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quarta-feira, 8 de julho de 2020

PADRE JOSÉ ALBANEZ.

                                                                                    Padre José Albanez

O Padre José Albanez nasceu no dia 21 de novembro de 1925 em Candeias, MG, descendente de humildes imigrantes italianos que aqui se aportaram, trazidos por ocasião do advento da ferrovia no final do século XIX.

Foram seus pais: Miguel Albanez e Carmélia Albanez. Seus avós paternos: Leonardo Albanez e Luzia Albanez e avós Maternos: Nicolas Tórtura e Thereza Tórtura.

José Albanez pertencia a uma prole de dez irmãos: Silvio, Afonso, Francisco, José, Miguel, Maria, Ângela, Carmelita, Luzia e Tereza.

José Albanez nasceu numa época em que Candeias vivia a condição de vila e muito carente de recursos. Cursou a escola primária de nossa terra até o terceiro ano, pois não havia o curso primário completo. Portanto, foi para a cidade de Congonhas do Campo, levado pelo Padre Rui, então, pároco de Candeias, onde completou o curso primário, tendo recebido o diploma no dia 26 de novembro de 1938, com distinção “10”. Nessa época, José Albanez já demonstrava a sua vocação sacerdotal. 

Com a ajuda do Padre Rui, José Albanez seguiu para Belo Horizonte, onde foi iniciar os seus estudos no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Seus estudos foram marcados por muitas dificuldades; isso porque apesar dos favorecimentos que a igreja proporcionava aos estudantes, necessário se fazia a complementação financeira; sendo que, a sua família dispunha de poucos recursos.

José Albanez, seminarista dedicado e de exemplar comportamento, veio a ser beneficiado com uma bolsa de estudos na Itália onde iria estudar teologia. Lá permaneceu por quatro anos formando-se, também, em direito canônico. Chegou assim com louvor ao seu ministério, depois de uma trajetória estudantil muito brilhante ao concluir os seus estudos superiores na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

De volta ao Brasil veio para Candeias, onde celebrou a sua primeira missa em sua terra natal na Igreja Matriz. Daí foi prestar serviços na Diocese de Oliveira-MG, como professor de latim e historia do Brasil do Seminário Sagrado Coração de Jesus, instituição da qual se tornaria posteriormente Reitor.

Participou da comitiva que acompanhou o Presidente Juscelino Kubistchek em Roma;
Após prestar relevantes serviços à Diocese de Oliveira, resolveu ir para São Paulo. Lá trabalhou em diversos estabelecimentos de ensino, entre eles, Colégio Paroquial “São Paulo do Belém”, tendo recebido nesse tempo o diploma de “Cidadão Belenense”.
Foi professor de latim do Ministério da Educação e Cultura;

Passou a prestar serviços a Cúria Metropolitana no princípio da década de 70, onde foi efetivado definitivamente ao Clero Arquidiocesano, em 16 de maio de 1974; nomeado pelo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Na Cúria Metropolitana de São Paulo, chegou ao importante cargo de secretário, tendo, ali, prestado relevantes serviços; além de representante oficial do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Falava diversos idiomas entre eles, Italiano, Francês, Espanhol, Inglês e Alemão. Tradutor de diversas obras católicas editadas pela Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Detentor do diploma da Venerável Irmandade de São Pedro dos Clérigos, da Arquidiocese de São Paulo. Professor e capelão dos Irmãos Maristas. Colunista do Jornal O Glória, órgão das Associações do Colégio Nossa Senhora da Glória. Colunista do Jornal, O São Paulo. Membro superior do Tribunal da Causa de Beatificação e Canonização de Madre Paulina. Escritor de diversos artigos nos diversos jornais e revistas católicos de São Paulo. Membro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Por ser formado em direito canônico, e profundo conhecedor das leis da igreja, comumente era solicitado para debates na televisão.

Esteve sempre ligado a Candeias através de seus familiares ali residentes. Colaborava com a nossa paróquia nas suas visitas, oportunidade em que celebrava missas e fazia batizados. Existem diversas pessoas que receberam, através dele, o sacramento diante da Pia Batismal, na igreja Matriz de nossa cidade.

Possuía a sua casa residencial em Candeias, na Rua João Caetano de Faria, onde residia a sua irmã Ângela Albanez. Era sua pretensão vir a fixar residência em Candeias após a sua aposentadoria. Contudo, faleceu de repente, em 08 de abril Ade 1987, em São Paulo, aos 61 anos de idade quando se encontrava em plena atividade de suas funções.
Está sepultado em Candeias, no Cemitério São Francisco.

Eu tive a satisfação de ter assistido a sua primeira missa em Candeias. E posteriormente em São Paulo estive várias vezes com ele quando ele era pároco da paróquia do bairro do Belém e em sua residência em são Paulo. Era um sacerdote da ala conservadora.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

domingo, 5 de julho de 2020

ANTÔNIO, O CAÇADOR DE TATUS.


Certa vez quando eu viajava de Candeias para a cidade de Formiga, durante a noite, passou pela frente do meu carro um tatu e eu tive que quase parar para não lhe atropelar. Era um tatu-galinha, daqueles pequenos, cuja carne sempre foi muito admirada pelos caçadores. Diante do fato, veio à tona de minha memória a imagem de uma caçada de tatu da qual eu teria participado anos antes.

Antônio Tatu, como era bem conhecido, viera da comunidade dos Vieiras, município de Candeias, para residir na cidade. Caçava tatu por encomenda e servia aos seus fregueses, admiradores da carne do bicho.
---- Contava, mais ou menos, uns quarenta anos. Era um elemento magricelo, alto, pouca barba e um bigode espesso. Olhos azuis; testa longa e cabelos castanhos bem claros, quase louros, descendo à nuca.  --- Seus trajes, para não considerá-los descorados, eu os diria da cor do chão.

Tinha duas profissões pelas quais era muito procurado. Uma delas era executada durante o dia, quando furava fossas e cisternas. E a outra era a caçada de tatu que fazia à noite. Trabalho que lhe valeu o apelido de Antônio Tatu. --- Ele sempre brincava dizendo que durante o dia ele furava o buraco e à noite caçava no buraco e que a sua vida era num buraco. Porquanto, muita gente pensava que o seu apelido era devido ao fato de ser furador de buracos de fossas e cisternas. De certa forma os dois trabalhos lhe garantiam o ajustar o apelido.

E foi numa caçada dessas que Antônio levou consigo alguns convidados entre eles o meu pai, então, curioso para ver como era caçado o pobre silvestre. E nesta comitiva, eu já me fiz incluso de “contrapeso”, pois, como dizia minha mãe, eu era o rabo do meu pai. E foi uma experiência muito ruim para os meus olhos de menino. Assistir o que me deixou muito abismado.

Um grupo de quatro pessoas perseguia o animal através dos cães. Quando um cachorro dava o sinal de que teria localizado um bicho . ---- o animal corria e se escondia no buraco e este viria a ser localizado pelo cão especializado em caçadas de tatu.
 
Assim, o cão ficava a latir ali na entrada do buraco até a chegada dos caçadores que vinham em disparada, mato afora, a fim de pegar a caça numa verdadeira extravagância física. Ora tropeçando em tocos, ora levando cerca de arame no peito devido ao escuro.

Diante desse flagelo sobre si, o animal aplica a sua defesa abrindo a sua carapaça e se prendendo nas paredes do buraco. Daí, o caçador, usando a arma própria, ou seja, um arpão tipo de uma seta de ferro, afixada na ponta de um cabo de vassoura, o introduz no ânus do pobre animal deixando-o imobilizado. (Ai que dó) Quando não se consegue puxar o bicho pelo rabo, faz-se uma cava ao redor do buraco até alcança-lo e tê-lo em mãos.

Sinceramente, ao presenciar esse tipo de caçada, eu me senti sensibilizado e deduzi que os caçadores são frios e trazem consigo uma índole maldosa. No caso da caçada de tatu, dá para sentir que a fazem com certo requinte de maldade. É uma morte torturante! E eu não gostei de ver aquilo.

Felizmente, com as leis que protegem a matança desses animais, isso vai se tornando coisa do passado, apesar de que deve,  ainda,  existir, por aí, muitos caçadores de tatu e, obviamente, de outros animais. Afinal, o Brasil é o país da clandestinidade e da impunidade diante do descumprimento das leis.

Mas, mudando o assunto de pau para cavaco sem deixar o caçador de tatu de lado, eu, escarafunchando a minha memória, consigo me lembrar de um caso hilariante acontecido com o Antônio Tatu, tão logo tenha vindo dos Vieiras, quando se estabeleceu na cidade com a sua família. Ele tinha um filho meio louro e que estava sempre em sua companhia. Era o seu ajudante furando o chão e nas caçadas de tatu. A meninada o chamava de Tatuzinho.

 Onde um punha o pé, o outro punha o nariz. Os dois, portanto, tinham uma curiosidade em comum: tão logo vieram da roça, queriam conhecer o cinema. Para quem até então vivera na zona rural, pouco conhecia as coisas da cidade, vir a conhecer o cinema seria uma curiosidade natural ao ter ouvido contar as histórias da cidade, o cinema era realmente uma coisa extremamente curiosa para eles.

Foi chegado o grande dia. Antônio Tatu e Tatuzinho iriam ao cinema. E o filme seria com o maior ator de cinema de faroeste da época, Roy Rogers, com o seu cavalo branco, o famoso Trigger.

Num determinado momento, Antônio Tatu dá um grito dentro do cinema por ter visto alguém de tocaia: “Nossa Mãe do Céu!”. o que chamou bastante a atenção do povo ali dentro.

O mais engraçado aconteceria no outro dia, quando Antônio Tatu e Tatuzinho tentavam contar aos amigos o que teriam achado do filme. Todo mundo queria ouvi-los contar e onde eles estava formava-se uma rodinha:

“---Um cavalo bunito dimais da conta! Mas, o cavalero num sabia nem fala. Era um bobão. Paricia que aquele povo do cinema falava igual índio ou a língua deles é incravada até na goela: ---- Um chegou perto do outro e falou assim: Roça run Ual... Roça cau, cau. Aí,cão ratiu. Daí, deu um murro no outro e saiu dano tiro pra tudo quanto é lado. Cubo rau. bummmmmmmmmmm. Tinha hora que o povo até ria deles de tão bobo que eles era”.

Nunca mais ouvi falar de Antônio Tatu e nem do seu filho, Tatuzinho. E assim, o mamífero noctívago pôde apreciar a lua com tranquilidade sem o risco de levar uma fisgada no traseiro pelo arpão do jeca o que, a meu ver, é a morte mais triste do mundo.  Instrumento de caçar o tatú... Ai que dó!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A BOCA E A VAGINA.

Um leitor candeense e residente na cidade de Arinos, Estado de Minas Gerais, leu as postagens do nosso blog e fez um comentário sucinto relembrando o nome de um amigo seu, o Osmar dentista, quando o conheceu nos tempos em que assistiam a missa, munidos de uma fita azul celeste; eram eles membros da Congregação Mariana.

Diante de um nome tão significativo, resolvo, então, expor, neste texto, o nome do meu amigo, Osmar da Sota, posteriormente, Dr. Osmar Soares Alves.

Às vezes, pode parecer desagradável a gente fazer um comentário sobre um profissional falecido e que estaria isento de quaisquer culpas diante de um determinado comportamento. Talvez, pelo fato de se tratar de uma questão de ordem cultural. Mas, levemos em conta que as nossas narrativas são, normalmente, históricas e a nossa intenção, quase sempre, é acompanhar a evolução. Mostrar as regras do jogo do seu tempo. Regras que não mudariam através de uma só pessoa e nem de uma só cidade. Afinal, tratam-se, muitas das vezes, de um contexto geral.

No caso da odontologia, a questão era nacional. Logo, o atraso desta ciência não existia somente em Candeias. Era preciso avançar porque os nossos “práticos” não tinham fontes de evolução. Apenas o tempo poderia fazer isso e como fez em Candeias, a partir do momento em que chegou à mossa cidade um cirurgião dentista diplomado, oriundo da cidade de Barbacena, o Dr. Luiz Santos.

O Brasil, hoje, tem uma das melhores odontologias do mundo. As pessoas, atualmente, têm assistência governamental. As prefeituras municipais prometem tratamento e os empregadores se preocupam com isso. Coisas que, antigamente, não existiam, nem por perto.

Portanto, é importante a gente testemunhar que algo de bom acontece no nosso país. Já podemos sorrir mais à vontade e não é preciso que as pessoas tapem a boca, com as mãos, no momento de soltarem um sorriso. Isso é gratificante. Nada mais desagradável, mais triste, do que alguém esconder o seu sorriso diante do seu interlocutor. Talvez, omita, até mesmo, uma alegria ou um gesto de carinho para evitar o sorriso.

José Barreto foi o mais tradicional e o mais respeitado dentista prático de Candeias. Sem dúvida, o mestre dos demais dentistas candeenses. Isso nos tempos em que a nossa cidade ainda não era habitada por nenhum dentista diplomado e a odontologia engatinhava no Brasil. Era ele o professor da causa. Todos os demais práticos, no ramo odontológico, que aqui existiram, trabalharam junto dele. Seu gabinete ficava na sua residência onde mora, hoje, o Sr. Pedro Freire, bem nas proximidades do Largo da Matriz. Posteriormente, transferiu-se para Belo Horizonte, onde tinha um filho cirurgião dentista diplomado, Dr. Cândido Barreto, (Candinho) nosso professor de francês, no Ginásio de Candeias.

Voltando ao Dr.Osmar Soares, o Osmar da Sota, para os mais íntimos, era ele um rapaz humilde, religioso, Congregado Mariano, sacristão do Monsenhor Castro e que trabalhou com Zé Barreto como protético. Naquele tempo, prótese era apenas dentadura, ponte e pivô. Dali, Osmar resolveu montar o seu próprio gabinete. E pôde, por muitos anos, exercer a profissão de dentista como prático até quando chegou para Candeias um dentista diplomado que resolveu denunciar os dentistas práticos, levando-os a migrarem para as roças ou para outras cidades onde não existiam dentistas.

Outros deixaram a profissão, como no caso do Cristóvão Teixeira, foi ser motorista e dada a sua pouca experiência no ramo, acabou tendo um acidente com um caminhão cheio de carvão levando-o à morte.

Boanerges Pacheco era casado com uma fazendeira e se acomodou vivendo de rendas. Ele tinha alguns imóveis de aluguel. O sobrado onde fica o escritório do Sr. Zé Antônio, próximo da Igreja Matriz era de sua propriedade.

Nesse tempo Osmar já teria se casado com a professora Zizica, filha do Sr. Miguel Martins de Castro e tinha filhos. Ele sobressaía em meio a essa confraria de dentistas. Era cheio de ideias no ramo da odontologia e nunca teria feito outra coisa na vida e não desistiu. Foi trabalhar em Baiões, comunidade próxima de Candeias, que pertence, ao Município de Formiga. Esteve também no Município de Camacho e, apesar das dificuldades encontradas, se locomovia de motocicleta para esses locais. ---- E como era muito esforçado e gostava daquilo que fazia, conseguiu tirar dessa peleja, o sustento da sua família e fazer a sua faculdade de odontologia, na cidade de Itaúna, indo, até a referida cidade, todos os fins de semana, pois nesse tempo poderia ser assim.

Ainda nessa mesma época elegeu-se vereador por dois mandatos e foi um dos candidatos mais votados.

Certa vez, no auge da sua luta pela vida, ele me disse com os olhos lacrimejantes: “Um dia eu volto a trabalhar em Candeias sem ninguém pra me barrar, você vai ver Armando...”. ---- E eu vi ----

Osmar venceu. Venceu na vida. Formou-se cirurgião dentista. Agora, não tinha mais gabinete. Era dono de um consultório bem montado junto a sua residência, na Rua Francisco Bernardino de Sena. Andava em carro do ano. Tinha uma casa confortável e uma escadinha de filhos, bem cuidados. Teria sido um exemplo da persistência e da vontade de vencer. Mas ele já não era o mesmo. Agora, bebia e, a cada dia, aumentava as doses. Sua profissão começou a ficar em débito com a responsabilidade. Já não frequentava a igreja, como antes. Já não se entendia com a esposa e nem com a família dela. E quando era chamado de “Osmar”, repreendia: “Agora eu sou doutor. Dr. Osmar”. E, para outros, dizia: “Eu não sou dentista; eu sou odontólogo”.
E explicava que a odontologia era um ramo da medicina. Ou seja, que ele era um tipo de médico. Naturalmente, ele tinha razão de pensar assim. Contudo, na prática, dada à cultura odontológica, o dentista é bem conhecido como um cirurgião que opera na boca das pessoas. Não caberia outra explicação para uma clientela leiga. No entanto, ele colocou, na fachada de seu consultório, uma placa com os dizeres: “Dr. Osmar Soares Alves – Odontólogo”.

Aquilo era como se estivesse exigindo de seus clientes um reconhecimento maior pelo fato de ser um dentista diplomado. Contudo, ele fazia o mesmo que sempre fez, entretanto, ele era, agora, formado e o que fazia era embasado na ciência. Mas, todo mundo sabia disso e o respeitava. Desnecessário seria a imponência.

Enfim: Osmar, agora, o Dr. Osmar, perdeu a humildade. E tornou-se alcoólatra. Mudou-se para a cidade de Formiga e, por lá, passou por uma dificuldade muito grande na sua vida. Perdeu uma filha em um acidente de carro. Tempos depois, Dr. Osmar volta para Candeias. Desacreditado pela sua clientela.

Certo dia, eu me encontrei com ele numa venda, na Rua Coronel João Afonso, na antiga venda do Pedro do Chico Freire. Ali estava ele meio embriagado. E, nesses momentos, as pessoas fugiam dele. Sua imagem era o protótipo do fracasso. E, num dado momento, tão escasso, ultimamente, em sua vida, tentou falar de ideias comigo e, aparentemente, empolgado disse:

---Armando! Eu estou para defender uma tese dentro da Odontologia. Vou abafar. Vou arrasar. Meu nome vai para a história. Você vai ver um candeense na história.

Perguntei-lhe: Mas, que tese é essa, Osmar? O que de tão importante está fermentando em seu cérebro inteligente? E ele responde, dando uma tragada no copo de aguardente:

---A tese que eu vou defender é para acabar com boa parte do desconforto das mulheres, em exame ginecológico. Eu vou defender que a parte interna da vagina estende-se até à porção inicial do útero, região denominada de fórnice da vagina. Todo esse conjunto é denominado canal vaginal e tem uma semelhança muito grande com a boca. Isso quer dizer que uma mulher tem a boca do mesmo tamanho da vagina. E muita coisa pode ser feita através da boca.

Isso nada mais era do que um motivo de chacota. Uma alucinação escondida dentro, bem dentro, do seu ser. E, diante de tamanho disparate, eu lhe perguntei:

Quer que eu o deixe em casa, Osmar? Você não me parece bem!

E, em resposta, ele diz:

---Não! Obrigado!  -------- Põe mais uma aqui pra mim, Pedro!... Eu tenho muita coisa para botar em prática Armando...

Nesse momento, senti que o meu amigo, Osmar, naufragava no álcool, após ter flutuado por tanto tempo nas turbulentas águas da vida. Foi a última vez que o vi.

Algum tempo depois, embriagado, bateu com o seu carro numa casa onde está hoje, o Rancho Rural, vindo a falecer.

 Que Deus o tenha meu amigo, Osmar, ou melhor, Dr. Osmar!


Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

domingo, 28 de junho de 2020

CHICO DO VIRIÇO.

                                                                   Lateral da Casa de Chico do Viriço.

Quando da minha infância havia em Candeias um curandeiro com o nome de Chico do Viriço. Suponho que originalmente lhe teria sido dado o apelido de Chico do Veríssimo no que virou “Chico do Viriço”.

Chico moldava um tipo caipira. Contava os seus setenta e tantos anos de idade; estatura média, barba rala e por fazer; cabelos grisalhos, meio encaracolados, maltratados e escondidos debaixo de um chapéu de lebre, surrado; --- pescoço grosso e rosto moreno. Demonstrava tranquilidade quando em silêncio com o seu olhar molengo; mas quando falava, tinha a voz alta o que lhe fazia quebrar aquele semblante suave. Possuía um sorriso caro... Sorrindo exibia uma dentadura cheia de dentes de ouro.

De quando em vez, tomava um porre e ficava valente, quando dizia que vivia entre Deus e o Diabo, mas que o diabo jamais poderia com as suas forças.

Torcedor fanático do Rio Branco Esporte Clube e durante as competições deste, com a cara cheia de pinga, se tornava violento e costumava puxar de uma faca e rabiscar o chão, numa forma clássica de insultar os torcedores adversários.

Certa vez, se envolveu até com o Padre Joaquim (Monsenhor Castro) o qual era torcedor da Associação Esportiva Candeense e teria apostado um engradado de cerveja com um dos ídolos do Rio Branco, o Passarinho.

Morava na esquina da Rua Pedro Vieira de Azevedo, com a Avenida Alvino Ferreira, que desce para a saída dos Cassianos, onde, hoje, está localizada a loja dematerial de construção do Silvio Foguete.

Era uma enorme casa já maltratada pelo tempo. Seus compartimentos eram amplos, portas e janelas pintadas de azul celeste, já desbotado, e as paredes descoradas. Havia como anexo da residência um cômodo de comercio fechado há anos e que teria sido, em outros tempos, o ponto de uma venda fuçada. A sala era extensa e dava lugar às pessoas que se acomodavam, nos diversos bancos, para receber a emanação espiritual.

Comumente eram vistos, em sua porta, diversos carros de outras cidades, às vezes, distantes e até mesmo de outros estados como, Rio de Janeiro e São Paulo. Nós, meninos, gostávamos de ir lá ler as placas dos carros. Certa vez, vi um carro da cidade de Volta Redonda... Achei muito esquisito uma cidade ter o nome, Volta Redonda... E isso foi motivo de muita conversa entre a meninada.

Hoje, considerando a distância entre essa cidade e Candeias, vejo o que faz o misticismo... Quando os místicos não conseguem cumprir o trabalho prometido alegam que o filho de Deus não tem fé. É como ir a uma farmácia comprar um remédio e para isso devido fosse, levar o sal para a manipulação desse medicamento. Infelizmente vivemos diante dessas aberrações.

Mas, voltando ao Chico, nas sextas e sábados o movimento era intenso. Eu sempre passava pela rua e ficava vendo aquelas benzeduras em voz alta e posso até recordar um pequeno trecho das rezas:

“A pedra dária tirada do fundo do mar vai brilha na vida docêis tudo. Ninhum padre, ninhum reverendo, ninhum bispo, ninhum arçabispo, ninhum papa pode rezá a missa sem a pedra dária...”.

Aquela leréia ia longe e o Chico com um rosário muito grande, feito de contas de coquinho jeribá, chegava até a porta e arremessava aquela enfiada para fora como se estivesse expurgando os males presentes naquela sala e dizendo em voz alta:

“Some daqui mal de satanais! Aqui ocê num fica não bicho iscumunguento! – Sai isprito ruim! Nois aqui é tudo fio de Deus!”

As pessoas que, por vez, iam passando em frente, nesse momento, adiantavam o passo para não receber aqueles fluidos negativos. E muitos nem ousavam passar frente a casa do Chico nas sextas feiras e sábados, porque o barulho era o dia todo.

Os meninos adoravam ver aquele teatro.
Para a maioria do povo de Candeias o Chico Viriço era um chalado. Porém, havia quem dizia que as suas “garrafadas” eram eficientes. Afinal, existem pessoas tão envolvidas com esse tipo de coisa que me deixa acreditando que, realmente, a fé remove montanhas...

Muita gente tinha vontade de visitá-lo, mas tinha receio de se expor naquela grande sala de sua casa que para os meninos, poderia ser comparada a um picadeiro de circo... Além disso, o aforismo “Daí de graça o que de graça recebeis”. Não funcionava por lá, mesmo porque, Chico cobrava pelos seus serviços de curandeirismo e os preços não eram nada módicos pelas rezas e beberagens...

Certa vez, já rapazinho, eu quis matar a minha curiosidade e fui lá participar daquele “jacá de superstição”. Ali eu descobri que os candidatos à benzedura deveriam tomar assento num imenso banco com a recomendação de se postarem sem cruzar braços e pernas.

Com o rosário na mão, dizendo começar o trabalho da limpeza dos males, dava-se inicio ao ritual, acompanhado por uma auxiliar que já teria avisado que as consultas com o medicastro deveriam ser após a realização dos ritos. Era ela semianalfabeta e com dificuldade, fazia as anotações de receitas e as vendas dos raizames. Ele, demagogicamente, dizia: “Eu não ponho a mão nos cobres”.

Começava perguntando ao primeiro da ponta da fila, qual seria o seu mal. Logo que a pessoa o respondia ele já começava:

“Deus crente Deus cremente assim como Deus num mente esse mal num vai adiente...”.

Era um vagão de ignorância... Enrolava o tal rosário nas pessoas e começava a bocejar e com os olhos lacrimejantes dizia:

------- “A coisa aqui hoje tá preta”! Ta muito carregada... O bicho tá sorto... Mais num tem nada não!... “Eu já boto esse bicho pá correr já, já...”.
“Vai sai!... Sai trem ruim! Eu to mandano. Aqui num te cabe não some... Vai pás profunda!”.


Próximo da sala havia um quartinho e o consultante entrava com ele. Era uma confidência observada simplesmente pelo consulente, porque ele querendo mostrar serviço e apregoar as suas virtudes para quem ficara na sala, falava em voz bem alta:

“Quem tá ai? Conta pra mim quem tá fazeno mal para o irmão... É preta? É branca? É véia ou é nova? - Ah é home? É preto? É branco? É gordo? É careca ou cabiludo?... É dentado ou disdentado?”

No fim, o cristão saia com uma garrafa de vinho de jabuticaba, caseiro, na mão com umas raízes que só Deus sabe o que era aquilo... Curando ou não, o dinheiro dele já estaria no “buraco do alfaiate”. Havia quem levasse duas, três e até quatro garrafadas... Ao custo de cinco cruzeirinhos cada, na época isso era, sem dúvida, um negócio da China.

Sebastião Freire um delegado, dos chamados “Calça curta” e que no passado eram nomeados por políticos, foi procurar o Chico Viriço, para fazer uma consulta sobre um mal que estaria incomodando uma de suas filhas.

Eis a receita: “Mata um urubu e tira a moela dele. Cozinha e dá o caldo para a menina tomá e fazê uma farofa da moela. Não come mais nada só isso em dois dias”.
Sebastião Freire esteve com uma espingarda nas costas durante três dias procurando um “agente funerário voador”, para lhe tirar a moela. Com dificuldade, conseguiu matar o “carniceiro” nas imediações dos fundos do matadouro municipal. Abriu-lhe a barriga a procura da moela e cadê moela? O urubu não tinha moela...

Indignado voltou a procurar o Chico e lhe disse:

---“Como você tem coragem de receitar uma coisa que não existe? Eu não achei moela dentro do urubu não! E você me fez de besta!... Quem disse a você que urubu tem moela Chico?”.

---“Uai sô! Urubu num tem muela não? Cê oiou direito Tião? Tinha qui tê uai!”—E ficou por isso mesmo.

Numa visita que fiz ao Chico junto de meu amigo Gabriel Carlos, esse teria dito:

“Isso é que se pode chamar de um curadorzinho de merda”.

NB) Nunca consegui saber que pedra “dária” seria essa.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


sexta-feira, 26 de junho de 2020

CONHECENDO A MORTE.

 
                                                           CARLOS DOS REIS ALVES.

 
                               ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS

sábado, 20 de junho de 2020

COM CÍÚME DE SÃO BENEDITO.

                                                                                    São Benedito
A história católica diz que São Benedito nasceu na Itália e era Capuchinho. No mosteiro onde morava, exerceu várias funções, entre elas, a de cozinheiro. ---- Ele era, extremamente, preocupado com os mais pobres. Muitos o procuravam no mosteiro buscando sua ajuda, haja vista a falta de alimentação que os acometia. Muitas vezes, levado pelo seu sentimento caritativo, tomava de alimentos do convento e os escondia, entre suas vestes, a fim de levá-los para matar a fome dos necessitados.

Conta-se que, numa dessas saídas, seu Superior lhe surpreendeu, perguntando-lhe: “O que levas debaixo do seu manto, irmão Benedito?” E o santo responde, tranquilamente: “São Rosas, meu senhor”! E abrindo o manto, de fato, estavam as mais belas rosas no lugar dos alimentos, tirando a dúvida do Superior. ---- E, assim, aconteceu o primeiro milagre de São Benedito que ficou denominado como o milagre das rosas.

Existem duas imagens que representam São Benedito: Na primeira, ele está com o menino Jesus em seus braços e, na segunda, com flores nas mãos, como marca do seu primeiro milagre.

O santo negro, conhecido por Santo Preto, conquistou o coração dos católicos e é muito popular. Comumente, a sua imagem é vista nas cozinhas e dispensas dos brasileiros. Muitos católicos gostam de simbolizar a sua presença, oferecendo-lhe o primeiro café da manhã. Ele é o protetor dos cozinheiros e cozinheiras.

 Fé é fé. A fé pode parecer uma metáfora ou uma abstração. Bem dosada, ela serve de qualquer jeito. Desde que não pegue uma montanha em peso para removê-la ou que a sua obra não a faça morta. Mas, o pior é quando a fé se torna cega. A fé cega pertence aos que não a têm na sua essência. É a fé do egoísmo que se torna no espírito da coisa e por que não dizer que se torna em uma mercadoria que uma igreja charlatã, rouba do seu fornecedor e o transforma em freguês? 

O nome de são Benedito me faz dar uma olhadinha no retrovisor da minha vida, e ver Dona Ester, a minha grande amiga Dona Ester já comentada aqui neste Blog, num tempo quando fomos vizinhos na Rua Coronel João Afonso na década de 50. 

Após ter levado uma vida irregular sob os olhos da sociedade, Dona Ester se casou com o Sr. João de Paiva, o pedreiro Joãozinho, como era mais conhecido. Era um homem simples, cumpridor dos seus deveres. Tinha o hábito de tirar um dia, dentro de uma temporada, para mamar umas pingas. Ninguém sabia quando seria esse dia. Era sempre uma surpresa para toda a vizinhança e até mesmo para Dona Ester que começava falando e terminava chorando, quando o via naquele estado de embriaguez.

Joãozinho era o contraste de Dona Ester. Baixinho, careca, rosto miúdo e bastante branco. Olhos azuis, dentes quebrados, narigudo, orelha de abano, parecia um coelho. Barba rala e uma voz fanhosa e baixa. No seu dia-a-dia, era mais manso do que um pardal. Tratava bem a esposa, era respeitoso com ela e lhe entregava todo o dinheiro do trabalho. Até o pedaço de fumo era ela quem comprava para ele. Mas, se tomasse umas pingas, sua figura mudava completamente. Falava alto e o fanho da sua voz sumia. A porta de sua casa se transformava num picadeiro de circo. Ofendia tanto a pobre mulher, a ponto das pessoas sentirem pena dela. Ainda bem que isso acontecia de duas a três vezes por ano.

Na normalidade do cotidiano, Joãozinho chegava a sua casa, completamente, sóbrio, tomava o seu banho, jantava e assentava-se à porta da rua fazendo o seu cigarrinho de palha, onde sempre aparecia alguém para conversar.
Toda a vez que ouço falar de São Benedito, logo vem, na minha memória, a imagem de Joãozinho na porta de sua casa falando mal, em voz alta, de sua pobre mulher que se encontrava no interior da casa. Dona Ester era devota de São Benedito. Apesar de ter a cor parda, ela era neta de escravos e, talvez, por isso, se declarava devota de quase todos os santos negros, São Benedito, São Maurício, Santa Ifigênia, Nossa Senhora Aparecida, e outros. Vivia fazendo novenas e oferecendo promessas aos seus santos. Entretanto, o Santo pelo qual ela dava uma atenção maior era para São Benedito. Estava sempre exclamando: “Meu São Benedito”!!! E aquilo, na hora que o Joãozinho estivesse turbinado, seria uma afronta a sua pessoa, uma afronta moral que dava início à encrenca.

Vejamos pois, o quanto o alcoolismo pode transformar uma pessoa, nessas raras vezes que Joãozinho se deixava dominar pelo álcool, ele mostrava o demônio que estava escondido dentro dele:

---Invém ocê de novo quesse diabo desse Santo Binidito, Muié? Eu já num te falei que num quero sabê desse nome aqui in casa? Mas, qui diabo, sô! Cadê os ôto santo preto qui ocê gosta? Purquê tem qui cê esse Binidito? Um santo quesse nome num fais milagre coisa ninhuma, sua vaca! Ocê puxa tanto o saco dele que dá até café pra ele, pois eu vô pô pinga pra ele, quero vê se ele fica tonto! Sua égua. Sua mula véia. Esse santo só fais ingrizia. Vê se arruma um santo mio pró cê ficá chamano. Quando cê berra o nome desse santo me dá vontade de te pô a mão. Vê lá se isso é nome de santo! Trem ruim. Isso é santo de figa. Se fosse um santo tão bão, num tinha dexado ocê passá fome, sua vaca! Ocê memo vive falano que passou fome. E onde qui tava esse santo negão que nunca te ajudô em nada.? Discarada! Safada das maió! Bisca ordinária! Cachorra sem dono! Quarqué cuisinha já vem: “ ai, meu São Binidito!!!” Eu sei, sua mula! Quando ocê fala o nome desse santo, ocê tá lembrando é do Jereba, aquele arriero safado, cachorro
sem vergonha, isploradô de muié, freqüentadô de cabaré! Aquele trem vagabundo morreu, mais ocê continua tarada com ele. Se ocê sonha arto com ele eu te mato. Eu tô de oio no seu sono, sua mula! Agora, quem trata dô cê é eu, intão ocê é só minha e tem qui tirá esse santo da cabeça porque esse diabo desse santo é uma discurpa amarela. Sua tarada!, Vaca, mula, égua, cachorra... Eu ainda vô morrê de raiva. Sua mula! Eu tenho nojo de tudo que é Binidito. Eu vô pidi a Deus pra me mandá pus infernos pra eu incontra quesse traia desse Binidito, fazedô de arreio.
Tinha qui tê um santo quesse nome. Isso é coisa do diabo. Só pode sê!

Moral da história: Dona Ester teria sido amante de Benedito Arreieiro e o trazia vivo na sua memória e Joãzinho tirava três dias, no ano, para desabafar o seu ciúme sobre aquilo que, talvez, pudesse observar sobre o comportamento de sua mulher em relação ao seu passado.

É como dizia a Rachel de Queiroz: “Eu queria contar uma história gentil, mas, só deu miséria”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A VISITA DE UM PORCO.



ESTE TEXTO FOI TRANSFERIDO PARA O LIVRO CANDEIAS MG CASOS E ACASOS.

domingo, 14 de junho de 2020

NO SILÊNCIO DAS BANANEIRAS!


 Às vezes, eu ouço dizer que o mundo de hoje está perdido. Que a pouca vergonha está tomando conta do mundo. --- Que, a continuar desse jeito, não se sabe aonde iremos parar. Que a vida, antigamente era mais fácil de ser vivida. Que o povo era mais honesto; o mundo mais saudável e uma gente mais séria, etc, etc... Quando ouço algum comentário dessa natureza, eu chego a ficar bobo como é que ainda existem pessoas tão cegas neste mundo a ponto de não reconhecer que a obra de Deus não merece regressão.

 A meu ver, nem tudo vem piorando e sim melhorando e muito. Ora, as pessoas que vivem há mais de cinquenta anos e dizem essas baboseiras, com certeza, possuem uma visão estreita. Isso porque podemos ver, a olho nu, que o mundo de hoje é muito melhor, é mais civilizado e mais adiantado em todos os sentidos. 

Dizer que a vida, antigamente, era melhor; que o povo era mais isso ou mais aquilo é querer cobrir o corpo com a língua. É verdade que, nos dias de hoje, a droga vem prejudicando a vida, mas antes a vida era a própria droga. As pessoas andavam com roupas remendadas, quase não havia aposentadorias, trabalhava-se de sol a sol e não tinha remuneração para tanto. Morria-se com doenças terríveis como sarampo, varicela, caxumba, gripe espanhola, gripe asiática. Dar a luz a um filho era o maior risco de vida; não se falava em cesariana e o parto era uma questão de vida e morte. Um parto complicado acabava com a morte do filho ou da mãe. Isso sem falar nas doenças desconhecidas. 

Não havia um diagnóstico como nos dias atuais e, também, não havia assistência social nenhuma. A miséria ardia aos olhos dos pobres. Faltava emprego, faltavam escolas, faltava luz elétrica sem falar em segurança, telefone, televisão, rádio. A lamparina, o banho de bacia, o pilão, as roupas remendadas, ainda faziam parte do nosso dia-a-dia Enfim, vivíamos num mundo pobre. Mais do que pobre, era miserável. Um mundo de cão. Hoje, não. Hoje, não chegamos a um patamar satisfatório, todavia, melhorou muito. Antes rico era rico e pobre era pobre. À bem da verdade, antes, nem os ricos viviam a vida dos pobres de hoje. 

Há dias, estive conversando com uma senhora que me veio com esse discurso e eu fiquei só ouvindo. Dizia-se escandalizada com a vida dos dias atuais, principalmente, com a pouca vergonha das pessoas, especialmente, das mulheres. Diante do exposto, tentei lhe mostrar que estava um tanto enganada com relação ao mundo antigo e o mundo moderno. Entretanto, como dizia Jesus Cristo: “O pior cego é aquele que não quer enxergar”.

É fácil analisar: Antes as pessoas faziam as coisas às escondidas e, atualmente, fazem à vista de todo mundo. Hoje um jovem transa com a vizinha e não está nem aí pelo que dizem. Um casal se casa e, se não deu certo, já parte para outra. Eu acho que o povo de hoje é muito mais prático. Não estão preocupados com os patrulheiros do alheio. Isso é uma questão cultural. É o conflito de gerações, natural na obra da criação de Deus. Sem esse conflito a vida para e não há progresso. E ainda tem mais: Todo mundo quer ser livre, quer ter liberdade; e a sociedade vive gritando a liberdade para todos e a libertinagem está na cabeça de cada um. Conclui-se que o melhor é acostumar-se com isso e deixar de criticar o comportamento dos outros.

Em época remota, tinha o tal do compadre estar andando com a comadre e isso fervilhava a língua do povo. A “pouca vergonha” acontecia muito em família. Sogro com a nora. Cunhado com cunhada. Padrinho com a afilhada e muito mais.

Certa vez, quase saiu morte aqui em Candeias por causa de um sogro que estava passarinhando, em grande volúpia, a sua digníssima nora, distinta esposa do seu filho e grande mãe do seu neto. Sogro e nora foram encontrados flutuando na própria cama do filho que viajava e voltou de repente. Isso aí deu pano pra manga. Deu água pra barba. Deu chulé no pé da cama e, por pouco, não deu um parricídio.

O mais engraçado é que as pessoas envolvidas pensam que ninguém está vendo. Vão se acostumando de tal forma com a coisa que passam a ficar desprovidos de cuidados. Enquanto isso, os patrulheiros vão esparramando a notícia e os curiosos querem ver aquilo que, antigamente, era chamado de pouca vergonha, e, hoje, vai perdendo a conotação com esse nome. Nos dias atuais, todo mundo tem vergonha de ser vergonhoso. O negócio hoje é se mostrar. Bobo é quem entra nesses assuntos. A conclusão é que cada um viva a sua vida porque quem fala muito pode estar se assentando no próprio rabo.

Bem de frente a minha antiga morada, na Rua Coronel João Afonso, existia uma velha casa abandonada, onde hoje está a residência do José Geraldo Eustáquio. Ali, teria sido a morada de uma senhora bastante idosa e que vivia sozinha. Pessoa simplória que tratava dos ratos e das baratas a quem ela os tinha como companhias. Essa senhora se chamava Maria do Fortunato. A coitada passou os seus últimos dias de vida na miséria sobre os cuidados da vizinhança. O quintal da sua casa era cheio de árvores frutíferas e mato. Os meninos moradores da rua viviam vasculhando os pés de amora, pitanga, laranja e limão da china. Nos fundos, havia uma grande moita de bananeira e, como o acesso para seu quintal era aberto, a meninada transitava, por ali, na maior tranquilidade.

Os cachos de bananas sumiam misteriosamente. Não se via quem os colhiam porque essa subtração era feita sempre à noite. A rua era quase escura e a luz que iluminava a cidade era muito fraca. Ainda não existia aqui em Candeias a Cemig. Era a Empresa de Força e Luz Candeense, de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi. Essa penumbra poderia favorecer a entrada no quintal da velha casa sem ser visto nitidamente.

Meu primo Vicente, que contava uns doze anos de idade, se destacava entre a turma que vasculhava o quintal da velha. Teria ele encontrado um cacho de bananas amoitado que, com certeza, seria retirado, posteriormente, pelo autor do corte. Nessa condição, Vicente aguardou o silêncio da noite chegar para fazer aquilo que dá ao cristão, cem anos de perdão, ou seja, roubar um ladrão. Nessa expectativa, ficou o tempo todo aguardando a hora de cumprir a sua intenção.

Tão logo se viu dentro das condições para tal, atravessou a rua, adentrou o quintal da tapera e foi direto até a moita de bananeira para subtrair o belo cacho da fruta tão apreciada. Foi quando levou um susto danado. Voltou correndo para casa e contou para o seu pai que o espírito de Dona Maria estava gemendo na moita de bananas.

 Mas, o meu tio, supondo que poderia ser algum casal clandestino, não quis ir lá comprovar de que se tratava o barulho. Contudo, foi tomado por uma grande curiosidade no que lhe fez ficar de olho no buraco da janela. Nessas alturas do campeonato, todo mundo já procurava um buraco entre as janelas da frente da casa que eram duas. Era uma grande expectativa. Quem seria? Essa era a pergunta que todos formulavam e aguardavam a resposta.

Depois de algum tempo, viram sair primeiro a mulher. Foi uma surpresa total. Aliás, foi mais um susto do que surpresa quando reconheceram a nossa vizinha. Esposa de um grande amigo nosso. Aliás, amigos de todos da rua. Uma esposa muito dedicada ao marido e à sua ninhada de filhos em número de seis. Uma mulher sem atrativos; magra, nariz vermelho, olhos avermelhados, um fio de sobrancelhas, nádegas minguadas, seios tipo maracujá no ponto, rosto miúdo, dentes amarelados. As pernas eram finas, feito cabra. Sempre se trajando com um vestido modelado num só corte de fazenda barata. Enfim, só seria desejável por algum tarado porque o perfil da adúltera não poderia proporcionar um prazer que pudesse levar o nome de sexual. Seu marido, coitado! Gordinho, barrigudinho, baixinho, fraquinho, agora “chifrudão” e um pintinho dormindo em cima dos ovos. 

Todos estavam aguardando, ansiosos, pela “cara do cara.” Quando ele aparece, olhando para baixo e para cima, sem saber que estava sendo observado da casa defronte através dos buracos das janelas. Era dom Juan ou, talvez, o Rodolph Valentino numa imagem diferente: magro, alto, negro, braços fortes e pés grandes, talvez de tamanho 44 pra cima.

Depois desse dia, o meu tio, que tinha uma língua desassossegada, contava até o tempo em que os dois ficavam na moita trocando banana por maçã, como se fossem Adão e Eva no paraíso da bananeira. Sem deixar também de comentar sobre o tamanho dos pés do Dom Juan, calculando, com isso, a dimensão do seu inhame.

Pois ai está, meus amigos, antigamente uma mulher safada era chamada de “puta de bananeira” Tem quem pensa que os vizinhos, as comadres e compadres antigos eram mais sérios; pois as bananeiras e os lençóis de seda que o diga.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos




quinta-feira, 11 de junho de 2020

DOCES LEMBRANÇAS.

 
Defronto-me com um calendário de parede, ou seja, um prospecto comercial da Pharma Vita, a drogaria situada na Rua Coronel João Afonso Lamounier, 481A. ------ Diante disso, dou uma olhadinha no retrovisor da minha vida e bem lá do início desta estrada vejo a Rua Coronel João Afonso, antiga rua da ponte, da década de 40 de quando eu nasci em 1946.

Minha chegada ao mundo se deu bem ali no número 306, onde hoje reside o Sr. Milton Alves. ----- Meu Deus! Que saudade! Em cada número desta rua eu teria algo para contar, mas recordarei aqui apenas os números 481, que entendo ser a antiga casa de Dona Filomena Barros e 481A, onde residia sua filha Quinha, numa pequena casa edificada por detrás de um muro alto, com um portão de entrada, cuja área, creio, era o quintal de Dona Filomena.  

Não tenho certeza de quantos filhos Dona Filomena Barros tinha, mas lembro-me perfeitamente de quatro mulheres: Guiomar, Muca, Sota e Quinha. ----Guiomar era casada com Sílvio Barbeiro e residia no Rio de Janeiro. ---- Sota era casada com Majó --- Muca era minha madrinha e era solteirona------- Quinha era casada com Dedé do Alonso e tinham quatro filhos meus contemporâneos: Toinzinho, Márcio, Armando e Rosângela. Aliás, eu imagino que o meu nome tenha sido inspirado através do meu xará Armando, grande amigo meu.

Percorrendo os labirintos da minha memória, vejo madrinha Muca moribunda numa cama pouco antes de morrer numa visita em que lhe pedi a bênção. É a única lembrança que tenho dessa minha madrinha, falecida quando me encontrava ainda no verdor dos anos. 

Dona Quinha, cozinhando num fogão de lenha toldado de fumaça, enquanto o Xará aguardava uma trempe para fazer a goma de polvilho a fim de colar o papagaio que estávamos fazendo ali no terreiro. Os filhos de Dona Quinha faziam o melhor papagaio (Pipa) chupão, ou seja, aqueles que não utilizavam rabo e que empinavam com facilidade. E toda a meninada queria aprender com eles.

Dona Filomena e suas filhas estão juntas nos céus, inclusive alguns netos. Eu tenho saudade de passar na porta de Dona Filomena e vê-la tecendo alguma coisa e observando os passantes, por cima dos óculos. Esteja com Deus Dona Filomena, juntamente com as suas filhas e netos. Onde quer que estejam, receba o meu abraço saudoso e em especial à minha madrinha Muca e ao meu amigo Armando.

Entre a porta da casa de Dona Filomena e a garagem do Sr. Raimundo Bernardino de Sena, (O Raimundo do Mariano) então prefeito da cidade, havia uma árvore. E por ocasião do mandato do Sr. Raimundo, essa árvore localizada no limite da rua, foi podada, transportada e transplantada para alguns metros defronte a então residência do Sr. Emídio Alves, hoje o Velório da Funerária N.S. das Candeias.

Esta transplantação de uma árvore adulta – lembra-me bem - causou um grande boato entre os curiosos que chegavam a dizer que o prefeito não estaria bom da cabeça. Mesmo porque, foi ele mesmo quem dirigiu a ação, afirmando que em breve a árvore estaria brotada. E para vexame da maioria, a árvore lá está até hoje depois de mais de cinquenta anos.

Quando busco nas minhas memórias um dia de aperto... Um dia de susto... Um dia que a viagem da minha vida poderia ter sido interrompida, eu me lembro do dia 1º de janeiro de 1958 quando eu estava prestes a completar doze anos de vida. Bem de frente de onde está situado o número 481 A, havia então, uma caixa de registro da rede de fornecimento de água da Prefeitura. Nesta época eram comuns essas pequenas caixas com registros, a fim de equilibrar o fornecimento. Cada rua tinha o seu registro e um determinado tempo para provisão. A rua não tinha calçamento e nem passeios, portanto andávamos pelo meio da rua. Eu gostava de passar por aquela caixa e dar um pulo sobre a sua tampa num gesto de menino travesso.

Eram sete horas da noite e eu voltava para a minha casa após ter assistido a bênção do santíssimo, celebrada aos domingos pelo Padre Joaquim. Naquele tempo não havia missas vespertinas. - Ao sair da Igreja Matriz, deu-se início a uma grande tempestade. E ao descer a Rua Coronel João Afonso, eu não fiz como de costume, caminhar pelo meio da rua, fui um trilho ao lado do muro.  Bem no rumo da referida caixa, a dez metros de mim, caiu um raio deixando-me em total desespero diante daquele cheiro forte de pólvora queimada...

Cheguei a minha casa totalmente atordoado, causando grande susto aos meus pais. No outro dia verificava-se que o raio havia arrancado a caixa de cimento de sua instalação deixando-a com a parte inferior virada para cima. Aos 74 anos de idade toda vez em que vejo uma tempestade busco nas minhas convicções o fato de que ninguém morre fora de sua hora...

Mas, voltando ao prospecto da PHARMA VITA, penso aqui agora: Eu nunca imaginei que na minha rua fosse ter, um dia, uma farmácia... Teria sido muita falta de humildade pensar uma coisa dessas naquele tempo... Portanto, isso me faz sentir feliz... Parabéns farmacêutica, Srta. Maria Amélia fundadora da Pharma Vita, por ter escolhido a minha rua, que já não é tão minha, para fincar o seu estabelecimento promotor de saúde... Ai nesse ponto, da minha tão querida Candeias, no alvorecer da minha vida, eu vi cair um raio próximo de mim, mas também, vi subir uma pipa diante dos meus olhos brilhantes... Vi uma árvore adulta renascer cheia de viço... E vi a morte levando a minha madrinha... Só não vi a tristeza porque eu não a conhecia e o meu coração era só a alegria de um novato da vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos