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terça-feira, 3 de julho de 2012

A GALA DO GALO

                                                  
 Semana passada, eu saí de casa em busca de ovos caipira. Eu não consigo comer ovo de granja. Tenho a impressão de estar comendo ração. É incomparável um ovo com a gema bem amarelinha, frito e misturado no meio do arroz! A gente come quase sentindo um orgasmo. Aliás, ovo de granja não tem gameta masculino e ovo sem gameta masculino, nesse mundo de mistérios, pode ser perigoso. Sei lá se isso faz o cristão virar o disco ou virar gilete.

Conheci um barbeiro barbudo, bigodudo, com pose de machão, que comia ovo de granja todo santo dia e não era pouco não. De repente, ele passou a brincar de pinto. Pegou uma ginga nas cadeiras e suas mãos flutuavam como de quem dá um “tchauzinho”. Eu sempre fui desconfiado. Afinal de contas, nós estamos vivendo em um mundo tão esquisito, tão confuso! A ciência está sempre inventando uma novidade. Agora, por exemplo, chegou a vez do açúcar. Estão dizendo que o açúcar faz tanto mal quanto o cigarro e a bebida alcoólica. Dizem os pesquisadores que o açúcar é tóxico e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do diabetes.

É desse jeito. A cada tempo é uma novidade. Sei lá se amanhã vão dizer que o ovo de granja pode deixar o homem falando fino ou brincando de pintinho? Antigamente, homem que falasse fino pesava muito na escolha da moça na hora de encontrar um marido. Parece-me que as mulheres tem um certo receio de homem que fala fino.

Hoje, as coisas estão ficando invertidas. E como as causas são desconhecidas, eu não vou brincar com ovo de granja não. Precaução e oração nunca são demais. Tem muito homem por aí passando a tomar conta da casa no lugar da mulher. A profissão de “marido” vai, a cada dia, ficando mais em evidência. Sabe Deus se isso não é efeito de ovo de granja? Não custa nada ser desconfiado.

Eu tenho um conhecido lá em Divinópolis, desses que fica em casa lavando roupa, fazendo comida, remendando meia, varrendo quintal, lavando o piso, a louça, o banheiro e cuidando das crianças enquanto a mulher dele dá um duro danado trabalhando fora. Um dia, ele me disse que o seu prato predileto é omelete e que ninguém a faz tão bem quanto ele. Mas disse, ao mesmo tempo, que só utiliza ovos de granja. Dava uma enfase danada quando dizia:  ---Ovo caipira eu não cooooomo mesmooooooo nem moooooorto!

Eu entendo, à vista disso, que a mulher desse camarada está liberada. Essa história da mulher sair cedo para trabalhar fora e competir ou até assumir as despesas da casa, em condições normais, a meu ver, é uma aberração transformada em liberação. 

A mulher trabalhar fora e ganhar o seu dinheiro é uma opção respeitável, porém, não se trata de uma tarefa obrigatória dela. Mas, se ela o faz, o dinheiro dela deve ser destinado aos presentes para o marido, filhos e parentes, arrumar unhas, pentear os cabelos, comprar produtos de beleza e se enfeitar. Poderá, também, caso queira, participar no pagamento do salário da empregada. E até colocar na poupança. Com isso já estará ajudando bastante à família. Agora, a mulher trabalhar para pagar o aluguel, as prestações, supermercado etc. e ainda chegar a casa e encontrar o que fazer? Isso aí para mim é uma aberração.

O seu trabalho fora não pode ser uma labuta impassível. A mulher trabalhar fora é louvável. Mas ficar o marido em casa no seu lugar deixa a impressão de que ela cheira macho e ele cheira fêmea. 


Afinal, o homem ao casar-se precisa estar consciente de que mulher é produto de luxo. E produto de luxo custa caro. Para ter mulher tem que poder e não basta querer. Lugar de homem é no batente. Homem tem que cheirar cerveja. Tem que ter cheiro de suor, e gostar de tomar banho; tem que ter dinheiro no bolso. Não, necessariamente, no Banco, mas, no bolso é preciso ter. Tem que gostar da fruta, portanto, tem que ser macho. O homem pode fazer a mulher pensar que ele é um diabo, mas um diabo que a carregue.

Mas voltando ao assunto dos ovos caipira, sob um sol escaldante  e eu procurando esse tipo de ovos. Entretanto, é quaresma e, na quaresma, as galinhas caipiras quase não botam, elas estão trocando de pena. Contudo, é desse ovo que eu gosto, é desse ovo que eu quero. É ele que dá sustância ao macho. Sabe-se que o galo é um macho respeitável pela sua virilidade. Portanto, vou continuar procurando ovos de galinha caipira, mesmo debaixo desse sol quente.

Finalmente, graças a minha persistência, tomei conhecimento de que em uma casa, lá pelos lados do Bairro da Lage, vendem-se ovos caipiras:

---Oi de casa!...

---Oi de fora!...

---Disseram-me que a senhora vende ovos caipira?

---Vendê eu vendo, só que não tô teno. Devo ter só uma dúzia. As galinha num bota nesse tempo de coresma. O sinhor sabe disso?

---Sei! Já me disseram isso!

A velha, então, convida-me para entrar no que aceitei o convite. Ofereceu-me água e me perguntou se eu aceitava café, enfim, aquela recepção que se confere a um bom mineiro. Adentrou ao interior da casa e voltou com uma dúzia de ovos e comentou:

---Esse ovo tá cuma gema marilinha. Dá gosto vê.

---Então, tá do jeito que eu gosto.

---Eu tamém gosto é assim. Num como ovo de granja de jeito ninhum.

---Temos, então, um gosto em comum! Eu também não gosto não.

---O sinhor já viu?Num tem trem mais sem gosto e, além disso, é discorado e num dá sustança. Ovo bão é da galinha que come verde, bicho e porcaria.

---Porcaria!? Ah!...

---Galinha come tudo que vê. Cobra, cambalião, lagartixa, escorpião, e outra coisa que eu num vô nem falá se não o sinhor num vai quere cume os meus óvo...

---A senhora pode falar. Eu não ligo pra isso não!

---Num liga mês, não? Oh! Eu vô falá pu sinhô, aqueles ratinho miúdo, aqui incasa num fica um. Agora, o trem que galinha caipira mais gosta é de bosta... E a velha deu aquela rizada gostosa com aquela boca sem dentes...

Riu contente como se as  galinhas dela fossem privilegiadas com essa iguaria. E continuou:

---Eu tenho uma fia que num come ovo caipira de jeito ninhum. Ela morre de nojo mais é da gala do galo.

---Gala do galo!? Ah sei!...

Saí dali um tanto desconsolado. Aquele papo não me deixou nada satisfeito. Eu tenho pavor de cobra. Arrepio só de ver um cambaleão. Detesto lagartixas, não posso nem pensar em ratos e nunca tinha pensado sério sobre a galadura do ovo. Fiquei com isso na cabeça! Pensei: Vou esperar passar uns dias, assim eu me esqueço do episódio.

Os dias estão passando e eu não consigo me esquecer nem dos ovos e nem do papo da velha que vem, a cada dia, fermentando em minha cabeça que o zigoto de galinha caipira é uma lambança danada, é uma composição de cobra, cambaleão, lagartixa, ratos, merda e mais a “gala” de galo! Meu Deus!

Há quem diga que ovo de granja é gostoso! E eu sempre contrariei quem diz isso. E agora? Como eu vou falar do ovo caipira depois disso?! Vou só pensar! ---- É como diria o meu conhecido lá de Divinópolis: Ai que nojooooooooooooooo!!!


NB) Eu peço desculpas para as senhoras que não comungam comigo nesta filosofia sobre o trabalho da mulher.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos



3 comentários:

Franz disse...

É melhor ficar com os ovos de granja Armando, se não você estará comendo cobras e lagartos por vias indiretas. Em compensação, com os ovos de granja estará tomando doses de antibióticos e hormônios sem saber. Dúvida atrás, não?
Muito divertido este conto.

Franz disse...

Errata, no comentário anterior eu quiz dizer "Dúvida atrós", desculpe a falha.

Kelly Machado disse...

Se joga nos ovos caipiras... se elas comem bosta, é pq a natureza quiz assim, elas comem de forma natural, quer coisa melhor?! Lagartos insetos... iguarias cheias de nutrientes, quem me dera poder me alimentar somente xom ovos caipiras.