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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

VAI SER CHATO TREM.


Viajando pela estrada de minha vida, fiz uma parada num ponto do qual eu guardo vivas lembranças de um fato que me ocorreu no principio dos anos 60, quando ainda eu era um adolescente.

Na década de 50 o correio brasileiro chegou a ser considerado o pior do mundo. Na década de 90 chegou a ser o melhor do mundo, segundo a Revista Forbes. ------- A partir da era PT, as roubalheiras nos correios foram tantas que hoje se pode dizer que os Correios brasileiros estão falidos, à vista do que foram.

  Naquele tempo o transporte das postagens era feito de trem. Os jornais chegavam às mãos dos leitores com até dez dias de atraso. Eles vinham com vagar, de trem, do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Eram poucos os assinantes.

As cartas e outras correspondências eram, comumente, extraviadas. Uma carta, por exemplo, para São Paulo, se não fosse aviada através de porte registrado, constantemente era consumida pela viagem. Remessas de dinheiro extraviavam-se, para onde? Só Deus sabe. E o pior, a responsabilidade não era arcada pelo correio. Não adiantava reclamar. Se reclamasse, ai então, a coisa piorava: os funcionários do correio detestavam reclamações.

Naquela busca de adolescente, querendo se firmar numa vocação ou numa profissão, eu, envolvido nas fortes propagandas que circulavam, resolvi fazer um curso de rádio por correspondência. ----- Matriculei-me, portanto, no até hoje, existente, “Instituto de Rádio Técnico Monitor”, de São Paulo. Pagava por mês CR$ 15, 00 e o quanto me era difícil o dinheiro para esse meu projeto!

Bastara-me uma só vez para que o meu dinheiro sumisse e eu desistisse de continuar estudando rádio. Foi uma frustração. Mas o que mais me chamava à atenção eram os funcionários da agência dos correios de Candeias. Eu não sei quantos funcionários têm hoje aquela agência, mas imagino que não se compara com o quadro daquele tempo.

Com o fato de incrementar o telégrafo na Agência de Candeias, teria vindo o telegrafista, Sr. Nelson e Chefe da casa. O governo teria criado diversos benefícios para os soldados da Força Expedicionária, na II Guerra Mundial. Os chamados pracinhas. Nada mais justo. Eram pessoas com problemas financeiros... Problemas psicológicos, etc. Mas, o governo os colocou nos interstícios dos correios; tivesse ou não vagas, lá entraram. Haviam também os apadrinhados políticos. E nessa leva a agência dos correios de Candeias, tornou-se num verdadeiro trem da alegria.

Os guerreiros beneficiados foram os Srs. Clovis Cambraia Alvarenga, e Humberto Pulhez. Teriam, com certeza, merecimento para receber um benefício do governo, tendo em vista trazerem consigo a maldição da guerra, ou seja, os traumas involuntários. Justo se vê, todavia, tratar-se de duas pessoas totalmente despreparadas para o cargo a que foram submetidos; apesar de louváveis e merecedores.

De outra forma, um remanejamento da ferrovia, foi levado para os correios o Sr. Ovídio Ferreira. Um cidadão, então, visto pelos jovens como esquisito, mal-humorado e excêntrico... 

Um carteiro fardado tal qual um soldado, teria ganhado o cargo como um presente político.  Para ter uma ideia, apenas o carteiro, naquele tempo, tinha um salário de vinte e quatro mil cruzeiros mensais e causava admiração em todo o mundo, como diziam, para entregar uma meia dúzia de cartas. Na época, lembro-me de vê-lo comentar que o seu salário era de dois mínimos e meio. E raramente ele era visto pela rua entregando alguma carta.

Grita-me aos olhos aquele quadro de funcionários da agência dos correios de Candeias quando eu lá chegava e perguntava humildemente:- -- Tem carta para mim Sr. Ovídio? “E uma seca resposta.” Não! Você já esteve aqui ontem!...” “Dá um tempo ai uai"!... Vejam só a incoerência daquele servidor, porque se a carta não chegasse ontem, poderia chegar hoje. Mas...

No outro dia, eu empanado na minha timidez, na minha vergonha e no medo da resposta perguntava de novo: Tem carta para mim Sr. Ovídio: "Não! Esse trem de rádio demora mesmo... Você vem aqui todo dia, vai ser chato trem"!

Vi que falava sério. Para o Sr. Ovídio que trabalhou muitos anos de sua vida na ferrovia, era um homem que morava sozinho, sem descendentes familiares, solteirão, não era de se estranhar o seu habito de tratar a tudo e a todos como trem.

Senti-me humilhado e para completar o dinheiro enviado pelo correio para pagar a prestação teria sido extraviado. Abandonei a ideia. E as raras vezes em que voltei ao correio, nunca mais me dirigi ao Sr. Ovídio. ---- Mas hoje agradeço a ele  uma lição de vida. Do lado de dentro de um balcão, fiz tudo para não ser um trem chato. A sua falta de jeito fez-me mais precavido. Foi um limão do qual eu fiz uma limonada.

Armando Melo de Castro


Candeias MG casos e acasos

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ERA UMA VEZ, A CACHORRINHA QUICA.


O cachorro parece ser o animal que mais se identifica com o homem, em termos de convívio. A cada dia, o cão vem sendo mais amparado e integrado ao meio da família humana.

Quantas e quantas vezes, eu pude ver uma madama conversar com o seu cãozinho e dizer: "Filhinho, vem aqui, na mamãe!". E, normalmente, essas senhoras não tiveram filhos. Apegam-se ao animal de tal forma que passam a considerá-los como verdadeiros filhos. Eu fico, às vezes, pensando como pode uma coisa dessas. Por que não adotar um filho ao invés de um animal? Parece até que o cachorro substitui o homem apesar de não existir, entre ambos, nenhuma semelhança.

O focinho de um cachorro é gelado e úmido. E isso se explica porque ele não sua como nós. Portanto, ele sente muito calor. O cachorro está sempre ofegante. A rapidez da respiração lhe dá um alívio do calor através da evaporação pelo nariz.

O faro de um cachorro é incomparável. Enquanto 0 homem conta com cinco milhões de células olfativas, o cachorro tem mais de duzentos milhões delas.

Eu acho que é uma incoerência chamar algum humano de cachorro para qualificá-lo como errado ou sem vergonha.

Minha mãe tem uma família de seis filhos, dezesseis netos, dez bisnetos, um trineto e um cachorro. Alguém dirá que cachorro é cachorro e não é gente para ser considerado da família. Entretanto, quem tem um cachorro em casa jamais dirá isso e sustentará que o cachorro faz parte da família sim.

No princípio da década de 60, esteve residindo na Rua Vereador José Hilário da Silva, na casa onde reside atualmente a família do João Alemão, um cabo da Polícia Militar, então comandante do destacamento de Candeias. Naquele tempo, este destacamento era formado por apenas um cabo e dois soldados.

Fazia parte da família do militar uma pequena cachorra que atendia pelo nome de "Quica". A cachorrinha sem raça, melhor dizendo, era uma vira-lata de cor parda, com orelhas grandes e focinho comprido, tendo uma grande mancha preta na cara. Na rua, não havia quem não conhecesse a cachorra do cabo.

A Igreja Matriz, no tempo do Monsenhor Castro, era dividida ao meio através de duas grandes cancelas em suas naves. A parte da frente era destinada aos homens. E a parte de trás, às mulheres. Portanto, os homens saíam pelas portas laterais e as mulheres, pela porta principal. Não se misturavam homens com mulheres lá dentro da igreja. Isso quer dizer que um casal não assistia um missa juntos.

Imaginemos, há cinquenta anos, o término de uma missa dominical no horário das 10 horas da manhã! Era muita gente.

Ao terminar a missa, bem defronte à porta principal, havia um grande número de cachorros rodeando uma cadela no cio sendo acoplada, enfalada, penetrada por um enorme cachorro do tipo perdigueiro e que teria imposto respeito pelo seu tamanho diante dos outros candidatos àquele congresso sexual, ou melhor, aquela suruba canina.

As senhoras com suas almas lavadas, comungadas, imaculadas, ao sair se deparam com aquele quadro vergonhoso, pecaminoso para quem ainda sentia a fluidificação e o hálito do pão sagrado.

Diante daquele quadro, ouve-se um grito:

---"Quica!!!" O quê que é isso minha, fifia! Larga disso!

Era uma senh0ra baixa e gorda, morena de cabelos lisos em coque, cara fechada, uma voz forte, contando com uns 50 anos, mais ou menos. Era a esposa do cabo e dona da cadela. E continuou:

"Quica"! Vem cá! "Quicaaaaaaaaaaaaaa!!!"

Desesperada, a mulher se envolve no meio dos cachorros e dá um chute naquele que abusava da sua querida "Quica". Consequentemente, a manada se dispersa e o cachorrão sai arrastando a pequena "Quica", dependurada no seu engate.

Enquanto a dona da "Quica' corria, pedindo socorro para ela, as outras senhoras saíam como se não estivessem vendo nada, olhando para os lados contrários. E os homens apreciavam o espetáculo e comentavam.----- Posso ainda me lembrar de um comentário sucinto do Sebastião Redondo, antigo dono da mercearia, hoje, de propriedade do Divino:

---Bichinho safadinho é o tal de cachorro né?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.












quarta-feira, 7 de novembro de 2018

ONDE ESTARÁ A RAZÃO?


Enquanto me ofusco em meio aos meus 74 anos de idade, vou vendo que à medida em que vamos vivendo vamos mudando de mundo para mundo. Para mim o mundo no qual eu me aportei em 1946, dele só restam lembranças. ---
O que é lamentável é que tudo muda. Menos o ser humano que continua pecando, roubando, matando, desrespeitando, explorando, mentindo, fingindo, traindo e muito mais que tudo isso.

O ser humano apesar de ser um animal racional ocupante do primeiro lugar na escala zoológica é um desigual entre todos e entre si.  ---- As pessoas se imitam fisicamente. Mas a ideologia do bem continua como uma grande falta humana.

Os conflitos de gerações continuam a cada dia piores. Os jovens continuam a não se entenderem com os velhos. Casais ainda se atracam, se separam se matam, se desrespeitam.

Lembro-me, na década de 60 a revolução musical deixou o mundo em pânico, foi quando eu comecei a entender do que seria o conflito de gerações. ---- Cabelos compridos, camisas vermelhas e musicas extrovertidas, tiravam o jovem de um mundo tímido e o colocava num mundo mais expansivo. ----
Eu experimentei várias mudanças no decorrer de minha vida até hoje. ---- Eu e minha geração usamos cabelos compridos, vestimos camisas vermelhas e calças apertadas; contudo tivemos que ouvir por causa disso, que éramos pederastas (viados) e porcos pelos cabelos compridos.

Hoje a minha geração corta os cabelos e não somos mais chamados de pederastas. ---- o tributo agora é a minha geração que cobra.

---No ano passado, quando eu viajava de ônibus, eu presenciei um cenário que me levou a uma reflexão: Na lotação do ônibus apareceram para o embarque três rapazes de estirpes diferentes, pois não se comunicavam entre eles e tomaram assento em poltronas separadas.

Os três usavam brincos de argola, barbas espessas, sem nenhum cuidado ou aparo. Cabelos compridos presos em forma de cocuruto. Não eram hippies, estavam limpos e de roupas bem cuidadas. Apenas um deles me chamou mais a atenção. Este vestia uma camiseta cavada, salientando os sovacos peludos e suados. Acompanhava-o uma jovem bonita, elegante e bem cuidada dando a entender serem namorados.

Tento buscar algo no rifão “Eu já fui o que tu és um dia tu serás o que eu sou.” ---- Quando a geração antiga nos chamava de porcos, pederasta etc. nós nem ligávamos. Pelo contrário, foi ai que teria nascido à palavra “Coroa” ----- para classificar os moralistas. ------- Hoje eu e meus colegas antigos, somos os coroas da atualidade, mas temos algo mais para dizer. --- 

As moças do nosso tempo não admitiram jovens porcos, e elas até nos defendiam das más línguas e diziam que cabelo grande não é porcaria. ----- Mas aquele jovem de camiseta cavada, com aquele sovaco cabeludo e suado, abraçando aquela moça bonita e asseada... Leva-me a perguntar a mim mesmo: ---- “Do meu tempo para cá quem mais piorou”? ---- O homem ou a mulher? ---- Camiseta cavada, sovaco molhado, barba tapando as narinas e a boca, e brincos de argola... Sei não, não dá para comparar não... Onde está a razão?! Eu sei, mas não conto.

Armando Melo de Castro.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O VENDEDOR DE BROAS.


                                                                    





A broa é um alimento difícil de ser definido. Em cada ponto do Brasil, é conhecida por nomes diferentes. Para uns, é pão redondo; para outros, é um tipo de biscoito. Há quem diga que a broa é um bolinho. ---- Em Candeias, a broa é considerada uma espécie de quitanda e pode ser encontrada entre várias receitas de sal ou de doce. Qualquer quitanda que seja do formato de uma bolacha redonda pode ser chamada de broa. --- O dicionário do Aurélio define a broa como pão arredondado, feito de fubá de milho, arroz, cará, ou polvilho, etc. e ainda como uma pessoa gorducha. ---- No dicionário chulo, há quem diz que broa é sinônimo da vulva feminina.

Em Candeias, pode ser encontrado com facilidade um tipo de broa não muito comum no mercado. É a broa de amendoim. Eu, por exemplo, nunca a vi em padarias de outros lugares. Não conheço a receita, sei apenas que é muito gostosa e tradicional nas padarias e quitandeiras candeenses.

Ainda na década de 50 não havia calçamento e nem jardins no centro da cidade. Uma linha de postes de iluminação pública cortava o centro do chamado Largo. E, no local onde se encontra, atualmente, o coreto havia um poste com duas luminárias. Ali, era o ponto vigoroso da cidade, principalmente, nos fins de semana, com as atividades da igreja, e o movimento dos dois bares que existia (um no sobrado da esquina, do Leley irmão do Carmélio, e o outro ao lado do cinema, do Sebastião Cassiano.). Normalmente, nos fins de semana, havia duas sessões de cinema no Cine Círculo Operário São José.

A televisão nem sonhava de chegar a Candeias. Sair à tarde e ir para o Largo era um hábito de grande parte da população.  Os homens acomodavam-se nos bares e os jovens faziam a chamada avenida defronte ao cinema enquanto aguardavam os sinais da sirene.

Nesse tempo era muito comum o vendedor de rua, com balaios e tabuleiros. Muitas donas de casa faziam doces, pasteis, e colocavam à venda nos bares, mas um produto fresquinho normalmente era encontrado através dos vendedores de rua ou nas casas das quitandeiras. As padarias não tinham novidades como hoje. Era o pão de sal; o pão tatu, o São José (sovado) e a rosca de doce. E nesse movimento do Largo, sempre aparecia um vendedor de doce, ou outra coisa qualquer.

Debaixo do poste, acima citado, estava sempre um senhor magro com rosto miúdo, de chapéu de lebre, camisa surrada, de mangas compridas, mas bem cuidada, abotoada até ao colarinho que escondia o gogó; um bigode tipo Cantinflas, rosto bem escanhoado, vestindo calças bem frisadas e com as botinas bem engraxadas. Esse senhor atraia as pessoas pelo seu jeito de falar corretamente e os elogios que tecia à sua esposa. ---- Sob a luz do poste ele se postava com um tabuleiro cheio de broas de amendoim, colocado sobre um suporte, coberto com um pano bem alvejado. ---

 Algumas pessoas paravam próximo daquele vendedor para apreciar o seu jeito de falar e os elogios que tecia à sua esposa, à medida que fosse alguém se aproximando:

------------------Meus amigos eu vendo a melhor broa de amendoim. Feito caprichosamente por minha senhora, uma mulher muito asseada e entendida de broas.

Entretanto, mais do que a qualidade das broas e a higiene da esposa do quitandeiro, ênfase maior havia de ser observada na postura daquele cidadão humilde, no seu jeito de trabalhar. Gostava de falar ao pé da letra e, diante da sua simplicidade, a rapaziada nadava e rolava, colocando maldade no seu palavreado. Sem, contudo, deixar de comprar o delicioso produto. Todavia, havia sempre alguém puxando a conversa para vê-lo falar

----Como vai o senhor, Sô Juca?

----Na paz de Deus Pai e Deus Filho, vou bem, obrigado!

----E a patroa? Como vai?

----Com aquelas coisas de mulher, mas felizmente, vamos levando na Graça de Deus Pai e Deus Filho.

----Tem vendido muitas broas?

----Sim, na Graça de Deus Pai e de Deus Filho, tenho vendido todas. Tenho voltado sempre para casa com o tabuleiro vazio.

----É o senhor mesmo quem faz essas delícias?

----Não, senhor! Essas deliciosas broas são obradas pela minha senhora. Ela aprendeu com a minha sogra e a minha sogra aprendeu com a mãe dela. A fabricação de broas na família de minha mulher vem de longe. Todos nós somos chegados a uma boa broa.

---Faz muito tempo que o senhor vende a broa da patroa?

--Desde que vim para Candeias. Há uns dois anos, mais ou menos. E, Graças a Deus Pai e a Deus Filho, eu suponho que grande parte do povo candeense já conhece a deliciosa broa da minha mulher.

--Zé da Zenóbia, irmão do Mozart da Padaria, pai do Bola, era rapaz novo e um dia estava com umas pingas na cabeça e tomou um papo com o Sô Juca:

---Eu quero comer a broa da sua patroa é na sua casa, Sô Juca! Cumé qui fica?!

---Como é que fica? Vai ser o maior prazer servir o senhor na minha residência! Agora, escuta aqui, Sô Zé: acredito que o senhor não está falando com má intenção, não é? Um dia desses esteve aqui um filho de mulher da vida, um desses filhos que não conheceu o pai e na conversa ele misturou broa com precheca. Acontece que a minha esposa é uma senhora de respeito! E aquele que lhe faltar com o respeito eu o entregarei nas mãos do diabo, lá nos quintos dos infernos.

E o Zé, meio assustado, e com uma voz meio pastosa de quem tivesse tomado umas e outras disse logo:

---O que é isso Sô Juca?! Isso é brincadeira. Eu nunca comi broa não. Meu irmão tem padaria e eu num aguento nem vê o cheiro de broa. Precheca?! Eu nem sei o que é isso!?

---Vejamos, então, que o senhor está apenas me atordoando?! Pois, pode ir baixar em outro centro porque aqui não tem médiuns para recebê-lo.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

OS ENFERMEIROS.



                    
                                                          ENFERMEIRO FRANCISCO JOSÉ VILELA BATISTA
                                                                                                   
Hoje, quando eu navegava pela internet deparei-me com uma postagem do meu amigo Francisco José Vilela Batista, o que chamou bastante a minha atenção. ----- Francisco que pertence a uma tradicional família candeense, a família Vilela, é filho da minha grande amiga e condiscípula do Grupo Escolar Padre Américo, Ivanilda Vilela e neto do nosso histórico seresteiro José Alves Vilela.    -----    Portanto, tomo a liberdade de reproduzir aqui, a sua postagem, e comentá–la:

Francisco José Vilela Batista
“Engraçado, postaram uma foto minha dormindo dentro do meu carro (pago com meu sagrado dinheiro) na porta do Supermercado Faria enquanto eu aguardava minha mãe e minha esposa fazerem compras. Bom como todos sabem trabalho da área da saúde, enfermagem. Dou plantão em dois hospitais trabalho no pronto socorro do HCC, e na Santa Casa de Campo Belo plantão este noturno trabalho dioturnamente faço 24horas de plantão e folgo 24horas isso inclui sábados, domingos e feriados. Muitas das vezes não tenho natal, carnaval, festa da família na escola, réveillon, entre outros. Estou aproveitando a postagem do meu amigo Diego Saldanha pra lembrar que atrás da roupa branca tem um ser humano, e que os profissionais da saúde em geral fosse mais respeitados no exercício do seu dever, e também fora dele. Não somos super-heróis, somos diferentes porque amamos o que fazemos e não tem dinheiro que pague o salvar de uma vida. Diego Saldanha, obrigado pela brincadeira e sei que não teve má intenção, aproveitei a brincadeira pra desabafar. Abraços a todos.”

Meu querido amigo Francisco:
Não se deixe levar pelo sentimento diante da ação do Diego Saldanha. Talvez tenha sido uma brincadeira no momento errado. ---- Parece-me que você ficou realmente magoado, Eu quero aqui lhe dizer o quando a sua profissão de enfermeiro é respeitada  além de ser maravilhosa. ----------------- Apesar de entender que o poder público deveria valorizar mais os profissionais da saúde, é inegável o reconhecimento da sociedade, que por mais hipócrita que seja tem pela ciência da enfermagem uma grande reverência. Pois se trata de uma das profissões mais reconhecidas e respeitadas do mundo. 

Todo aquele que já esteve sobre os cuidados de um hospital, vê em loco a ação do enfermeiro e pode fazer a avaliação de quão difícil é esta profissão. ---- O enfermeiro é tão importante quanto o médico que faz a cirurgia. É ele que prepara o enfermo; assiste o médico e atende o doente na sua recuperação.

A noite chega e o clima de um hospital nesta parte do dia é mais dramático e cansativo. Na madrugada ouvem-se apenas os passos de enfermeiros e enfermeiras pelos corredores; portas que se abrem e fecham indo e vindo, levando e trazendo aquilo que a medicina lhes recomendou. ----- Buscando sempre atender o alívio da dor e o conforto do doente. --- Às vezes são surpreendidos com a chegada de alguém acidentado ou em estado grave. --- O enfermeiro não tem tempo, pois vive numa vigília constante. ---- 

Vejamos o que disse Florence Nightngale, uma famosa enfermeira inglesa por ser a pioneira no tratamento de feridos de guerra:
A enfermagem é uma arte; e para realizá-la como arte, requer uma devoção tão exclusiva, um preparo tão rigoroso, quanto à obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo, o templo do espírito de Deus? É uma das artes; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes!”

Nesta oportunidade eu quero render uma singela homenagem a todos os enfermeiros e enfermeiras, do nosso querido Hospital Carlos Chagas, de Candeias, especialmente a você Francisco, com este lindo soneto  de Ary Bueno:

O ANJO BRANCO

Em meio ao sofrimento, a tristeza e a dor. 
Surge um anjo de branco espalhando esperança e amor
Com carinho trata a todos que dele necessita cuidado
Sempre com um sorriso nos lábios, apesar do semblante cansado.

Pois às vezes vara noites e noites, cuidando com ternura o paciente,
Que devido às dores ao sofrimento, se torna irritado, impaciente,
E ele com doçura e educação, procura ao mesmo aliviar sua dor Aplicando o medicamento com cuidado, com desvelo e com amor.

É você, enfermeiro, que sempre esta prestando socorro ao doente.
Está cuidando de todos, evitando que o mal se agrave no paciente.
Mesmo com os problemas inerente a toda família sua, que pode estar sofrendo.
Ele alivia da forma mais humana e carinhosa, o sofrer de quem está quase morrendo.

Nunca esmorece no seu trabalho cotidiano, corre pra lá e pra cá, sem parar.
A todos procura medicar na hora certa, e com carinho todo seu trabalho realizar.
Por isto és abençoado por Deus, de quem você com certeza é uma extensão.

Pois cabe tantos e tantos doentes, e você com carinho os carrega no coração.
E se por acaso algum venha, por força da doença, e do destino a morrer.
Você chora se entristece, e junto com a família também ficas a sofrer.

---Por isto está profissão,  tão bonita, tão cheia de ternura e de calor humano
 os enfermeiros trazem dentro de si apenas... RENUNCIA TRABALHO E AMOR.

O meu abraço e o meu respeito a todos os enfermeiros do Hospital Carlos Chagas e do mundo inteiro.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


Descrição: Francisco José Vilela Batista
Francisco José Vilela Batista Ao Sr. Armando Melo de Castrovenho agradecer pela linda homenagem que fez a minha pessoa. Gostaria de estender a todos meus colegas de profissão, e as equipes em que componho no Hospital Carlos Chagas e na Santa Casa de Misericórdia São Vicente de Paula em Campo Belo. É na ombridade dos companheiros, e nos brilhos dos olhos do doente com a saúde restaurada que se vem o pago pelo seu trabalho bem feito. A população das cidades em que trabalho e que sirvo me sinto muito bem confortável e confesso que fiquei admirado pelo reconhecimento a minha pessoa e minha profissão. O desabafo que fiz não foi pela simples publicação do Diego Saldanha mais por alguns comentários que achei de tal forma maldosos na publicação do Diego que já foi excluída. Como se diz o velho ditado: ... "Educação se vem de berço". A todos os adjetivos dirigidos a minha pessoa se deve aos meus Pais, meu saudoso já falecido pai Francisco Batista e minha mãe Ivanilda Vilela Batista que sempre souberam reger com maestria os passos dos filhos. Agradeço também minha esposa Beatriz De Alvarenga Linhares e Minha filha Maria Júlia que entendem e respeitam minhas ausências em casa devido o meu trabalho. E é isso amo o que faço e trabalho com prazer e alegria pois meu trabalho preenche minha alma e me sinto mais perto de Deus. Obrigado.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

NO TEMPO DO SARAPATEL E O MOCOTÓ.


Hoje, nós vamos recordar os açougues e seus proprietários candeenses. Sabemos que o açougue é o tipo de comercio que faz parte de todas as famílias porque ninguém fica sem provar um pedacinho de carne. Seja de boi ou de vaca, seja de porca ou de porco. 

O sarapatel e o mocotó eram pratos muito apreciados pelos candeenses. Nas festas do Rosário, eram comuns esses pratos oferecidos pelos festeiros. As fressuras de porco eram de baixo custo e, às vezes, doadas e isso dava um prato farto. Saborear um sarapatel nos dias de hoje ficou muito difícil porque não se encontra mais as fressuras em açougues ou supermercados.

Muita gente não sabe diferenciar, mas existe diferença da carne bovina e suína entre o macho e a fêmea. A carne de vaca, por exemplo, não é encontrada em supermercados, porque eles negociam com os produtores apenas o boi.  ----- Nos açougues nós encontramos com mais facilidade a carne de vaca, sendo que ela tem a gordura amarelada que encontramos entremeada na carne. Isso é devido à lactose em seu organismo pela produção do leite. ---- A carne de vaca é mais dura em comparação à carne de boi tendo em vista o seu tempo de vida em virtude da produção de leite. O boi já é criado para o consumo o que se dá após a passagem de carne verde para carne vermelha.

Lembro-me quando menino eu trabalhei num açougue em Candeias. A minha tarefa era sair com um tabuleiro entregando as encomendas. E tinha freguesa, como a Dona Julita Lamounier, irmã do Sr. Nestor Lamounier que a sua primeira pergunta era se a carne era de porco ou de porca. Se fosse de porca e a gente falasse que era de porco, na próxima encomenda teríamos que ouvir um belo de um sermão.

Outra freguesa que não comia carne de porca era Dona Ester de Paiva. Dizia ela que a carne de porca fedia, tinha cheiro de urina porque eram mal castradas.  --- Mas já existiam aqueles fregueses que beberiam até a urina da porca ou do porco sem reclamar. Meu tio João Delminda era um desses.

Na década de 50 e 60 existiam diversos açougues em Candeias: Na Rua Professor Portugal havia dois, os proprietários eram dois irmãos: Um do Geraldo do Orcilino, e o outro do Antônio do Orcilino. --- Este o único que vem resistindo ao tempo, hoje como Açougue São Judas Tadeu, de propriedade do Jesus do Açougue, filho do seu antigo proprietário. Naquele tempo servia carne bovina e suína e hoje se limita em apenas carne suína.

Outros açougues eram do Zé Chorão, na Rua Expedicionário Jorge, posteriormente levado pelo Sr. Expedito Cordeiro que funcionou ali durante muitos anos. --- Também servia carne bovina e suína.

Logo adiante o açougue do Estevão, que só abatia suínos. --- O interessante é que Estevão era um açougueiro que trabalhava de gravata e com as mangas da camisa branca arregaçadas. --- Dava vontade de comer a carne do açougue dele até mesmo crua, de tão limpo que era. Este açougue ficava junto da sua residência, onde hoje está situada uma clinica. Ao lado o Armazém, também de sua propriedade, posteriormente repassado para o Sr. Sebastião Redondo e ultimamente para o Divino Machado que ali também funcionou por muitos anos. 

No Beco Belmiro Costa, onde hoje está a Sorveteria do Magno Machado, existia um açougue que foi movimentado por muitos proprietários. Entre eles o Chico do Sudário e o Juquita de Assis e seu filho Nilo.

Ao lado da Loja do Carlinhos do Emílio, havia outro açougue do Sr. Emílio Gianasi, ali também só abatia suínos. E como o preço era o melhor, fazia fila o dia que matava um porco, normalmente aos sábados.

Na Praça da Bandeira, onde hoje está a Papelaria Candeias, era o açougue do Zé Canarinho, pai do Zé Canarinho filho.

Mais recentemente surgiram outros açougues, entre eles o Ermino na Praça Antônio Furtado, e Domingão na Praça da Bandeira.

O Matadouro ficava na Rua Expedicionário Moncef.  ---- Meu pai, Zé Delminda, quando jovem foi admitido como empregado no matadouro. Mas não deu conta do recado na profissão de magarefe. --- Ele seria o responsável por matar os porcos e o outro seu colega seria o carrasco das vacas. ---- Meu pai no primeiro porco que foi abater deu cinco facadas e esse animal saiu correndo pelo quintal do matadouro até ao córrego que ficava nos fundos. ----- Foi uma mão de obra terrível para leva-lo de volta até ao ponto de abate. ---- No mesmo dia ele saiu à procura de alguém que quisesse ficar em seu lugar e encontrou o Lico da Sinhana, que lá ficou por mais de quarenta anos pelo resto de sua vida.

Uma saudade eu tenho desse tempo. Era do sarapatel e do caldo de mocotó, pratos comuns naquele tempo e que hoje estão se tornando desconhecidos em Candeias,

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

UM DIA DE CÃO.

                                                          Foto para ilustrar o texto.

Quando eu contava com os meus dezoito anos, era magro feito um danado e tinha uma grande vontade de ser gordo. Comia, comia e, quanto mais comia, mais magro ficava. Quando eu me entendi com a minha magreza, entrei na onda de ser gordo. Agora, que estou velho, não posso ter preguiça de andar, preciso passar fome e, ainda, ser alvo de comentários aborrecíveis.

Estou fazendo dieta. O excesso de peso me incomoda. As roupas começam a “enfiar”... ---- As banhas começam a pegar debaixo do ombro, a gente começa a andar com os braços abertos... Parece até que vai voar!  A barriga cresce e vem logo as dificuldades para aparar uma unha; para calçar um sapato... Meu Deus que horror!

Ficar sem beber uma cervejinha é um grande sacrifício. ---- Passar de frente a uma lanchonete com fome, com o dinheiro disponível no bolso para gastar e não poder entrar e comer; ----- Deixar de comer o meu feijão com arroz à vontade e saborear  os meus torresminhos...  O meu bife mal passado, o meu churrasco dois pelos, isso para mim é um castigo...  

Ficar andando sem destino! Ah! Meu Deus do Céu!... Eu não sei como existem pessoas que dizem gostar de fazer caminhada! Isso para mim é terrível! -----

Bem, afinal eu tenho que me submeter a tudo isso. Enfim, é uma questão de razão. Eu devo fazer esse sacrifício, mas que é difícil... Ah! Como é difícil...

Primeiro dia de caminhada. Ao passar em uma das ruas do meu mapa que fora cuidadosamente traçado, passo defronte à casa de um amigo meu assentado em um banco à sua porta. Como há tempos eu não o via, não me foi possível evitar uma parada. ------ O Pedro mais parecia um Buda gigante, todo esparramado. Suponho que oitenta por cento do seu corpo foi tomado pela barriga que parecia um fole de ferraria. As pernas abertas. Camisa de fora das calças. Ponta da língua fora da boca e respiração ofegante. Contudo, sorridente como sempre.

---Olá Pedro, como vai?

---Bão e gordo!

---Você está gordinho mesmo!

---Gordinho não. Eu tô gordão! --- E riu gostoso.

---Você, então, gosta de ser gordo?

---Num é que eu gosto. É qui eu fico muito preso dentro de casa e preso come muito.

---Você já tentou fazer dieta?

---Num dô conta não. Nem penso nisso. Cumê é bão dimais, Armando!

---E você come muito? ---Perguntei.

---Uma latinha dessas de doce eu abro ela e logo, logo, meia vai imbora. ----- Ovo é meia dúzia frito cum farinha. Pão de queijo uns cinco cum carne. Cedo é meio bolo. Carne eu gosto é bem mantegosa. Gosto de cumê até iscorrê mantega no canto da boca. Uma custela de boi assada e um pedaço de toicinho de barriga, ah, num tem coisa mió não. Frango tá teno qui sê dois. Um vai quais só pra mim. Agora, o que me ingorda é o arrôis. Esse é qui é danado. Eu como quais uma caçarola de arrôis duma veis. É o qui tá me engordano. Mais eu num dô conta de dexá de cumê não. Quero morrê de barriga cheia... E deu aquela risada gostosa.

---E você não sente nada?

---Sinto umas parpitação. Eu até tô quereno ir no médico mais é que a gente chega lá e ele inventa tanto remédio que eu até vô ficano.

---Você não tem medo?

---Medo de quê? De cumê? (Riu satisfeito) Eu num tenho medo nem de morrê qui dirá de cumê? Um dia eu iscutei, num sei quem falá, qui a baleia só bebe água e come peixe e é gordona.----- Ah! Tamém quando eu morrê de todo jeito eu vou virá ossada memo. Tá bão! O maió disajeito é quando eu vô no banheiro. Aí a patroa tem que me ajudá!

---Ajudar? Como assim?

---Eu num dô conta de limpá não...

---Quer dizer que...

---É ela que me limpa!

---Ela que limpa você!? Não!!!

E eu depois disso, saí assustado, andando feito um louco e naquela ânsia de emagrecer fui pensando sem parar: ----- Puta que pariu a mulher ter que limpar a bunda dele?!!!!! ----- Meu Deus me acode!!! Eu preciso de ajuda enquanto há tempo... Perto do Pedro, eu estou magro! Afinal, eu quero é ser livre como um lobo e não quero ficar preso às minhas banhas, como preso fica o cão na corrente.

À frente, encontro-me com uma antiga vizinha sorridente e diz:

---Olá, Sr. Armando! Andando para se emagrecer? Isso é bobagem. Gente velha cansa as pernas e a barriga continua. Meu pai nunca andou, nunca fez nada. Viveu 96 anos. Vou falar para o senhor: andar para emagrecer é querer ir para o céu sem morrer. Eu tenho um primo que é carteiro. Ele anda o dia inteiro e está gordo feito um balão.

---Bem, só que eu faço dieta, também, Dona Lia!

---Poupando a boca, Sr. Armando? Não faça isso não! Cuidado com a anemia. O senhor gordo está bonito. Larga disso!

E nessa confusão mental, vem em mim a vontade de falar um nome bem feio, daqueles bem cabeludos, tipo pedra 90. Um palavrão que esvazia a gente por dentro de uma só vez. Porém, acabou ficando apenas na vontade. Só em pensar, eu devo ter perdido mais de mil calorias.

Gordo! Gordo! Saber que um dia eu fui magro e pensei que ser gordo era bom. O tempo é que era bom. Eu pensava e não sabia o que pensava.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.



terça-feira, 17 de julho de 2018

MAU HALITO, UM MAU TERRÍVEL.

     
                                                  Avenida 17 de Dezembro - Candeias MG

Antigamente, principalmente aos sábados e domingos, a praça de frente o Bar Piloto, era muito movimentada, principalmente aos sábados e domingos. ---- A pracinha tinha um lago iluminado e uma estátua de pescador. --- À noite, antes da sessão do cinema, ali as moças ficavam rodando, como diziam, “fazendo avenida” uma de braços dados com a outra, e a rapaziada de pé vendo quem passava num gesto de paquera. --- 

Os rapazes mexiam com as moças e se fossem correspondidos havia a aproximação, e normalmente um convite para o cinema. ---- Se aceito era o início de um namoro. Isso acontecia sempre antes da sessão de cinema, que quando dava o segundo sinal o povo subia.

Parece até que a praça simbolizava a pescaria. Isso porque a moça era o peixe, o rapaz o pescador, e o convite para o cinema seria a isca.

Nessa época, quando eu contava os meus 17 anos eu era um tatu de galocha muito tímido o que poderia ser resumido numa só palavra: um bobão. --- Alias naquele tempo a timidez era uma coisa comum, não como hoje, tendo em vista à forma com que os filhos eram educados. Não havia televisão e nem filmes pornográficos. ---- Se um filme mexicano mostrasse as pernas lindas da Sara Montiel, era censurado pelo Monsenhor Castro --- Havia muita festa religiosa e tudo era pecado. Portanto, eu acho que fui me tornar num pecador quando conheci a Boate Mil Beijos, do Pedro Pitanga. Lá se perdia a timidez. 

As moças daquele tempo eram muito vigiadas pelos pais. O flerte era uma coisa muito discreta um beijo era muito escondido. --- Muitos casamentos aconteciam sem ambos se conhecerem direito.  --- 

Aos jovens de hoje, talvez fique difícil até imaginar como era naquele tempo. E é por isso que as gerações antigas, às vezes, ficam assustadas com a liberdade de hoje.  ------

Nesse tempo, havia em Candeias duas moças oriundas da zona rural e que tinham residência no Alto do Cruzeiro, e como eu morava do outro lado da cidade, não fazia ideia de quem pudesse ser as suas familias. De quando em quando estavam presentes naquele giro do flerte. ----- Uma delas era uma verdadeira flor, linda de morrer como se diziam; educada, bem trajada e boa postura. ------ A outra já não tinha tantos dotes. Tinha um buço avantajado, um nariz pronto para cheirar o mundo; um andar trôpego como se estivesse com as cadeiras podres e as pernas tortas. -----

Para não citar os nomes dessas donzelas, vou trata-las de “bonita” e “feia”.

A “bonita”, era sempre vista com algum rapaz, enquanto a “feia” ficava sozinha. E quando alguém saia em companha da “bonita”, a rapaziada ficava morrendo de inveja da sorte daquele novo namorado. ---- Mas tinha uma questão: ninguém seguia o namoro com aquela donzela apesar dos seus dotes. Eram dois ou três encontros e pronto.

Lembro-me de certo dia, era véspera de natal, eu estava por ali de pé junto a um daqueles postes da pracinha, com o meu paletó de brim, estreando sapatos e meias novas, uma camisa nova e com um bolso cheio de balas e o outro com algum dinheiro. ---- Afinal era natal ------ Atrás da minha timidez conseguia imaginar-me ser o jovem mais feliz do mundo, dentro da minha alma de adolescente, se por ventura aparecesse alguém me querendo para ir ao cinema.  ----- De repente, chega junto de mim à feia e disse-me: “Alguém ali quer falar com você”. ---- Eu imaginei que fosse a bonita e era. ---- Quando me aproximei daquela prenda, eu quase perdi a voz, e pensei: Não é possível. Mas sim, estava sendo possível. ------

Mas eu era realmente um bobão e sabia disso, só não sabia puxar conversa, não sabia agradar, não sabia conquistar e nem paquerar. 
Com a voz entrelaçada convidei-a para irmos ao cinema, e o convite foi aceito de pronto. ----- Sem pegar na mão, nem nada, afinal não podia. Os primeiros encontros eram como se fossem dois irmãos. ---- No cinema é que poderia rolar alguma coisa. ---- E a minha esperança seria se ela tivesse a iniciativa e me desse um trato. ----- Para falar a verdade eu não sei que filme era, mas lá dentro do cinema, eu muito receoso comecei dar uma de atrevido, tive coragem de começar e ela cuidou do resto. ---- Só que eu custei a esperar a terminar o filme. O mau hálito daquela moça era uma coisa indescritível. Eu jamais teria visto coisa igual. 

Estava explicado porque não fixava com nenhum namorado. Esta questão confere preconceitos até mesmo em família. Fala-se ou não se fala. 

Afinal, dizer “Você está com um mau hálito terrível” é complicado porque seja lá de quem for o aviso à pessoa não gostará de ouvir. --- 

É importante saber ouvir isso – Mesmo porque se trata de um incômodo que transforma uma pessoa de forma lamentável. E nem sempre o portador do problema consegue saber. E as causas podem ser as mais diversas.

E o interessante é que aquela menina além dos dotes que possuía tinha os dentes lindos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.