Total de visualizações de página

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

UM BENDITO TOCA-DISCOS


Imagem para ilustração do texto.
No meu tempo de adolescente, as coisas eram muito diferentes dos dias atuais. Os namoros eram para casamento. Não tinha esse negócio de “ficar”. Esse termo era próprio dos homens quando transavam ou dormiam com uma prostituta e comentavam: eu fiquei com fulana. Hoje, quando ouço uma adolescente dizer: eu e cicrano ficamos ou nós somos “ficantes”, eu até me arrepio de ver como as coisas mudaram. Já não se tem tranca na língua. A pessoa fala e escreve o que bem pensa. Analisando o mundo de hoje, concluo que uma das grandes responsáveis por essa mudança é a televisão. Recentemente, no programa do Jô Soares, eu vi e ouvi em muito bom som, os participantes falarem o apelido da vagina e do pênis como se estivessem falando numa tabuleta ou num baralho. Falavam sobre o ânus como se esse fosse um jacu. A televisão vem mudando, a passos rápidos, a nossa cultura. Antes, cada Estado tinha a sua característica. Agora, vai ficando tudo por igual. Enfim, são novos tempos. O tempo não muda só de chuva para sol e nem de sol para chuva. O tempo muda de cara e é o que estamos vendo.



Hoje em dia, os namorados transam dentro de suas casas. Conheço mães que dizem achar isso natural e que é muito melhor do que imaginarem a sua filha em um motel. Isso pode parecer um absurdo para mim que já sou avô, entretanto, para os pais de hoje, está tudo normal. A virgindade, aos olhos da maioria da gente moderna, é uma caretice. A música de hoje só fala em sexo. O romance caiu de moda e o sexo tomou o seu lugar além de vir com especificidades: sexo anal, sexo oral, sexo explícito, espanhola, 69, troca-troca, cata cavaco, frango assado, canguru perneta e tanta coisa mais que eu fico até vermelho diante de certos jovens. Enfim, fazer o quê? Essa geração que aí está é a responsável pelo mundo de seus filhos e, nessa questão, é muito difícil julgar porque a obra da criação impõe progresso, e, desde que o mundo é mundo, existe o conflito de gerações. É difícil ficar citando o que é certo e ou o que é errado. Portanto, a meu ver, o melhor é entender que a libertinagem é um vocábulo fora do dicionário moderno. Quem muda o mundo são os jovens. Nós, os velhos, não temos mais o futuro. O nosso presente é escasso e o passado está quase morto.



Como eu dizia, antes havia o silêncio. A boca nem sempre falava o que pensava. Era gostoso pensar em segredo, imaginar uma safadeza. Um escurinho do cinema, estar na moita ou num corredor escuro. Uma mão meio abobada... Ah, como era bom o escuro! Às vezes, a gente via o sol no escuro. A vida era cheia de incógnita. Cheia de segredinhos e fofocas. O namoro escondido. Como era bom namorar escondido. A pessoa, às vezes, estava, por tempos, sendo a causa de um comentário e não sabia de nada.



Pensava que estava enganando e no fundo estava sendo alvo de crítica maliciosa. Afinal, o escondido fazia parte das nossas emoções e a descoberta era demorada.


Atualmente, tudo se fala, tudo se comenta e tudo é aberto.


Obviamente, que eu já fui um adolescente. Como já disse, anteriormente, era um menino bobo, tímido ao extremo. Não era bom de conversa e nem sabia me apresentar a uma menina. Não cumprimentava alguém olhando em seus olhos. Trazia comigo a insegurança e morria de medo do ridículo. Mas, cá dentro do meu mundo, eu era cheio de idéias. Pensava o que queria porque Deus teria me dado esse atributo. Não podia falar o que pensava. Entretanto, podia pensar o que falava. Portanto, eu dava dicas de que era realmente um bobão. Todavia, no fundo, no fundo, eu era corajoso, safado, desavergonhado e descarado. A bem da verdade, eu era alguém para mim e outro para os outros. Porém, muito longe de me comparar aos jovens de hoje.



O cabaré era a escola onde se aprendia a beijar, a transar e até a gostar de uma mulher. As professoras se propunham a prestar um bom serviço e existiam aquelas que eram verdadeiras artistas e eu já me imaginava frequentando aquela escola fazendo a minha matrícula através de uma visita ao cabaré do Zé Bolinha até que, em um dia de carnaval, recebi um convite de um amigo meu, o Zé Mori Alvarenga, para dar uma chegada lá na mulherada. Eu não pensei duas vezes em aceitar o convite. Ele era mais velho, já experiente e eu com uma companhia dessas estaria como se, ao meu lado, tivesse o professor que eu queria.



Zé Mori Alvarenga teria me contado que na zona se gastava muito dinheiro e que iríamos dividir duas cervejas. Não poderia escutar a conversa das mulheres porque senão elas arrancavam o couro da gente. Iríamos ali para apreciar o movimento. Só que eu queria mais e planejei uma nova visita ali para alguns dias depois.



Eu possuía um toca discos de 78 rotações (não havia LPs nesse tempo) com um pequeno amplificador de som que eu comprei de segunda mão de uma senhora chamada, Ana Pimenta. Paguei o aparelho com muito sacrifício juntando tostão por tostão. Custara a importância de sete mil cruzeiros (unidade monetária antiga) com dinheiro ganho como auxiliar de fogueteiro do Zé do Leonides, pai do Ieié. Na época, esses aparelhos, apesar de rudimentares, eram muito caros ao contrário de hoje que são fartos e fáceis de serem adquiridos. Sete mil cruzeiros era muito dinheiro e dava para fazer mais de uma boa farra.



Diante disso, eu tive uma idéia: vou voltar ao cabaré, mas, agora, vou com dinheiro. Vendi o meu toca discos por cinco mil cruzeiros para o filho de um vizinho fazendeiro, tal de Pedrinho. Um menino bem mais novo do que eu e meio bobo.



Fiquei com cinco mil cruzeiros no bolso e com o cabelo besuntado de Brilhantina Glostora, perfume Madeira do Oriente nas orelhas, leite de colônia no corpo inteiro e um maço de cigarros Columbia (o mais caro da época) segui para o cabaré. Empanado em uma calça marrom e um paletó preto, roupas de ver Deus sendo usadas para ver o diabo. Nunca me senti tão rico na vida. Eu parecia o dono do cabaré e causei a melhor impressão nas mulheres. O dono do prostíbulo, que só era gentil quando via dinheiro, tratou-me não como um proletário, mas sim, como um latifundiário. A mulherada nadou e rolou no rabo-de-galo (pinga com vermute), na cerveja e no tira-gosto de mortadela (o chamado pão com salame). Tocaram-se músicas próprias do ambiente e, pela primeira vez, eu dancei. Dancei com a mulherada toda. Elas me ensinavam tudo. Lembro-me que passei a ser alvo de disputa entre elas. Contudo, eu escolhi uma mais bonitinha, a Maria dos Baiões, que me ensinou a dar um beijo caprichado, pois, eu não sabia nada. Senti-me como um galo no terreiro, no meio da galinhada. Eu que não tinha, ainda, o hábito de usar bebidas alcoólicas e fui acordar lá pelas tantas da madrugada, com alguém me mandando embora, pois eu estava roncando muito. A cabeça parecia estar estourada, a boca com gosto de cabo de guarda-chuva e o bolso sem um vintém de sobra. Saí rua afora como o mais idiota de todos os homens.



No outro dia de manhã, o pai do comprador do aparelho aparece com ele à porta de nossa casa. Veio bravo falar com o meu pai para desmanchar o negócio, pois, seu filho lhe teria furtado o dinheiro debaixo do colchão para comprar aquela porcaria.



Naquele momento, eu curtia a primeira ressaca da minha vida. Mas, estava com a alma lavada porque já teria fornecido ao mundo grande parte da minha inocência.


O resto não será difícil imaginar. Deus deu um jeito...


Armando Melo de Castro
Candeiasmg casos e acasos
CANDEIAS – MINAS GERAIS

Nenhum comentário: