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domingo, 4 de dezembro de 2011

O SOBACO RAPADO

                                       Atríz Taís Araújo - Foto Wikipédia
Eu me sinto estarrecido com a violência do homem contra a mulher. Não existe, a meu ver, um ato de covardia mais humilhante. A força do homem não lhe foi concedida para atos dessa natureza e sim para defender a mulher que, na constituição da família, entra com a parte da sensibilidade tão necessária ao ser humano na sua formação. Portanto, entendo que a força do homem não tem outro significado a não ser para proteger a mulher. É verdade que existem mulheres atrevidas que não reconhecem o seu físico frágil diante do homem. Com isso, costumam principiar uma agressão na qual ela sai em desvantagem. Contudo, isso não justifica um homem levantar a mão para uma mulher. Cresci, ouvindo meu pai dizer: “Em mulher não se bate nem com uma flor”.


Eu tenho bem guardado, nas gavetas da minha memória, um fato triste que presenciei, quando criança, na casa dos pais de um menino, amigo meu. Chamava-se Jésus. Era a época em que eu frequentava a sua casa para brincar, nos meus tempos da Rua Coronel João Afonso.


Lourdinha, sua mãe, era uma mulher de traços lindos, porém, faltava-lhe trato. Um banho de loja e alguns cuidados, com certeza, lhe fariam sósia da famosa Taís Araújo, atriz da Rede Globo de Televisão. Aquele charme, aquela simpatia, aquele jeito da atriz poderiam ter lhe pertencido antes, se lhe tivesse sido aplicada a performance necessária. Na escola se desdobrava diante de outros alunos. Um meio favorável e adequado ao nascer teria feito de Lourdinha uma personalidade, pois, não lhe faltava perfil para isso: alegre e risonha. Gostava de cantar, representar e era inteligente. Todavia, tudo isso teve um fim com o seu casamento. Se Deus lhe tivesse dado um endereço diferente para aportar neste mundo, isso poderia ter sido evitado. Entretanto, infelizmente, o destino de Lourdinha foi nascer nas beiradas da cidade de Candeias como filha de pessoas humildes e sem nenhuma perspectiva de vida. Nascera num meio excluso e jamais sairia dele porque o seu fado não lhe ajudaria.
Morena escura, canelas finas, corpo mediano, lindo e sedutor, capaz de atender os mais exigentes anseios masculinos. Tinha um sorriso próximo do maravilhoso e uns dentes brancos e perfeitos. Uma espessa cabeleira mal cuidada, dependendo, simplesmente, de um cabeleireiro para que a tornasse perfeita. Enfim, Lourdinha era uma figura de causar inveja na Escrava Isaura de Bernardo Guimarães. Ter-lhe-ia faltado apenas o meio saudável já que o homem é um produto do meio. A natureza lhe teria sido muito gentil, muito camarada e benevolente, contudo, a sorte não lhe esteve presente.


Ser pobre não é defeito de ninguém. Pelo contrário, a pobreza eleva o ser humano que sabe viver com dignidade diante das dificuldades. Mas, o destino de Lourdinha não lhe prometia nada. Se já não lhe bastassem os problemas que a vida lhe teria oferecido oriundos do berço, viera a se envolver em namoro com um cidadão fora dos bons princípios morais, sem ânimo para o trabalho e o pior: cheio de tendências negativas. Era adepto ao jogo e à bebida alcoólica com excesso. É de todo sabido que essas duas opções, fora dos limites, levam o ser humano a caminhos tortuosos, caminhos contrários aos bons costumes impostos pela sociedade.


Lourdinha conheceu Sebastião em uma Festa do Rosário. Este, com cara de anjo, se aproximou dos pais da moça para pedir autorização para o namoro. Como contava com dezesseis anos e ele já rapaz feito, com uma profissão, o namoro foi autorizado. Começou e, logo depois, se casaram com a aprovação da família que via para a filha uma reserva de futuro, tendo em vista julgarem-na própria para se casar.
Sebastião era pedreiro de segunda categoria. Era conhecido por Tiãozinho, mas, não tinha nada de “inho”. Era um mulatão forte, alto, cabelo bem aparado, rosto largo, dentuço, nariz tala larga e uma boca de dimensão respeitável que esguichava uma voz pastosa, principalmente, quando estava bêbado. Tipo encrenqueiro. Não se dava bem, nem mesmo, com os seus pais. Brigava por coisas ínfimas como, por exemplo, se alguém lhe tomasse o seu pedaço de frango preferido já era motivo para um falatório danado. Chamava o pai de bobo e a mãe de ignorante, em um tempo em que os filhos beijavam as mãos dos pais. Era grosseiro e estúpido enquanto a mulher era uma figura delicada e amável.


Quase sempre, entrava em conflitos nos botequins quando exagerava nos goles e, ao chegar em casa, tinha a mão solta sobre a família, principalmente, na pobre mulher que vivia com o rosto sempre mostrando as marcas da violência do marido. Os pais, comumente, em conformidade com a história bíblica dos “Setenta vezes sete” (Mateus 18/22) não se envolviam e o pior é que não existia lei que punisse isso. Aquela velha história de que em “briga de marido e mulher não se mete a colher” era coisa efetiva. Para certas mulheres, a sua própria casa poderia ser vista como um protótipo do inferno.


O irmão de Lourdinha iria casar-se na cidade de Campo Belo e a família foi toda mobilizada para a cerimônia. Tiãozinho teria descartado a sua presença, mesmo porque não teria como comprar roupas e nem arcar com um presente. Permitiu que a mulher viajasse, desde que não lhe coubesse nenhuma despesa o que lhe foi bancada pelo seu pai.
Dois dias foi o tempo de ausência de Lourdinha enquanto esteve hospedada com seus familiares na cidade de Campo Belo. Naquele afã da festa, as mulheres se arrumaram com esmero. Lourdinha foi levada a mudar o seu visual, pinçando as sobrancelhas, depilando as axilas, buço, etc. Isso, com certeza, teria mexido, talvez, com a única gota de vaidade que lhe restava.


O filho mais velho do casal não teria ido. Permanecera com o pai. Éramos amigos e sempre nos juntávamos para brincar de bolinha de gude e rodar pião no quintal de sua casa que ficava nas proximidades da venda do Antônio do Orcilino, hoje, mercearia do Rogério, na Rua Coronel João Afonso, esquina com Rua José Furtado.
Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava presente, quando chegou Lourdinha, toda feliz, com um visual mais cuidado, ainda dentro do vestido da festa, presente de sua mãe. O cabelo teria ganhado um banho de óleo e o rosto retocado. Trazia no colo a filha caçula e um embrulho com alguns doces, bombons, pedaços de bolos, ou seja, um pouco da festa para agradar o marido e o filho. Ela não sabia o que lhe esperava:
Logo depois, ainda naquele calor da chegada, quando Lourdinha dava a mim e ao seu filho as delícias da festa, Tiãozinho vem chegando. Não teria ido trabalhar e já estava embriagado. Quando bateu os olhos empapuçados sobre a mulher e a vê com um novo visual começou com os ataques verbais que logo passariam aos ataques físicos:
Tomou-lhe das mãos o embrulho dos doces da festa e o atirou longe. E aos gritos disse:
--- Vagabunda! Que negócio é esse de subaco rapado. E esses ôio pelado? Onde qui ocê tirô isso? Até a boca tá rapada. Que mais que ocê rapô? O que ocê andô fazeno nesse inferno de casamento? Deve tá tudo rapado sua “p”, sem vergonha. Ocê tá mais é pareceno uma vaca do Zé Bolinha. (Zé Bolina era o dono da zona do meretrício). Muié, igual ocê, pricisa é morre! Sua ordinária. Trem ruim. Ocê juntô com a cachorrada da sua famía pra vortá desse jeito igual uma vagabunda de zona. Eu vô te mostrá sua safada, ispera aí.
Pegou a pobre mulher aos tapas e lhe tomou pela nuca arrastando-lhe até a uma caixa dágua próxima à porta da cozinha e lhe mergulhou a cabeça causando-lhe um estado de desespero tão grande difícil até mesmo de descrever. Lourdinha estava ali, às portas da morte. Daí o canalha soltou a pobre mulher que se foi ao chão, cujo vestido novo se misturou com a lama da beira da caixa. O rosto refletia a presença da morte. Eu e seu filho, Jésus, com os olhos arregalados, assustados, impotentes, intimamente desesperados, assistimos àquele quadro de terror, quando aquele homem que mais parecia um animal irracional tomou-se da mulher e a depositou numa cama saindo em seguida para a rua. Diante disso, eu e o seu filho saímos desesperados até a venda do Antônio do Orcilino e pedimos socorro o que fez logo com que a casa se enchesse de gente.
A partir desse dia, algo muito sério aconteceu com Lourdinha. Talvez, uma forte lesão cerebral. Ela nunca mais foi a mesma. Ficava o tempo todo olhando em uma só direção. Não ria, não chorava, tornou-se uma criatura vegetativa. Não dava notícia de nada e não falava coisa com coisa. Os filhos que outrora andavam limpos e saudáveis já não mostravam esse quadro. Tiãozinho vivia bêbado. Saía cedo e voltava à noite. Não fosse a família de Lourdinha, esta e os seus filhos teriam morrido de fome.


Após algum tempo, mudaram-se para a cidade de Formiga e eu, nunca mais, tive notícia dessa família. Até que um dia, muitos anos depois, no Bar do Vicentinho Vilela, alguém se aproximou de mim e perguntou:

---Disseram-me que você é o Armando?
---Sim, pois não..
---Eu sou o Jésus da Lourdinha. Talvez, você não se lembre mais de mim. Moro em Belo Horizonte e sou motorista de táxi.
---Claro que me lembro, Jésus! Como iria me esquecer de você, meu amigo!

Após um abraço emocionante, perguntei:

---E sua mãe? Como está?
---Minha mãe morreu muito nova, logo após nossa mudança daqui. Ela nunca mais se entendeu como gente!


Naquele momento, caíram duas lágrimas que se encontravam guardadas nos fundos dos meus olhos, há muitos anos! Não tive coragem de perguntar pelo seu pai e, felizmente, ele não me disse nada a respeito dele.

Eu gostaria tanto de não ter esta história para contar! Ela me transporta ao inferno das mulheres violentadas por demônios que pensam que são homens.
É triste! É muito triste!...

Armando Melo de Castro
Candeiasmg.Casos e Acasos
Candeias -MG

Um comentário:

Giuliano disse...

Bom mesmo seria se esse conto fosse somente passado...entretanto, é o registro triste do contemporâneo e sem mostras de extinção futura...