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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

PREFEITO DR. JOSÉ PINTO DE RESENDE.


Na década de 50, por volta do ano de 1955, Candeias era um município que trazia ainda consigo os traços do distrito que teria pertencido à cidade de Campo Belo, até o ano 1938. O comércio era praticamente o mesmo. As novas construções eram raras. A Empresa Força e Luz Candeense, de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi, já não atendia a demanda. Afinal teria sido fundada na década de 30 e nenhum investimento teria sido feito. Já estava àquela empresa caminhando para o sucateamento.

A Cemig teria sido fundada em 1952, portanto, ainda “engatinhava” nas suas expansões e as preferências eram para as grandes cidades. Até então, locais como Candeias não faziam parte do plano de expansão da empresa.

O fornecimento de água encanada era precário. Ainda existia em alguns pontos da cidade torneiras públicas, onde as mulheres lavavam roupas nas ruas; e quando o fiscal João do Ibraim, da prefeitura, vinha com os seus operários capinando as ruas e atingiam os seus quaradores de roupas, era aquele xingatório, as mulheres ficavam bravas. Isso sem falar dos cachorros que, às vezes, vinham e pisavam nas roupas expostas ao sol para quarar. Aquele falatório das mulheres lavando roupas e enchendo latas naquela bica coletiva, está bem guardado numa das gavetas dos armários da minha memória. Nas casas a água era muito bem aproveitada até mesmo depois de serem usadas para tomar banho. Dona Marica da Melada, por exemplo, tomava o seu banho, e vinha jogar a água usada no seu terreiro da rua para apagar a poeira. Era verdadeiramente um tempo de vacas magras.

Surge um prefeito, um jovem prefeito: Dr. José Pinto de Resende, filho do ex-prefeito, Sr. João Pinto de Miranda. Podemos dizer que existem dois tempos na vida de Candeias: antes e depois do prefeito José Pinto de Resende. Um prefeito que deveria ser mais lembrado pelo povo de Candeias, pelo seu dinamismo, pela sua competência administrativa, pela atenção com o povo. Um homem que não se  escondia em gabinete, estava sempre presente diante do povo e na cola dos deputados e governador, a fim de trazer melhoramentos para Candeias. E tem mais: o seu partido, a UDN, União Democrática Nacional, era de oposição ao governo estadual e federal, e no entanto ele conseguia benefícios para o município. 

Ruas foram abertas, terraplanagens foram feitas. Foram iniciados os calçamentos das ruas, praças e jardins foram projetados. Era o inicio de uma nova era. Um aeroporto foi construído e servia, também, a cidade de Campo Belo dada a sua autonomia de operações.

Um horto florestal onde mudas de árvores eram distribuídas gratuitamente além de ensinamento aos agricultores como cultivar um reflorestamento.

A cidade foi toda demarcada, ruas foram alargadas e durante tempos uma grande máquina de terraplanagem veio fazer esse tipo de serviço.

Mas, falando desse tempo lembro-me de um fato curioso. Nessa época dada à precariedade do fornecimento de água, muitas pessoas tinham nos seus quintais uma cisterna. E como o fornecimento da água costumava brecar, quem possuía esses poços atendia os pedidos das pessoas.

Na casa de Dona Joana Gorda, na minha rua, quando faltava água da rua, o que não era raro, era um entra e sai danado de gente atrás de uma lata d’água. Ela possuía um poço que contava quase vinte metros de fundura. E não era muito fácil puxar lá de baixo um grande balde dependurado numa corda de bacalhau.

Com o inicio do calçamento da cidade, apareceram muitos operários vindos de fora especializados em cortar paralelepípedos. E entre esses operários estava o Balbino, cuja esposa era doente e não seria apta para tirar água de um poço tão fundo. E era ele quem ia com uma grande lata do tipo dessas de leiteiros, numa carrocinha buscar da água de Dona Joana Gorda.

Uma das primeiras próteses feitas pelo protético Osmar da Sota, no inicio de sua carreira na área odontológica, ainda como prático, foi a dentadura inferior do Balbino. Balbino, que era muito econômico teria feito a extração de dentes e a dentadura “de baixo” com o Osmar por causa do precinho camarada, tendo em vista que Osmar estava ainda conquistando a confiança da clientela.

Faziam apenas cinco dias que Balbino estava se sentindo como se estivesse com uma ferradura na boca. Tirava aquilo para dormir, para comer e mal conseguia beber. Dizia ele que não sabia nunca que uma dentadura pudesse causar tanto incômodo. O assunto era a dentadura ao redor do poço onde a maioria das mulheres aguardavam a sua vez para tirar a água.

Balbino, não conseguia rir, e ao falar havia de segurar a boca. Parece que estava sendo tomado por um cacoete, tendo em vista a presença daquele corpo estranho em sua boca.

Chegou a sua vez de baixar o balde. As mulheres em número de umas cinco falavam, riam e comentavam ao redor do poço aguardando a sua vez, quando Dona Marica, a mais escrupulosa da turma, a mais nojenta, pergunta:  “Será que tem sapo lá em baixo... Eu tenho um nojo desses bichos”? Quando uma disse: “Sapo e rã não sei não, mas perereca é os monte”. Foi um riso total, e Balbino que puxava o balde já na boca do poço usando as duas mãos riu e a sua dentadura pulou igual uma perereca para o fundo do poço.

A mulherada foi saindo uma atrás da outra e foram procurar outra fornecedora de água, bem longe do Balbino. E nunca mais pediram água para Dona Joana.

Balbino contratou um profissional que esgotou a cisterna de Dona Joana, recuperou a sua dentadura, mas a água daquele poço ficou prejudicada. Maria, a filha de Dona Joana era vista pegando água na bica comunitária e dizia que era para beber, porque era tratada.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

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