Nove de Julho, de São Paulo. Emissora que veio, posteriormente, a ser fechada pela Ditadura Militar e reaberta anos depois.

Dona Ester gostava de ir ao mato catar garavetos e sempre me levava com ela, como companhia. E lá no mato, era aquela preocupação comigo: "Armando! Cuidado, meu filho! Olha no chão para ver se não tem cobra!"

E eu, com os meus olhos de menino descuidado, nem sei se olhava para o chão. O que eu queria, no entanto, era encontrar as frutas do mato, naquele tempo fartas na região de Candeias, como a guabiroba, goiabinha, pequi, araçá, araticum, marmelada-de-cachorro e muitas outras espécies de frutas silvestres das quais eu tanto gostava e que só existem, hoje, nas minhas lembranças. Cada uma tinha o seu mês. A guabiroba, por exemplo, era de outubro a novembro. A marmelada-de-cachorro era farta no mês de dezembro. No mês de janeiro, os animais nadavam e rolavam no pequi. O araçá e o araticum perfumavam o cerrado no mês de março.

Ainda guardo, na minha memória, um pé de limãozinho doce que existia próximo de onde está, hoje, a COPASA, no Bairro Rio Branco. Como Dona Ester gostava daqueles limõezinhos! O pé era muito alto e a gente tinha que levar um bambu para apanhá-los. Às vezes, eu insistia em subir no pé para colher a fruta da sua preferência, mas, ela não deixava. Temia que eu viesse a cair do galho.

Dona Ester sabia tudo e me ensinava tudo. Eu a ouvia, atentamente, quando falava. E como eu gostava de vê-la chamar-me de meu filho! O meu coração tinha lugar para muitas mães e eu a coloquei dentro dele como uma de minhas mães.

Éramos vizinhos de frente. Na sua casa, ela não comia nada diferente sem guardar uma prova para mim. Ela criava uma carneira dentro de casa e parece que o animal gostava de mim também. A ovelha era tida como filha.Tratada como “bitinha” da qual tirou lã até completar uma colcha para se agasalhar como se fosse aquilo o calor do animal querido.

Quando a seca chegava e a chuva não vinha, íamos juntos molhar o pé da cruz e pedir auxílio aos Céus. Devota fervorosa de São Benedito e São José, dizia sempre que os seus santos nos aliviariam da seca mandando chuva.

As pessoas que adoeciam na vizinhança tinham uma aliada fiel. Preocupava-se com o doente como se fosse um parente seu.

Quanta saudade eu sinto de Dona Ester! Lembro-me de suas risadas mostrando uma boca sem dentes. Exaltando as rugas de um rosto sofrido. Os cabelos brancos levando a saúde e matando a juventude. Um corpo flácido e fatigado pelo tempo dando mostras de uma vida em decadência; coberto, constantemente, por um vestido de tecido grosso, descorado e desgastado. Um corpo sem o viço de outrora, estampado numa velha fotografia amarelada e dependurada junto de um quadro da Santíssima Trindade na sala de sua casa.

Onde quer que você esteja Dona Ester, obrigado pela presença constante na história da minha vida. Receba de coração o meu o meu abraço, o meu beijo, o meu carinho e a minha saudade. Com certeza, a paz do Senhor estará sempre com você porque você merece.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

sábado, 16 de julho de 2011

O CAÇADOR DE TATU

  Certa vez quando eu viajava de Candeias para a cidade de Formiga, durante a noite, passou pela frente do meu carro um tatu e eu tive que quase parar para não atropela-lo Era um tatu-galinha, daqueles pequenos, cuja carne sempre foi muito admirada pelos caçadores. Diante do fato, veio à tona de minha memória a imagem de uma caçada de tatu da qual eu teria participado anos antes.

Antônio Tatu, como era bem conhecido, viera da comunidade dos Vieiras, município de Candeias, para residir na cidade. Caçava tatu por encomenda e servia aos seus fregueses, admiradores da carne do bicho.
---- Contava, mais ou menos, uns quarenta anos. Era um elemento magricelo, alto, pouca barba e um bigode espesso. Olhos azuis; testa longa e cabelos castanhos bem claros, quase louros, descendo à nuca.  --- Seus trajes, para não considerá-los descorados, eu os diria da cor do chão.

Tinha duas profissões pelas quais era muito procurado. Uma delas era executada durante o dia, quando furava fossas e cisternas. Candeias nesse tempo não tinha sistema de água e esgoto autossuficiente então as foças e cE a outra era a caçada de tatu que fazia à noite. Trabalho que lhe valeu o apelido de Antônio Tatu. --- Ele sempre brincava dizendo que durante ele furava o buraco e à noite caçava no buraco. Porquanto, muita gente pensava que o seu apelido era devido ao fato de ser furador de buracos de fossas e cisternas.

E foi numa caçada dessas que Antônio levou consigo alguns convidados entre eles o meu pai, então, curioso para ver como era caçado o pobre silvestre. E nesta comitiva, eu já me fiz incluso de “contrapeso”, pois, como dizia minha mãe, eu era o rabo do meu pai. E foi uma experiência muito ruim para os meus olhos de menino. Assistir o que me deixou muito abismado.

Um grupo de quatro pessoas perseguia o animal através dos cães. Quando um cachorro dava o sinal de que teria localizado o buraco onde o bicho se encontrava. ---- Ao ser percebido pelo cachorro, o animal corria e se escondia no buraco e este viria a ser localizado pelo cão especializado em caçadas de tatu.
 
Assim, o cão ficava a latir ali na entrada do buraco até a chegada dos caçadores que vinham em disparada, mato afora, a fim de pegar a caça numa verdadeira extravagância física. Ora tropeçando em tocos, ora levando cerca de arame no peito devido ao escuro.

Diante desse flagelo sobre si, o animal aplica a sua defesa abrindo a sua carapaça e se prendendo nas paredes do buraco. Daí, o caçador, usando a arma própria, ou seja, um arpão tipo de uma seta de ferro, afixada na ponta de um cabo de vassoura, o introduz no ânus do pobre animal deixando-o imobilizado. (Ai que dó) Quando não se consegue puxar o bicho pelo rabo, faz-se uma cava ao redor do buraco até alcança-lo e tê-lo em mãos.

Sinceramente, ao presenciar esse tipo de caçada, eu me senti sensibilizado e deduzi que os caçadores são frios e trazem consigo uma índole maldosa. No caso da caçada de tatu, dá para sentir que a fazem com certo requinte de maldade. É uma morte torturante! E eu não gostei de ver aquilo.

Felizmente, com as leis que protege a matança desses animais, isso vai se tornando coisa do passado, apesar de que deve,  ainda,  existir, por aí, muitos caçadores de tatu e, obviamente, de outros animais. Afinal, o Brasil é o país da clandestinidade e da impunidade diante do descumprimento das leis.

Mas, mudando o assunto de pau para cavaco sem deixar o caçador de tatu de lado, eu, escarafunchando a minha memória, consigo me lembrar de um caso hilariante acontecido com o Antônio Tatu, tão logo tenha vindo dos Vieiras, quando se estabeleceu na cidade com a sua família. Ele tinha um filho meio louro e que estava sempre em sua companhia. Era o seu ajudante furando o chão e nas caçadas de tatu. A meninada o chamava de Tatuzinho.

 Onde um punha o pé, o outro punha o nariz. Os dois, portanto, tinham uma curiosidade em comum: tão logo vieram da roça, queriam conhecer o cinema. Para quem até então vivera na zona rural, pouco conhecia as coisas da cidade, vir a conhecer o cinema seria uma curiosidade natural ao ter ouvido contar as histórias da cidade, o cinema era realmente uma coisa extremamente curiosa para eles.

Foi chegado o grande dia. Antônio Tatu e Tatuzinho iriam ao cinema. E o filme seria com o maior ator de cinema de faroeste da época, Roy Rogers, com o seu cavalo branco, o famoso Trigger.

Num determinado momento, Antônio Tatu dá um grito dentro do cinema por ter visto alguém de tocaia: “Nossa Mãe do Céu!”.

O mais engraçado aconteceria no outro dia, quando Antônio Tatu e Tatuzinho tentavam contar aos amigos o que teriam achado do filme:

“---Um cavalo bunito dimais da conta! Mas, o cavalero num sabia nem fala. Era um bobão. Paricia que aquele povo do cinema falava igual índio ou a língua deles é incravada até na goela: ---- Um chegou perto do outro e falou assim: Roça run Ual... Roça cau, cau. Aí,cão ratiu. Daí, deu um murro no outro e saiu dano tiro pra tudo quanto é lado. Cubo rau. bummmmmmmmmmm. Tinha hora que o povo até ria deles de tão bobo que eles era”.

Nunca mais ouvi falar de Antônio Tatu e nem do seu filho, Tatuzinho. E assim, o mamífero noctívago pôde apreciar a lua com tranquilidade sem o risco de levar uma fisgada no traseiro pelo arpão do jeca o que, a meu ver, é a morte mais triste do mundo.  Instrumento de caçar o tatú... Ai que dó!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O VASO SANITÁRIO 2

Continuação:
              O conflito familiar há de sempre existir e dele, nem sempre, poderemos nos livrar. Existem famílias que, por uma pequena questão, fazem um barulho danado. Ofendem-se, uns aos outros. Batem o tempo todo na mesma tecla e, quase nunca, chegam a um denominador comum. Interessante é que as pessoas mais amadas por si são as que mais se ofendem e mais se agridem. Comumente, vemos pais criticarem os seus filhos sem o mínimo de respeito para isso. No caso daquela família minha vizinha, na qual houvera uma grande discussão, em torno de um vaso sanitário, dá para ver que era uma questão tão simples e que virou um verdadeiro suplício, sem a menor necessidade. É bem certo que aquela filha, a Maria Isabel, sofria de um distúrbio e, naturalmente, precisava de um tratamento psicológico.

Viu-se a família diante de um estorvo. Afinal de contas, o velho estava fazendo grande imundície no quarto ao usar o urinol com a mão trêmula. E a mãe, para não deixar a filha alarmada, ocultava a dimensão do problema sabendo, de antemão, como seria a sua reação. A sugestão dada por alguém, no sentido de aderirem ao uso daquele mecanismo, era promissora e via-se, nisso, a solução do problema.

Era preciso fazer algo no sentido de convencer Maria Isabel a permitir a colocação do vaso sanitário dentro de casa.

Estudada a questão em família, lembrou-se que Maria Isabel poderia obedecer apenas ao seu tio José Luiz, seu padrinho de batismo, sem filhos herdeiros e que, supostamente, a faria sua herdeira. Padrinho Zé Luiz era como um ídolo para ela e esta para ele, a afilhada do coração. O velho Joaquim resolveu chamar o seu irmão para intervir na questão.

José Luiz, com a sua solércia muito considerada na família, não teve dificuldade de fazer a excêntrica afilhada aceitar a colocação do vaso no seio da intimidade familiar. E isso foi feito imediatamente, dentro de poucos dias, tão logo foi dado o sinal verde pela mandona que o fez contra a sua vontade, mas, não poderia deixar de atender ao padrinho.

Sabe-se que o compartimento foi construído sob o rigor das suas exigências, como por exemplo: porta sem frestas e janela protegida com filó para não correr qualquer risco da entrada de moscas.

 Posteriormente, parecia correr tudo bem. Supunha-se que a questão do vaso fora superada, até que um dia, um fato novo veio a acontecer em torno da mesma questão.

Sabendo do estado de saúde que se encontrava o velho Joaquim, sua irmã mais nova, moradora no Estado de Goiás, resolve vir até Candeias fazer uma visita ao irmão mais velho. Tratava-se de uma mulher casada, separada do marido e que segundo as informações captadas pelos meus eficientes ouvidos, era tipo tico-tico no fubá. Chamava-se Rosa. 

Era uma mulher robusta, bem vestida, cabelos curtos, sorriso largo, cheia de maquiagem, batom cor de sangue, unhas bem cuidadas, brincos argolados e realçados. Enfim, era do padrão perua. Seu perfil não seria de uma pessoa acostumada com a lida doméstica. Além disso, gostava de degustar uma cervejinha quebrando o gelo com uma cachacinha e tira-gosto com carne. Nesses dias, a casa virou uma fartura. Era carne fritando, assando, cozinhando e o cheiro ia longe. Meu pobre narizinho que o diga... E a coroa, ainda enquadrada na idade fértil, dava sinais de querer um homem. Às vezes, ouvia-se dela a esnobação no seu palavreado quando dizia que ainda se ajeitava com rapazes mais jovens do que ela e aconselhava: O homem é um diabo não tem mulher que negue, mas, eu gosto de um diabo que me carregue!” Vocês precisa casar, Gente!” E dava aquela gaitada de deboche.

A bem da verdade, a presença de Rosa, naquela residência, não foi uma festa íntima para a Maria Isabel que ia à frente limpando e ela, atrás, sujando. A sobrinha achava que a tia estava de sobra e já dava a entender de que não via a hora daquela depravada zarpar do seu porto de águas mansas, agora, turbulentas por sua presença.

Finalmente, é chegado o dia da partida. Após dez dias de agitação, a família, agora, poderia respirar um pouco mais sossegada, sem a presença de alguém, totalmente diferente e portadora de princípios incompatíveis.

Rosa não iria viajar diretamente para Goiás. Ele iria sair de madrugada com destino aos Baiões, onde tinhas parentes e dali seguiria para Formiga, a fim de ver outra parte da família. Essa viagem ela faria de caminhão leiteiro. Portanto se levantou, bem cedo, no dia da sua partida. Já pelas quatro horas da manhã, pudemos ouvir o barulho do pilão, socando o café torrado. Agradeciam o feijão roxinho que teria vindo de presente. E pediam que a volta não fosse mais tão demorada. Claro, que essas recomendações eram da boca pra fora, principalmente, por parte da Maria Isabel que já não tinha mais onde guardar tanta indignação.

Parecia uma festa. A Rosa porque partia de regresso, após dias de descanso e de bebedeira. Os parentes porque se viam livres daquela pessoa deturpada e de língua solta. Não só a língua era solta, visto que, quando entrava para o gabinete sanitário, sem nenhum escrúpulo, soltava as suas estrondosas ventosidades fétidas, detonando o ambiente, deixando aquele povo assustado diante de apoucada educação. Tal comportamento levava Maria Isabel às portas do desespero o que lhe fazia valer dos mais impregnados comentários quando de sua ausência.

--- Visita igual essa, mamãe, o diabo caga os monte e ainda fica com o rabo cheio. Se essa praga num fô imbora, eu vou morrê!

E a família sempre pondo um pano quente no ambiente. Mas, a cada dia, a coisa estava ficando mais difícil. Portanto, a partida de Rosa seria um alívio imediato, pois, sem dúvida, esta estava sendo ali uma “persona non grata”.

Ela dava sinal de quem tinha um bom poder aquisitivo. Teria trazido presente para todo mundo e prometia voltar mais amiúde e nunca esquecer de trazer do feijão roxinho. Lembro-me de ouvir o velho dizer: Feijão roxinho igual do Goiás num tem!

Maria Isabel, imediatamente após a partida de Rosa, foi vasculhar o banheiro e o que encontrou foi um vaso entupido, com os dejetos saltando a boca do vaso e se esparramando sobre o piso do aposento.

Que desespero! A vizinhança toda tomou conhecimento de que algo errado havia acontecido ali. A dona Ester, vizinha de frente, chegou a pensar que o velho estava morrendo. Maria Isabel falava alto:

---Aquela porca! Aquela lambona! Aquela desaprumada! Aposto que é o tal de modis que ela comprou na farmácia do Wardemar. Por que não usou paninho?! Essa porcaria intupiu o vaso, mas, não intupiu ela. Mardito vaso.

Olha! Eu vou ficar por aqui. Acho que não há necessidade de falar mais. Eu tive muita dó da Rosa porque se as pragas proferidas pela Maria Isabel lhe tocaram a coitada terá chegado a Goiás aos pedaços.

Viver é um negócio complicado!

 Armando Melo de Castro