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quinta-feira, 19 de julho de 2012

O MEU COLEGA PATAUZINHO.



                                        Foto para ilustração do texto.

No ano de 1953, a minha professora se chamava Maria do Carmo Alvarenga. Era esposa do Sr. Alberto Virgílio Ribeiro, o Tinho do Sô Nico que, naquele tempo, tinha um carro de praça. Era um carro antigo que ficava estacionado à frente de sua casa, na praça, entre a oficina do Nestor e a Casa Celestino Bonaccorsi. Naquela época, os nomes das coisas eram diferentes. Matula passou, depois, para merenda. Merenda passou para lanche, como se diz hoje. E carro de praça é, hoje em dia, chamado de táxi. Naturalmente, carro de praça teria sido uma nomenclatura vinda dos tempos das carruagens, quando os veículos eram de tração animal. 

Eu era um menino bobo, só não babava, mas morria de vergonha de tudo e de todos. Quando minha mãe me ordenava a ir buscar algo na loja do Bonaccorsi, eu quase morria só de pensar em encontrar com a Dona Maria do Carmo que estava sempre entrando e saindo daquela loja porque morava ao lado. Tinha, também, medo de que ela chegasse à janela no momento em que eu fosse passando. Então, eu dava a volta, passava defronte ao Bar Piloto, e chegava ao comércio do Bonaccorsi do lado contrário. Hoje, quando me lembro disso, eu chego a sentir vergonha de mim mesmo por ter sido tão bobo quando tinha lá os meus oito anos.

Dona Maria do Carmo foi colega de infância de minha mãe e residia, na cidade de Formiga. Eu a tenho guardada, bem guardada, em minhas memórias. Certa vez, fui visitá-la em sua residência e fiquei muito feliz por encontra-la ainda lúcida, após muitos anos sem vê-la. Naquele momento me transportei para o ano de 1953, quando teria sido a minha professora, e posteriormente a diretora do meu querido Grupo Escolar Padre Américo, hoje Escola Estadual.

Era uma pessoa muito agitada e dinâmica. Como naquele tempo, os professores podiam usar da vara para corrigir os alunos, nós, os seus alunos, andávamos em um canto riscado. Se a turma não seguisse a linha que ela traçava, a vara comia e comia de verdade. Eu, como era muito bobo, tinha vergonha até mesmo de conversar com meus colegas; portanto, nunca cheguei a tomar umas lambadas dela. Entretanto, os colegas viviam com o couro quente, e até as meninas que eram muitas vezes poupadas, vez por outra, eram apalpadas pela vara de Dona do Carmo.


Eu comecei a tomar varada na escola a partir do terceiro ano, quando já teria perdido a vergonha e entrado para o clube dos bagunceiros, como Renê Ferreira, Titôco, Zé Teixeira, Marli, Tião Babão e outros. Esse ano de 1956 foi um bombardeio geral. Praticamente toda a classe foi obrigada a repetir o ano.  

Certa vez, durante o recreio, eu fui confundido com o Joel Pacheco e levei a maior surra. O Joel teria dado um murro, se me não engano, no Vicentinho Vilela, o que lhe fez brotar sangue suficiente para lambrecar a sua camisa de fustão branco. E como eu era parecido com o Joel, eu levei a pior. Apanhando sem saber o porquê; sem ter como devolver as varadas, quando ficou provado que eu era inocente.

Patauzinho, um menino muito pobre. Filho de pobre e numerosa Patau, o pai, vivia fazendo biscates para tratar da sua prole. Fazia qualquer serviço que lhe parecesse à frente. Capinar quintais, furar fossas, ir ao mato buscar lenha em uma carroça, enfim, era um pau para toda obra. Tinha vinte e uma profissões e vinte e duas necessidades.

A esposa do Patau, mãe do Patauzinho, era uma baixinha muito caprichosa. Trazia o seu marido e seus filhos muito limpos, apesar de estarem sempre com roupas remendadas.

Patauzinho era magro, anêmico, tinha a pele esbranquiçada, tostada e colada nos ossos raquíticos. Boca faltando dentes. Um cabelo empastado com uma franja querendo entrar nos olhos. Um nariz torto e um sorriso sem graça. Vivia falando que um dia haveria de ser doutor. E quando alguém lhe perguntava o que seria um doutor, ele dizia logo: “É home rico”

Levava como matula, uma mistura de farinha com açúcar colocada em um embrulho num canto da sua pasta de madeira muito mal feita pelas mãos de seu pai. Durante a aula, quando a fome apertava, ele enfiava os dedos no embrulho e jogava uma pitada da mistura na boca, tentando sempre ludibriar os olhos da fera, Dona Maria do Carmo, que passou a observá-lo, sorrateiramente. E, assim, o quadro estava como o gato vigiando o rato. De repente, quando patauzinho jogava a pitada na boca, Dona do Carmo já estava sobre a sua carteira. O retirou, levantando-o a altura dos seus seios e o jogou no chão, num gesto chamado, à época, de “balão”.

Patauzinho foi direto ao chão e, na queda, bateu com o rosto no piso e, enquanto a turma ria da contenda, Dona do Carmo sai correndo da sala e volta com um copo d’ água com açúcar, assenta o Patauzinho em sua cadeira e lhe pergunta se está com dores. Oferece-lhe algo para comer, pede alguém para ir comprar um pão e, quando chega o pão, entrega-o ao Pautauzinho que com a cara melhor do mundo, com o pão na mão, diz:

----O pai falô qui eu tenho lumbriga dimais da conta, Dona do Carmo! E aí, eu fico com medo delas me cumê, se eu num cumê matula.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos 

Um comentário:

Giuliano disse...

Ficamos tristes pelo falecimento da D. Maria do Carmo e ainda mais por saber que ela é parte de uma história que faz parte de outras tantas como a do Sr.
Que Deus a tenha.
Agora, fazendo uma observação, como os tempos mudam...
Quem diria que, hoje, um professor não poderia tocar em um aluno? Considerando esses relatos de alguém que viveu aquela época!
E numa inversão de valores: é o aluno que surra o professor! Lamentavelmente!
Seria uma revanche do destino?! Se for, já é tempo de mudanças...
Abraços.