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quinta-feira, 7 de maio de 2020

O CANDEENSE NICO PACHECO.

                                                   Sr. NICODEMOS SALVIANO (Nico Pacheco)
Nas minhas caminhadas, pelos arredores da nossa cidade de Candeias, fiz passagem por uma rua de poucas casas. Uma viela que toma todo o seu lado direito pelo Cemitério São Francisco e do lado esquerdo, estão às poucas casas residenciais. ----- Trata-se da Rua Nicodemos Salviano.


Eu não conheço o critério usado pela Câmara de Vereadores de Candeias no momento de escolher uma rua a quem vai dar o nome de um cidadão merecedor desse ato de veneração e respeito. Mas, entendo tratar-se de um fato relevante, mesmo porque, isso envolve todo um processo de reconhecimento ao homenageado pelos serviços prestados a sociedade, sem esquecer o atributo de personalidade idônea.

O cidadão comum, na posteridade, esteja certo ou errado, queira ou não queira, verá na representatividade da rua a equivalência da homenagem.

Ainda que os políticos vivam considerando diferenças dentro das desigualdades, como também, das igualdades e buscando desculpas de que o conceito sobre a igualdade, de Rui Barbosa, é jurídico, não interessa. Sabemos que a desigualdade social é patente em todos os pontos e é inerente à vida. Portanto, seria de bom alvitre os senhores políticos atinarem pela lição de igualdade que Rui Barbosa deixou para os cidadãos brasileiros:

“A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais, com igualdade, seria desigualdade flagrante e não igualdade real.” (Rui Barbosa - Oração aos Moços).

Pelo que representa o nome do empresário, Nicodemos Salviano, para a história de Candeias, entendo que a lembrança de tomar o seu nome para colocá-lo numa rua, por parte dos representantes do povo candeense, na Câmara Municipal, foi justa, muito justa. Mas a escolha da rua não teve um critério judicioso. A Câmara não usou de equidade ao escolher a rua onde estaria cravado o nome de um cidadão como poucos na história de Candeias.
Esse ponto de vista não visa ferir a essencialidade da rua. Apenas busca elevar o merecimento do homenageado no sentido de fazê-lo mais evidente.
Portanto, peço desculpas aos senhores moradores da Rua Nicodemos Salviano.

Nicodemos Salviano, o popular candeense tratado pelos amigos de Nico Pacheco, nasceu no dia 04 de abril de 1895, em Candeias. Filho único de Antônio Rodrigues Salviano e Maria Eufrásia de Jesus.

No seu tempo, não havia em Candeias nenhuma escola regular. Portanto, foi educado pelo então pároco, Padre Américo Brasileiro, homem de profunda cultura com quem aprendeu a ler, escrever e adquiriu conhecimentos básicos, além de aprender línguas, entre elas, latim, espanhol e francês. Estudou, também, com o Padre Américo, a arte da música, o que lhe fez ser grande apreciador da música clássica e um louvável pistanista da Corporação Musical de Candeias, da sua época.

Em 1922, após acordo de seu pai com o Sr. Antonino Basílio de Azevedo, da cidade de Itapecerica-MG, casou-se com Dona Zita Bemaventurada dos Santos que contava à época 16 anos, sendo ele onze anos mais velho que ela. Tiveram vários filhos, dos quais, onze sobreviveram. São eles: ------Zizica – Aparecida – Terezinha - Antônio - Alba - Santa – Agda -- Nicodemos - Zitinha - Raimundo e Rosália.

Começou a vida como carpinteiro, porém, no decorrer do tempo, realizou vários empreendimentos, muitos ao mesmo tempo. Destacam-se, entre eles:

Olaria, no lugar denominado Cachoeirinha;
Exploração de jazidas de calcário, nas comunidades de Trindades e Bugios;
Fabricação de farinha de mandioca;
Fabricação de farinha de milho;
Beneficiamento de arroz;
Moinho de Fubá;
Torrefação de café da marca “Café Ene Esse”; (NS)
Fabricação de ladrilhos hidráulicos;
Fabricação de móveis;
Fabricação de urnas funerárias;
Fabricação de bancos de cimento; --- existentes, ainda, nas Praças de Candeias ---.
Fabricação vigas e pré-moldados;
Revendedor de material para construção, inclusive cimento.
O Grupo Industrial do senhor Nicodemos Salviano, formado por diversas pequenas empresas, tinha como sede a Rua Salatiel de Carvalho, 84, e funcionava nos galpões, até hoje lá existentes, já em estado precário, numa área ligada com a sua residência.

Nicodemos foi também dedicado à política do Município, desde os tempos em que Candeias era distrito de Campo Belo. Ocupou cargos públicos como juiz de paz e delegado de polícia. Membro de diretório e candidato ao cargo de vice-prefeito, na década de 50.

Autodidata que nunca parou de estudar. Gostava de inventar coisas e aprendeu a profissão de construtor tendo adquirido o registro no CREA sob nº. 138. Com essa especialidade, construiu inúmeras casas em Candeias muitas das quais ainda existem na sua forma original.

Foi um grande amigo e braço direito, para muitas obras, do Monsenhor Joaquim de Castro. Junto a ele, construiu o cinema de Candeias e, mais tarde, dirigiu a sua reforma transformando-o no prédio que ainda hoje existe, quase na sua forma original.

Sob a orientação do Monsenhor Castro, reuniu um grupo de amigos, entre eles Sebastião Salviano e Antônio Freire, quando fundaram o Círculo Operário São José que tinha por objetivo unir e apoiar a classe operária, tendo sido o seu primeiro tesoureiro.

Foi o construtor das primeiras casas da Vila Vicentina. Foi também o responsável pela construção da Santa Casa de Candeias, instituição que não se concretizou, além de muitas outras construções, algumas já demolidas e outras ainda de pé, como o prédio do Bar Piloto.

Enfrentou o seu maior desafio ao dar início à reforma da antiga Matriz de Candeias. Dirigiu os primeiros trabalhos e ficou à frente da construção da nova Matriz até por volta de 1965. Desgostoso com o rumo que as obras tomavam, adoeceu e veio a falecer, em 19 de fevereiro de 1970, dois anos após a morte de seu grande amigo e confessor Monsenhor Castro.

Alguns casos pitorescos, lembrados por seus filhos e narrados por sua neta materna, Clara Salviano Borges:

Conta-se que ele estava trabalhando na casa de uns franceses que aqui residiam. A mulher, com medo de que ele fosse uma pessoa desonesta, guardou o relógio de ouro do marido. Esse, ao procurar pelo relógio, perguntou a ela, em francês, se ela tinha visto o objeto. Nicodemos respondeu, também em francês, que ela o havia guardado, deixando os dois sem graça.

Diz-se que o Monsenhor possuía uma mula que só deixava o dono montá-la. Aí, meu avô vestiu a batina do padre e montou, enganando o animal.

Ele inventou uma tinta para caneta (usava-se apenas canetas tinteiros na época), feita de amora. Ensinou o segredo apenas para o Sr. Cristovam Alvarenga e não deixou registro da invenção que acabou se perdendo.

Outra tia contou dois casos: ele tinha um amigo que morava em uma rua, mais abaixo da sua casa, e, quando o amigo passava, os dois se comunicavam através de assobio, dizendo frases inteiras por esse meio, se entendendo perfeitamente. E com sua veia de inventor, comprou, certa vez, um automóvel velho da marca Ford que desmanchou para aproveitar peças e, com um pedaço, fez a porta do forno de fogão à lenha que ainda está inteira no mesmo local.

Nicodemos Salviano dedicou toda a sua vida à sua terra natal. Aqui nasceu, viveu e morreu. ---- Nasceu, quando Candeias, estava longe de ser uma cidade. Era uma vila sem recursos e sem expectativas, pois, somente em 1938, aconteceu a emancipação do Município, contando, inclusive, com o seu esforço como um dos aliados do emancipador, Dr. Zoroastro Marques da Silva.

Constituiu a sua família com dignidade. Os percalços da vida sempre foram enfrentados quando amparado por uma religiosidade fiel. Sempre de mãos em punho para a luta e colocando sempre a sua inteligência à prova.

Dado à sua autoridade moral e ao seu comportamento lhano era também conselheiro. Muitos pediam o seu conselho, nos momentos de dúvida.

Infelizmente, as empresas do senhor Nicodemos Salviano não subsistiram após a sua morte depois de terem servido a nossa cidade, durante muitos anos.

Quem passar pela Rua Salatiel de Carvalho poderá ver o cenário do que restou, depois de uma longa história de muitos ideais. Trata-se da obra do tempo. O tempo, esse ácido que mata virtudes e ironiza destinos, que transforma a matéria, brinca com a imensidão e corrói a vida em troca da morte.

Os escombros do velho galpão onde funcionava a máquina de beneficiar arroz e a marcenaria. Ali se fabricava de tudo, inclusive urnas funerárias, aquelas de modelos antigos, envolvidas num tecido roxo. Antônio, o filho do Nicodemos, estava sempre ali produzindo aqueles caixões mortuários, quando falecia alguém.

Do lado de fora, está o engenho de serra carcomido pela ação do tempo, parado e ainda contendo a serra fita, como se estivesse esperando alguma tora para serrar.
Ao lado, está o barracão destinado à fábrica de bancos e ladrilhos dando frente para o pátio de secagem dos produtos e outras atividades.

Num canto contíguo, está o galpão da torrefação do Café Ene Esse. Uma das primeiras marcas de café torrado e empacotado da nossa região. Muitas pessoas viram, pela primeira vez, esse tipo de produto através do “Café Ene Esse”, popularmente, tratado de “Café do Sô Nico”.

Um cenário triste para quem se lembra da movimentação existente naquele local, hoje com o silêncio das máquinas e o cessar dos martelos.
Naquela área restrita, havia lugar para tudo e se não tivesse, ou se inventava ou se arranjava.

A família, como base fundamental da sociedade, faz nascer de si valores que dão guia à vida das pessoas. Portanto, é dela que nasce o líder que se coloca disposto, não só pela necessidade de pertencer a ela, mas para servi-la. E é assim que consigo ver você, Nicodemos Salviano. A singularidade do seu modo de vida e a contribuição que você deu à história de Candeias, o faz ilustre. Portanto, hoje, lembramos você e escrevemos aqui para que as pessoas que não lhe conheceu possam saber quem foi você. Um nome digno de respeito e que escreveu um maravilhoso capítulo da história de Candeias.

Obrigado, Sô Nico! Obrigado por Candeias!

Armando Melo de Castro
Candeias – Minas Gerais





sexta-feira, 1 de maio de 2020

MINHA AMIGA DONA ESTER DE PAIVA

                                                             Cruzeiro do Josino - Candeias MG.

Hoje, como às vezes acontece comigo, amanheci com o desejo veemente de colocar a minha conversa em dia com os Céus. Portanto, resolvi ir até ao Cruzeiro do Josino, ponto preferido por mim para falar com Deus. Fui pedir ajuda - entregar os meus pecados e agradecer tudo aquilo que recebo diante da missão que me foi dada aqui neste mundo, no sentido de contribuir com a obra da Sua criação.

Ali, aos pés daquela cruz campal, símbolo maior da redenção cristã, onde, há mais de sessenta anos eu faço as minhas orações e as minhas meditações, abri um dos mais queridos estojos da minha infância e me encontrei com Dona Ester a minha antiga vizinha de quem eu guardo nítidas lembranças pelo carinho que me dedicou, quando eu me encontrava ainda, no verdor dos meus anos. Muitas foram às vezes que nos ajoelhamos aos pés daquela cruz e rezamos juntos. Agora, com certeza, estará noutra das muitas moradas da casa do Pai Celestial.

Que saudade eu senti naquele momento de Dona Ester!...
Retroagindo pela estrada do tempo, volto à minha infância e sinto a presença de Dona Ester dando-me a sua melhor atenção como que alguém muito importante para ela.

Natural da cidade de Itumirim/ MG, na região de Lavras, veio trazida para Candeias através das águas do destino como uma ave aquática extraviada da sua rota. Aqui, se aportou na busca de novos ares e de algo que pudesse atender a sua vida vazia, visto que teria vivido de preencher o vazio dos outros, sem nenhuma resposta. 

Seu comportamento, involuntário, não atendia os preceitos da sociedade hipócrita e escrupulosa.  Época em que um agouro do destino arrebatava quaisquer sentimentos louváveis. Era um tempo em que a prostituição tinha diversos segmentos e, entre esses, a fome, a miséria e o meio de onde é feito o homem como produto excluso. Dona Ester era uma vítima social julgada como ré por um tribunal sem consciência. Teria sido ela uma prostituta que chegou à Candeias, vinda pelas águas da sarjeta.

Seu desejo de ter um lar lhe foi concedido por Deus com o avanço da idade. Contudo, os filhos lhe teriam sido negados. Casou-se, já idosa, com João de Paiva que lhe acolheu após a sua travessia nesse revolto mar da vida. Desde então, se tornou integrante da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, quando ostentava o seu vestido de tricoline preto e uma fita de seda vermelha ao pescoço como insígnia da confraria. Teria sido um presente do marido que a fez muito feliz. Aquele vestido preto, talvez, tivesse dado a Dona Ester uma emoção muito maior do que o branco vestido de noiva que jamais teria usado.

Agora, perante a Igreja Católica, parece que Dona Ester teria se tornado filha de Deus por ter se casado de acordo com as suas regras. Até então, Dona Ester teria sido  refutada pela igreja.

Era uma vida modesta. Seu marido um pedreiro do padrão: meia-colher e, às vezes, lhe faltava serviço. Dona Ester, com a sua hábil maneira de economizar, fazia com que não lhes faltassem nada. Chegou a juntar dinheiro com o qual comprou um rádio usado sendo, naquela época, um aparelho caro, mas, que lhe proporcionava acompanhar, diariamente, o terço através da Rádio Nove de Julho, de São Paulo.

Dona Ester gostava de ir ao mato catar gravetos e sempre me levava com ela, como companhia. E lá no mato, era aquela preocupação comigo: "Armando! Cuidado, meu filho! Olha no chão para ver se não tem cobra!”.

E eu, com os meus olhos de menino descuidado, nem sei se olhava para o chão. O que eu queria, no entanto, era encontrar as frutas do mato, naquele tempo fartas na região de Candeias, como a guabiroba, goiabinha, pequi, araçá, araticum, marmelada-de-cachorro e muitas outras espécies de frutas silvestres das quais eu tanto gostava e que só existem, hoje, nas minhas lembranças. 

Ainda guardo, na minha memória, um pé de limãozinho doce que existia próximo de onde está hoje, a COPASA, no Bairro Rio Branco. Como Dona Ester gostava daqueles limõezinhos! O pé era muito alto e a gente tinha que levar um bambu para apanhá-los. Às vezes, eu insistia em subir no pé para colher a fruta da sua preferência, mas ela não deixava. Temia que eu viesse a cair do galho.

Dona Ester sabia tudo e me ensinava tudo. Eu a ouvia, atentamente, quando falava. E como eu gostava de vê-la chamar-me de meu filho! O meu coração tinha lugar para muitas mães e eu a coloquei dentro dele como uma de minhas mães.

Éramos vizinhos de frente. Na sua casa, ela não comia nada diferente sem guardar uma prova para mim. Ela criava uma carneira dentro de casa e parece que o animal gostava de mim também. A ovelha era tida como filha. Tratada como “bitinha” da qual tirou lã até completar uma colcha para se agasalhar como se fosse aquilo o calor do animal querido.

Quando a seca chegava e a chuva não vinha, íamos juntos molhar o pé da cruz e pedir auxílio aos Céus. Devota fervorosa de São Benedito e São José, dizia sempre que os seus santos nos aliviariam da seca mandando chuva.

As pessoas que adoeciam na vizinhança tinham uma aliada fiel. Preocupava-se com o doente como se fosse um parente seu.

Quanta saudade eu sinto de Dona Ester! Lembro-me de suas risadas mostrando uma boca sem dentes. Exaltando as rugas de um rosto sofrido. Os cabelos brancos levando a saúde e matando a juventude. Um corpo flácido e fatigado pelo tempo dando mostras de uma vida em decadência; coberto, constantemente, por um vestido de tecido grosso, descorado e desgastado. Um corpo sem o viço de outrora, estampado numa velha fotografia amarelada e dependurada junto de um quadro da Santíssima Trindade na sala de sua casa.

Onde quer que você esteja Dona Ester, obrigado pela presença constante na história da minha vida. Receba de coração o meu abraço, o meu beijo, o meu carinho e a minha saudade. Com certeza, a paz do Senhor estará sempre com você porque você merece.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

WILLIAN VIGLIONI, UM HOMEM RARO.

                                                        SR. WILLIAN VIGLIONI E SUA FAMILIA.

É com imensa satisfação que o nosso Blog, Candeias MG Casos e Acasos, estará prestando uma justa homenagem a um dos mais ilustres candeenses ao completar, nesta data, 15 de abril de 2020, 96 anos de idade: WILLIAM VIGLIONI. Trata-se de um patrimônio vivo da história política e social do município de Candeias e que muito honra os anais da nossa história.

Nascido no dia 15 de abril de 1924, em Candeias, no casarão de sua família que situava onde hoje está edificado o prédio do Banco do Brasil S.A. --- Filho de Torquato Viglioni e Dona Maria Marques Viglioni.

Em 15 de junho de 1938 foi estudar em Barbacena, na Escola Agrícola, onde se formou em 1944, como técnico agrícola. Em 1945, seguiu para Belo Horizonte onde trabalhou na corretagem da Rádio Inconfidência e Guarani, e nos jornais: O Estado de Minas e Diário da Tarde. Foi ainda, funcionário lotado no gabinete geral do Estado, Pimenta da Veiga (pai). Em 1953 regressou à Candeias, passando a administrar a fazenda de seu pai, que estava com a idade avançada. Em 1954 casou-se com Maria Lúcia Viglioni, filha do Sr. José Pacheco Lops e Dona Nica, de cuja união teve quatro filhos: Marília Cristina, Ana Maria, Júlio Cezar e Torquato José.

Candeense na essência da palavra por ter a sua existência voltada para os interesses do município, da família e dos amigos. Teve grandes oportunidades de fazer a vida fora de Candeias com muito mais progresso; no entanto, preferiu ficar na sua terra lutando pelos seus ideais herdados da sua descendência de melhores gemas de linhagens candeenses. Sua origem familiar vem desde os tempos de Domingos Tendais. Neto do Coronel Marques além de sobrinho e discípulo do maior líder politico candeense, o Dr. Zoroastro Marques da Silva.

Seus interesses pela vida politica e social do município de Candeias honra os anais da nossa história; não só pela sua origem familiar, mas também pelo seu comportamento; pelo seu feito como cidadão candeense, cujos direitos e deveres sempre andaram juntos de si.

Obteve conquistas marcantes na área social e para o desenvolvimento da cidade, entre elas a fundação do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Candeias. --- Uma participação ativa junto ao ex-prefeito Francisco Coelho dos Santos na construção do Hospital Carlos Chagas. --- Teve grande atuação junto ao seu tio Dr. Zoroastro Marques, na instalação da Comarca de Candeias, quando foi concursado e nomeado 2º Tabelião. ---- Presidente do Clube Atlético Candeense, num tempo em que nossa cidade teve um futebol acirrado e disputava o campeonato regional, tendo sido o Clube Atlético Candeense, campeão de 1958 num dos maiores eventos esportivos da história do futebol do município.

William sempre se utilizou de sua cidadania consciente no auxilio aos menos favorecidos e foi durante 17 anos, responsável pelo Juizado de Menores do Município. Em 1972 a comarca foi extinta, e após este feito, iniciou-se o movimento para que voltasse novamente, sendo um dos baluartes nesta luta, e obtendo êxito a partir de 1990.

William Viglioni foi um dos vereadores mais atuantes, mais ativos e dos mais representativos da história do município. Eleito por dois mandatos, 1954 a 1958 e 1962 a 1966. Contudo, no último teve o seu diploma caçado covardemente, pela Ditadura Militar. Acusado de comunista, subversivo e um dos líderes do GRUPO DOS ONZE, injustamente, talvez pelo seu interesse comunitário; foi com isso considerado uma ameaça à ordem da ditadura.

 Foi preso tendo sido levado para a prisão em Campo Belo e posteriormente transferido para a Penitenciária Magalhães Pinto, onde ficou encarcerado durante três meses. Nesse tempo esteve dividindo os porões daquele presídio com figuras de altíssima relevância na politica nacional. Em 24 de maio de 1966, foi julgado pela 4ª Auditoria da junta militar de Juiz de Fora, levando-o, assim, à sua absolvição.

 Foi William um dos pouquíssimos brasileiros a ganhar posição de anistiado politico no Estado de Minas Gerais e no Governo Federal, sendo que este último efetuou a Declaração de Anistiado Político, oficializando em nome do Estado Brasileiro, o pedido de desculpas ao Sr. William Viglioni, além de efetuar pagamento pecuniário para ressarci-lo dos danos morais. Na época de sua prisão teve sua família dividida, cada filho com um parente em uma cidade diferente. Sua vida familiar passou por turbulências inacreditáveis, mas tudo foi superado. Ele voltou a assumir o seu cartório e a sua cidadania após ter sido julgado inocente. Seu processo se encontra arquivado na Biblioteca do Ministério da Justiça.

Mais recentemente foi agraciado com a medalha de “Desembargador Hélio Costa”, numa cerimônia que aconteceu no salão do Fórum de Candeias, presidida pelo senhor Juiz de Direito, na presença de muitos convidados. A Medalha Desembargador Hélio Costa é uma das maiores honrarias do Poder Judiciário mineiro, porque faz condecorar em todo o Estado de Minas Gerais, as personalidades cujo trabalho fazem a diferença e são relevantes no cenário politico e social do município.

 A medalha deve o seu nome ao Desembargador Hélio Costa, um dos desembargadores que mais se destacaram na presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Dessa forma, William Viglioni novamente representado pela justiça nos leva a observar a sagrada bandeira de Minas: JUSTIÇA AINDA QUE TARDIA!

O NOME DE William Viglioni é sinônimo de trabalho e honestidade. Foi sempre um homem que nunca recebeu salários como vereador e o seu trabalho foi sempre voltado em prol do nosso município; foi sempre por amor a terra que lhe viu nascer.

O legado que o William Viglioni deixa para a história política de Candeias é o da política com dignidade, honestidade e sem interesses pessoais. Uma política exercida em benefício do povo, dedicada a servir à população em sua defesa e por seus interesses. Uma referência de homem público inteligente, polido com educação destacada pela ética e pelo compromisso com o povo que o elege.

Parabéns meu amigo Willian Viglioni, e que esta data se repita por muitos e muitos anos e que a sua voz continue expressando a sua sabedoria e experiência que foram conquistadas com luta e sacrifício.
 Grande abraço e que Deus o abençoe Sr. Willian, hoje e sempre.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O SUBACO RAPADO.

                                               Taís Araújo  -- Foto para Ilustrar o Texto.

Eu me sinto estarrecido com a violência do homem contra a mulher. Não existe, a meu ver, um ato de covardia mais humilhante. A força do homem não lhe foi concedida por Deus para atos dessa natureza e sim para defender a mulher que, na constituição da família, entra com a parte da sensibilidade tão necessária ao ser humano na sua formação. --------- Portanto, entendo que a força do homem é para proteger a mulher. ------- É verdade que existem mulheres exaltadas e agressivas que não reconhecem a inferioridade da sua força física e avançam nos homens principiando um atrito. Mas esse não é o caso da personagem da nossa história e nem justificaria hum homem levantar a mão contra uma mulher.

Eu tenho bem guardado, nas gavetas da minha memória, um fato triste que presenciei, quando criança, na residência de um casal Lourdinha e Tiãozinho, ---- Eu frequentava a sua casa que tinha um grande quintal onde eu brincava com o seu filho Jesus, mais ou menos da minha idade. Por mais que eu viva, jamais me esquecerei do drama que assisti ali naquela residência e que ficou marcado como um ferro candente no meu cérebro para o resto de minha vida.


Lourdinha, uma mulher de traços lindos, morena escura, canelas finas, corpo mediano, lindo e sedutor, capaz de atender os mais exigentes anseios masculinos, porém, faltava-lhe trato. ---- Um banho de loja e alguns cuidados, com certeza, lhe faria sósia da famosa Taís Araújo, atriz da Rede Globo de Televisão. ----- Se ao nascer lhe tivesse sido dado um endereço diferente para aportar-se neste mundo, o destino de Lourdinha poderia ter sido muito diferente.

No entanto o torrão natal que lhe foi concedido foi nos fundos de uma fazenda, sendo depois sido transferida para um canto da cidade de Candeias.  Como filha de pessoas humildes sem nenhuma perspectiva de vida. Nascera num meio pobre, o pai lavrador e a mãe doméstica. Contudo, faltou-lhe um meio favorável e sendo o homem um produto do meio, podemos reconhecer que Lourdinha foi favorecida pela natureza nas a sorte nunca lhe teve presente.

A pobreza eleva o ser humano que sabe viver com dignidade diante das dificuldades. Mas a vida sempre apresenta uma promessa de sonhos que todos esperam no seu amanhã. Mas o destino de Lourdinha não lhe prometia nada se não lhe bastassem os problemas que a vida lhe teria oferecido oriundos do berço. ---- O único sonho de Lourdinha realizado em toda a sua vida, foi ter participado das coroações da Mãe Maria no mês de Maio. Ela conseguiu ganhando de presente, já usadas, as asas e veste de anjo de uma amiga que já teria passado da idade para tal.

Aos 17 anos durante uma Festa do Rosário, se envolveu em namoro com um cidadão fora dos bons princípios morais, sem ânimo para o trabalho e o pior: cheio de tendências negativas. Era dado à bebida alcoólica e nos excessos se transformava totalmente de comportamento e personalidade. --- É de todo sabido que o álcool não sendo usado com moderação, faz efeitos diversificados e pode até chegar ao agravamento levando o ser humano a caminhos tortuosos, caminhos contrários aos bons costumes impostos pela sociedade.

Lourdinha conheceu Sebastião em uma Festa do Rosário. Dias depois com a pose de bom mocinho aproximou-se dos pais da moça para pedir autorização para o namoro. Como contava com dezesseis anos e ele já rapaz feito, com uma profissão, (Era um pedreiro de meia colher) o namoro foi autorizado tendo em vista os pais julgarem-na ter os dotes necessários pra o casamento, pois, sabia cozinhar, lavar e cozer. -------- Logo depois, se casaram com a aprovação da família que via para a filha uma reserva de futuro,

Sebastião era pedreiro do tipo meia colher. Era conhecido por Tiãozinho, mas, não tinha nada de “inho”. Era um mulatão forte, alto, cabelo bem aparado, rosto largo, dentuço, nariz tala larga e uma boca de dimensão respeitável que esguichava uma voz pastosa, principalmente, quando estava bêbado. Tipo encrenqueiro. Não se dava bem, nem mesmo, com os seus pais. Brigava por coisas ínfimas como, por exemplo, se alguém lhe tomasse o seu pedaço de frango preferido já era motivo para um falatório danado.
Chamava o pai de bobo e a mãe de ignorante, em um tempo em que os filhos beijavam as mãos dos pais. Era grosseiro e estúpido enquanto a mulher era uma figura delicada e amável.

Quase sempre, entrava em conflitos nos botequins quando exagerava nos goles e, ao chegar a casa, tinha a mão solta sobre a família, principalmente, na pobre mulher que vivia com o rosto sempre mostrando as marcas da violência do marido. Os pais, comumente, em conformidade com a história bíblica dos “Setenta vezes sete” (Mateus 18/22) não se envolviam e o pior é que não existia lei que punisse isso. Aquela velha história de que em “briga de marido e mulher não se mete a colher” era coisa efetiva. Para certas mulheres, a sua própria casa poderia ser vista como um protótipo do inferno.

O irmão caçula de Lourdinha iria casar-se na cidade de Campo Belo e a família foi toda mobilizada para a cerimônia. Tiãozinho teria descartado a sua presença, mesmo porque não teria como comprar roupas e nem arcar com um presente. Permitiu que a mulher viajasse desde que não lhe coubesse nenhuma despesa o que lhe foi bancada pelo seu irmão que tinha uma posição financeira boa.

Três dias foi o tempo de ausência de Lourdinha enquanto esteve hospedada com seus familiares na cidade de Campo Belo. Naquele afã da festa, as mulheres se arrumaram com esmero. Lourdinha foi levada a mudar o seu visual, pinçando as sobrancelhas, depilando as axilas, buço, etc. Isso, com certeza, teria mexido, talvez, com a única gota de vaidade que lhe restava.

O filho mais velho do casal não teria ido. Permanecera com o pai. Eu e ele éramos amigos e sempre nos juntávamos para brincar de bolinha de gude e rodar pião no quintal de sua casa que ficava nas proximidades da venda do Antônio do Orcilino, hoje mercearia do Rogério, na Rua Coronel João Afonso, com Rua José Furtado.

Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava presente, quando chegou Lourdinha, toda feliz, com um visual mais cuidado, ainda dentro do vestido da festa, presente de sua mãe. O cabelo teria ganhado um banho de óleo e o rosto retocado. Trazia no colo a filha caçula e um embrulho com alguns doces, bombons, pedaços de bolos, ou seja, um pouco da festa para agradar o marido e o filho.

Ela não sabia o que lhe esperava:
Logo depois, ainda naquele calor da chegada, quando Lourdinha dava a mim e ao seu filho as delícias da festa, Tiãozinho vem chegando. Não teria ido trabalhar e já estava embriagado. Quando bateu os olhos empapuçados sobre a mulher e a vê com um novo visual começou com os ataques verbais que logo passariam aos ataques físicos:
Tomou-lhe das mãos o embrulho dos doces da festa e o atirou longe. E aos gritos dizia:

--- Vagabunda! Que negócio é esse de subaco rapado. E esses ôio pelado? Onde qui ocê tirô isso? Até a boca tá rapada. Que mais que ocê rapô? O que ocê andô fazeno nesse inferno de casamento? Deve tá tudo rapado sua “puta”, sem vergonha. Ocê tá mais é pareceno uma vaca do Zé Bolinha. (Zé Bolina era o dono da zona do meretrício). Muié, igual ocê, pricisa é morre! Sua ordinária. Trem ruim. Ocê juntô com a cachorrada da sua famía pra vortá desse jeito igual uma vagabunda de zona. Eu vô te mostrá sua safada, ispera aí.

Pegou a pobre mulher às tapas e lhe tomou pela nuca arrastando-lhe até a uma caixa d’água próxima à porta da cozinha e lhe mergulhou a cabeça causando-lhe um estado de desespero tão grande difícil até mesmo de descrever. Lourdinha estava ali, às portas da morte. Daí o canalha soltou a pobre mulher que se foi ao chão, cujo vestido novo se misturou com a lama da beira da caixa.

O rosto refletia a presença da morte. Eu e seu filho, Jésus, (chorando) com os olhos arregalados, assustados, impotentes, intimamente desesperados, assistimos àquele quadro de terror, quando aquele homem que mais parecia um animal irracional tomou-se da mulher e a depositou numa cama saindo em seguida para a rua.

 Diante disso, eu e o seu filho saímos desesperados até a venda do Antônio do Orcilino e pedimos socorro o que fez logo com que a casa se enchesse de gente.

 A partir desse dia, algo muito sério aconteceu com Lourdinha. Talvez, uma forte lesão cerebral. Ela nunca mais foi a mesma. Ficava o tempo todo olhando em uma só direção. Não ria, não chorava, tornou-se uma criatura vegetativa. Não dava notícia de nada e não falava coisa com coisa. Os filhos que outrora andavam limpos e saudáveis já não mostravam esse quadro. Tiãozinho vivia bêbado. Saía cedo e voltava à noite. Não fosse a família de Lourdinha, esta e os seus filhos teriam morrido de fome.

Após algum tempo, mudaram-se para a cidade de Formiga e eu, nunca mais, tive notícia dessa família. Até que um dia, muitos anos depois, no Bar do Vicentinho Vilela, alguém se aproximou de mim e perguntou:

---Disseram-me que você é o Armando?
---Sim, pois não...
---Eu sou o Jésus da Lourdinha. Talvez, você não se lembre de mais de mim. Moro em Belo Horizonte e sou motorista de táxi.
---Claro que me lembro de Jésus! Como iria me esquecer de você, meu amigo!

Após um abraço emocionante, perguntei:

---E sua mãe? Como está?
---Minha mãe morreu muito nova, logo após nossa mudança daqui. Ela nunca mais se entendeu como gente!

Naquele momento, caíram duas lágrimas que se encontravam guardadas nos fundos dos meus olhos, há muitos anos! Não tive coragem de perguntar pelo seu pai e, felizmente, ele não me disse nada a respeito dele.

Eu gostaria tanto de não ter esta história para contar! Ela me transporta ao inferno das mulheres violentadas por demônios que pensam que são homens.
É triste! É muito triste!...

Armando Melo de Castro
Candeiasmg.Casos e Acasos
Candeias -MG

NB) O título um tanto bizarro inspirado na estranheza da palavra até então para mim.  Era um tempo em que os meninos eram muito bobos. E a palavra teria sido pronunciada várias vezes.





domingo, 22 de março de 2020

UMA VIAGEM DE CARRO.



Um carro, por mais velho que fosse, na década de 50, era um luxo. Eu nunca havia entrado num carro e vivia imaginando este dia quando chegasse e chegou quando um compadre do meu pai, Sr. Otávio Martins o convidou para ir numa viagem à usina velha de Candeias, naquele tempo em pleno funcionamento e era o ponto turístico dos candeenses. ----- não existia ainda a Cemig. ---- Meu pai não estava querendo me levar, mas eu aprontei uma choradeira e logo fui liberado para entrar naquele  carro velho.  Eu acho que nem Yuri Gagarin se emocionou tanto quando entrou no seu foguete, rumo ao espaço.

Ao ver o meu pai sendo convidado, me senti também convidado. E já me postei como tal, quando ouvi da impossibilidade de me levar. No que a defesa natural de uma criança foi desabada: o choro. Vendo-me chorar, Otávio insistiu para que eu fosse também, incluído na lotação que já contava seis pessoas dentro do galipão. Parecia sardinha na lata, e eu todo feliz, parecia até fazer parte de uma comitiva do Papa.


Se cem anos de vida eu tivesse, durante cem anos eu me lembraria dos 10 minutos vividos nesse dia. Eu, no colo do meu pai, enquanto o carro foi descendo, vagarosamente, passando pelos buracos da Rua Coronel João Afonso. Eu estava na maior felicidade do mundo. Alucinado, empolgado, encantado muito mais do que Gagarin, quando voou ao céu profundo com a sua Vostok. E mais ainda do que Colombo, quando encontrou o Novo Mundo.


Após passar a ponte, ao começar a galgar o morro, ouviu-se um estalo. Um grande estalo, debaixo do carro. E, junto com o estalo, Otávio murmurou: - “ai ai ai! Deve ter quebrado.” E quebrou mesmo...


O Nestor Lamounier foi chamado e ficou confirmado que o motor do carro havia quebrado e que não teria recurso. Foi uma decepção para todos, mas para mim, foi uma decepção maior. Era aquela a primeira viagem que eu fazia de carro. E apenas um estalo roubou-me toda aquela felicidade. Era um sonho meu entrar num carro. Dar uma volta de carro. Sentir o cheiro de um carro. E agora, após ter conseguido a realização desse intento, a custo de lágrimas, o destino vem me roubá-lo? Era muito azar. Se eu imaginasse quem seria o “pé frio” que estava ali naquele carro eu o teria apedrejado. Aliás, isso nem seria azar seria um castigo dos céus. Só podia ser...

Para rebocar o carro para a mecânica, a forma encontrada foram quatro juntas de bois que o arrastou, morro acima, aos gritos de um carreiro e o mecânico no volante. E eu, da porta de minha casa, vi passar aquela carreata fúnebre aos meus olhos cujo carro eu nunca mais pude ver novamente. Toda vez que vou até à antiga usina, eu não fico sem imaginar como teria sido aquela viagem que eu não fiz e que teria sido uma das alegrias da minha vida frustrando a minha pobre infância pelo resto de minha vida.


No transcorrer da minha vida, já tive diversos carros. Mas, nenhum deles, jamais, terá me causado tanta emoção como o galipão do Otávio Martins.


Dizem que o homem é um produto do meio, portanto, aí está a pobreza transformada em lirismo perante Deus. o homem e a felicidade --- Mas como diz o poeta: “A felicidade existe e está sempre perto da gente. É pena que nós a procuramos longe do lugar onde estamos”. Foram só 10 minutos, mas foram válidos.


 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

segunda-feira, 16 de março de 2020

PIOR QUE O CORONAVIRUS É O MEDO.



Minha mulher amanheceu hoje dizendo da necessidade de ir ao supermercado buscar reforços para a nossa dispensa, porque o coronavírus vai arrasar. Dai a preocupação dela comentando: “Na Itália estão todos em casa; na China já morreram tantos; O Zema já trancou as escolas; o Bolsonaro falou isso... E mais isso e mais aquilo”.

Sinceramente eu até lamento não comungar com essa preocupação. Mas não consigo e chego à conclusão de que o meu mundo foi outro. Nele não tinha internet; não tinha televisão; não tinha Jornal da Globo, e nem da Record... A fonte de notícia mais importante era o Repórter Esso, um noticiário radiofônico de 5 minutos de hora em hora. Era tão rápido que os ouvintes tinham que ficar com o ouvido no rádio e às vezes na hora da notícia parecia que o vento levava a voz do locutor e se perdia parte da notícia. Além disso, eram poucas as pessoas que possuíam um rádio. O rádio era um aparelho caro e valvulado, não existiam os rádios portáteis transistorizados.

Diante dessa mexida frenética a respeito do coronavírus eu fico pensando que o medo é pior que qualquer doença; e me recordo que fui criado já esperando as chamadas doenças do tempo, todas contagiosas. Não havia vacinas, se haviam não chegavam ao povão. Varicela, catapora, caxumba, sarampo, coqueluche, doenças que deixavam sequelas e matavam se não fossem tratadas cuidadosamente. Para cada uma tinha um tipo de repouso. Eu tive todas elas. Mas já as esperava. A caxumba era a que mais assustava e preocupava; eram dois inchaços que davam debaixo das orelhas que tinham que ser protegidos, caso contrário baixava para o saco escrotal e o cristão ficava castrado sem poder futuramente gerar filhos. –----

 A catapora era uma varicela mais leve, mas cobria o corpo da gente de pereba deixando cicatrizes para o resto da vida. Eu tenho até hoje as marcas da catapora. As marcas da varicela eram ainda maiores. A coqueluche era uma tosse que leva o filho de Deus a perder o fôlego e ficava até roxo, era preciso às vezes enfiar o dedo na garganta do doente, para puxar o catarro. O sarampo o doente deveria ficar preso dentro de um quarto sem tomar vento. Eu tive todas essas doenças.

Não podia ir à escola e o aluno costumava ficar tão prejudicado que perdia o ano, pois naquele tempo não havia recuperação nas escolas. --- Isso sem falar daquelas mais perigosas: A varíola; a tuberculose e a lepra. Todas contagiosas. Na rua onde houvesse um tuberculoso as pessoas tinham medo até de passar por ela. Só existia a vacina para varíola. Essa vacina causava duas feridas terríveis no braço de quem a tomava. ---

No mais, eram comuns os problemas de garganta e ouvido. Garganta era curada com gargarejo de água de sal grosso; ouvido era dente de alho e azeite de mamona; Gripe chá de laranja com sal e limão da china. --- Como cada gripe altera o vírus, cada uma levava o nome de uma pessoa importante que tivesse contraído o vírus. Uma gripe brava  em 1963 tomou o nome Maria Tereza, a esposa do então Presidente da República, João Goulart.


Para intestino preso eram várias as opções; Não existia “Lactopurga” e sim purgantes de sal amargo, sal de Glauber ou raiz de jalapa. ----- Uma vez por ano tomava-se um lombrigueiro feito de semente de abóbora ou de bucha. Comia aquela farofa às quatro horas da manhã e algum tempo depois tomava um purgante daqueles. Nesse dia o cristão não saia de casa.

O chamado intestino entupido era mais grave, quando chupava jabuticaba com caroço, principalmente aquelas do caroço grande. Elas não prendiam apenas os intestinos, elas causavam um entupimento terrível no cristão.
Para adultos era usado o clister que também era chamado de lavagem. Consistia em injetar um chá morno nos intestinos do filho de Deus, através do fiofó, até ele se borrar todo.

Para as crianças era uma bombinha de borracha injetada com água no mesmo lugar.  ---- Eu me lembro, certa vez eu chupei jabuticaba à vontade, daquelas do caroço bem grande, nada me desentupia, e eu fui crucificado com uma bombinha de borracha daquelas só de lembrar eu me estremeço. Enfim, Toda mãe de família era uma técnica em fitoterapia, ministrava e receitava chás dos mais diversos e curava as doenças. Pouco se ia numa farmácia. Ah! Ia me esquecendo. Nesse tempo tinha um tal de andaço. Seria uma pequena epidemia.

Armando Melo de Castro.
Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 10 de março de 2020

O LEITÃO RONCOLHO.



José do Cirino nasceu em algum lugar no Bairro da Gruta na cidade de Candeias. Foi considerado, em seu tempo, por seus amigos, o homem mais mentiroso do Brasil. Ninguém acreditava em uma só palavra do que ele dizia. As pessoas gostavam de conversar com ele para ver a criatividade de sua mente que gerava mentiras recheadas de detalhes as quais levavam o ouvinte novato a se parecer com uma lebre de frente a um lobo faminto ou, melhor dizendo, fazendo-lhe vítima de uma crença perversa. 

De estatura mediana, forte, meio calvo, boca grande, dentuço e, quando ria, parecia que havia uma serra articulada na boca. Portanto, ao mastigar e articular sua boca, parecia uma tremonha que transformaria uma rapadura dura em pó. Era do tipo enrolado. Como diz o jargão popular: "Mais enrolado do que pau de fumo". Não parava em serviço algum. Foi servente de pedreiro, capinador, apanhador de café, ajudante de caminhão e mais uma série de serviços. O que aparecia na frente, ele fazia. 

Apesar de ser considerado um homem trabalhador, era sem persistência. Não sabia esquentar o lugar no qual estava. E, assim, acabou sendo levado, por um de seus filhos, para a cidade de Ferraz de Vasconcelos no Estado de São Paulo. Por lá morreu e foi enterrado. 

O outro personagem de nossa história é outro Zé.   ----    Zé Barbeiro foi um barbeiro de meia tesoura, morador da Rua Coronel João Afonso. Seu salão ficava situado onde se encontra, atualmente, a residência da Marisa, filha do Milton Alves. Um solteirão desses que a gente não sabe o porquê de não ter se casado. Se, se foi por isso ou por aquilo, ou ainda, por não gostar “daquilo”. Um cidadão um tanto esquisito, desses que ao ser contrariado dá chiliques e usa e abusa de trejeitos. Possuía uma voz mole, bem preguiçosa. Cabelinho bem aparadinho, barbinha bem escanhoadinha, sapatinho bem engraxadinho, dentes bem escovadinhos, unhas bem aparadinhas, calça e camisa muito bem passadinhas e um passo bastante balangado parecido com aqueles de modelos em passarelas.

Zé Barbeiro ficava o dia todo empanado em um jaleco branco, todo alvejado, parecendo um enfermeiro de uma clínica de luxo. Gostava muito de prosear com a rapaziadinha. Para mim, particularmente, o Zé barbeiro era o Zezé daquela música carnavalesca: “Olha a cabeleira do Zezé”. Só lhe faltava à cabeleira. Eu penso até que ele teria sido um enviado para servir a sua comunidade, mas resolveu ficar escondido nos fundos do armário.

No natal de 1959, Zé Barbeiro ganhou um leitão do seu padrinho fazendeiro. Naturalmente, o porquinho lhe foi presenteado para ser comido assado durante as festas. Era um gesto comum, naquele tempo, o povo da roça dar um leitão ou um frango de presente para um amigo ou afilhado da cidade. Todavia, o barbeiro não quis matar o leitão e inventou de dá-lo à meia para ser engordado, tendo em vista a falta de espaço para um chiqueiro no seu quintal. Como regra, ele entregaria o animal a alguém para criá-lo e o criador, naturalmente, lhe devolveria metade do bicho por ocasião do seu abate. 

E para tal sociedade, Zé Barbeiro convidou o seu xará Zé do Cirino, a os quais não eram bem conhecidos e nem bem indicados para um pacto porqueiro. Isso porque um era muito certinho e o outro era muito “erradão”

Para quem não se conheciam muito bem um especialista em mentiras, enrolado e grande militante na arte da enganação esse tipo de sociedade costumava dar em briga na hora da partilha, ou seja, um queria um determinado corte do porco que o outro, por sua vez, também o tinha como preferência. E o criador do porco sempre levava a vantagem na óptica do dono do animal. -----Zé do Cirino, que não enjeitava nada, aceitou de cara o que lhe seria um grande negócio.

Naquela época, era um fato normal as pessoas criarem porcos na cidade, em chiqueiros de seus quintais. Isso gerava muito problema porque o mau cheiro incomodava os vizinhos e muitos viviam em litígio por causa da criação de porcos neste estilo até que uma lei foi feita para acabar com essa prática. Contudo, até então, um chiqueiro em um quintal era coisa comum e sempre se encontrava de preferência um suíno caruncho ou piau sendo criado de forma bem doméstica.

 Era uma peleja criar um porquinho em casa, todavia, quando o matava era uma festa que começava com o choro do bicho de madrugada na hora da morte. A vizinhança que ajuntava à lavagem já ficava na expectativa da dimensão do pedaço que lhe caberia. E se o pedaço não fosse satisfatório, havia quem mudaria o rumo da lavagem para outro criador. (Lavagem, neste caso, trata-se de sobras de comida juntamente com a água da lavação dos utensílios de cozinha). Eu, até hoje, não entendo é se nessa lavagem ia água de sabão.

Imediatamente, Zé do Cirino foi preparado o chiqueiro no fundo do quintal de sua casa e, logo, saiu procurando fornecedor de lavagem bem como farelo de arroz na máquina do Emídio Alves que seriam pagos com carne de porco. Foi, ainda, até à Manteigueira do Bonaccorsi para pedir alguns litros de soro que lhe seriam fornecidos diariamente. Os funcionários da Manteigueira, Chico e Expedito, foram também prometidos a ganhar um bom pedaço do suíno. Os casqueiros para o chiqueiro foram conseguidos, gratuitamente, na Serraria do Dé Cassiano que, também, recebeu a promessa de ganhar um pedaço do bicho. E assim, Zé do Cirino em tudo prometia ou se comprometia com um pedaço do porco ou com uma linguiça. No fim, prometia até chouriço, um tira-gosto de sarapatel e assim por diante. Enfim, o porco do Zé do Cirino, ao que se via, quando morto não daria para saldar os compromissos. Parecia que ele teria adquirido uma manga de porcos.

O Leitãozinho foi trazido e colocado no chiqueiro. Porém, ele era tão pequeno que não foi fácil imaginar o que seria tratá-lo até vê-lo gordo ao ponto do abate. Com certeza, aquilo deu ao Zé do Cirino um desânimo danado. Ele pensou que o leitão já seria de meia ceva e, de repente, aparecem com aquele filhote.

Algum tempo depois, foi chamado o Zé Capador que, ao examinar o animal, deu a triste notícia de que o bicho era roncolho e, assim, lhe foi dito que porco roncolho é de difícil engorda. Não tem serventia para cachaço, enfim, o melhor seria matá-lo ao invés de engordá-lo. Palavra de um especialista em porcos. 

O que fazer, então? Naturalmente, esta foi a pergunta que Zé do Cirino fez a si mesmo diante da afirmação do capador. Entretanto, e os compromissos assumidos anteriormente? A situação ficou um tanto complicada. Demonstrou-se muito entusiasmo e de repente...

Numa noite, para piorar, o porco sumiu do chiqueiro do Zé do Cirino. E agora? Mais essa! A verdade é que todo mundo foi ludibriado. Todavia, o Zé Barbeiro não aceitou o argumento de que o porquinho dele foi subtraído sem mais e sem menos.

Ele que era um cidadão comportado, mas, quando ficava nervoso quase saía do armário. E, naquele tempo, para sair do armário tinha que ser muito macho. Ao receber a notícia de que o animal havia sumido, imbuiu-se em todos os seus jeitos e trejeitos e começou:

---Oia aqui Xará, ocê é um iscumunguento, sabia? Sumir com o meu leitãozinho, uai. Ganhado do meu padrinho de batismo. Ele ia virar um lindo capado se ocê tivesse tido cuidado. Eu tô achano que ocê robô o meu leitãozinho, seu danado. Eu nunca vi falá que leitão saisse de chiqueiro sem ser visto e sem gritar.

---Oia, aqui, Izé. Eu num robei leitão ninhum, viu. Se ocê perdeu a parte do leitão, eu perdi a pensão que eu dei pra ele. Pensa o qui ocê quisé e tiau e bença. E dispois tem mais: o seu leitão tinha só um grão. Leitão de um grão só num produz porque é porco viado.

---Some daqui, Izé! Senão eu te matooooooooooooo.

Era o que ele mais queria. Sair dali e dar o assunto por encerrado.

Dois dias depois, Zé do Cirino com a cara cheia de pinga, no Bar do Ermino, onde, nos dias de hoje, funciona o Bar do Vicentinho Vilela, na Rua Professor Portugal, estava convidando os seus amigos para ir à sua casa comer um pedaço de leitão que ele havia ganhado por ocasião de seu aniversário.

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos MG